sábado, 11 de maio de 2013

Manias de criador




Olha aí, freguesa. Vai mais uma do mestre Douglas, para o deleite de V. Sa.:

Acho que as escrituras sagradas escondem algumas informações. Por exemplo, que existiu mais um dia nos trabalhos do Senhor. Foi o oitavo dia. Ou o verdadeiro sétimo dia. Sei lá…
Nesse dia, após merecido descanso, Deus criou uma das coisas mais maravilhosas deste mundo. O queijo provolone.
Ontem à noite foi uma dessas noites em que a tal "janta" não lhe apetece. Então me acompanharam na refeição noturna um pãozinho fresquinho, um salame italiano, uma Red Ale e, enfim, o provolone. Ele. O cara!
É interessante. Detesto leite. Quer ver eu correr para o banheiro que nem mulher grávida é só eu inalar aquele vapor horroroso de leite fervendo. Mas adoro queijo. Praticamente todos. E dentre eles o rei. O todo poderoso… provolone.
Deus, como todo criador, tinha muitas manias. E uma delas era que, para fluir melhor o seu processo criativo, deveria entregar todas as suas obras em seis dias. Para evitar ficar "firulando" em cima do que já estava legal. E eram sempre assim os projetos de Deus. O pessoal do atendimento adorava isso.
E ocorreu então que Deus criou o provolone depois de seu descanso. E viu que era bom. Bom pra caramba, por sinal. E então lhe veio aquela frustração. Todas as pessoas que trabalham com criação conhecem esse sentimento. Já tinha entregado o trabalho. Isso mesmo. O motoboy já tinha passado e levado o CD. A nota fiscal já tinha sido emitida. Enfim, o trabalho tinha sido entregue dentro do combinado. Os seis dias.
Deus pensou angustiado que se ele não tivesse essa mania tão metódica de fazer as coisas tinha dado tempo de incluir o provolone.
Que história é essa de descansar no sétimo dia? Só mais uma mania dentre tantas que ele tinha.
Então Deus foi falar com o cliente. Tentar incluir o provolone no projeto. O cliente, a princípio, foi contra. Disse que estava ótimo o trabalho daquela forma. Que ele já tinha, inclusive, utilizado na comunicação de marketing, o fato de toda aquela maravilha ter sido criada em seis dias. Não dava para mexer mais.
Mas Deus foi tão veemente na descrição das qualidades do tal queijo que o cliente aceitou. Até porque, pelo mesmo preço que pagou pelo serviço, ele conseguiu mais esse valioso item.
E ontem à noite, com o pedaço do queijo espetado numa faca e um copo de cerveja na mão, cheguei à conclusão que só pode ser por isso que a segunda-feira é tão chata e o queijo provolone tem esse puta preço absurdo.
Douglas

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Boa lembrança de um sonho ruim



Acho que vou dar sociedade ao Douglas neste Meia-sola. Ele tem comparecido nestas páginas com muito mais frequência do que eu. Vamos a mais uma crônica dele.

Lá pelos meus 12 anos, na esquina da minha casa tinha uma padaria. Era a padaria do seu Manoel.
Seu Manoel, nem precisava dizer, era português. E além ser português, ser dono de padaria e se chamar Manoel, tinha um sotaque lascado e era uma das pessoas mais rabugentas e ranzinzas que conheci na minha vida. A molecada morria de medo dele, porque ele vivia gritando com seus funcionários, que sempre aceitavam a bronca de cabeça baixa e pareciam ter medo dele. Então a gente também tinha.
Um dia encontrei meu irmão, dois anos mais novo que eu, chegando ao portão de casa com um sonho de padaria na mão e uma cara esquisita.
Perguntei o que havia acontecido e ele me disse que tinha comprado o sonho lá no seu Manoel, mas que o sonho estava estragado.
Não tinha como não acreditar nele, porque moleque come qualquer coisa sem titubear, e com meu irmão não era diferente. Mas ao pegar o sonho já vi que estava ruim mesmo. E o gosto? Eca! Mais azedo que seu Manoel.
O que fazer agora? Meus instintos de irmão mais velho estavam aflorando e eu sentia que deveria cobrar a bronca. Mas era seu Manoel, caramba!
Me enchi de coragem, peguei o saquinho de papel com o sonho estragado e fomos para a temida esquina. Juro que, atravessando a rua e já avistando a figura do português com seu jaleco e gorro bibico azul claro lá dentro da padaria, ainda pensei se o problema não poderia ser resolvido uma outra hora. Talvez voltasse mais tarde com mais umas cem pessoas e meu cão pastor, o Duque. Mas não havia mais tempo. Já estava dentro da padaria, diante do balcão e escutei a doce voz do seu Manoel.
– Que que é menino? Perguntou o portuga.
– Ó seu Manoel, meu irmão comprou esse sonho aqui mas está estragado. – Disse com uma cara bem seria. Se é que existe esse tipo de cara na minha cara.
– Estragado?
– É estragado, tá azedo. – Respondi, já achando que o dialogo de negociação ia bem pra caramba.
– Deixa eu ver. Dá ele aqui.
Entreguei o produto pro seu Manuel e ele o cutucou com aquele dedo que já deveria ter coçado de tudo quanto é coisa nesse mundo. Cheirou o dedo e experimentou com a ponta da língua.
– Ah, que estragado que nada, o pá. Isso é o gosto do limão. Rosnou o português com a mão esticada me devolvendo o sonho.
– Que isso seu Manoel? Tá estragado sim, eu respondi. E essa cor verde no creme, é do limão também?
– Vá, vá, vá, vá… Tá estragado nada. Deixa de besteira moleque. E se não quer mais nada, vamos saindo, vamos! Ordenou o seu Manuel, encerrando o caso.
Ah, meu Deus! O gosto da derrota... Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol, como dizia na época, uma música do Belchior.
Fomos saindo da padaria levando a tristeza e nosso sonho estragado embora. Aquilo não poderia ficar assim! Meus sentimentos de irmão mais velho e responsável foram aflorando mais e mais, junto com minha raiva. Uma raiva de toda maldita coroa portuguesa que deveria ter sido massacrada impiedosamente por Napoleão Bonaparte. Aqueles pensamentos foram girando e girando na minha cabeça, até que, numa girada digna de um lançador de beisebol, eu virei para trás e arremessei o sonho com toda força na direção do balcão.
O sonho começou o seu lindo voo parabólico, ganhando força feito um cometa e se espatifou na parede, atrás do seu Manoel, após passar a um palmo da famigerada caneta presa na sua orelha.
Logo após o barulho fofo do sonho batendo na parede, e com seu Manoel ainda com seus olhos arregalados de susto, ouviu-se o brado retumbante: “Limão o seu cu, português do caralho!”
E corremos, e corremos. Eu e meu irmão corremos muito. É impressionante como moleque consegue correr muito e rir muito ao mesmo tempo sem tropeçar.
Não me lembro muito bem agora, mas creio que aquela esquina foi evitada por uns meses até tudo se dissipar na rotina daqueles dias.
Há pouco tempo eu passei em frente ao prédio da velha padaria, que está totalmente deteriorado. E quem passava na rua não entendia bem o que aquela pessoa fazia ali em frente. Indo até o meio da rua e voltando pra calçada. Virando e olhando. Medindo e rindo.
Não imaginavam que eu rememorava com uma espécie de alegria besta e saudosista, a minha pontaria, o lindo voo do sonho, o eco dos palavrões e as risadas.

That's all folks, Douglas

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Ilustre ilustrador










As ilustrações aí de cima são do Douglas. O cara é craque. E não pense a freguesa que ele só faz isso na vida. Ele também faz Pum.
• Celso Paraguaçu •

O Pum do Douglas

Está enganado quem pensa que o Douglas só desenha, toca blues e MPB, conversa, bebe e webmastereia. Ele também escreve, como Guy de Maupassant, Edgar Alan Poe e o mais lucrativo discípulo deste, Stephen King. Aí vai um conto do Douglas, “Pum”:

Abriu os olhos de repente e olhou para o relógio. Ainda é cedo, pensou. Dá para dormir mais um pouco. Sentia uma enorme vontade de peidar. Olhou para o lado. Viu a esposa dormindo. Ela já vinha reclamando há algum tempo dessa desagradável flatulência. Já tinha até tirado sarro dele na frente das amigas por conta desse flato, ou melhor, fato. Estava começando a pegar pesado.
Não deu pra aguentar. Um peidinho só não faria mal. Fechou os olhos e abriu os pensamentos. Haaa! Não foi tão peidinho assim mas foi silencioso pelo menos. Porém, a vontade não passou.
Começou então uma estratégia para um segundo peido mas o novo flato se adiantou involuntariamente. Começou fraquinho e foi aumentando.
Ele deu um pulo da cama e correu para o banheiro. De forma inexplicável o peido não queria parar. Não fazia o tradicional barulho de bufa e nem tinha cheiro. Só que não parava mais.
Que coisa mais esquisita isso. O que estaria acontecendo? Só poderia estar sonhando, ou melhor, tendo um pesadelo. O peido continuava.
O que fazer? Nem pensar em acordar a mulher ou a filha. Aquilo era desconcertante. O peido não parava mais.
Precisava fazer alguma coisa. Ir a um pronto-socorro, hospital, igreja, sabe-se lá o que. Vestiu um roupão, pegou as chaves do carro e saiu correndo do apartamento. Resolveu descer pela escada. O "flatídico" vento não parava de sair. Somente era cortado pelo movimento de descer ou degraus.
Abriu o carro desesperado, se jogou no banco e fechou a porta. Aonde ir? Ficou pensando com olhos arregalados. Todos os três.
Batucava aflitamente no volante enquanto aquele peido eterno continuava. Foi quando percebeu algo mais estranho. O volante havia crescido. Estava bem maior. O roupão que vestia estava maior. Ou ele estaria menor? O que? Parece que estou diminuindo… Pensou.
Sim, ele estava diminuindo. Já não conseguia mais ver o capô do carro. Estava mais baixo que o volante, e continuava a diminuir rapidamente. Seus pés já não tocavam o chão. Percebeu que estava minúsculo. Parecia um boneco de brinquedo sobre o banco do carro.
Pulou do banco e se pendurou no trinco da porta, o que fez a mesma se abrir. Ficou dependurado um tempo mas suas mãos já estavam pequenas demais para conseguir segurar o trinco. Caiu.
Caiu mas não chegou tocar o chão. Simplesmente não tocou em mais nada sólido. Dissipou-se.
No apartamento, Paulinha entrou na cozinha. A mãe punha o café na mesa. Cadê o pai, mãe? Perguntou. Deve ter saído bem cedinho hoje, disse a mãe, nem quis tomar café. Acho que os cereais não estão fazendo bem para ele.

