terça-feira, 3 de novembro de 2009

Quem não gosta de uma coisinha peludinha?




Mandei uma mensagem ao meu amigo, por ocasião do falecimento de seu cachorro. Estava preocupado com a tristeza dele e lhe sugeri que arrumasse outro bicho rapidinho. Seria mais fácil suportar a perda do companheirão que se foi. Ele me respondeu que estava pensando na possibilidade de arranjar outro companheiro ou companheira, e disse: “Estou pensando na ***, que está se separando”.

A *** não se chama *** na verdade, mas não vou escrever o nome dela aqui. Nem o do meu amigo. Trata-se de uma amiga incomum que temos em comum. Enviei a ele as seguintes recomendações:


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Caro Amigo

A *** parece ser uma boa opção. Mas se ela está se separando, é preciso cuidado. Em quantas partes ela vai se separar? Você vai poder escolher que parte vai pegar? Acho que seria mais conveniente ficar com ela inteira, sem separar nada. Contudo, se ela se separar mesmo, sugiro-lhe ficar com a parte de baixo. As pessoas dizem que ela está com tudo em cima, mas não acredito; aposto que embaixo também tem coisa boa.
Ela tem boa genética, contudo não sei se foi bem adestrada. Tem três tipos de teste para você fazer, antes de se decidir a ficar com uma cachorra: o de instinto, o de sociabilidade e o de obediência a comandos. Os dois últimos vão dizer se ela foi bem adestrada ou não. Mas faça antes o de instinto.

Atire um pedaço de pau para ver se ela vai pegar. Toda boa cachorra deve correr atrás do pau. Se ela ficar olhando de longe e não pegar o pau, não serve. Tem cachorras que olham o pau, olham para você, olham o pau de novo e não fazem nada. Estão à espera de um comando. Fique longe dessas, porque já perderam o instinto de correr atrás de pau.

Depois observe como ela trata o brinquedo. Tente tirar o pau da boca dela. Se ela resistir, é bom sinal. Brinque um pouco com ela e observe o seu comportamento. Uma boa cachorra fica agitada, começa a babar e põe a língua para fora quando vê você com o pau na mão. Depois de pegar o brinquedo, se ela se deitar e começar a morder o pau, descarte. Cachorra que morde o pau não tem serventia.

Repita o teste com bolinhas. Atire duas bolinhas de tênis ao mesmo tempo e veja como ela se comporta. É natural ela ficar meio perdida, de início, mas depois pegar as duas bolas. A cachorra que dá atenção a uma bola só tem algum problema psicológico. Se a cachorra trata bem o pau, mas morde as bolas, também não serve. As melhores brincam com as duas bolas ao mesmo tempo, ainda que não consigam ficar com as duas bolas na boca. Depois de algum tempo de brincadeira, as bolas devem estar bem babadas.

Recolha as bolas e mostre o pau novamente. Se ela tiver o instinto adequado, nesse momento vai estar louca para enterrar o pau. As melhores cachorras preparam o buraco sem deixar o pau cair. Ficam com o pau na boca enquanto escalavram o buraco. Não se impressione com o tempo que ela levar para fazer a preparação, nem se assuste com o tamanho do buraco. As cachorras mais experientes costumam deixar o buraco preparado para um pau grande, de modo que possa ser enterrado completamente. Algumas gostam de enterrar até as bolas.

Caso seja aprovada no teste de instinto, confira a parte de sociabilidade. Vá passear com ela e, quando vir outra cachorra, diga: “Fica!” – e vá em direção à outra cachorra. Se foi bem adestrada, ela ficará no lugar e não se incomodará se você fizer cafunés na rival. Se ela ficar agressiva e partir para cima da outra cachorra, vai lhe trazer problemas.

Durante o passeio, observe se ela fica metendo o nariz em tudo. Isso é instintivo nas cachorras, mas precisa ser controlado. O comando “junto” serve para isso. Você diz: “junto” – e ela se aproxima de você e para de enfiar o nariz onde não deve. Se obedecer corretamente a esse comando, deve ter sido bem treinada.

Por último, confira como ela obedece a comandos comuns. Diga: “Senta” – e observe o procedimento. Se ela não sentar, descarte. Ainda que muitas cachorras prefiram ficar de quatro, foi dado um comando e ela tem de obedecer. A boa cachorra senta-se cuidadosamente e fica mexendo o rabo. Se sentar meio torta, meio de lado, vai precisar de muito treino até aprender a sentar como deve.

Depois, dê o comando “deita”. Se foi bem adestrada, ela se deita imediatamente, sem protestar. Muitas cachorras se deitam quando querem e ficam de quatro o resto do tempo, mas não se esqueça de que é você quem está no comando. Se você diz “deita”, ela deve deitar sem mais delongas.

Quando lhe recomendei que arrumasse uma boa cachorra, estava implícito que precisava ter sido previamente adestrada. Se você tiver de adestrá-la, o custo será alto. Você pode fazer isso em casa, mas não se esqueça de que para cada comando a que ela obedecer, você terá de recompensá-la. Aí é que está o problema.

Os adestradores profissionais costumam recompensar as cachorras com biscoitinhos e outros petiscos, mas essas coisas engordam. Se você não quer que a cachorra engorde, o truque é recompensá-la com alguma coisa que ela goste de morder, mas que não é metabolizado, portanto não engorda, como coisas de plástico.

Contudo não recomendo plásticos duros ou muito finos, que podem machucar as gengivas. Cartões de plástico, como os de crédito, são a recompensa mais indicada. Se quiser que ela obedeça a seus comandos, terá de recompensá-la com cartões de crédito. Ela vai consumi-los totalmente, mas esse é o preço do adestramento. Boa sorte.

• Parágua •

O complexo negócio da reciclagem de peitos famosos




O incansável Nivaldo, depois da brilhante ideia de montar uma miojerie, alçou voo mais alto. Por se tratar de ideia muitíssimo mais complexa e de um mercado absolutamente novo, a discussão exigiu uma pequena troca de correspondência, para esclarecimentos. A carta-consulta inicial é a que se segue, acompanhada de sua resposta.

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“Outra idéia que me ocorreu nesta fase de Brasil Prosperidade é a de abrir uma casa de desmanche ao lado do cemitério, para recuperar próteses artificiais, como seios de silicone, de gente famosa, para revendê-las. Ou alugá-las na forma de leasing, até o passamento da cliente. Assim, uma determinada beldade, minha cliente, poderia orgulhar-se de ostentar uma prótese no seio com a grife de Brigite Bardot, por exemplo, depois de Brigite ter passado, post mortem, pelo nosso serviço de recuperação das partes recicláveis.

“Digo aos amigos que tenho muita confiança no futuro do negócio, pois tenho observado, em especial no corpo das defuntas, uma participação aceleradamente crescente das partes artificiais no conjunto das partes naturais. A esse movimento de oferta crescente das partes artificiais, observo um crescimento correspondente da demanda ainda mais acelerado, o que me faz supor que este será um mercado cada vez mais de vendedor. Solicito sugestões.”

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Caro Nivaldo
Sua consulta sugere um longo, cansativo e desnecessário relatório de análise do potential market de protesis refurbushing para justificar a conclusão. É assim que os business consultants valorizam o trabalho: muito blablablá e pouca informação útil. Os clientes devem gostar, pois continuam contratando os serviços.

No seu caso, porém, adotei prática diferente. Como você não é diretor de multinacional, deve ter trabalho para fazer. Não pode perder tempo com textos de estilo cansativo, cheio de termos em inglês, e sem informação significativa. Assim, eliminei toda a lenga-lenga, as porcentagens, gráficos e tabelas e fui diretamente para a conclusão, única parte que interessa em qualquer relatório.

Não se fez o estudo da participação de cada tipo de prótese no mercado de medicina estética. Contudo, em um momento futuro do empreendimento, tal pesquisa deverá ser levada a efeito. A razão é que parece predominar a preferência pelo enchimento de peitos em relação ao de nádegas. Sendo o Brasil um país tropical, a cultura nacional valoriza as bundas grandes e não os peitões. Somente um estudo antropológico poderá explicar a discrepância, caso a pesquisa constate efetivamente a maior participação de próteses de peitos.

Rigorosamente, o tema merece uma tese. Já me vejo proferindo a palestra “Peitos e bundas: economia globalizada ou colonialismo cultural?” em congressos de antropologia pelo mundo afora. Com base na observação de campo – e a pesquisa deverá comprovar, para não sermos acusados de empirismo –, arrisco-me a afirmar que o local preferido para implantes de silicone tem estreita correlação com a imagem pretendida pela portadora.

A questão não é estética, mas sim de imagem. A razão é que nos países industrial e economicamente desenvolvidos as mulheres consideradas bonitas têm peitões, mas não têm bunda. Em contrapartida, nas economias de Terceiro Mundo, sobretudo em países africanos e no Brasil, a cultura local privilegia bundonas em detrimento de peitões. Ora, quem dispõe de recursos financeiros para implantar próteses de silicone é a burguesia. E a burguesia praticamente se define pelo anseio de mostrar ser mais do que se considera. É mais importante ser identificada como uma beldade de Primeiro Mundo, com peitões artificiais, do que implantar enchimentos de nádegas, mais ao gosto dos locais.

Naturalmente, segundo a prática de Gilberto Freyre, tal estudo se apoiará em duas de nossas teses anteriores. Uma delas intitula-se “O efeito da seleção natural no volume dos seios das mulheres do Hemisfério Norte”, que talvez você conheça pelo título alternativo: “Por que gringa tem peitão?”. A outra refere-se à expressão da massa glútea como identificador de prosperidade em sociedades pré-agrícolas de regiões tropicais, traço cultural que herdamos de nossos antepassados africanos e indígenas.

Para fins de análise de sua proposta, contudo, limitar-nos-emos aos peitos, entendendo que, na maioria dos casos, trata-se de prótese estética em geral. Conquanto o negócio pareça potencialmente promissor, paira uma grande ameaça ao empreendimento: a concorrência desleal. A alta lucratividade rapidamente dará ensejo ao surgimento de opções mais baratas para o consumidor.

A compradora de seios poderá gastar os tubos num par de “legítimos” Brigitte Bardot, mas ter implantadas as próteses da Dercy Gonçalves ou da Henriqueta Brieba. Isso exigirá que o serviço seja complementado por uma garantia, um seguro contra quedas, o que resultará em substancial elevação do custo e consequente restrição da margem de lucro.

Logo em seguida surgirão as imitações. Próteses novinhas, fabricadas na China e no Paraguai, serão vendidas como tendo pertencido a famosas peitudas defuntas. Serão produtos de qualidade significativamente inferior, semelhante aos relógios Roleques, Roll-Ex, Rolecs e Holex que se vende pela internet, mas haverá quem os compre.
Como acontece com as compradoras dos caríssimos vestidinhos sino-paraguaios da Daslu, as recém-peitudas irão a um coquetel e encontrarão dois ou mais pares de peitos exatamente iguais aos seus. Terão chiliques e irão à polícia, pois são barraqueiras.

A grande imprensa, sempre atenta aos fatos mais relevantes da economia e da política, porá em discussão a questão: “Quantas tetas tinha Brigitte Bardot?” A Veja tentará imputar ao PT o excessivo número de peitos de Brigitte Bardot. Estaria ligado ao acordo que Lula fez com o governo Sarkozy envolvendo aviões militares, submarinos e peitos da Brigitte Bardot.