• Douglas •

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Peba na pimenta


Olhe, pois eu nem tinha começado a cantar, só disse o nome do coco, “Peba na Pimenta”, e um desinfeliz lascou lá do fundo:

— Que que é peba?

Cabra afobado, xente! Nem esperou para ver se aprendia escutando o coco. Só falei o nome, e o abestado já estalou a preaca: “Que que é peba?”.

O cabra tinha esprito ruim, não nasceu no Sertão. Não estou dizendo que todo mundo que nasce no Sertão tem esprito bom. Já nasceu muita gente ruim lá, dos mais piores. Foi. Mas se o cabra tem o esprito bom, ele merece nascer no Sertão.

Esse um, ou tinha esprito ruim ou estava procurando encrenca. Mas eu sou velhaco. Pego no rabo da pergunta, como se fosse uma coisa séria, boto ela no chão e passo a peia. Resolvi explicar para o cabra até ele ficar cansado de entender. E fui:

“Quem nasce no Sertão sabe muito bem sabido o que é peba. Sabe que peba é bicho sertanejo. No sertão tem gente, bicho, planta e pedra. Também tem água, às vezes, mas é pouca. Quando tem, a gente prende no açude.

“Pedra, todo mundo conhece só de ver. Não precisa perguntar o nome. Tem das grandes, como as Rochas, as Penhas, os Penedos e outras famílias; e tem das miúdas, os seixos, que alguns chamam de cascalho. Pedra não anda por vontade própria. Às vezes são empurradas, caem, escorregam, mas andar mesmo, não andam.

“Planta também não anda não. Polo menos eu nunca vi. Elas estão onde estão porque Nosso Senhor Jesus Cristo, louvado seja, botou elas lá quando criou o mundo. Ou ele ou o Pai dele. Mas no Sertão, acho que Deus mandou um anjo para semear aquela plantalhada seca e espinhosa da caatinga.

“Eu até vi na igreja a estáuta do anjo que deve ter feito o serviço. Acho que foi ele, por causa das véstias. Ele andava de alpercata, não usava gibão, mas tinha um guarda-peito. Tinha um facão na cinta, acho que para limpar o caminho no meio da galharia. Ou para se defender, se aparecesse uma onça. Porque suçuarana não respeita anjo. Para ela só existe duas categorias de coisas no mundo, as de comer e o resto. E anjo, para ela, é de comer, porque anda. Anda e tem asa, igual ema, que é comida de onça.

“Esse anjo também usava um tipo de saia, mas era de couro, umas tiras largas de couro. Acho que era para proteger as intimidades. A galhaça da caatinga corta, fura e rasga. No tempo dos anjos ainda não tinham inventado a perneira, isso veio depois. Ele não tinha chapéu de couro. Também, naquele tempo, era só Deus e os anjos, e Deus estava por todo lado. Cada vez que um anjo encontrava Deus, tinha de tirar o chapéu, porque assim é que se faz. Como o anjo podia estar com as mãos ocupadas na plantação da caatinga, era mais fácil não usar chapéu, para não precisar tirar toda hora.

“Entonce, pedra e planta não andam. Quem anda é gente e bicho. Animal também anda, mas animal é como bicho. A qualidade da andança varia conforme os pés. Gente e passarinho tem dois. Onça, cavalo, bode e vaca têm quatro. Cachorro também. Menos o Piaba, de meu compadre Ciço, que só tem três, porque a onça arrancou um de um tapa. Também tem bichos sem pé nenhum, que são a cascavel e as outras serpentes. Cascavel é bicho danado de ruim, que morde só para matar e nem come.

“O peba é bicho da qualidade de quatro pés. Ele tem quatro pés e uma casca que até lembra a saia do anjo da estáuta que falei, porque é feita de tiras. Só que não são tiras de couro, que nem a do anjo, são de casca mesmo, que nem a do tatu. Mas peba não é tatu, é peba. Se fosse tatu, não se chamava peba.

“Tatu tem de três qualidades. Tem o canastra, que é grande e come formiga; tem o galinha, que se chama galinha, mas é tatu. Esse é mais ou menos do tamanho do peba, e come formiga também. E tem o tatu-bola, que é mais pequeno e se enrola todo. Fica que nem um coco, quando o cachorro chega perto dele. Esse também come formiga.

“O peba come formiga, que nem tatu, mas é menos. Ele gosta é de variar. Come macaxeira, coró, minhoca e outras comidas de peba. É por isso que a carne dele é boa. Tem gente que diz que ele come defunto, mas não é verdade. É que as minhocas vão roer a carne do extinto ou do bicho morto e o pebinha vem comer as minhocas. Defunto ele não come não, come minhoca.

“Para caçar o peba tem o jeito certo. Precisa ter um cachorro bom, pebeiro, para encontrar o rastro do peba. Mas tem de ser cachorro velhaco. Se for inhenho, ele vai achar o peba na toca e aí pode chorar a noite toda que o peba não sai e ninguém tira ele de lá. Cachorro velhaco acha o peba fora da toca e dá o aviso. Aí a gente corre, para não dar tempo do peba se entocar.

“Se tiver mais de um cachorro, o peba não corre; ele começa a fazer um buraco no chão para se enterrar. Aí o vivente tem de ficar esperto. O peba finca as unhas no buraco e não tem força que arranque ele de lá. Só sai com boas maneiras. A gente segura o rabo do peba, com o dedo fura-bolo esticado na parte de baixo, e vai seguindo o rumo da cauda do bicho. Logo o dedo encontra o toba do peba. Nem precisa fazer força. Enfiou o dedo, o bicho relaxa as unhas, preocupado com o que está acontecendo lá atrás, onde ele não vê. Aí é só puxar o peba para fora, sem tirar o dedo. Tá pego.

“Se prepara o peba de várias maneiras. Pode cozinhar ou assar na casca, ou tirar a casca antes do preparo, mas o gosto muda. Bom mesmo é soltar a carne da casca, cortar nas juntas, dar uma fritura ligeira e depois voltar para a casca para assar no braseiro ou no forno, tampada com a casca da barriga dele. A pimenta é o principal tempero, porque sem ela o gosto fica aperreado, o peba fica sem personalidade.”

Estando o desinfeliz já bem servido de sabedoria sertaneja, lasquei a picardia:

— E pimenta, Vossa Insolência sabe o que é?

E me arretirei sem cantar.

• Quinca de Tiburço •

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A jaqueta amarela





Uma faca era o instrumento que usaria. A faca grande, da gaveta da pia. Bem afiada, como sempre.
Imaginou que o gesto seria simbólico, metafórico. Sim, uma metáfora do fim do amor, daquele amor. Ou da recuperação da autoestima. Não. Era uma atitude de eliminação, de destruição. Não seria uma metáfora adequada para a recuperação da autoestima. Queria, sim, recuperar o conceito que tinha de si próprio, mas a ação não expressaria isso.
— Foda-se — disse para si mesmo. — Vai ser assim e ponto final.
Pegou a faca, experimentou o fio e achou que não estava muito bom. Mas nada que o fuzil não pudesse consertar. Encostado na pia da cozinha, pôs-se a rememorar os fatos, enquanto passava diligentemente a lâmina no afiador.
Ainda ecoava em seus ouvidos o tom agressivo da voz dela ameaçando:
— E não venha com aquela ridícula jaqueta amarela!
Ele nem explicou que não era amarela, era terra. Ela sabia disso, ouvira muitas vezes. A cor era terra e não amarela. Ela sabia. Se disse amarela, tinha intenção de ofender, de magoar. O que ela jamais entenderia é que não se tratava de uma simples peça de couro curtido, cortado e costurado. A jaqueta amarela – terra – era como sua própria pele. Mais que sua pele, era sua marca inconfundível, sua personalidade. Sua alma, talvez. Se ela não o queria com a jaqueta, estava claro que não o aceitava como era. A jaqueta era ele. Ele era a jaqueta.
O tinir do aço percorrendo delicadamente a extensão do fuzil o fez recobrar o dilema da metáfora da ação planejada. Se a jaqueta era ele e ele era a jaqueta, seria um suicídio metafórico; o contrário da recuperação da autoestima. Mas também podia ser a metáfora de um renascimento. “Matar o eu anterior para permitir o advento de um novo eu.” Se entenderiam isso ou não, era uma questão que não o preocupava. Ele sabia que significaria o começo de uma nova vida, um fogo de Fênix. E mergulhou novamente em recordações.
Ainda se lembrava de quando comprara a jaqueta, havia mais de vinte anos. A viagem de emergência, uma necessidade do trabalho, fora decidida de supetão. Não pudera passar em casa para pegar algumas roupas. E no caminho o tempo mudou, começou a esfriar. Precisava comprar um agasalho, pois o trabalho atravessaria a noite, que se anunciava fria. Em busca de uma loja de roupas, entrou na primeira cidade para a qual havia um acesso na estrada.
Cidade era exagero. Não passava de um amontoado de casas em volta de uma igreja, mas havia uma fabriqueta de roupas de couro. Era mais uma oficina, uma coisa artesanal, com um aspecto que parecia anterior à revolução industrial. Vieram-lhe à mente as guildas, as corporações medievais de artesãos, com suas normas. Deviam fabricar selas, botas, bainhas para espadas, baús, armaduras e escudos. E o jovem que se aproximava devia ser um aprendiz. Provavelmente atendia os fregueses, enquanto o mestre traçava o corte de alguma peça na oficina dos fundos.
Não era um aprendiz, era o vendedor. Educado, sorridente, fino, com gestos estudados, parecia deslocado naquela aldeia rústica. Fora esse rapaz que lhe ensinara, sorridente, o nome da cor da jaqueta.
— Amarela? — comentara com tom de desagrado.
— Amarela, não; é terra. Combina com qualquer cor de calça. E veste muito bem um corpo esguio como o seu.
Corpo esguio uma ova. Etiópia era magro mesmo. Miseravelmente magro. Daí o apelido, uma referência ao grande número de famintos daquele país que a TV mostrava na década de 1980. Alto como uma palmeira, magro como um caniço; a jaqueta amarela – terra –, com corte de paletó, era a única que lhe servia. Os outros modelos ficavam muito curtos ou largos demais. O preço era bom e o frio apertava, portanto ficou com a jaqueta amarela. — Terra! — corrigiu o vendedor.
Rigorosamente não era uma jaqueta, o corte estava mais para um blazer, explicara o rapaz. Mas se o freguês preferia chamar de jaqueta, tudo bem. Afinal, tinha costuras laterais no peito e nas costas, como uma jaqueta.
— E inglês tudo é jacket, não é mesmo?
Aos poucos, foi-se acostumando à vestimenta. No início, usava-a no trabalho, para ver se acabava mais depressa, pois não tinha gostado da cor. Os colegas do trabalho, os vizinhos e os conhecidos foram-se habituando a ver o magro Etiópia com o casaco amarelo.
— Terra! — corrigia prontamente Etiópia, chamando atenção com as mãos para o talhe do casaco. Não era propriamente elegante, mas combinava com a magreza extrema de Etiópia. Não fosse tão consolidado o apelido, Etiópia passaria a ser chamado de Jaqueta ou de Amarelo. Até houve uma ou duas tentativas, mas o nome Etiópia prevaleceu.
Pouco tempo depois, a vasta experiência de Etiópia tirou-o do serviço pesado. Assumiu a coordenação das equipes de campo. Raramente precisava acompanhar algum trabalho no local. Passava a maior parte do tempo no escritório, entre plantas, mapas, planilhas e o telefone. A jaqueta repousava no espaldar da cadeira. Só a vestia na hora de ir embora. E como roupa de chefe não gasta, o casaco ia-se tornando eterno.
A afeição pela vestimenta desenvolvera-se no decorrer dos anos. Foi o traje usado nos eventos mais significativos de sua vida. No enterro da mãe, no... É verdade. Sua vida não tinha muitos eventos significativos. Mas lembrava-se de estar vestindo a já velha jaqueta quando conheceu Rose. Conquanto não quisesse admitir agora, por muito tempo julgou significativa aquela ocasião. Chegara mesmo a pensar que Rose teria se interessado na jaqueta e não nele.
Não estava totalmente errado. Ele se destacava na festa de fim de ano da empresa. Não só pela cabeça acima das de todos os demais presentes, mas também pela indumentária que, como afirmara o jovem e delicado vendedor, combinava com os blue jeans que costumava vestir.
O desgaste nos cotovelos, resultado dos anos de uso, tinha sido habilmente disfarçado com retalhos de couro marrom. O velho casaco amarelo dissimulava a magreza de Etiópia, tornando-o um homem quase atraente. Sem a jaqueta era um varapau; com a vestimenta, porém, parecia quase bem-proporcionado. Pelo menos o suficiente para atrair a atenção da jovem Rose, que fazia estágio na empresa.
Da festa até o início do namoro não passou uma semana. Daí até o casamento, porém, já rolavam mais de dez anos. No começo, Rose precisava se firmar na atividade profissional. Mudou de emprego várias vezes, algumas para melhor, outras nem tanto. Até de cidade mudou. Os dias dedicados ao namoro diminuíram, mas não terminaram. Etiópia ia vê-la num fim de semana e ela vinha vê-lo no seguinte. O relacionamento era sério, baseado na confiança que nenhum dos dois jamais traiu. E por muitos anos não falaram de casamento.
Quando se considerou uma profissional bem-sucedida, Rose decidiu se casar. Etiópia tinha tudo para ser um bom marido. Só não convinha pressioná-lo, ela sabia. Tinha de persuadi-lo com meiguice, com doçura, sem jamais dar um ultimato ou fazer algum tipo de ameaça, por mais velada que fosse.
Solteirão assumido, beirando os cinquenta, Etiópia não tinha nada contra o casamento. Nem a favor. Até se casaria, já que vivia sozinho desde a morte da mãe. Mas tinha costumes de homem sozinho. Nada que não fosse socialmente aceito. Não bebia muito, só jogava de brincadeira, não frequentava nenhum tipo de igreja. Nem cabarés. E nunca trouxe para casa as mulheres perdidas que eventualmente encontrava. Isso, no passado; porque depois que começou a namorar Rose, ela passou a ser a única mulher de sua vida.
Seu problema se resumia a desfrutar de todos os espaços da casa. Homens que se casam cedo não têm lugar na casa, por isso precisam ficar mexendo no carro ou consertando coisas. Se não tiverem nada para consertar nos fins de semana, ficam perdidos, porque estorvam, onde quer que fiquem. Para não incomodar na cozinha, geralmente ficam na sala, vendo televisão, mas até isso irrita as mulheres.
Etiópia sabia que era assim. E Rose sabia também, por isso propôs uma forma de convívio conveniente para ele. Casariam, sim, mas não viveriam na mesma casa. Pelo menos não o tempo todo. Durante a semana, cada um continuaria morando na própria casa, já que viviam em cidades diferentes. Nos fins de semana, um iria para a casa do outro, como vinham fazendo nos últimos anos do namoro. Em outras palavras, mudava-se o estado civil, mas tudo continuaria como antes.
Tudo tão perfeito que Etiópia até concordaria com uma cerimônia religiosa, se fosse o desejo de Rose. Mas não era. Ela não fazia questão. Casariam no civil, somente. E fariam uma bela festa para os amigos.
O cuidado de ambos era com a festa. Queriam que fosse inesquecível. Etiópia queria uma grande orquestra de baile, nos moldes das big bands da metade do século passado, que tocasse foxblues, suingues, baladas e valsas. Para Rose, poderia ser até uma orquestra de berimbaus, desde que o repertório incluísse “Paralelas”, sua música predileta, composta e gravada quando ela ainda nem tinha nascido.
A preocupação maior de Rose era com o jantar. Ela não quis saber de bufês. Queria um jantar muito mais especial do que qualquer bufê conseguiria fazer. Se pudesse, ela mesma iria ao mercado escolher os alimentos e prepararia os pratos. Mas, como noiva, sua presença era essencial junto dos convidados.
Jantaram em diferentes lugares por semanas a fio, até escolherem a comida que ela julgava adequada. Não foi fácil convencer o dono do restaurante e o chef a fecharem a casa para a festa do casamento. A construção do palco da orquestra e a decoração do ambiente obrigariam o restaurante a permanecer fechado por uma semana. Tiveram de oferecer um bom dinheiro para consegui-lo. Mas valeria a pena.
O espetáculo da entrada triunfal da noiva com vestido branco não exigia uma igreja. Seria apresentado no restaurante, transformado em elegante salão de festas, ao som de uma grande orquestra. Depois, um jantar excelente, com vinhos adequados, e um baile para atravessar a noite.
Estavam ambos vivendo a euforia da preparação da festa quando Etiópia chegou à casa dela, vibrando de felicidade. Tinha conseguido encontrar e contratar a orquestra de seus sonhos. E a crooner já estava ensaiando “Paralelas”. Rose sorriu, feliz, e disse que tinha marcado a data do casamento civil. Não seria no dia da festa, mas isso não tinha importância. Afinal, só era preciso um casal de amigos como testemunhas. Depois almoçariam juntos, no mesmo restaurante que faria a grande festa, alguns dias mais tarde.
Passaram mais um fim de semana juntos, conversando sobre a festa, e chegou a hora de Etiópia voltar para sua cidade, para enfrentar mais uma semana de trabalho. Antes de sair, ele perguntou se precisaria ir de gravata ao cartório. E foi então que tudo desabou.
— De gravata, claro — disse ela. E completou: — E não venha com aquela ridícula jaqueta amarela!
Etiópia entrou no carro sem o costumeiro beijinho de despedida e fez a viagem de volta ruminando a frase de Rose. Mastigou-a incontáveis vezes, mas não conseguiu engolir. Que fazer? Aparecer no cartório de jaqueta amarela? Seria um desafio, uma queda de braço com Rose. Ele venceria, claro. Rose não iria deixar de se casar só por isso, mas ficaria amuada o resto do fim de semana, e não poderiam falar da festa do casamento. Ainda havia coisas a combinar, para que tudo saísse à perfeição.
Mas se não usasse o fatídico casaco, estaria cedendo a uma ordem de Rose. Uma ordem baseada simplesmente no gosto dela, que não levou em conta os sentimentos do futuro marido. O dilema não saía da cabeça de Etiópia, enquanto dirigia de volta para casa. Até que tomou a decisão: destruiria o casaco. Destruiria o casaco e não apareceria para o casamento. Nem no civil nem no restaurante. E sumiria por algum tempo, para fugir das explicações.
Não devia satisfação a ninguém, em seu entender; nem mesmo a Rose. Mas sabia que haveria perguntas. Etiópia era um homem de ação, não tinha desenvoltura para explicações. Até os relatórios técnicos eram escritos por um colega, o Luciano, especialmente contratado para fazer o que Etiópia não conseguia, para expor o que foi feito, por quê, como, quando, etc. As decisões eram de Etiópia, mas quem as justificava e argumentava era Luciano, que aprendera muito com isso. A ponto de se tornar o sucessor natural de Etiópia, depois que o magro chefe se aposentasse.
Não seria difícil fugir por uns dois meses, já que tinha férias vencidas acumuladas. Depois pediria demissão e sumiria de vez. Ia viver no mato, nalguma cidadezinha esquecida, como tantas que conhecera. Poderia viver da poupança por um bom tempo. E depois começaria a receber a aposentadoria e o plano de previdência complementar, no qual entrara muito jovem. Nunca mais saberia de Rose nem dos amigos e colegas do trabalho. E ninguém saberia dele.
Rose teria de entender a atitude de Etiópia pelo que encontraria na casa, quando finalmente a abrissem: tudo no lugar de sempre, exceto pelos minúsculos pedacinhos da jaqueta amarela em cima da tábua, na pia, e espalhadas pela cozinha. Ela saberia que o comentário sobre a jaqueta amarela tinha sido o motivo de seu sumiço. E confirmaria o estranho senso de justiça de Etiópia: destruía o casamento e o casaco que motivou a morte do amor. Pelo menos ele imaginava que Rose fosse interpretar desse modo a ação.
Talvez uma conversa com Luciano o fizesse entender que precisava deixar mais clara sua postura, que deveria conversar com Rose. Mas Etiópia não saberia o que falar. O que sentia por Rose transformara-se numa mágoa tão profunda, tão doída, que precisava ser descarregada por meio de um ato destrutivo. E a vítima de tal ato seria a própria jaqueta. Tão lógico quanto matar o mensageiro que traz a má notícia. Mas a questão prescindia de lógica; era puramente emocional.
Enrolaria a jaqueta como um rocambole, bem apertada, colocaria na tábua sobre a pia e a cortaria em fatias finíssimas. Por isso a boa faca precisava estar muito bem afiada. Depois disporia as tiras paralelamente e as cortaria novamente, para impedir que o material fosse aproveitado de alguma forma. Sobraria apenas um punhado de confetes quadradinhos de couro amarelo. Ou terra. O gume estava perfeito agora, e o fuzil ficaria à mão, para acertar o fio da faca durante o metódico trabalho destrutivo.
Etiópia começou a enrolar a jaqueta, bem apertada, mas parou, para vesti-la uma última vez. Queria se despedir da vestimenta que tanto significava para ele. Pela primeira vez, a vestia “em pelo”, sem camisa. E sem calças. Quando estava em casa, Etiópia costumava ficar só de cuecas, mesmo em dias meio friozinhos, como aquele. Era um hábito que podia manter, por morar sozinho.
Antes mesmo de fechar o primeiro botão da jaqueta Etiópia começou a sentir um conforto que jamais imaginara. Pensava que o couro fosse duro, mesmo com o forro, sobretudo nas costuras. Mas não. Não sentia costura alguma. E à medida que a vestimenta se aquecia, tornava-se mais agradável o contato com sua pele. Veio-lhe a mente o calor do corpo de Rose, quando se achegava ternamente a ele na cama. A jaqueta tocava-o do mesmo modo macio e carinhoso. Até mais gostoso, pois Rose não aquecia todo o torso de Etiópia, como a jaqueta fazia.
“A felicidade”, pensou ele, reinterpretando John Lennon, “é um casaco quente.” Foi para a sala e sentou-se no sofá, extasiado, para melhor desfrutar daquela sensação e acabou se deitando. Etiópia se embriagava na mornidão do agasalho, que, como se fosse feito de malha, tocava toda sua pele. Nem mesmo nas pernas nuas ele sentia frio. A jaqueta agora pressionava-lhe um pouco mais o tórax, como um abraço de corpo inteiro. Tão agradável que Etiópia dormiu.
O legista escreveu “parada cardiorrespiratória”, mas não estava certo da causa mortis. Se houvesse algum sinal de que a vítima tivesse tido o tórax comprimido ou os braços imobilizados, ele teria escrito “asfixia mecânica”. Mas os investigadores da polícia não encontraram nada que pudesse sugerir alguma ação externa. A jaqueta tinha sido indevidamente retirada da cena pela faxineira, que encontrara o corpo no sofá, antes de chamar a polícia.
Como Etiópia queria, não houve casamento. E ele não viveu para desfrutar do plano de previdência privada. A jaqueta, contudo, sobreviveu. Agora agasalha o namorado da diarista. Que Deus o abençoe.
• Celso Paraguaçu •