O Jornal da Globo tentará ligar o excesso de próteses brigitianas ao nepotismo de Sarney e o Jabor fará uma crônica sobre peitos, sem ligação com os fatos, intitulada “Um é pouco, dois é bom, três é demais”. Depois a Rita Lee, que não tem nenhum, fará uma baladinha a partir da crônica e a lançará em seu próximo último show ao vivo.
Especialistas em Anatomia Geral da Faculdade de Medicina da USP serão convidados para o Roda Viva e lançarão livros no programa do Jô Soares. Professores dessas novas universidades particulares, manicuras e mães-de-santo participarão daquela infinidade de programas altamente educativos e informativos que preenchem as tardes televisivas do País.

Ambientalistas, portando cartazes com os dizeres “No More Fake Tits” farão manifestações em frente à ONU, pedindo a proibição dos implantes de silicone, que aceleram o aquecimento global, pois no processo de produção emitem gases de efeito estufa 200 vezes mais danosos que o CO2. Não adiantará tentar argumentar que o processo de protesis refurbishing é pura reciclagem, é ecologicamente correto. Ambientalista não ouve nada, apenas esbraveja e no ano seguinte morre de vergonha das besteiras que disse. A União Europeia dirá que as próteses de cadáveres brasileiros não são certificadas e imporá barreiras não-tarifárias à sua importação.

Pesquisadores coreanos criarão uma nova variedade transgênica de anfíbio fluorescente e os do Japão farão um novo peixe transparente. Não tem nada a ver com próteses de peitos, mas é só o que eles fazem. As coreanas e japonesas não estão ligadas nessa discussão sobre peitos. Lá não existe isso.

A questão só terá fim quando um pesquisador da Embrapa de Concórdia, entrevistado pelo Jornal Nacional, disser que talvez Brigitte seja o resultado de um cruzamento com espécies suínas asiáticas, que têm de oito a doze pares de tetas. E anunciará o lançamento pela Embrapa do cruzamento industrial Brigitte. Toda a discussão, porém, prejudicará o business de protesis refurbishing, afastando a clientela potencial, como aconteceu com os aspiradores de banha.

Trata-se, portanto, de um negócio de alto risco, no qual este business consultant não recomenda investimento de longo termo, mas apenas inicial. A estratégia é começar o empreendimento, montando a primeira recicladora de próteses de cadáveres famosos, e vendê-lo a peso de ouro enquanto estiver em pleno crescimento, como fazem os criadores de negócios da internet.

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Depois de emitir o parecer técnico exposto, recebemos o seguinte esclarecimento do Nivaldo, com a resposta na sequência:

“Pondero, entretanto, que, no caso da recuperação das grifes, muitos dos riscos por você apontados deixarão de se fazer presentes, porque trabalharemos somente com material registrado, sob a ordenação do direito de propriedade intelectual, de acordo com as normas do Instituto Nacional de Propriedade Intelectual e seus congêneres no mundo. É dizer que sempre haverá a garantia para quem estiver portando os legítimos peitos de silicone de uma Brigite, por exemplo, de que possa atestar publicamente que os porta por ser detentora do pedigree, documento que poderá apresentar ad hominem a quem ousar contestá-la.

“Estou me referindo a procedimentos cartoriais, tabeliães, firmas reconhecidas, documentos averbados, sentenças de juízes de estética peitoral, assim como ocorre nas pistas de exposições agropecuárias, nas quais se atesta que o perímetro escrotal de tal touro é, de fato, de 35 centímetros, levemente curvado à esquerda, com uma protuberância ascendente que inflete logo acima do meio-corpo, recolhendo-se, em trajetória descendente, para aquém do diâmetro médio do conjunto, na altura do terço inferior.

“É certo que parte do mercado intentará vender o "made in China" no lugar do legítimo. Mas aí teremos a oportunidade de fazer brilhar a imagem de credibilidadade de nossa empresa, ao promover grandes quiproquós judiciais, envolvendo até o STF, se o assunto assim o exigir, para demonstrar que conosco não há enrosco: é legítimo Bardot! E isso nos propiciará uma enorme aprovação pelo mercado, com o que venderemos os seios de Catherine Deneuve pelo dobro do preço dos da Bardot.

“O problema, como eu advirto na minha exposição inicial da idéia, é que haverá menos gente famosa, com material disponível para recuperação, do que gente interessada em adquiri-lo ou alugá-lo. Em outras palavras, vai faltar material! É aí que entrará o leilão dos preços - e eu duvido de que, nessas condições, os beiços de Angelina Jolie não passem a valer muito mais do que se poderia imaginar inicialmente.
“De uma coisa estou certo: não adianta propor coisa nova, desconhecida. O material deve ter sido submetido a pelo menos quinze minutos de glória, como advertia Andy Wahrol. Mas, como lhe disse, tudo isso está à espera de muita reflexão, antes de metermos a mão na massa.”

Caro Nivaldo

Não me parece que o Instituto Nacional de Propriedade Intelectual seja o foro apropriado. Afinal, não se discute o direito autoral, mas sim o direito ad rem, isto é, a propriedade e posse da coisa em si. Concordo com você quanto ao fato de que a possuidora da prótese, caso se trate de uma celebridade, ou seja, uma pessoa que apareceu na televisão, adiciona-lhe um valor intangível. Parece-me, todavia, que isso não configura um direito autoral, pois o cirurgião que implantou o falso peito teria até mais direito de se considerar autor do trabalho. E mais ainda o fabricante das próteses. Voltaremos a esse assunto a seu tempo, se você julgar conveniente. Por enquanto, teçamos alguns comentários sobre a proposta de registro da propriedade, independentemente de ser ou não intelectual.

Sua ideia de registro me parece perfeita para garantir a procedência da refurbished protesis. A procedência é a grife, bem intangível carreado pelo produto prótese. É o valor agregado. A compradora não se interessa em adquirir uma prótese, mas sim a que pertenceu a Brigitte Bardot, Brigitte com um ou dois tês, mas inegavelmente com duas tetas, que é o que interessa.
O registro do material é fundamental, porém exige um pequeno avanço tecnológico em relação ao que você propõe. Afinal, a portadora de um par de legítimos Brigitte Bardot não se prestaria a carregar uma pasta com os documentos que atestam e garantem a célebre origem de seus peitos. Toda a papelada relativa ao peitodigree tem de ser arquivada em local seguro, recebendo no ato do arquivamento um código de barras. E este será tatuado em local visível em cada uma das tetas da portadora. Ao eventual acusador de falsificação caberá comparar o código de barras de cada peito com o original, depositado em cartório.

Sendo você um homem moderno, naturalmente perguntará por que não usar um chip, tecnologia muito mais up to date. E eu responderei que peitos não são receptáculos ideais mesmo para os mais minúsculos chips. A portadora de peitos chipados – com “i”, e não com “u” – iria ao ginecologista toda vez que fizesse um autoexame de mamas, por julgar tratar-se de um nódulo. Isso acabaria implantando a dúvida na mente do médico, que recomendaria uma mamografia ou uma tomografia. Em ambos os casos, o chip seria danificado: ou mecanicamente na mamografia, ou pela irradiação do tomógrafo.

Ademais, o volume do chip, ainda que pequeno, pareceria uma imperfeição para quem apertasse os peitos da portadora da prótese. E convenhamos que com os peitos da Brigitte Bardot haveria inúmeros candidatos a apertador.

Você ainda poderá argumentar que um código de barras tatuado em cada peito pode ferir a estética das peças em questão. Mas eu contra-argumentarei com a tinta UV, semelhante à usada pela Casa da Moeda na estampa de nossas cédulas. Trata-se de tinta invisível no comprimento de onda da luz branca. Precisa ser iluminada por ultravioleta para se tornar visível.

Naturalmente, os códigos de barra tatuados com tinta UV poderiam aparecer numa boate iluminada com luz negra. Mas em tais ambientes aparecem muito mais coisas. Dois pequenos códigos de barra não atrairiam a atenção. E as mulheres são especialistas na arte de encobrir defeitos. Uma passadinha de base seria suficiente para encobrir os traços, tornando-os invisíveis mesmo à luz negra.

Ainda há a questão do consumo conspícuo. De que adianta ter peitos bonitos se ninguém sabe que são as próteses que pertenceram a Brigitte Bardot? Muito provavelmente a compradora desejará ostentar a grife, o que a tatuagem viabiliza. O tatuador juramentado – sim, é necessário que seja um profissional reconhecido e autorizado pelo Poder Judiciário – provavelmente receberá um adicional para tatuar sob o código de barras o nome da ex-portadora da prótese. Exceto, talvez, nos casos em que o direito e o esquerdo não provenham da mesma fonte.

Isto posto, vamos à questão que realmente interessa. Quem produz, você sabe, recebe apenas o suficiente para continuar produzindo. Ganha dinheiro quem negocia, e não quem faz. Creio, portanto, que você deve divulgar sua ideia, insistindo para que outros montem seus estabelecimentos ao lado de cemitérios famosos. Quando mais empresas estiverem revolvendo cadáveres de celebridades em busca de próteses, mais interessante será para o seu negócio. Sim, porque protesis refurbishing não é o seu business. Seu business, meu caro Nivaldo, é o mercado futuro de protesis refurbishing.

É no mercado futuro que está o dinheiro. Você sabiamente observou que em pouco tempo haverá mais mulheres interessadas em adquirir próteses de grife do que defuntas famosas para fornecê-las. O marketing diz que a raridade faz o preço. A escassez de produto em relação às exigências do mercado elevaria as cotações às alturas. Mas sua ideia de leilão me parece restritiva.

Por que você bateria o martelo quando alguém oferecesse US$ 15 milhões pelas beiçolas da Angelina Jolie? Por que bater o martelo? O leilão pode ser bom para os londrinos, que são uma civilização do passado. Ou para os holandeses descendentes de avaros judeus, que preferem ganhar mixarias hoje a arrebentar a boca do balão amanhã. No novo mercado não se bate o martelo. Cuida-se apenas de não estar comprado na baixa nem vendido na alta. Com esse cuidado, é ganhar, ganhar e ganhar.

Naturalmente é preciso estruturar o mercado futuro de protesis refurbishing, mas a observação da Bolsa Mercantil e de Futuros (BM&F), do Chicago Board of Trade (CBOT) e do New York Board of Trade (NYBOT) ensina como fazer isso, com base nas commodities. Claro que não se trata de uma commodity, mas a mecânica do mercado futuro é semelhante.
O primeiro passo é a identificação da existência da prótese de celebridade. Para tanto, os agentes devem acompanhar as revistas semanais, como a nova Revista do Rádio, conhecida como Caras, e outras semelhantes. É aí que ficam sabendo quem implantou próteses e quem é celebridade.

É também nesses veículos, sobretudo, que se faz o marketing da grife. Voltando ao início do texto, é o marketing que faz jus ao direito autoral, a meu ver. Peito é peito; se o da Brigitte vale mais que o da Dercy Gonçalves, é porque houve melhor ação de marketing dos peitos da primeira. Não se trata simplesmente de ser uma pessoa famosa; a prótese tem de ser igualmente famosa. Se as beiçolas da Angelina Jolie fossem uma dádiva (ou um castigo) da natureza, não teriam tanto sucesso. Na verdade, a celebridade não é ela; são os beiços, graças ao marketing, que promoveu o maior fuzuê quando a moça resolveu superbeiçar. Mas voltemos ao business.