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A raiz da suspeita





O céu limpou tão depressa ontem que deve ter pego de surpresa um monte de alienígenas. Eles preferem ficar em seus discos voadores observando o movimento e os hábitos dos humanos em dias e noites de céu encoberto. Ao contrário de nós, eles enxergam através das nuvens. Mas quando o céu fica limpo muito rapidamente, como ocorreu, eles são pegos desprevenidos e têm de deixar a atmosfera terrestre rapidinho, para não serem vistos.

Algumas naves tiveram de zarpar na maior velocidade em direção ao espaço profundo, o deep space, como dizem os gringos, pois ficaram a descoberto. Observei uma delas pairando com as luzes apagadas, enquanto o piloto tentava fazer o motor pegar. Acho que o ET se afobou na partida, pisou muito fundo no acelerador, e deixou o motor afogar. E aí não tem jeito. Tem de esperar o carburador secar.

Esses discos voadores mais antigos, com motores aspirados, sempre fazem dessas. E convém apagar as luzes para poupar a bateria. Mas já há poucos desses em órbita, são raridades. Vistosos, coloridos, mas muito pouco eficientes. Só um ou outro ET mais conservador mantém sua velha nave encerada, brilhando. A manutenção dessas antiguidades custa os olhos da cara. E olha que alguns ETs têm vários pares de olhos em cada cara.

Hoje em dia os OVNIs têm propulsores de câmara osmótica diferencial, com diálise intraelementar de propulsão iônica. Não têm mais carburadores de palhetas e diafragmas. E não têm mais aquelas luzinhas piscando como antigamente. Agora é tudo sensorial, neural e dialítico. Qualquer idialien consegue ir para onde quiser.

São muito menores também. As naves, não os aliens. Estes continuam com toda a diversidade de tamanhos e formas que conhecemos e outras que não conhecemos. Algumas naves são tão pequenas que um ET precisa de várias delas para viajar. Por isso há pouca oferta de empregos para pilotos experientes de naves extraterrestres. A era de ouro dos ÓVNIS já era. Acabou o romantismo das gigantescas naves em forma de prato emborcado, de calota de fusquinha ou de pirâmide de base triangular. Era muito mais divertido naquele tempo, não acha?

As naves atuais não têm o menor glamour. São meras coisas, familiares a nós humanos. Já faz tempo que essa onda começou, mas as pessoas demoram a se dar conta do que acontece à sua volta. Quando viram os primeiros discos voadores, estavam presenciando os últimos veículos desse tipo. E o planeta já estava repleto de naves individuais das mais diversas formas, com seus ETs disfarçados de humanos circulando entre as pessoas.

Até mais ou menos a metade do século passado, havia ETs com misteriosos equipamentos andando pelos parques em São Paulo. Diziam-se vendedores de refresco, de chá gelado com limão. Circulavam entre as pessoas, cantando seus pregões, quase invisíveis. Mas registravam de perto os rostos, as formas, as roupas, as falas e os hábitos.

Tudo que viam, sentiam e ouviam ficava registrado no tambor, que chamavam de bomba. Sons, cores, expressões, movimentos, usos e costumes, tudo era gravado. A bomba era também a nave individual. Quando os parques fechavam, os ETs usavam os tambores como transporte para as naves-mães. Lá, as informações registradas eram descarregadas no sistema central de armazenamento, e as bombas ficavam prontas para receber novos dados. Eram reabastecidas com chá gelado, para serem novamente utilizadas no dia seguinte.

No Rio de Janeiro, até poucos anos atrás, esse sistema era comum nas praias. Conquanto sobreviva em algumas delas, trata-se de uma modalidade anacrônica de aquisição de informações. Atualmente é utilizada apenas por velhos ETs avessos ao uso de novas tecnologias. Ou que apreciam o visual das bundinhas na praia.

Enquanto as bombas de chá gelado estavam em pleno uso, quase um século atrás, já surgiam os pipoqueiros em frente aos cinemas, circos e parques de diversão. Todos usavam carrinhos iguais, com uma parte de vidro na qual ficavam as pipocas e uma área onde havia um fogareiro sob uma panela preta com uma manivela na tampa.

Parece que ninguém se perguntava por que todos os carrinhos de pipoca eram iguais. Não podia ter um com o fogareiro e a panela na frente? Ou separados do carrinho? Se o propósito fosse apenas o de vender pipocas, poderia. Mas não havia. Assim como não havia nenhum com a panela branca, limpa.

Todo mundo pensava que a manivela servia para mexer as pipocas, mas a finalidade era outra. Era um sistema de transmissão de dados online. Os carrinhos de pipoca não usavam mais dispositivos de armazenamento de informações; absorviam-nas e as transmitiam online, diretamente para seus planetas, pelo transmissor giratório, que para os humanos parecia uma panela suja com uma manivela em cima. Os carrinhos eram seu veículo individual de transporte.

Os “vendedores de algodão-doce” usavam praticamente o mesmo sistema. Usei aspas, porque a mim não enganam. O transmissor era parecido com o dos “pipoqueiros”, mas tinha uma sofisticação mecânica: em vez de manivela, usavam um sistema com pedais, com o que conseguiam uma velocidade muito maior, ou seja, transmitiam em frequências mais elevadas. E o transdutor não era mais preto e ensebado; era de alumínio brilhante.

Não é só na Terra que a tecnologia se desenvolve em grandes saltos. Em outros mundos tem ocorrido o mesmo. Ou você pensa que esses caras com aspecto de nordestino empurrando carrinhos de mão são realmente vendedores de mandioca? Todos usam um carrinho semelhante aos os usados na construção civil. Ninguém tem uma carriola de madeira, ou um carrinho de supermercado. Tem de ser desses de chapa de aço. Claro que se trata de outra modalidade de transporte individual, com um sistema de aquisição e transmissão de dados online.

É fácil perceber que há transmissão direta do carrinho para o planeta alienígena. Observe que o carrinho tem uma forma muito adequada para ser um concentrador de sinais voltado para o céu, como se fosse uma antena parabólica. Muito melhor do que o teto dos carrinhos de pipoca, que parecia um telhado de duas águas. Aquilo funcionava mais como dispersor do que como concentrador de sinais.

Creio que o novo sistema tem um dispositivo de redundância: os dados capturados são também armazenados nas cascas das raízes. Pode observar que os “vendedores” fazem questão de tirar a casca antes de colocar as raízes na sacolinha. Eles descascam as mandiocas com uma facilidade que nós, terráqueos, jamais teríamos. Isso porque sabem exatamente onde colocar a faca para desprender facilmente o dispositivo pelicular de armazenamento que chamamos de casca. A mim não enganam, mesmo que imitem o sotaque sertanejo do Nordeste.

Quem compra leva somente as raízes brancas. As “cascas” são armazenadas até a confirmação do sinal recebido. Se a transmissão online for satisfatória, as cascas vão para o lixo. Mas se houver alguma falha, retransmitem as informações armazenadas nos dispositivos peliculares. Essa é a redundância do sistema, muito recomendada em termos de segurança.

Os vendedores de mandioca em carrinhos-de-mão são ETs, como também o eram os pipoqueiros e os vendedores de chá gelado. Os médicos e enfermeiros aqui da instituição concordam plenamente comigo. Os poucos pacientes que discordam eu não levo a sério. São uns malucos.

• Celso Paraguaçu •

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Chez Miojô



O querido amigo Nivaldo requereu nossa expertise de restauranteur com a seguinte consulta:

“Estou pensando em tirar proveito comercial de meus dotes culinários, mediante a abertura de um bar/restaurante intitulado Miojerie – a Casa do Miojo. Só miojo elaborado nos mais diversos tipos de molhos. Haverá também o serviço de Miojo Delivery. Solicito sugestões.”
Depois de profunda análise do mercado e da personalidade do Nivaldo, nos dispomos a responder a sua consulta.

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Caro Nivaldo
Uma miojerie tem tudo a ver com você, que é francamente francófilo, capaz de recitar em francês as fábulas de La Fontaine, com rima e em alta velocidade. Advirto, contudo, que não acredito no modelo delivery para essa especialidade. É que a massa continua sob cozimento no trajeto até a casa do freguês, perdendo o ponto al dente cariado. E você não vai querer comprometer o prato, oferecendo a massa fora do ponto.

O estabelecimento precisa ter mesas, nas quais as pessoas possam saborear as iguarias. Mas nada de fast food. Resista à tentação de fazer um “Miojo in the Box” ou um “MacArroni’s”. Sua proposta se encaixa com perfeição num local elegante, para o público adulto recém-chegado ao extrato consumidor da sociedade.

Seria muito adequado um ambiente parisiense antigo, um típico bistrô anterior à Segunda Guerra, antes da contaminação cultural americana. O nome pode ser Chez Miojo, La Cave du Miojo ou algo em francês que remeta à especialidade culinária da casa. Chez Nini ou La Petite Casserole, por exemplo, soam bem, mas não dizem qual é a comida. A menos que seja Chez Nini Miojerie. Pode ser.

Com a música, porém, você terá dificuldade. O ambiente sugere música ao vivo, mas a moderna música francesa soa como americana ou berbere. Tais sons são incompatíveis com a finesse do ambiente. No entanto a música francesa mais antiga não pode mais ser tocada. Não por faltarem bons músicos, mas sim porque não se fabrica mais aquela cansativa sanfoninha deles. O que há de mais parecido é a concertina, a sanfona de oito baixos que ainda se toca no Nordeste. Mas essa serve. Aliás, parece mesmo ser muito adequada à nouvelle cuisine du miojô. Em vez de la balade ou la valse, teremos baião, coco e arrasta-pé, ou le bayon, le coco, le traine-pied.
Naturalmente, você fará os mais deliciosos pratos franceses adaptados ao gosto e ao poder aquisitivo do consumidor brasileiro. Assim, os cariocas poderão degustar seu excelente miojo au haricot noir, em vez do macarrão com feijão-preto que costumam comer em casa.

O restaurante terá nome e aspecto francês, mas a cozinha será internacional e inovadora, bem ao seu estilo. Outra sugestão de prato é o miojo com molho madeira. O molho é de preparo simples, bastando juntar numa casserole um pouco de água, uns cubos de caldo Kitano (mais barato que os demais) e vinho Chapinha de mesa tinto seco, que também será servido na refeição. Para dar o sabor amadeirado, colocam-se no molho algumas lascas de eucalipto, que são retiradas antes de servir. No lugar de champignons, sugiro uns toletes de macaxeira, para promover a aculturação culinária.

Pratos tradicionais de outras cozinhas européias não podem ser esquecidos. E, naturalmente, com o sabor exclusivo da cozinha brasileira. Assim o miojo al aglio e olio será feito com minúsculos dentinhos de alho chinês, muito pequenos para tirar a película. São fritos com película e tudo, no óleo de soja, cujo aroma é inigualável.

Da culinária alemã você trará as saucisses, para um delicioso molho feito à base de salsicha de metro (aquela pintada de vermelho, que em alguns mercados é vendida por quilo, como salsicha a granel) e massa de tomate Arisco. Conhecido como macarrão com “salchicha”, o prato tem grande aceitação junto ao público brasileiro. E certamente ganhará um novo relevo com seu modo de preparar e um nome francês. Talvez chamar as saucisses de sauchiches seja uma boa ideia: miojo avec des sauchiches.

O ponto, ou seja, o local onde instalar a miojerie, é de extrema importância. Os bistrôs parisienses que o cinema gravou em nossa memória ficavam às margens do Sena ou perto do Bois de Boulogne. Não temos um rio tão bonito, nem um bosque parecido, mas você pode montar um simpático bistrozinho à beira do Tamanduateí ou com vista para a Fazenda do Carmo, na Zona Leste. Seria o sonho de incontáveis consumidores recém-chegados ao mercado.

Vejo as mães que vêm buscar seus filhos na escola municipal aqui perto de casa. Enfiam um pacote de “salgadinho” nas mãos das crianças, para irem enchendo o bucho, porque a janta vai demorar para sair. Se houvesse uma miojerie na beira do corguinho da rua de baixo, certamente elas prefeririam oferecer aos petizes um nutritivo miojô avec des sauchiches em vez de entupi-los com essa coisa de isopor com cheiro de chulé.

E nos fins de semana? Esses consumidores não têm aonde ir. Não se sentem à vontade nos shopping centers. Mas lá por perto, tudo bem. Pois ao lado do Shopping SP Market existe um córrego com barrancos cobertos de capim. É o ponto ideal para instalar um trailer da Chez Nivaldo Miojerie. Existem outros trailers, mas são meros botecos; nenhum tem a elegância, a finesse, de uma miojerie.