Identificada a celebridade portadora de prótese famosa, o agente do mercado entra em contato com ela, ou seu empresário, e faz uma oferta pela prótese post-mortem. Caso a celebridade julgue o preço baixo, o senso de oportunidade do agente será suficiente para que este lhe proponha, aí sim, um leilão, que ele organizará de acordo com as normas legais, pela módica taxa de 10% do valor bruto de remate. Uma vez concluída a negociação, será lavrado seu registro junto à Protesis Refurbishing Clearing House, juntamente com o seguro da dita prótese. É fundamental que exista uma única clearing house no mundo, para evitar que os mesmos peitos sejam vendidos em operações diferentes. Se houver mais de uma casa garantidora, será necessário um acordo entre estas, estabelecendo que as próteses registradas em uma não sejam registradas em outras.

A clearing house emitirá um certificado de propriedade de prótese (CPP) de celebridade em nome do comprador. A celebridade continuará de posse da prótese, mas sua propriedade passará a ser do comprador, que poderá negociá-la em bolsa. O CPP será oferecido nos pregões da BM&F, da CBOT ou da NYBOT e poderá ser comprado ou não, dependendo do preço e dos fundamentos do mercado. Caso não seja comprado, a oferta será retirada e só poderá voltar a pregão no Brasil ao fim do prazo estipulado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Quando a celebridade finalmente bater as botas, o proprietário do título não precisará mover uma ação de imissão de posse, pois o papel lhe garante a posse post-mortem da prótese. Ele simplesmente contratará os serviços do protesis refurbisher de sua escolha, para a retirada da prótese da defunta. É disso que eu estava falando. O protesis refurbisher será um mero contratado eventual do agente de mercado.

Os fundamentos desse mercado carecem de algum estudo, mas pode-se alinhavar alguns pontos que deverão ser significativos.

Pode parecer que os CPPs de celebridades idosas tenham alto valor de mercado, em razão da alta liquidez, ou seja, da rápida disponibilidade do produto. Quem quer comprar peito famoso, deseja tê-los logo, o que sugere uma cotação alta. Contudo, acredita-se que a demanda de peito de velha seja muito pequena. Assim, pode-se supor que as cotações permaneçam no piso do mercado, ainda que a liquidez seja elevada. Trata-se, portanto, de aplicação própria para pequenos investidores, com poucos recursos. Podem surpreender, dobrando o valor quando a celebridade morre. No entanto, ainda que a valorização relativa (%) seja alta, o ganho absoluto (US$) é pequeno.

CPPs de celebridades jovens, a despeito do longo prazo de disponibilidade (baixa liquidez), tendem a alcançar cotações altas, pois estão frequentemente à vista no cinema e na TV. Isso é merchandising, ou seja, a prática de exibir o produto para estimular o desejo de tê-lo. Contudo trata-se de um mercado volátil, sujeito a grandes oscilações. De uma hora para outra a moça perde o emprego na Globo e vai fazer novela na TV Baú, na TV Exclamação ou na Rede Record do Reino de Deus.

Nesse momento, a cotação cai a tal ponto que o proprietário do CPP passa a orar pela saúde da moça. Ele está comprado e a cotação caiu. Se tiver de entregar o produto, perderá dinheiro, pois a cotação está abaixo do valor que ele pagou. Se a celebridade morrer, o investidor pode ficar com os peitos na mão sem ter para quem vender. Tal hipótese sugere uma estratégia: o proprietário do CPP da falecida retira-o do mercado e investe no tears marketing, tentando valorizar a imagem da falecida. É uma prática arriscada, em razão do aumento do custo, mas pode permitir a recuperação da cotação dos peitos da morta. O trabalho requer cautela, para não afrontar o regulamento da CVM.

Entretanto, se a moça continua viva e o empresário levá-la para fazer algum seriado americano que passe na TV brasileira, o que era um mico se converte em trunfo. É hora de vender o CPP e capitalizar a grana. Nesse momento, o sujeito, que era um investidor de longo prazo, enche o pé-de-meia e pode tornar-se um grande investidor.
CPPs de celebridades jovens devem ser vendidos em qualquer movimento de alta. Aí vem a pergunta: por que vender o CPP se a celebridade está em alta? A resposta está na volatilidade das cotações dos peitos de moça. Se ela resolver trocar as próteses, botar peitos maiores, o proprietário da antiga estará com o mico na mão. No mercado futuro, peito em alta é o atual, nunca o antigo.

Os grandes investidores entram no negócio de peso, que são os CPPs de celebridades internacionais no leito de morte. As cotações são estratosféricas, exigindo grande montante de capital, mas a liquidez é igualmente alta. Não valorizam muito em termos percentuais, mas o ganho absoluto é elevado.

Uma questão mais delicada, em termos de fundamentos de mercado, é o tipo de celebridade que porta a prótese. Não recomendo, por exemplo, a compra de peitos de líderes feministas, jogadoras de futebol e celebridades políticas. Creio que as consumidoras potenciais não reconhecem nenhum valor intangível agregado ao produto. Não têm a atratividade necessária ao mercado.

Mas nem sempre o que parece ser uma mulher política o é de fato. Lady Di, por exemplo, conquanto tivesse algumas ações políticas (ou sociais, o que é a mesma coisa), não era vista senão como uma espécie de Cinderela. Se tivesse próteses, valeriam os tubos. Já os da Madre Teresa, que tinha uma atuação social muito mais marcante, não alcançariam cotação suficiente nem mesmo para justificar a extração.
O mercado de protesis refurbishing é complexo. Ainda não há conhecimento do efeito de apertões e apalpadelas sobre os peitos de silicone. Se a fiel depositária danificar as próteses, não existe um arcabouço legal que proteja o proprietário. Nem mesmo se poderá alegar dano por uso indevido. Não havendo jurisprudência a respeito, qualquer ação é arriscada.

Como você vê, Nivaldo, a parte boa do negócio de protesis refurbishing é operar no mercado futuro. Contudo requer muito capital, tem alto risco e exigirá complexos marcos regulatórios. Se você não é uma Bunge, uma Cargill ou uma ADM dos peitos, o business de protesis refurbishing não é um bom negócio. A grande oportunidade, a meu ver, é mesmo a miojerie.

• Parágua •

Chez Miojô



O querido amigo Nivaldo requereu nossa expertise de restauranteur com a seguinte consulta:

“Estou pensando em tirar proveito comercial de meus dotes culinários, mediante a abertura de um bar/restaurante intitulado Miojerie – a Casa do Miojo. Só miojo elaborado nos mais diversos tipos de molhos. Haverá também o serviço de Miojo Delivery. Solicito sugestões.”
Depois de profunda análise do mercado e da personalidade do Nivaldo, nos dispomos a responder a sua consulta.

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Caro Nivaldo
Uma miojerie tem tudo a ver com você, que é francamente francófilo, capaz de recitar em francês as fábulas de La Fontaine, com rima e em alta velocidade. Advirto, contudo, que não acredito no modelo delivery para essa especialidade. É que a massa continua sob cozimento no trajeto até a casa do freguês, perdendo o ponto al dente cariado. E você não vai querer comprometer o prato, oferecendo a massa fora do ponto.

O estabelecimento precisa ter mesas, nas quais as pessoas possam saborear as iguarias. Mas nada de fast food. Resista à tentação de fazer um “Miojo in the Box” ou um “MacArroni’s”. Sua proposta se encaixa com perfeição num local elegante, para o público adulto recém-chegado ao extrato consumidor da sociedade.

Seria muito adequado um ambiente parisiense antigo, um típico bistrô anterior à Segunda Guerra, antes da contaminação cultural americana. O nome pode ser Chez Miojo, La Cave du Miojo ou algo em francês que remeta à especialidade culinária da casa. Chez Nini ou La Petite Casserole, por exemplo, soam bem, mas não dizem qual é a comida. A menos que seja Chez Nini Miojerie. Pode ser.

Com a música, porém, você terá dificuldade. O ambiente sugere música ao vivo, mas a moderna música francesa soa como americana ou berbere. Tais sons são incompatíveis com a finesse do ambiente. No entanto a música francesa mais antiga não pode mais ser tocada. Não por faltarem bons músicos, mas sim porque não se fabrica mais aquela cansativa sanfoninha deles. O que há de mais parecido é a concertina, a sanfona de oito baixos que ainda se toca no Nordeste. Mas essa serve. Aliás, parece mesmo ser muito adequada à nouvelle cuisine du miojô. Em vez de la balade ou la valse, teremos baião, coco e arrasta-pé, ou le bayon, le coco, le traine-pied.
Naturalmente, você fará os mais deliciosos pratos franceses adaptados ao gosto e ao poder aquisitivo do consumidor brasileiro. Assim, os cariocas poderão degustar seu excelente miojo au haricot noir, em vez do macarrão com feijão-preto que costumam comer em casa.

O restaurante terá nome e aspecto francês, mas a cozinha será internacional e inovadora, bem ao seu estilo. Outra sugestão de prato é o miojo com molho madeira. O molho é de preparo simples, bastando juntar numa casserole um pouco de água, uns cubos de caldo Kitano (mais barato que os demais) e vinho Chapinha de mesa tinto seco, que também será servido na refeição. Para dar o sabor amadeirado, colocam-se no molho algumas lascas de eucalipto, que são retiradas antes de servir. No lugar de champignons, sugiro uns toletes de macaxeira, para promover a aculturação culinária.

Pratos tradicionais de outras cozinhas européias não podem ser esquecidos. E, naturalmente, com o sabor exclusivo da cozinha brasileira. Assim o miojo al aglio e olio será feito com minúsculos dentinhos de alho chinês, muito pequenos para tirar a película. São fritos com película e tudo, no óleo de soja, cujo aroma é inigualável.

Da culinária alemã você trará as saucisses, para um delicioso molho feito à base de salsicha de metro (aquela pintada de vermelho, que em alguns mercados é vendida por quilo, como salsicha a granel) e massa de tomate Arisco. Conhecido como macarrão com “salchicha”, o prato tem grande aceitação junto ao público brasileiro. E certamente ganhará um novo relevo com seu modo de preparar e um nome francês. Talvez chamar as saucisses de sauchiches seja uma boa ideia: miojo avec des sauchiches.

O ponto, ou seja, o local onde instalar a miojerie, é de extrema importância. Os bistrôs parisienses que o cinema gravou em nossa memória ficavam às margens do Sena ou perto do Bois de Boulogne. Não temos um rio tão bonito, nem um bosque parecido, mas você pode montar um simpático bistrozinho à beira do Tamanduateí ou com vista para a Fazenda do Carmo, na Zona Leste. Seria o sonho de incontáveis consumidores recém-chegados ao mercado.

Vejo as mães que vêm buscar seus filhos na escola municipal aqui perto de casa. Enfiam um pacote de “salgadinho” nas mãos das crianças, para irem enchendo o bucho, porque a janta vai demorar para sair. Se houvesse uma miojerie na beira do corguinho da rua de baixo, certamente elas prefeririam oferecer aos petizes um nutritivo miojô avec des sauchiches em vez de entupi-los com essa coisa de isopor com cheiro de chulé.

E nos fins de semana? Esses consumidores não têm aonde ir. Não se sentem à vontade nos shopping centers. Mas lá por perto, tudo bem. Pois ao lado do Shopping SP Market existe um córrego com barrancos cobertos de capim. É o ponto ideal para instalar um trailer da Chez Nivaldo Miojerie. Existem outros trailers, mas são meros botecos; nenhum tem a elegância, a finesse, de uma miojerie.

Em termos comerciais, o ponto c’est ci bon, pois fica em frente à gare Jurubatuba, da CPTM. Em frente à gare, ao lado do shopping center, com vista para o córrego e, o que é melhor, muito próximo do local em que o padre Marcelo faz seu espetáculo religioso aos domingos. Já pensou que fome têm às dez da manhã aquela montanha de fiéis? São milhares deles, ungidos com a água benta lançada com uma brocha, cansados de ficar em pé desde as quatro da manhã e alimentados apenas com um pedacinho do corpo de Cristo. Para o espírito, o alimento pode ser suficiente, mas o corpo pede um miojo avec aile de poule en fricot. O ensopado de asa de galinha dá um molho culturalmente bem aceito no Brasil e remete aos anjos, que são bípedes alados, como os frangos. Os fregueses do padre Marcelo certamente se tornarão seus fregueses também.

Mais ainda. Depois das dez da manhã, quando os bizantinos fiéis do Padre Marcelo vão para casa, chegam os frequentadores da feira-livre montada dois quarteirões acima. Sabendo da existência da miojerie, provavelmente abrirão mão do pastel de ração canina que comem atualmente antes de ir embora. Ninguém em sã consciência trocaria a cozinha internacional com inspiração francesa pela culinária popular chinesa.

Você não pode esperar que o corguinho tenha um aroma agradável. O cheiro é forte e ruim, mas ajuda a compor o clima da miojerie. Remete ao odor da Paris de duzentos anos atrás. E você vai concordar que não há muita diferença entre o cheiro de esgoto do corguinho e o aroma do miojo.

Estou certo de que a miojerie será um sucesso, mas uma questão ainda me preocupa. É que se os chineses inventaram o macarrão, os japoneses inventaram o miojo, que é um spaghetini pixaim. O problema é que no Brasil o pixaim está em baixa. Talvez seja preciso você aplicar a famosa chapinha no miojo antes de preparar os pratos. Vai ficar com aspecto de macarrão espichado, como fica o cabelo das moças, mas elas acharão que está lindo.

Naturalmente essa preocupação estética se refere exclusivamente ao público feminino. Homem come de qualquer jeito, seja liso, pixaim ou com “escova progressiva”. Se a moça tiver uma boa culinária é o que basta.

• PGC •

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Um elefante, dois bêbados e uma carreira que foi para o espaço