Em termos comerciais, o ponto c’est ci bon, pois fica em frente à gare Jurubatuba, da CPTM. Em frente à gare, ao lado do shopping center, com vista para o córrego e, o que é melhor, muito próximo do local em que o padre Marcelo faz seu espetáculo religioso aos domingos. Já pensou que fome têm às dez da manhã aquela montanha de fiéis? São milhares deles, ungidos com a água benta lançada com uma brocha, cansados de ficar em pé desde as quatro da manhã e alimentados apenas com um pedacinho do corpo de Cristo. Para o espírito, o alimento pode ser suficiente, mas o corpo pede um miojo avec aile de poule en fricot. O ensopado de asa de galinha dá um molho culturalmente bem aceito no Brasil e remete aos anjos, que são bípedes alados, como os frangos. Os fregueses do padre Marcelo certamente se tornarão seus fregueses também.

Mais ainda. Depois das dez da manhã, quando os bizantinos fiéis do Padre Marcelo vão para casa, chegam os frequentadores da feira-livre montada dois quarteirões acima. Sabendo da existência da miojerie, provavelmente abrirão mão do pastel de ração canina que comem atualmente antes de ir embora. Ninguém em sã consciência trocaria a cozinha internacional com inspiração francesa pela culinária popular chinesa.

Você não pode esperar que o corguinho tenha um aroma agradável. O cheiro é forte e ruim, mas ajuda a compor o clima da miojerie. Remete ao odor da Paris de duzentos anos atrás. E você vai concordar que não há muita diferença entre o cheiro de esgoto do corguinho e o aroma do miojo.

Estou certo de que a miojerie será um sucesso, mas uma questão ainda me preocupa. É que se os chineses inventaram o macarrão, os japoneses inventaram o miojo, que é um spaghetini pixaim. O problema é que no Brasil o pixaim está em baixa. Talvez seja preciso você aplicar a famosa chapinha no miojo antes de preparar os pratos. Vai ficar com aspecto de macarrão espichado, como fica o cabelo das moças, mas elas acharão que está lindo.

Naturalmente essa preocupação estética se refere exclusivamente ao público feminino. Homem come de qualquer jeito, seja liso, pixaim ou com “escova progressiva”. Se a moça tiver uma boa culinária é o que basta.

• PGC •

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Um elefante, dois bêbados e uma carreira que foi para o espaço