– Eu vi o olifante.
Serginho girou tão depressa no banquinho do balcão que quase caiu. A mão firme do dono do bar segurou-o pelo ombro. O homem girou-o de volta e disse:
– Não dá bola não. Esse aí vê de tudo. – disse o botequineiro com um leve sotaque de Trás-os-Montes.
Serginho queria ouvir o que o sujeito tinha a dizer, mas o homem do balcão explicou, enquanto passava o pano úmido sobre o mármore:
– Esse aí é o Ativo Fixo. O pessoal dos escritórios que vem tomar uma no fim da tarde deu esse apelido. Eles dizem que ele faz parte do equipamento do bar. Alguns conversam com ele, brincam, pagam uma pinga e fica por isso mesmo. Ele faz qualquer coisa para começar uma conversa e pedir ao outro que lhe pague uma dose para molhar as palavras.
Como Serginho ainda parecesse disposto a ouvir o etilista, o dono do bar empunhou sua autoridade de proprietário e levantou a voz em direção ao bebum da casa:
– Vai dormir, ó Ativo, e deixa o freguês em paz. Volta mais tarde, quando o pessoal dos escritórios chegar.
O bêbado levantou-se lentamente, resmungando, e sumiu de vista.
– Onde ele dorme? – perguntou Serginho.
– Agora não sei. De noite é por aí. Costuma aparecer depois do almoço e vai ficando até a hora de fechar. Às vezes me pede para dormir aqui dentro, mas não deixo. Isto não é albergue de bêbado. Acho que ele dorme no albergue da prefeitura. Tem um perto do Largo 13, deve ser lá. Quando comprei o bar ele já fazia parte da paisagem, vinha todas as tardes. Nos primeiros dias, tentei afastá-lo, mas depois percebi que os fregueses da noitinha gostam dele, fazem piadas, brincadeiras. Se divertem, ele e o pessoal. E é bom para o negócio.
– Ninguém faz maldades com ele?
– Não! São só brincadeiras, piadas, coisas que as pessoas que trabalham em escritório precisam fazer para aliviar a tensão. Eu tenho um acordo com o Ativo, que ele nunca descumpriu: pode frequentar a casa, mas não pode falar palavrões nem fazer gracejos para as mulheres que entram no bar ou passam na calçada. Não está no acordo, mas também não gosto que ele venha conversar com fregueses novos.
– É, deu para notar.
– Tem gente que pode até se assustar.
– Ele não parece assustador.
– É, mas sabe como é... Tem gente que não gosta.
– Bem, vou andando.
– Não quer tomar mais uma cervejinha?
– Não, preciso ir mesmo.
– Volte sempre, a casa é sua. E olha, se tivesse visto o elefante, eu falava. Mas não vi mesmo.
• • • • •
Serginho não dormira bem. Sonhava com o elefante, com o chefe, com os colegas rindo dele, com o eventual bilhete azul. Na hora que a coisa aconteceu, foi até divertido. Mas quando teve de explicar na empresa o motivo do atraso, o mundo veio abaixo.
O engenheiro Ricardo, o chefe, estava esperando por ele na porta. Dizia que o cliente já tinha ligado duas vezes para saber das condições do instrumento que mandara consertar e Sérgio ainda não tinha chegado na empresa com o aparelho pifado. O tempo de demora seria suficiente para os técnicos saberem o que havia de errado com o equipamento; talvez até para consertar.
Enquanto Serginho abria o porta-malas para pegar o aparelho do cliente, o chefe continuava expondo o motivo de sua irritação:
– O cara nem pediu o orçamento, só quer saber se dá para a gente consertar ainda hoje. E nós ainda nem vimos a cara do equipamento! E esse é o único no Brasil. Não tem como emprestar outro para o cara ir trabalhando enquanto consertamos esse. É único. Vem da Rússia, leva mais de um ano para se conseguir importar um troço desses. Que aconteceu para você demorar tanto?
– É que tinha um elefante na Av. Santo Amaro e o trânsito...
– Elefante? Na Santo Amaro?
O espanto de Ricardo fez com que falasse tão alto que até os técnicos das bancadas levantaram os olhos para ver o que acontecia. Sem falar dos caras da aferição, da Dona Ondina, secretária, do cara da contabilidade, da recepcionista. Até dona Neusa, que fazia café e faxina, olhou assustada. Um elefante na Santo Amaro deixa todo mundo curioso.
• • • • •
Serginho também ficara curioso quando viu o bicho, da mesma forma que os outros motoristas. O trânsito parou, lá pelas duas da tarde, horário em que dificilmente havia congestionamento naquele tempo. Serginho tentou ver alguma coisa, mas só enxergava uma aglomeração a alguma distância.
Devia ser uma batida, o que se resolvia facilmente, a menos que houvesse agressão física. Aí viria a polícia, com poder para baixar o cacete em ambas as partes. E até de levar os motoristas para a delegacia, deixando os carros batidos atrapalhando o trânsito. Não havia nada que Serginho pudesse fazer. Era esperar e relaxar, ouvindo Led Zeppelin no toca-fitas. Naquele tempo, 1985, ouvir Led Zeppelin no toca-fitas era a melhor coisa que se podia fazer. Hoje há coisas muito melhores, como ouvir Led Zeppelin num tocador de MP3.
Serginho observou que muitos motoristas começavam a sair dos carros, olhando para os lados da aglomeração. Ele também saiu e então viu o elefante. Cinza, enorme, cheio de rugas e de barro, parado ali na Avenida Santo Amaro, na contramão, balançando a tromba como se regesse uma valsa.
As pessoas se admiravam, apontavam, conversavam baixinho com medo de atrair a atenção do bicho, mas o animal não dava a mínima. Ao seu lado, uma espécie de domador tentava fustigá-lo com um ridículo chicotinho que nem fazia cócegas no paquiderme. As chicotadas indolentes denotavam uma ação meramente formal. Esperava-se que ele tivesse o bicho sob seu comando e era isso que, sem convicção, ele tentava demonstrar.
Mas só o que ele demonstrava era o resultado do consumo excessivo de álcool. Para não cair, o domador encostava-se na perna do elefante e parecia se abanar com o chicotinho, ao açoitar impotentemente a barriga do trombudo. Vestia calças – o domador, não o elefante – que um dia foram brancas ou beges, botas surradas e sujas, um colete estampado diretamente sobre as costas sem camisa, e um lenço na cabeça. Serginho achou que era um traje cigano. Talvez fosse uma variação artística, para fugir da roupa tradicional dos domadores de circo, que imitava os uniformes safári dos caçadores brancos dos filmes da década de 1940.
Os motoristas, com os motores desligados já havia algum tempo, deleitavam-se com a inesperada presença. Um taxista exibia seu conhecimento do mundo animal com frases do tipo “os elefantes têm a melhor memória dentre os mamíferos: nunca esquecem” ou “para matar um elefante é preciso atirar em seus olhos, pois não existe bala capaz de perfurar seu couro”. A maioria discutia o peso do bicho. Na média das opiniões, passaria de duas toneladas, talvez até mesmo de três. Serginho olhava de longe, ouvia os comentários, mas não falava nada. Só pensava na força que um animal daquele tamanho devia ter.
E o elefante, como se ouvisse os pensamentos de Serginho – capacidade até o momento não confirmada pela Ciência –, exibiu seu potencial destrutivo. Fez um quarto de volta, no sentido horário, para quem olhasse de cima, e encostou a enorme bunda num Passat estacionado. Foi praticamente um esbarrão, mas causou substancial dano à lataria do carro. Aí o espetáculo mudou de figura. Com a burguesia é assim: vai tudo bem, desde que não mexam no patrimônio. E o bicho amassou um carro, justamente o mais significativo símbolo do status burguês. Tornou-se imediatamente inimigo de todos os proprietários de carros que viam a cena.
Um deles tomou o chicotinho da mão do domador e começou a bater na cara do elefante, como quem repreende um cachorro que mastigou um chinelo. Os demais dividiram-se em três grupos. Uns corriam para seus carros, outros corriam para longe do elefante e o terceiro grupo corria em direção do bicho, agitando os braços para afugentá-lo. A estratégia do último grupo funcionou. O elefante completou a meia volta que havia começado, alinhou-se no sentido correto do trânsito e foi-se embora. Ainda tentou entrar num bar, para se esconder da turba, mas as pessoas que tinham se abrigado no boteco perceberam que o bicho tinha medo de gente e o enxotaram sem dificuldade, apenas gesticulando e gritando. O elefante seguiu seu caminho em direção ao Largo 13 e sumiu de vista. Sem elefante, as coisas foram voltando ao normal.
O trânsito começou a fluir. Serginho entrou no carro, virou a fita do Led Zeppelin que tinha acabado, e rumou para a empresa. Estava feliz, nem tinha percebido quanto tempo ficara entretido com o elefante. Foi a primeira vez que o trânsito atravancado não o deixou irritado. Por isso assustou-se com a irritação do chefe, que esperava por ele na portaria. “Faz mais de uma hora que estou esperando você chegar”, disse Ricardo, zangado. Serginho olhou para o relógio, constatando um atraso de quase duas horas.
Tinha de haver uma boa explicação para a demora. A presença de um elefante na avenida Santo Amaro, porém, não se enquadrava nessa categoria. Era verdade, mas... O chefe olhou sério para Serginho e saiu empurrando o carrinho com o equipamento que tinha de ser consertado. Não tinha tempo para conversar agora. Nem perguntou a Serginho qual era o defeito reclamado pelo cliente.
Serginho fechou o carro e foi para junto dos colegas, que queriam saber que conversa era aquela de elefante na Santo Amaro. Serginho, preocupado com a atitude do chefe, explicou por alto. E se arrependeu imediatamente. A moçada riu, fez gracinhas, e ninguém acreditou. Até que o Guinão, um sujeito sério que Serginho respeitava, falou:
– Meu, você podia dizer que furou um pneu, que o motor morreu e precisou esperar que esfriasse para ligar de novo, ou podia inventar alguma coisa heróica, como socorrer um velhinho que caiu na calçada, levar uma mulher grávida para a maternidade... Tinha de inventar uma porra-louquice dessas? Vá ver a namorada durante o expediente, vá almoçar com ela, mas não invente desculpas malucas não, cara. Isso pode prejudicar sua carreira.
– Mas eu não inventei, Guinão! Tinha um elefante mesmo!
– Ah, Serginho...
Até aquele momento Serginho temia que algo pudesse prejudicar sua carreira. Gostava do trabalho e ia gostar ainda mais quando se tornasse um técnico. Ele tinha até uma promessa de Ricardo. Ficaria alguns meses no atendimento, retirando e entregando os equipamentos dos clientes, e depois aprenderia a consertar e aferir os instrumentos de precisão. Ter a carreira prejudicada pelo elefante não era nada bom. Foi quando chegou o cara da contabilidade com a má notícia:
– Gancho, Sérgio. O Dr. Ricardo falou para você ficar em casa nos próximos três dias, enquanto ele vai pensar no que vai fazer com você.
A má notícia foi concluída com um gesto inusitado do cara da contabilidade, que saiu com a dobra do braço direito encostada no nariz enquanto balançava o antebraço como se fosse uma tromba. Para completar, um dos colegas imitava o bramido de um elefante.
Serginho ficou tão emputecido com os colegas e com a decisão do chefe, que resolveu ir embora imediatamente. Foi para o vestiário para tirar o macacão de serviço e sua raiva aumentou. Alguém tinha pendurado na porta de seu armário um cabide com um guarda-pó cinza dobrado e grampeado para ficar com a forma da cara de um elefante. Uma das mangas ficava escondida e a outra bem no centro do origami, como se fosse uma tromba. Bonito trabalho, completado com olhos desenhados a giz. Mas Serginho não gostou. Atirou longe o cabide, trocou de roupa, pegou tudo que tinha no armário e largou a porta aberta, como se nunca mais fosse voltar à empresa.
Naquele momento, era isso mesmo que pretendia. Nunca mais queria ver a cara daquelas pessoas que não acreditavam que ele tinha visto o elefante. Ora, quem nunca viu um elefante numa avenida? ...
Tinha de admitir que não era uma cena muito comum. Se fosse um elefante acompanhado de um palhaço, um malabarista, um sujeito num monociclo, tudo junto, ainda vai. Seria uma parada de circo, anunciando o espetáculo daquela noite. Mas um elefante sozinho... Sozinho, não. Tinha um domador cigano com ele. Bêbado. Talvez nem fosse domador. Nem cigano. Era apenas um bêbado fantasiado de cigano ao lado de um elefante. Na avenida Santo Amaro. Não era mesmo muito fácil de acreditar. Nem para quem viu.
E Serginho, no ônibus de volta para casa, começava a duvidar de ter presenciado a inusitada cena. Pensava na feijoada que havia comido no almoço. Não era uma grande feijoada, mas feijoada é como sexo: mesmo quando é ruim é bom. Talvez não devesse ter tomado a segunda caipirinha de barriga vazia, antes do rango.
Mas estava boa e era de graça, fazia parte da feijoada, ele tinha de aproveitar. Não, não podia ser a caipirinha. Serginho se entendia bem com as bebidas fortes. Uma caipirinha não fazia mal para ninguém. Duas também não, já que duas vezes zero é zero. Talvez fosse alguma coisa no tempero da feijoada.
Serginho tinha ouvido falar de bolo de maconha, docinhos com sementes de papoula, chá de lírio, cogumelo com leite condensado e outras especialidades da culinária bicho-grilo. Mas sempre achou que feijoada fosse uma comida careta, que precisava da caipirinha antes para dar algum barato. Talvez estivesse enganado. Pode ser que aquela couve refogada contivesse outras ervas. Ou o feijão tenha sido cozido com raízes baratinantes. Até mesmo uns pedaços de cogumelos passariam despercebidos, em meio a tantas extremidades suínas que vinham no feijão – focinho, rabo, orelhas, pés.
Tinha de ser isso. Foi alguma coisa que ele comeu. Podia até ser algum inseto alucinógeno que se suicidara no caldeirão. Um elefante na avenida Santo Amaro era difícil de acreditar, mesmo para quem tinha visto. Ou pensava ter visto. E a dúvida foi crescendo e tomando conta dos pensamentos de Serginho, que por fim tomou a decisão: no dia seguinte voltaria ao local onde pretensamente se dera o fato e o confirmaria ou não. Se houvesse testemunhas, podia até conseguir um depoimento favorável para depor em seu favor junto ao patrão. Poderia até evitar o bilhete azul. Não, já não queria evitar o bilhete azul. A empresa que fosse para o inferno. Ele só precisava saber para si próprio se vira ou não o elefante.
Maldormido, levantou-se mais cedo que de costume e se apressou a caminho do ponto de ônibus. Não seria a mesma linha de costume, mas sim a Via Dolorosa que o levaria, de condução em condução, até a avenida Santo Amaro, à altura do acontecimento da véspera. O movimento era forte quando chegou. E foi direto ao jornaleiro:
– Bom dia.
– Bom dia.
– O senhor viu um elefante aqui ontem à tarde?
– Não vi não.
– Mas não tinha um elefante ali perto da esquina, que atrapalhou todo o trânsito?
– Olha, moço, o trânsito por aqui fica sempre atrapalhado. Tem muito ônibus, caminhão de gás, caminhão de leite, de cigarro, de cerveja, os tanques que abastecem os postos de gasolina...
– Mas ontem à tarde tinha um elefante ali, não tinha?
– Se você está dizendo...
– Não; estou perguntando. Tinha ou não tinha?
– Não sei, meu! Eu fico o dia todo enterrado nessa porra dessa banca, vejo o mundo todo pelas páginas dos jornais e das revistas, mas não vejo um elefante, se aparecer um ali na esquina, entendeu? Eu não estou aqui para tomar conta do trânsito nem das esquinas. Se você perdeu a merda do seu elefante, pode estar certo de que não está na minha banca, tá? Vá procurar em outro lugar! Dá licença, que tenho mais o que fazer.
A irritação do jornaleiro causou espanto em Serginho. Mas ele próprio estava irritado; talvez tivesse mostrado seu estado de espírito na conversa. Era melhor pegar leve, chegar mais maneiro nas pessoas. E foi assim que se aproximou da mocinha que estava distribuindo panfletos de um nightclub recém-inaugurado nas proximidades. Serginho era bom de conversa com as garotas.
– Oi.
– Oi – disse ela, com um sorriso inesperado. Quem esperaria um sorriso de uma distribuidora de panfletos, sob um sol de rachar, com o barulho infernal do trânsito? Mas ela sorriu. E ele também.
– Você estava aqui ontem? – perguntou Serginho.
– Estava. Desde segunda-feira. Dá licença.
Os carros pararam no sinal vermelho e ela foi distribuir os panfletos, com sorrisos para todos os motoristas. Alguns sorriam também, outros falavam alguma coisa que a fazia sorrir mais e dizer algumas palavras, mas Serginho não podia ouvir da calçada. O sinal abriu e ela voltou à conversa:
– Então, desde segunda-feira. A casa inaugurou na sexta e a gente vem fazer a promoção aqui.
Serginho pegou um dos folhetos, deu uma olhada rápida. Algumas fotos mal impressas de garotas de biquínis, uma de topless, e o convite para “uma noite alucinante de puro prazer, com o primeiro drinque grátis”.
– Legal. Você trabalha lá?
– É. Por enquanto eu sou garçonete, mas estou fazendo curso de dança, dublagem e striptease. Eu danço bem e tenho um corpinho legal, você não acha? Dá licença.
Mais uma vez os carros param no sinal fechado e a moça vai distribuir panfletos e sorrisos. Um dos motoristas pediu que ela autografasse o panfleto ou qualquer coisa assim, porque ela escreveu alguma coisa no papel impresso. O sinal abriu, o motorista de trás buzinou, e ela correu de volta para a calçada.
– Deve ser irritante esse serviço, não? – Perguntou Serginho.
– De garçonete?
– Não; a panfletagem – explicou ele, apontando para o maço de volantes na mão da garota.
– Eu nem sabia que tinha esse nome. Mas é legal. Tem uns caras meio grossos, mas a maioria me trata bem. Dizem que eu sou bonita, que sou gostosa, aquele ali até me pediu o telefone, você não viu?
– Vi.
– Escrevi meu nome dentro de um coração e desenhei uma flecha apontando para o número do telefone que está impresso no volante.
– Tem muito disso?
– Pedir telefone, não. Está impresso, né? Tem umas passadas de mão, tem caras que me pedem um beijinho, essas coisas.
– E você dá?
– Beijinho? Dou, sim, mas só no rosto.
De repente ela ficou nervosa e falou depressa, olhando para os lados:
– Você é repórter? ’Tá gravando, ’tá filmando? Eu sou “de maior”, ’tá?
– Não, não. Fique tranquila. Só estou conversando.
– Ah, tá. É que é difícil conversar assim. Dá licença.
Outra vez o sinal vermelho, os motoristas, os sorrisos, gracejos, grosserias, o de sempre. E o sinal verde.
– Então; é difícil conversar neste abre-fecha de farol. A gente podia se encontrar mais tarde... para conversar, beber alguma coisa...
– Não, eu só queria saber se você viu o elefante ontem.
– Ah, meu. Essa é muito velha. Você enfia as mãos nos bolsos, tira os forros para fora e fala para eu pegar na tromba, não é isso. É uma bobeira, muito sem graça.
– Não, é sério. Ontem à tarde tinha um elefante aqui na avenida, você não viu?
– Ontem à tarde? Ontem foi quarta-feira, dia de ensaio de striptease. Ontem eu só fiz promoção até uma da tarde. Depois fui almoçar e fui para o ensaio. Estou ensaiando um strip com “Stairway to heaven”, conhece?
– A música? Conheço. É do Led Zeppelin. Até toco a introdução no violão.
– Essa eu não dublo porque é voz de homem, só danço e tiro a roupa. Mas é difícil, porque é muito comprida e eu não tenho tanta roupa assim para tirar. Acabo dançando pelada mais de metade da música. Se você quiser posso fazer um strip só para você, com você tocando no violão...
– É. Bem, depois a gente vê isso. Agora preciso achar alguém que tenha visto o elefante. Tchau.
Aproveitando o sinal fechado, Serginho atravessou a avenida. Deu uma olhada para a putinha, que estava no meio dos carros. Ela estava olhando para ele e girando o indicador em torno da orelha. Não entendeu se estava chamando-o de biruta ou se gesticulava para que ele ligasse para ela. No tempo dos telefones de disco, ambos os sinais se confundiam. Mas ela apontou para o panfleto, no qual havia o número do telefone do nightclub. Ele entendeu que era para ligar e fez com a mão um sinal de positivo, apesar de nem saber o nome dela.
Talvez apontar para o panfleto fosse apenas uma desculpa. Ela achava que ele não era muito certo das idéias, mas como ele a viu girando o dedo, ela mostrou o papel, explorando a ambiguidade do gesto. Mais uma olhadinha. Ela estava de costas agora e, mesmo à distância, via-se que tinha um corpinho atraente. Mas não sabia nada do elefante, então não tinha utilidade no momento. O engenheiro Ricardo teria gostado de ouvir isso, pois vivia dizendo para Serginho manter o foco no que tem importância. “Foco, garoto, foco”, dizia com frequência.
O manobrista do salão de beleza foi o próximo entrevistado. O sujeito não estava muito a fim de conversa. Ficava olhando o trânsito. Cada vez que um carro diminuía a velocidade, ele se curvava para tentar ver o motorista. Se fosse uma mulher, ele assumia uma postura de alerta, pronto para correr até o carro, abrir a porta para a freguesa e assumir o volante para estacionar. Não queria se distrair com conversa mole:
– Olha, meu, se o elefante fosse guiado por uma mulher e parasse aqui na frente, eu ia lá e estacionava o bicho. Mas se não parou aqui na frente, eu não vi.
– Mas ele estava ali na esquina.
– Desculpa, cara, eu não vi nada.
– Mas os carros ficaram parados um tempão.
– É, isso é irritante. Às vezes fica engarrafado muito tempo. Mas não adianta a gente querer descobrir o motivo. Deve ser carro demais.
– Não. Ontem era um elefante.
– Ou podia ser um acidente, um caminhão parado, um ônibus quebrado, um atropelamento lá no Peguepague. Podia ser qualquer coisa.
– Mas foi um elefante.
– Pode ser. Eu não vi.
Serginho percebeu que não adiantava argumentar. O manobrista só olhava os carros que passavam do lado da avenida onde ficava o salão de beleza. O que ocorresse no outro lado da avenida ou na frente dos imóveis vizinhos não chamava sua atenção, nem que fosse um elefante ao lado de um bebum fantasiado de cigano.
Desacorçoado, Serginho sentou-se num dos poucos bancos da imitação de praça que havia entre a Rua da Paz e a Américo Brasiliense e mergulhou em pensamentos. Se estivesse “bom de grana”, compraria um jornal para tentar se distrair. Quem sabe se parando de pensar no elefante não lhe viria uma boa idéia para encontrar uma testemunha. Talvez estivesse fechando demais o foco no local. De onde o elefante poderia ter vindo? Se descobrisse, iria até lá e perguntaria ao domador alcoólico.
Serginho varreu de memória todos os terrenos em que se armavam circos nas redondezas, mas não havia circo nenhum. Só se não fosse um circo. Talvez o domador fosse um cigano de verdade, daqueles que acampavam perto da ponte do Socorro, ou da João Dias. Talvez o elefante fosse do cigano, do acampamento. Tinha de confirmar isso.
Gastou três passagens de ônibus: uma até a ponte João Dias, outra de volta ao Largo 13 e mais uma até a ponte do Socorro. Nada. Nem sinal dos ciganos. Não havia acampamento, nem sinal de que tivesse havido algum recentemente. O mato estava alto, sem marcas de fogueiras. Serginho enfureceu-se consigo mesmo: “Para que os ciganos iam querer um elefante? Ciganos andam de carro, de caminhão. Vão arrumar um elefante para ter de ficar levando o bicho para cima e para baixo de carona? A troco de quê? Eles não são burros, eu é que sou! Gastei três passagens à toa.”
Estava quase desistindo, pensando voltar para casa, quando se lembrou que o elefante havia tentado entrar num bar. As pessoas que estavam lá o assustaram. O dono do bar devia ter visto alguma coisa.
Mais um ônibus para voltar à avenida Santo Amaro, eufórico com a possibilidade de finalmente encontrar uma testemunha. Desceu num ponto próximo e apressou o passo em direção ao boteco, mas não entrou. Era hora do almoço e o estabelecimento estava cheio. Temia fazer a pergunta sinistra e despertar o riso malvado da freguesia. Tinha de falar com o dono do bar, mas de um modo mais privado. Esperaria até que o movimento caísse.
A angústia da espera é muito pior quando se tem fome. A grana curta, porém, pedia moderação. Não queria gastar seu minguado dinheirinho almoçando em outro bar, porque teria de fazer uma despesa para conquistar a boa vontade do homem do balcão. Tinha de esperar com fome.
Depois que o movimento do almoço terminasse, provavelmente o dono do bar estaria ocupado durante algum tempo, botando ordem na bagunça, e não estaria disposto a manter uma conversa leve sobre elefantes. A melhor estratégia era chegar depois das duas ou duas e meia da tarde. Tinha de esperar a hora certa. E esperou.
Olhava para o relógio a intervalos de menos de cinco minutos, mas não entrou no bar até as duas e meia. Quando pisou na soleira, achou que devia dar mais um tempinho. Mais uma hora, talvez. Mas já estava lá, portanto ia ser agora mesmo. Decisão. Foco e decisão. Ah, sim! O engenheiro Ricardo teria se orgulhado dele. Aquele filho da puta do engenheiro Ricardo, que ia demiti-lo por ter visto um elefante.
Sentou-se, pediu uma coxinha e meia cerveja.
– Tem um molhinho de pimenta?
– Mas é claro! – respondeu alegremente o homem, colocando o vidrinho na frente de Sérgio.
Ótimo, o homem estava bem humorado. O movimento do almoço devia ter sido bom. Serginho optou pela abordagem indireta:
– É verdade que tinha um elefante aí na avenida ontem?
– Ah, é?
– O senhor não viu?
– Não...
– Mas me disseram que ele quase entrou aqui no bar.
– Entra muita gente aqui no bar, graças a Deus – disse o homem, fazendo o sinal da cruz.
– Mas elefante não, né?
– É, elefante eu nunca vi – confirmou, rindo.
Foi nesse momento que Ativo Fixo interveio:
– Eu vi o olifante.
Como o dono do bar tivesse espantado a única testemunha do acontecimento, Serginho engoliu o restante da coxinha, secou o copo de cerveja, pagou e saiu. Precisava encontrar Ativo Fixo.
Alcançou-o com facilidade e o convidou para conversar um pouco num outro bar, um pouco mais adiante. Sentaram-se numa mesinha e Serginho pediu:
– Vê uma loira gelada aí para a gente.
– E um quebra-gelo – completou Ativo Fixo.
O botequineiro colocou dois copinhos de cachaça sobre a mesa.
– O quebra-gelo era só um – disse Serginho olhando para o garçom.
– Não, não – disse Ativo – pode deixar os dois.
Antes que o sujeito voltasse com a cerveja, Ativo Fixo já havia entornado os dois martelinhos de pinga. Quando a loira gelada chegou, Serginho fez questão de servir ele mesmo. Enquanto colocava o precioso líquido no copo de Ativo, perguntou:
– Então, seu Ativo, o senhor viu o elefante ontem?
– É. O olifante. Eu vi.
– Grandão o bicho, né?
– Grande, muito grande. Um rabo muito grande.
Serginho sorriu, imaginando que o bêbado devia achar que a tromba do elefante fosse o rabo do bicho. Conhecia uma piada assim, sobre uma velhinha que telefonou para o delegado dizendo que tinha um porco enorme com dois rabos na horta dela. Era elefante que tinha fugido do circo, como o delegado pensou. E a velhinha descrevia o que o porcão estava fazendo: “ele pegou um pé de alface com o rabo e... ai que horror, seu delegado!”
Mas ele não queria ter lembrado da piada. Tinha de se concentrar no elefante da véspera. Foco, garoto, foco. “Filho da puta”, pensava Serginho. “Vou levar o bebum lá e o filho da puta vai enfiar bilhete azul no foco!” Foco, Serginho!
– Fala mais do elefante, seu Ativo.
– O olifante. Muito grande. Rabo grande, boca grande. Muito grande e muito forte, o olifante, rapaz. Eu vi.
– Você viu o estrago que ele fez no Passat.
– É, ha-ha-ha. Ele fez um estrago num Passat, rapaz! Tinha que ver!
– E depois ele foi embora?
– É. Depois ele foi embora.
– O senhor viu para onde ele foi?
– Para onde ele foi?
– Não sei. Mas o senhor viu mesmo, né?
– Claro, rapaz! Não te falei que eu vi? Pois então eu vi.
– Não; é que ninguém daqui de perto viu.
– Chhhh! – fez Ativo com o indicador na frente da boca. E quase cochichando:
– Claro que eles viram! Todo mundo viu. Só não podem falar. Se disserem que viram o elefante, os outros vão falar que eles estavam bêbados. Ou que são loucos! Foi a mesma coisa quando São Jorge passou voando aí na praça, montado no dragão.