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– Eu vi o olifante.
Serginho girou tão depressa no banquinho do balcão que quase caiu. A mão firme do dono do bar segurou-o pelo ombro. O homem girou-o de volta e disse:
– Não dá bola não. Esse aí vê de tudo. – disse o botequineiro com um leve sotaque de Trás-os-Montes.
Serginho queria ouvir o que o sujeito tinha a dizer, mas o homem do balcão explicou, enquanto passava o pano úmido sobre o mármore:
– Esse aí é o Ativo Fixo. O pessoal dos escritórios que vem tomar uma no fim da tarde deu esse apelido. Eles dizem que ele faz parte do equipamento do bar. Alguns conversam com ele, brincam, pagam uma pinga e fica por isso mesmo. Ele faz qualquer coisa para começar uma conversa e pedir ao outro que lhe pague uma dose para molhar as palavras.
Como Serginho ainda parecesse disposto a ouvir o etilista, o dono do bar empunhou sua autoridade de proprietário e levantou a voz em direção ao bebum da casa:
– Vai dormir, ó Ativo, e deixa o freguês em paz. Volta mais tarde, quando o pessoal dos escritórios chegar.
O bêbado levantou-se lentamente, resmungando, e sumiu de vista.
– Onde ele dorme? – perguntou Serginho.
– Agora não sei. De noite é por aí. Costuma aparecer depois do almoço e vai ficando até a hora de fechar. Às vezes me pede para dormir aqui dentro, mas não deixo. Isto não é albergue de bêbado. Acho que ele dorme no albergue da prefeitura. Tem um perto do Largo 13, deve ser lá. Quando comprei o bar ele já fazia parte da paisagem, vinha todas as tardes. Nos primeiros dias, tentei afastá-lo, mas depois percebi que os fregueses da noitinha gostam dele, fazem piadas, brincadeiras. Se divertem, ele e o pessoal. E é bom para o negócio.
– Ninguém faz maldades com ele?
– Não! São só brincadeiras, piadas, coisas que as pessoas que trabalham em escritório precisam fazer para aliviar a tensão. Eu tenho um acordo com o Ativo, que ele nunca descumpriu: pode frequentar a casa, mas não pode falar palavrões nem fazer gracejos para as mulheres que entram no bar ou passam na calçada. Não está no acordo, mas também não gosto que ele venha conversar com fregueses novos.
– É, deu para notar.
– Tem gente que pode até se assustar.
– Ele não parece assustador.
– É, mas sabe como é... Tem gente que não gosta.
– Bem, vou andando.
– Não quer tomar mais uma cervejinha?
– Não, preciso ir mesmo.
– Volte sempre, a casa é sua. E olha, se tivesse visto o elefante, eu falava. Mas não vi mesmo.
• • • • •
Serginho não dormira bem. Sonhava com o elefante, com o chefe, com os colegas rindo dele, com o eventual bilhete azul. Na hora que a coisa aconteceu, foi até divertido. Mas quando teve de explicar na empresa o motivo do atraso, o mundo veio abaixo.
O engenheiro Ricardo, o chefe, estava esperando por ele na porta. Dizia que o cliente já tinha ligado duas vezes para saber das condições do instrumento que mandara consertar e Sérgio ainda não tinha chegado na empresa com o aparelho pifado. O tempo de demora seria suficiente para os técnicos saberem o que havia de errado com o equipamento; talvez até para consertar.
Enquanto Serginho abria o porta-malas para pegar o aparelho do cliente, o chefe continuava expondo o motivo de sua irritação:
– O cara nem pediu o orçamento, só quer saber se dá para a gente consertar ainda hoje. E nós ainda nem vimos a cara do equipamento! E esse é o único no Brasil. Não tem como emprestar outro para o cara ir trabalhando enquanto consertamos esse. É único. Vem da Rússia, leva mais de um ano para se conseguir importar um troço desses. Que aconteceu para você demorar tanto?
– É que tinha um elefante na Av. Santo Amaro e o trânsito...
– Elefante? Na Santo Amaro?
O espanto de Ricardo fez com que falasse tão alto que até os técnicos das bancadas levantaram os olhos para ver o que acontecia. Sem falar dos caras da aferição, da Dona Ondina, secretária, do cara da contabilidade, da recepcionista. Até dona Neusa, que fazia café e faxina, olhou assustada. Um elefante na Santo Amaro deixa todo mundo curioso.
• • • • •
Serginho também ficara curioso quando viu o bicho, da mesma forma que os outros motoristas. O trânsito parou, lá pelas duas da tarde, horário em que dificilmente havia congestionamento naquele tempo. Serginho tentou ver alguma coisa, mas só enxergava uma aglomeração a alguma distância.
Devia ser uma batida, o que se resolvia facilmente, a menos que houvesse agressão física. Aí viria a polícia, com poder para baixar o cacete em ambas as partes. E até de levar os motoristas para a delegacia, deixando os carros batidos atrapalhando o trânsito. Não havia nada que Serginho pudesse fazer. Era esperar e relaxar, ouvindo Led Zeppelin no toca-fitas. Naquele tempo, 1985, ouvir Led Zeppelin no toca-fitas era a melhor coisa que se podia fazer. Hoje há coisas muito melhores, como ouvir Led Zeppelin num tocador de MP3.
Serginho observou que muitos motoristas começavam a sair dos carros, olhando para os lados da aglomeração. Ele também saiu e então viu o elefante. Cinza, enorme, cheio de rugas e de barro, parado ali na Avenida Santo Amaro, na contramão, balançando a tromba como se regesse uma valsa.
As pessoas se admiravam, apontavam, conversavam baixinho com medo de atrair a atenção do bicho, mas o animal não dava a mínima. Ao seu lado, uma espécie de domador tentava fustigá-lo com um ridículo chicotinho que nem fazia cócegas no paquiderme. As chicotadas indolentes denotavam uma ação meramente formal. Esperava-se que ele tivesse o bicho sob seu comando e era isso que, sem convicção, ele tentava demonstrar.
Mas só o que ele demonstrava era o resultado do consumo excessivo de álcool. Para não cair, o domador encostava-se na perna do elefante e parecia se abanar com o chicotinho, ao açoitar impotentemente a barriga do trombudo. Vestia calças – o domador, não o elefante – que um dia foram brancas ou beges, botas surradas e sujas, um colete estampado diretamente sobre as costas sem camisa, e um lenço na cabeça. Serginho achou que era um traje cigano. Talvez fosse uma variação artística, para fugir da roupa tradicional dos domadores de circo, que imitava os uniformes safári dos caçadores brancos dos filmes da década de 1940.
Os motoristas, com os motores desligados já havia algum tempo, deleitavam-se com a inesperada presença. Um taxista exibia seu conhecimento do mundo animal com frases do tipo “os elefantes têm a melhor memória dentre os mamíferos: nunca esquecem” ou “para matar um elefante é preciso atirar em seus olhos, pois não existe bala capaz de perfurar seu couro”. A maioria discutia o peso do bicho. Na média das opiniões, passaria de duas toneladas, talvez até mesmo de três. Serginho olhava de longe, ouvia os comentários, mas não falava nada. Só pensava na força que um animal daquele tamanho devia ter.
E o elefante, como se ouvisse os pensamentos de Serginho – capacidade até o momento não confirmada pela Ciência –, exibiu seu potencial destrutivo. Fez um quarto de volta, no sentido horário, para quem olhasse de cima, e encostou a enorme bunda num Passat estacionado. Foi praticamente um esbarrão, mas causou substancial dano à lataria do carro. Aí o espetáculo mudou de figura. Com a burguesia é assim: vai tudo bem, desde que não mexam no patrimônio. E o bicho amassou um carro, justamente o mais significativo símbolo do status burguês. Tornou-se imediatamente inimigo de todos os proprietários de carros que viam a cena.
Um deles tomou o chicotinho da mão do domador e começou a bater na cara do elefante, como quem repreende um cachorro que mastigou um chinelo. Os demais dividiram-se em três grupos. Uns corriam para seus carros, outros corriam para longe do elefante e o terceiro grupo corria em direção do bicho, agitando os braços para afugentá-lo. A estratégia do último grupo funcionou. O elefante completou a meia volta que havia começado, alinhou-se no sentido correto do trânsito e foi-se embora. Ainda tentou entrar num bar, para se esconder da turba, mas as pessoas que tinham se abrigado no boteco perceberam que o bicho tinha medo de gente e o enxotaram sem dificuldade, apenas gesticulando e gritando. O elefante seguiu seu caminho em direção ao Largo 13 e sumiu de vista. Sem elefante, as coisas foram voltando ao normal.
O trânsito começou a fluir. Serginho entrou no carro, virou a fita do Led Zeppelin que tinha acabado, e rumou para a empresa. Estava feliz, nem tinha percebido quanto tempo ficara entretido com o elefante. Foi a primeira vez que o trânsito atravancado não o deixou irritado. Por isso assustou-se com a irritação do chefe, que esperava por ele na portaria. “Faz mais de uma hora que estou esperando você chegar”, disse Ricardo, zangado. Serginho olhou para o relógio, constatando um atraso de quase duas horas.
Tinha de haver uma boa explicação para a demora. A presença de um elefante na avenida Santo Amaro, porém, não se enquadrava nessa categoria. Era verdade, mas... O chefe olhou sério para Serginho e saiu empurrando o carrinho com o equipamento que tinha de ser consertado. Não tinha tempo para conversar agora. Nem perguntou a Serginho qual era o defeito reclamado pelo cliente.
Serginho fechou o carro e foi para junto dos colegas, que queriam saber que conversa era aquela de elefante na Santo Amaro. Serginho, preocupado com a atitude do chefe, explicou por alto. E se arrependeu imediatamente. A moçada riu, fez gracinhas, e ninguém acreditou. Até que o Guinão, um sujeito sério que Serginho respeitava, falou:
– Meu, você podia dizer que furou um pneu, que o motor morreu e precisou esperar que esfriasse para ligar de novo, ou podia inventar alguma coisa heróica, como socorrer um velhinho que caiu na calçada, levar uma mulher grávida para a maternidade... Tinha de inventar uma porra-louquice dessas? Vá ver a namorada durante o expediente, vá almoçar com ela, mas não invente desculpas malucas não, cara. Isso pode prejudicar sua carreira.
– Mas eu não inventei, Guinão! Tinha um elefante mesmo!
– Ah, Serginho...
Até aquele momento Serginho temia que algo pudesse prejudicar sua carreira. Gostava do trabalho e ia gostar ainda mais quando se tornasse um técnico. Ele tinha até uma promessa de Ricardo. Ficaria alguns meses no atendimento, retirando e entregando os equipamentos dos clientes, e depois aprenderia a consertar e aferir os instrumentos de precisão. Ter a carreira prejudicada pelo elefante não era nada bom. Foi quando chegou o cara da contabilidade com a má notícia:
– Gancho, Sérgio. O Dr. Ricardo falou para você ficar em casa nos próximos três dias, enquanto ele vai pensar no que vai fazer com você.
A má notícia foi concluída com um gesto inusitado do cara da contabilidade, que saiu com a dobra do braço direito encostada no nariz enquanto balançava o antebraço como se fosse uma tromba. Para completar, um dos colegas imitava o bramido de um elefante.
Serginho ficou tão emputecido com os colegas e com a decisão do chefe, que resolveu ir embora imediatamente. Foi para o vestiário para tirar o macacão de serviço e sua raiva aumentou. Alguém tinha pendurado na porta de seu armário um cabide com um guarda-pó cinza dobrado e grampeado para ficar com a forma da cara de um elefante. Uma das mangas ficava escondida e a outra bem no centro do origami, como se fosse uma tromba. Bonito trabalho, completado com olhos desenhados a giz. Mas Serginho não gostou. Atirou longe o cabide, trocou de roupa, pegou tudo que tinha no armário e largou a porta aberta, como se nunca mais fosse voltar à empresa.
Naquele momento, era isso mesmo que pretendia. Nunca mais queria ver a cara daquelas pessoas que não acreditavam que ele tinha visto o elefante. Ora, quem nunca viu um elefante numa avenida? ...
Tinha de admitir que não era uma cena muito comum. Se fosse um elefante acompanhado de um palhaço, um malabarista, um sujeito num monociclo, tudo junto, ainda vai. Seria uma parada de circo, anunciando o espetáculo daquela noite. Mas um elefante sozinho... Sozinho, não. Tinha um domador cigano com ele. Bêbado. Talvez nem fosse domador. Nem cigano. Era apenas um bêbado fantasiado de cigano ao lado de um elefante. Na avenida Santo Amaro. Não era mesmo muito fácil de acreditar. Nem para quem viu.