• Celso Paraguaçu •



domingo, 27 de julho de 2008

Reservados


Quando a umidade começou a incomodar, Otávio percebeu que já não estava tão assombrado. A decepção fora gigantesca, a ponto de lhe turvar a vista e quase fazê-lo desmaiar. Mas já se estava acostumando com a dor, já sentia o desconforto do muro frio em que se encostara.

Levantou-se e caminhou pelas sombras até o portão, abriu-o silenciosamente e tomou o caminho que, minutos antes, havia percorrido com alegria e preocupação. Era melhor voltar.

Por entre as sombras da noite, ia pensando na intensidade das emoções que explodiram naquele dia. O assalto, a morte, o necrotério, a vida, a alegria, a perturbação do espírito. Não entendia como ainda estava vivo, como o coração agüentara, como as veias não estouraram. Estava vivo.

Melhor que não estivesse. A tristeza de ter ouvido a mulher dizer aquilo só não foi maior do que o efeito causado pela declaração da filha.

— Eu tinha me resignado, mãe — ouviu Dirce dizer. — Se tivesse forças, teria me separado de Otávio há anos. Não foi por causa das crianças não, mãe. É que eu já não tinha mais forças mesmo. Não ia conseguir refazer minha vida... Sim, Otávio era um bom homem. Só isso, um bom homem. Era honesto, trabalhador... Calmo, eu não sei se era. Nunca se alterou em casa, nunca levantou a voz. No máximo, ia dormir sem palavra. Mas ele era triste, mãe. Não tinha alegria. Quase vinte anos de casamento e nunca vi o Otávio rir. Sorriso, só uma vez, na fotografia do casamento, depois nunca mais. Nem antes. Não era brabo, não era sisudo, era triste. Uma tristeza contagiosa. Não, nunca reclamou de nada. Nem de comida ruim. Deus me perdoe, mãe, mas cheguei a fazer sopa sem sal para ver se ele esbravejava, se fazia algum comentário. Nada! Nem mesmo pediu sal para pôr no prato. Tomou a sopa sem sal e não disse palavra. Parecia que nem sentia o gosto. Não sei se tinha alguma dor, nunca falou nada. Talvez tivesse alguma coisa, mas nunca disse um ai. Nunca, nada.

Otávio tinha vindo cuidadosamente observar como estava a situação em casa quando ouviu a voz lamentosa da mulher. Ela não chorava; lamentava-se da vida miserável, não da morte do marido. Ele sabia agora que sua morte tinha sido um alívio para ela. Nunca imaginara que seu jeito reservado causasse tanto desagrado à mulher.

Esperava encontrar a casa cheia de amigos e parentes. Viriam dar os pêsames a Dirce, saber se precisava de alguma coisa, dizer que se precisasse era só falar. Mas não. A mãe dela na cozinha, a mãe dele no quarto, com a menina, e só. Nem o sogro viera. Nem o cunhado. Amigos, não tinha. Talvez alguma vizinha tenha vindo mais cedo, durante o dia. Mas à noite, quando ele chegou, só a mãe dele e a mãe dela.

Ele não sabia que significava tão pouco para Dirce, só tristeza. Julgava-se um bom marido, raramente deixava faltar alguma coisa em casa, e se nunca atendeu um capricho da mulher foi porque ela nunca expressou desejo algum. Sempre foi reservada, como ele. Era o que ele pensava. Mas não era reservada, era triste.

E a menina...

— Sabe, vó — ele ouviu, do lado de fora, a triste voz da filha, enquanto digeria as duras palavras de Dirce, que ainda ecoavam em sua cabeça agora vazia. — Pelo menos agora vou poder usar roupas escuras na escola — dizia a menina. — Acho que quando a gente está de luto pode ir de roupa preta, cinza, não precisa usar uniforme, né? Não posso dizer para a senhora que não gostava dele. Mas também não digo que gostava. Não, eu não vou sentir falta. Tanto faz. Quase nem percebia quando ele estava aqui. Às vezes me fazia um afago na cabeça, mas eu não gostava. Não me lembro de um dia alegre na minha vida, vó, nenhum dia. Tinha natal, aniversário, mas não tinha alegria. Só nós três. Depois veio o Nenê. Acho que é por isso que o Nenê não fala. O pai também não falava, nem a mãe. Na escola eu falo. Se alguém me pergunta alguma coisa eu respondo. Mas não puxo conversa com ninguém não. Agora acho que vão conversar menos comigo, porque estou de luto.

Otávio sentiu as pernas afrouxarem e encostou-se no muro úmido para não cair. E lá ficou, pensando, pensando, até que a umidade começou a incomodar. Agora Otávio iniciava a autocrítica. Não devia mesmo ter sido um bom pai, porque nem mesmo sabe o que significa ser pai. As crianças nasceram, com bom intervalo entre as duas, e só. Ele passou a ser pai delas. Realmente não era dado a carinhos. E nunca precisou repreender a menina, sempre tão reservada. O menino ainda era muito pequeno, só quatro anos.

O que ele sentiu quando ouviu as duas conversas é que tinha se preocupado à toa no caminho entre o necrotério e a casa. Acordara de repente, em cima de uma mesa gelada, e não reconhecera o lugar em que estava. Depois, aos poucos, foi se dando conta da situação. Estava no necrotério. Deviam ter pensado que ele estava morto. Era melhor sair dali antes que chegasse o patologista e lhe cortasse o corpo em busca da causa mortis. Sim, a causa mortis. Morrera de quê? Quer dizer, não estava morto, mas que teria acontecido com ele?

Aos poucos veio-lhe a lembrança de ter encontrado um assaltante dentro da loja, quando abriu a porta pela manhã. O susto foi enorme e ele não se lembrava de mais nada. Teria sido baleado? Apalpou-se, mas não sentiu nada, nenhuma dor nem sinais de sangue na roupa. Só nesse momento percebeu que estava vestido. Será que foi um ataque do coração? Mas estava vivo, e não sentia dor. Será que não haveria autópsia? Iam mandá-lo diretamente para a funerária? Ou será que a funerária preparava os cadáveres no necrotério mesmo? Otávio não sabia. Nunca teve interesse nesse assunto. Aliás, nem nesse nem em nenhum outro. Só sabia que estava vivo.

Saiu do necrotério esgueirando-se, aproveitando a escuridão da noite sem lua, e foi para casa a pé. Andava rente às paredes, temendo encontrar algum conhecido. Precisava dizer a Dirce que estava vivo. Quando ouvia vozes, escondia-se atrás do tronco de uma árvore, de uma banca de jornais, de um carro, até que as pessoas passassem. Temia que o vissem, como se estivesse sendo procurado por assassinos. Enquanto estava escondido, pensava em como avisar a mulher sem lhe causar um susto fatal. Ela não acreditava em espíritos, fantasmas, ele achava. Mas podia morrer com o sobressalto de vê-lo em pé na porta.

Imaginava encontrá-la aos prantos, abraçada com a filha também desfeita em lágrimas, rodeadas ambas pelos parentes, amigos e vizinhos. Deveria haver alguém com quem pudesse falar, em vez de aparecer na porta de repente. O sogro, talvez. Ou o cunhado. Não pareciam ter medo de assombração. Ele poderia explicar que estava vivo, e o parente entraria na casa, irradiando alegria e dizendo: “Gente, o Otávio não morreu! Ele está vivo e vem vindo para casa!”

Seria uma alegria imensa, ele imaginava. Uma alegria como nunca houvera naquela casa. Mas agora, pelas palavras da mulher e da filha, ele se dava conta de que naquela casa jamais houve alegria mesmo. É. A decisão estava certa. Faltava pouco, agora.

Otávio atravessou a rua e entrou às escondidas novamente no necrotério. Ouviu vozes, talvez um pouco alteradas, uma discussão, e achou que o assunto podia ser o seu sumiço. Mas na sala em que estivera, tudo estava calmo e na penumbra. Deitou-se outra vez na mesma mesa fria de antes, cruzou as mãos, fechou os olhos e morreu.

• Celso Paraguaçu •

terça-feira, 8 de julho de 2008

A sucinta e odiosa história da sereiazinha que não sabia nadar



Ela morreu.


• Celso Paraguaçu •

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Fraldas e fraudes



Tem um fabricante de fraldas descartáveis – não posso afirmar que seja Pampers, pois não prestei muita atenção – afirmando, num comercial de TV, que os bebês se movimentam duas vezes mais que os adultos. Duas vezes mais?

Por que o redator não escreveu simplesmente que os bebês se movimentam mais? Provavelmente porque alguém achou que movimentar-se mais não é o bastante. Poderia, então, escrever "muito mais". Mas talvez alguém lhe tenha dito que seria um exagero, porque os bebês se mexem mais, mas não é tanto assim. Aí o cara descola essa pérola da ignorância, "duas vezes mais". Quanto é se movimentar duas vezes mais? A medida deve ser uma média, mas qual é a unidade de medida? Metros por hora? Quilogramas vezes metro por hora? Ou se trata somente da quantidade de músculos ativados em determinado intervalo de tempo? De que o animal está falando, afinal?

Pela quantidade de anúncios desse tipo, que falam de proporções, porcentagens e medidas impossíveis de se imaginar, os publicitários devem ter lido alguma pesquisa segundo a qual a população não conhece os mais elementares conceitos da Física e não entende lhufas de Matemática. Ou então os ignorantes são eles, os publicitários. Ou seriam os anunciantes? Alguém aí disse ambos?

O Douglas é que tem razão: “Texto em propaganda se tornou um troço que só tem que ter. Não precisa dizer nada. E quem lê, ou escuta, nem acha que é pra entender. Acho que é por isso que o produto vende”. Sábias palavras. Os caras não têm nada a dizer sobre o produto. A fralda que querem vender é exatamente igual às demais. Mas os caras precisam preencher com palavras os trinta segundos do comercial.

Já que ninguém está dando bola para as barbaridades que ouve, me pergunto por que os publicitários e anunciantes não aproveitam para mostrar um pouco de honestidade? Podiam, por exemplo, fazer um anúncio assim: “Fraldas Cuca: tão boas quanto as outras, porém mais caras.”

PS: A ilustração foi a melhor foto de fralda que encontrei.

• PGC •

sexta-feira, 30 de maio de 2008

The show must go on


— E aí Jorge! Como é que vai essa força?

— Oi.

— Ih, tá de lua outra vez, cara?

— É, não tou legal. Me deixa sozinho, faz favor.

— Ah, não, meu. Vamos pôr para cima esse espírito guerreiro.

— Não enche, tá?

— Qual é, Jorjão? Ainda estamos no comecinho do quarto minguante, praticamente lua cheia. Não tem razão para você ficar assim.

— Tem, sim, Drão. Eu perdi tudo.

— Perdeu o quê? Olha toda esta lua, só para nós e aquele seu pangaré. Tem um pouco de lixo que os astronautas deixaram, as bandeirinhas, uns pedaços de lata, aquele jipinho ridículo, mas tem espaço à vontade para nós.

— Não é isso, Drão, é que sou um fracasso, não percebe?

— Você? Quem fracassou fui eu. Quem levou aquela espetada de lança fui eu. Você foi o cara que matou o dragão, virou herói e depois santo, lembra? Eu perdi, você ganhou.

— Você não entende, Drão. Eu perdi a devoção das pessoas. Para um santo, a devoção é tudo; quando perde isso, não tem mais nada. Eu era popular, talvez o mais popular de todos, todo mundo gostava de mim. Até no candomblé eu tinha lugar de honra. Mas as pessoas agora desconfiam de mim.

— Isso é frescura de prima-dona, Jorjão. Nunca ninguém gostou de mim e nunca senti falta disso.

— Então, cara! Você não perdeu porque que nunca teve. Na verdade, até que você é querido atualmente. Tá cheio de filmes, desenhos animados japoneses e jogos eletrônicos em que o herói é um dragão. Ou pelo menos o dragão ajuda o herói.

— Pois agora quem está ficando pra baixo sou eu. Sempre em segundo plano, sempre coadjuvante, nunca o ator principal.

— Mas são histórias humanas, Drão. O herói tem de ser humano, não pode ser o dragão.

— É. Mas você também não tem do que reclamar. Está aí chorando de barriga cheia.

— Como barriga cheia? Eu fui cassado, esqueceu? O papa disse que eu era uma lenda e não podia ser santo. Cassou minha carteirinha! A minha, a do Cristóvão e de mais uns três ou quatro.

—A sua carteirinha já lhe foi restituída. Você recuperou o status de santo. Foi cassado, mas o Vaticano voltou atrás. Desde quando o papa manda mais que um santo?

— Ah, Drão, santo não manda nada. O papa sim. Ele faz leis, éditos, manda e desmanda. Nós, no máximo, fazemos um ou outro milagrezinho.

— Milagrezinho? Você chama de milagrezinho? Você não se lembra do Viola, do Vampeta, do Biro-Biro? E mesmo assim o Timão ganhava um jogo ou outro! Isso não era milagrezinho, não! Era um milagre mesmo! E dos grandes!

— É por isso que estou triste, Drão. Deixaram cair minha imagem em plena procissão do meu dia, lá no Parque. Voou caco para todo lado. Eles não me respeitam mais, perderam a devoção. Acho que foi porque no ano passado não consegui evitar o rebaixamento.

— Também, com aquele time, acho que nem o Nazareno ia conseguir.

— Não brinca, Drão, que Ele pode não gostar.

— É, foi mal. — e, olhando para cima, — Desculpa aí, Chefia! Mas Jorjão, no candomblé a moçada ainda faz muita festa para você.

— Isso é verdade.

— A torcida do Timão ainda te curte muito.

— Bem, eles ainda acendem muita vela...

— E você continua sendo o santo oficial de Portugal e da Inglaterra.

— Portugal, tudo bem, mas na Inglaterra eu já não sei. Os súditos até gostam de mim, mas acho que já não sou mais o santo oficial. Antes a rapaziada gritava “Por São Jorge e pelo Rei” e fincava a espada nos inimigos. Isso até deve ter pesado contra mim, sabia? Como é que um santo podia ajudar o invasor, que vinha roubar riquezas e matar pessoas? Eu não favorecia, você lembra. A gente ficava só vendo a briga, sem beneficiar ninguém. Teve até aquela vez na Zululândia, lembra? Foi triste, fizeram até filme. Os zulus dizimaram o exército britânico. Um massacre!

—Aquela vez foi demais! Não ficou um casaca vermelha vivo, uau! Os zulus deram o maior pau no Império Britânico! Foi da hora, mó legal!

— Você vê que a gente nem torcia pelo mesmo lado. Como é que eu podia ajudar alguém, se você era contra?

— Ah, espera aí, meu! Ninguém pedia minha proteção não. Mesmo porque, eu perdi a luta. Não se pede ajuda de um vencido. Os guligans chamavam o seu nome.

—Evocavam meu nome e passavam os inimigos a fio de espada. Isso pode ter pegado mal, pode ter influenciado o papa, quando ele resolveu me cassar. Eu fiquei arrasado, reduzido a subnitrato de pó de traque. Sabia que mudaram os santos das igrejas antes dedicadas a São Jorge? Tinha uma pequenininha de que eu gostava, bem pobrezinha, que passou a ser de Santa Isabel. Só porque o bairro se chamava Vila Isabel. Já imaginou? Trocaram um bravo guerreiro, como eu...

— Vai devagar, Jorjão. Nem tão bravo assim, hein? Eu tava lá tomando um solzinho, de barriga para cima, você chegou de repente, montado no pangaré, e nem tive tempo de me virar. Você me fincou a lança na goela. Doeu, viu? Ainda dói um pouquinho, quando o tempo esfria.

— Desculpe, Drão, mas eu tinha de fazer isso. Estavam dizendo que você ia comer a princesa.

— E você acreditou? O que esse povo faz de fofoca não está escrito! Cê acha que eu ia comer aquela coisinha magricela, descarnada? Só servia para palitar os dentes. Você não me conhece mesmo. Eu gosto de mulheres mais substanciosas, Jorjão. Com mais carne. Essas magricelinhas, para mim, são verdadeiros dragões.

—Eram outros tempos, aqueles, Drão. Eu era muito jovem, entusiasmado, ia no embalo da torcida. Nem precisava ter princesa na parada. Se a moçada gritava “Mata!”, eu matava mesmo.

— Ahã, desde que o dragãozinho estivesse de barriguinha para cima, tirando um cochilo ao sol...

— Eu já te pedi desculpas mil vezes, né? Não te conhecia, não sabia que você era gente boa.

— É, foi chegando e enfiando a lança... matar primeiro e perguntar depois, tipo tropa de elite.

— Ah, Drão, naquele tempo era assim. Não tinha essa coisa de direitos humanos.

— Draconianos, Jorjão. Direitos draconianos.

— Olha, acho bobagem a gente ficar discutindo isso outra vez. Aquele papa disse que nossa luta nunca aconteceu, que era uma lenda. É isso que somos, Drão, apenas lenda.

— Nós, quem, cara pálida? Eu sempre fui lenda. Pode ser novidade para você, mas eu nunca existi de fato. No passado uns chineses encontraram uns fósseis de dinossauros alados e chamaram aquilo de esqueletos de dragões. Nunca viram um dragão, mas se o esqueleto existia, os animais deviam existir também. Tem lógica, só que não existiam os dragões cujas feições eles criavam. Inventaram uma infinidade de dragões que podiam ter usado aqueles esqueletos. Só que os esqueletos eram de répteis alados extintos.

— É duro, né? Eu também fui rebaixado a lenda, ainda menos real do que você, porque nem tenho um esqueleto que faça supor minha existência. Foi o que o papa disse, uma lenda.

— Mas é o que eu estou te dizendo, Jorjão. Isso já foi consertado, você recuperou seu status de santo.

— É que fiquei magoado...

— Sei...

— E o povo perdeu a fé em mim... Não é mais como antes...

— Deixa disso, boneca. Seus admiradores continuam rezando em seu nome, fazendo promessas e oferendas. Você continua com a bola toda, Jorjão. Chama lá o pangaré e vai buscar sua lança que eu já vou me deitar aqui de barriguinha para cima. Está quase na hora da Lua surgir lá na Terra. The show must go on.

• Celso Paraguaçu •


terça-feira, 20 de maio de 2008

O grande buraco debaixo da Europa



Em julho ou agosto deste ano entrará em operação o Large Hadron Collider, ou simplesmente LHC, como é conhecido entre os físicos. O LHC, que faz parte do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern, na sigla em francês), está instalado em um túnel circular de 27 km de extensão escavado a 100 metros da superfície, em média.

Escavar o túnel deve ter dado uma dor de cabeça danada. A freguesa já imaginou o tamanho do compasso necessário para desenhar um círculo de 27 km de extensão? O raio do tal túnel tem, segundo meus cálculos, quase 4.300 metros. Quem seria capaz de fazer girar esse compassão? E como é que os caras fizeram para traçar o risquinho do compasso 100 m abaixo da superfície? Os engenheiros tiveram de relembrar todas aqueles contas que aprenderam a fazer no cursinho.

Dá para imaginar a cena. Ao lado do operador do tatuzão, a máquina inventada para fazer túneis, vai o engenheiro, usando um daqueles ridículos capacetes de plástico colorido. Tem nas mãos uma pranchetinha de plástico que já vem com calculadora, fabricada na China e comprada no camelô da esquina. De vez em quando, ele faz umas contas, manda parar a máquina, se afasta um pouco, verifica a bússola e diz:

— Mais para a direita um pouquinho, Severino.

Passa um tempinho, ele manda parar a máquina de novo, refaz os cálculos e diz: “Para a esquerda agora, mas não muito.” Severino, como bom trabalhador de obra, obedece sem discutir, mas já percebeu que não vai dar; o fim do túnel não vai coincidir com o começo. Dois dias depois, o engenheiro chega meio sem jeito:

— Severino, vamos ter de voltar uns três quilômetros. Naquele ponto em que você virou um pouquinho para a direita era para ir em frente. E fique de olho no nível, senão a gente sai acima ou abaixo do ponto inicial.

Na cerimônia de visitação do túnel, em 6 de abril passado, ninguém falou quantos inícios errados de espirais foram feitos, caracóis para fora e para dentro do círculo, para cima e para baixo. Foram muitos, certamente. Mas finalmente conseguiram fazer as duas pontas se encontrarem. E aí encheram o túnel de tubos de vidro, de peças de metais variados e muitos quilômetros de fios.

Todo esse trabalho tem uma justificativa. Os físicos querem compreender melhor a Natureza. Farão com que alguns prótons se choquem, cada um vindo de um lado do túnel quase à velocidade da luz e sem freio, para que se dividam em seus componentes fundamentais, os quarks e bósons, partículas responsáveis por três das quatro forças da natureza: eletromagnetismo, atração nuclear forte e atração nuclear fraca. São estas que mantêm os quarks reunidos em porções maiores de matéria, como os prótons. Também permitem que os prótons fiquem grudadinhos, mesmo tendo todos carga positiva. A quarta força é a gravitacional. Os cientistas acham que a força gravitacional fica de fora nesses experimentos. Não fica, mas eles pensam que fica, os tolinhos. O tal do bóson, que explicaria muita coisa, nem se sabe se existe mesmo. Mas os maluc... os físicos esperam detectá-lo no LHC.

A freguesa não precisa se preocupar com as trombadas dos prótons. Nem mesmo se tiver algum parente na Suíça que ganhe a vida prosaicamente, criando meia dúzia de vaquinhas leiteiras nalgum vale 100 metros acima do grande túnel. Não haverá cogumelos atômicos jogando as vacas para o ar. Os choques de partículas não produzirão energia suficiente nem para acender um cigarro. O que, aliás, é proibido no LHC.

Ao compreender melhor os fenômenos físicos da Natureza, os cientistas darão consistência a certas teorias, como o Modelo Padrão. Teoria é uma explicação para um determinado fenômeno. Não passa de uma hipótese, que precisa ser comprovada para ser universalmente aceita e virar Lei da Física. Quando Einstein disse que a luz era desviada por corpos de grande massa (os de pequena massa também a desviam, mas seria mais difícil constatar nestes), foi preciso esperar por um eclipse total do Sol para comprovar se a teoria estava certa ou não. Estava, antes que a freguesa me pergunte.

Conhecer as forças atuantes na Natureza tem muita utilidade. Quando a freguesa deixou cair acidentalmente aquele horrível vaso de porcelana que ganhou da sogra, o que fez, fisicamente, foi expor a pavorosa peça à ação da força da gravidade. O vaso não caiu; foi atraído pela grande massa do Planeta Terra. Ao chegar ao chão houve um choque de forças, a da gravidade contra a da superfície, exercida em igual intensidade, porém em sentido contrário, como explicou Newton. O resultado do choque interferiu nas forças que mantinham coesas as partículas que constituíam o vaso, causando a fragmentação do objeto. Em outras palavras, aquela coisa horrorosa espatifou-se.

Mas o ímã de geladeira com o telefone da distribuidora clandestina de gás de cozinha não cai. Fica grudado como se tivesse algum tipo de adesivo. É a força eletromagnética que o mantém lá, superando a ação da gravidade. A freguesa poderia perguntar de onde vem o “eletro”, se o cartãozinho não tem pilha. A resposta é simples: eletricidade e magnetismo são forças complementares, uma gera a outra. Um ímã é puramente magnético apenas quando está parado. Ao se movimentar, induz uma corrente elétrica em qualquer condutor que esteja por perto. Como no Universo nada está parado, salvo as obras públicas que não dão voto, o ímã de geladeira também é eletromagnético.

Está, pois, explicado o envolvimento de quase 10 mil físicos, dentre os quais 68 brasileiros, e o investimento de quase 9 bilhões de dólares desde 1993 na construção do LHC. Em poucos anos a Ciência permitirá o desenvolvimento de novas tecnologias que propiciarão o aperfeiçoamento dos ímãs de geladeira.

• PGC •

terça-feira, 13 de maio de 2008

Para dentro, para fora, para dentro, mas é outra coisa



Uma ex-presidiária foi surpreendida nesta segunda-feira pela manhã na área reservada a encontros íntimos da penitenciária feminina de Florianópolis (SC). A mulher pulou o muro e veio dormir na cadeia porque, depois de 4 anos em cana, não encontra trabalho e não tem onde dormir.

A ex-presidiária confessou não ter sido essa a primeira vez que voltou para o presídio para passar a noite. Disse que é um lugar bom, onde tem amigas sinceras, além de café com leite e pão com manteiga pela manhã. A polícia explicou que a segurança é feita apenas no interior do presídio, para evitar que as presas fujam. Não há efetivo suficiente para impedir que ex-moradoras voltem. Mas a mulher já foi avisada que se ousar entrar novamente no presídio, pode acabar em cana. (PGC)