E Serginho, no ônibus de volta para casa, começava a duvidar de ter presenciado a inusitada cena. Pensava na feijoada que havia comido no almoço. Não era uma grande feijoada, mas feijoada é como sexo: mesmo quando é ruim é bom. Talvez não devesse ter tomado a segunda caipirinha de barriga vazia, antes do rango.
Mas estava boa e era de graça, fazia parte da feijoada, ele tinha de aproveitar. Não, não podia ser a caipirinha. Serginho se entendia bem com as bebidas fortes. Uma caipirinha não fazia mal para ninguém. Duas também não, já que duas vezes zero é zero. Talvez fosse alguma coisa no tempero da feijoada.
Serginho tinha ouvido falar de bolo de maconha, docinhos com sementes de papoula, chá de lírio, cogumelo com leite condensado e outras especialidades da culinária bicho-grilo. Mas sempre achou que feijoada fosse uma comida careta, que precisava da caipirinha antes para dar algum barato. Talvez estivesse enganado. Pode ser que aquela couve refogada contivesse outras ervas. Ou o feijão tenha sido cozido com raízes baratinantes. Até mesmo uns pedaços de cogumelos passariam despercebidos, em meio a tantas extremidades suínas que vinham no feijão – focinho, rabo, orelhas, pés.
Tinha de ser isso. Foi alguma coisa que ele comeu. Podia até ser algum inseto alucinógeno que se suicidara no caldeirão. Um elefante na avenida Santo Amaro era difícil de acreditar, mesmo para quem tinha visto. Ou pensava ter visto. E a dúvida foi crescendo e tomando conta dos pensamentos de Serginho, que por fim tomou a decisão: no dia seguinte voltaria ao local onde pretensamente se dera o fato e o confirmaria ou não. Se houvesse testemunhas, poderia obter um depoimento favorável. Talvez até evitar o bilhete azul. Não, já não queria evitar o bilhete azul. A empresa que fosse para o inferno. Ele só precisava saber para si próprio se vira ou não o elefante.
Maldormido, levantou-se mais cedo que de costume e se apressou a caminho do ponto de ônibus. Não seria a mesma linha de costume, mas sim a Via Dolorosa que o levaria, de condução em condução, até a avenida Santo Amaro, à altura do acontecimento da véspera. O movimento era forte quando chegou. E foi direto ao jornaleiro:
– Bom dia.
– Bom dia.
– O senhor viu um elefante aqui ontem à tarde?
– Não vi não.
– Mas não tinha um elefante ali perto da esquina, que atrapalhou todo o trânsito?
– Olha, moço, o trânsito por aqui fica sempre atrapalhado. Tem muito ônibus, caminhão de gás, caminhão de leite, de cigarro, de cerveja, os tanques que abastecem os postos de gasolina...
– Mas ontem à tarde tinha um elefante ali, não tinha?
– Se você está dizendo...
– Não; estou perguntando. Tinha ou não tinha?
– Não sei, meu! Eu fico o dia todo enterrado nessa porra dessa banca, vejo o mundo todo pelas páginas dos jornais e das revistas, mas não vejo um elefante, se aparecer um ali na esquina, entendeu? Eu não estou aqui para tomar conta do trânsito nem das esquinas. Se você perdeu a merda do seu elefante, pode estar certo de que não está na minha banca, tá? Vá procurar em outro lugar! Dá licença, que tenho mais o que fazer.
A irritação do jornaleiro causou espanto em Serginho. Mas ele próprio estava irritado; talvez tivesse mostrado seu estado de espírito na conversa. Era melhor pegar leve, chegar mais maneiro nas pessoas. E foi assim que se aproximou da mocinha que estava distribuindo panfletos de um nightclub recém-inaugurado nas proximidades. Serginho era bom de conversa com as garotas.
– Oi.
– Oi – disse ela, com um sorriso inesperado. Quem esperaria um sorriso de uma distribuidora de panfletos, sob um sol de rachar, com o barulho infernal do trânsito? Mas ela sorriu. E ele também.
– Você estava aqui ontem? – perguntou Serginho.
– Estava. Desde segunda-feira. Dá licença.
Os carros pararam no sinal vermelho e ela foi distribuir os panfletos, com sorrisos para todos os motoristas. Alguns sorriam também, outros falavam alguma coisa que a fazia sorrir mais e dizer algumas palavras, mas Serginho não podia ouvir da calçada. O sinal abriu e ela voltou à conversa:
– Então, desde segunda-feira. A casa inaugurou na sexta e a gente vem fazer a promoção aqui.
Serginho pegou um dos folhetos, deu uma olhada rápida. Algumas fotos mal impressas de garotas de biquínis, uma de topless, e o convite para “uma noite alucinante de puro prazer, com o primeiro drinque grátis”.
– Legal. Você trabalha lá?
– É. Por enquanto eu sou garçonete, mas estou fazendo curso de dança, dublagem e striptease. Eu danço bem e tenho um corpinho legal, você não acha? Dá licença.
Mais uma vez os carros param no sinal fechado e a moça vai distribuir panfletos e sorrisos. Um dos motoristas pediu que ela autografasse o panfleto ou qualquer coisa assim, porque ela escreveu alguma coisa no papel impresso. O sinal abriu, o motorista de trás buzinou, e ela correu de volta para a calçada.
– Deve ser irritante esse serviço, não? – Perguntou Serginho.
– De garçonete?
– Não; a panfletagem – explicou ele, apontando para o maço de volantes na mão da garota.
– Eu nem sabia que tinha esse nome. Mas é legal. Tem uns caras meio grossos, mas a maioria me trata bem. Dizem que eu sou bonita, que sou gostosa, aquele ali até me pediu o telefone, você não viu?
– Vi.
– Escrevi meu nome dentro de um coração e desenhei uma flecha apontando para o número do telefone que está impresso no volante.
– Tem muito disso?
– Pedir telefone, não. Está impresso, né? Tem umas passadas de mão, tem caras que me pedem um beijinho, essas coisas.
– E você dá?
– Beijinho? Dou, sim, mas só no rosto.
De repente ela ficou nervosa e falou depressa, olhando para os lados:
– Você é repórter? ’Tá gravando, ’tá filmando? Eu sou “de maior”, ’tá?
– Não, não. Fique tranquila. Só estou conversando.
– Ah, tá. É que é difícil conversar assim. Dá licença.
Outra vez o sinal vermelho, os motoristas, os sorrisos, gracejos, grosserias, o de sempre. E o sinal verde.
– Então; é difícil conversar neste abre-fecha de farol. A gente podia se encontrar mais tarde... para conversar, beber alguma coisa...
– Não, eu só queria saber se você viu o elefante ontem.
– Ah, meu. Essa é muito velha. Você enfia as mãos nos bolsos, tira os forros para fora e fala para eu pegar na tromba, não é isso. É uma bobeira, muito sem graça.
– Não, é sério. Ontem à tarde tinha um elefante aqui na avenida, você não viu?
– Ontem à tarde? Ontem foi quarta-feira, dia de ensaio de striptease. Ontem eu só fiz promoção até uma da tarde. Depois fui almoçar e fui para o ensaio. Estou ensaiando um strip com “Stairway to heaven”, conhece?
– A música? Conheço. É do Led Zeppelin. Até toco a introdução no violão.
– Essa eu não dublo porque é voz de homem, só danço e tiro a roupa. Mas é difícil, porque é muito comprida e eu não tenho tanta roupa assim para tirar. Acabo dançando pelada mais de metade da música. Se você quiser posso fazer um strip só para você, com você tocando no violão...
– É. Bem, depois a gente vê isso. Agora preciso achar alguém que tenha visto o elefante. Tchau.
Aproveitando o sinal fechado, Serginho atravessou a avenida. Deu uma olhada para a putinha, que estava no meio dos carros. Ela estava olhando para ele e girando o indicador em torno da orelha. Não entendeu se estava chamando-o de biruta ou se gesticulava para que ele ligasse para ela. No tempo dos telefones de disco, ambos os sinais se confundiam. Mas ela apontou para o panfleto, no qual havia o número do telefone do nightclub. Ele entendeu que era para ligar e fez com a mão um sinal de positivo, apesar de nem saber o nome dela.
Talvez apontar para o panfleto fosse apenas uma desculpa. Ela achava que ele não era muito certo das idéias, mas como ele a viu girando o dedo, ela mostrou o papel, explorando a ambiguidade do gesto. Mais uma olhadinha. Ela estava de costas agora e, mesmo à distância, via-se que tinha um corpinho atraente. Mas não sabia nada do elefante, então não tinha utilidade no momento. O engenheiro Ricardo teria gostado de ouvir isso, pois vivia dizendo para Serginho manter o foco no que tem importância. “Foco, garoto, foco”, dizia com frequência.
O manobrista do salão de beleza foi o próximo entrevistado. O sujeito não estava muito a fim de conversa. Ficava olhando o trânsito. Cada vez que um carro diminuía a velocidade, ele se curvava para tentar ver o motorista. Se fosse uma mulher, ele assumia uma postura de alerta, pronto para correr até o carro, abrir a porta para a freguesa e assumir o volante para estacionar. Não queria se distrair com conversa mole:
– Olha, meu, se o elefante fosse guiado por uma mulher e parasse aqui na frente, eu ia lá e estacionava o bicho. Mas se não parou aqui na frente, eu não vi.
– Mas ele estava ali na esquina.
– Desculpa, cara, eu não vi nada.
– Mas os carros ficaram parados um tempão.
– É, isso é irritante. Às vezes fica engarrafado muito tempo. Mas não adianta a gente querer descobrir o motivo. Deve ser carro demais.
– Não. Ontem era um elefante.
– Ou podia ser um acidente, um caminhão parado, um ônibus quebrado, um atropelamento lá no Pegue-pague. Podia ser qualquer coisa.
– Mas foi um elefante.
– Pode ser. Eu não vi.
Serginho percebeu que não adiantava argumentar. O manobrista só olhava os carros que passavam do lado da avenida onde ficava o salão de beleza. O que ocorresse no outro lado da avenida ou na frente dos imóveis vizinhos não chamava sua atenção, nem que fosse um elefante ao lado de um bebum fantasiado de cigano.
Desacorçoado, Serginho sentou-se num dos poucos bancos da imitação de praça que havia entre a Rua da Paz e a Américo Brasiliense e mergulhou em pensamentos. Se estivesse “bom de grana”, compraria um jornal para tentar se distrair. Quem sabe se parando de pensar no elefante não lhe viria uma boa idéia para encontrar uma testemunha. Talvez estivesse fechando demais o foco no local. De onde o elefante poderia ter vindo? Se descobrisse, iria até lá e perguntaria ao domador alcoólico.
Serginho varreu de memória todos os terrenos em que se armavam circos nas redondezas, mas não havia circo nenhum. Só se não fosse um circo. Talvez o domador fosse um cigano de verdade, daqueles que acampavam perto da ponte do Socorro, ou da João Dias. Talvez o elefante fosse do cigano, do acampamento. Tinha de confirmar isso.
Gastou três passagens de ônibus: uma até a ponte João Dias, outra de volta ao Largo 13 e mais uma até a ponte do Socorro. Nada. Nem sinal dos ciganos. Não havia acampamento, nem sinal de que tivesse havido algum recentemente. O mato estava alto, sem marcas de fogueiras. Serginho enfureceu-se consigo mesmo: “Para que os ciganos iam querer um elefante? Ciganos andam de carro, de caminhão. Vão arrumar um elefante para ter de ficar levando o bicho para cima e para baixo de carona? A troco de quê? Eles não são burros, eu é que sou! Gastei três passagens à toa.”
Estava quase desistindo, pensando voltar para casa, quando se lembrou que o elefante havia tentado entrar num bar. As pessoas que estavam lá o assustaram. O dono do bar devia ter visto alguma coisa.
Mais um ônibus para voltar à avenida Santo Amaro, eufórico com a possibilidade de finalmente encontrar uma testemunha. Desceu num ponto próximo e apressou o passo em direção ao boteco, mas não entrou. Era hora do almoço e o estabelecimento estava cheio. Temia fazer a pergunta sinistra e despertar o riso malvado da freguesia. Tinha de falar com o dono do bar, mas de um modo mais privado. Esperaria até que o movimento caísse.
A angústia da espera é muito pior quando se tem fome. A grana curta, porém, pedia moderação. Não queria gastar seu minguado dinheirinho almoçando em outro bar, porque teria de fazer uma despesa para conquistar a boa vontade do homem do balcão. Tinha de esperar com fome.
Depois que o movimento do almoço terminasse, provavelmente o dono do bar estaria ocupado durante algum tempo, botando ordem na bagunça, e não estaria disposto a manter uma conversa leve sobre elefantes. A melhor estratégia era chegar depois das duas ou duas e meia da tarde. Tinha de esperar a hora certa. E esperou.
Olhava para o relógio a intervalos de menos de cinco minutos, mas não entrou no bar até as duas e meia. Quando pisou na soleira, achou que devia dar mais um tempinho. Mais uma hora, talvez. Mas já estava lá, portanto ia ser agora mesmo. Decisão. Foco e decisão. Ah, sim! O engenheiro Ricardo teria se orgulhado dele. Aquele filho da puta do engenheiro Ricardo, que ia demiti-lo por ter visto um elefante.
Sentou-se, pediu uma coxinha e meia cerveja.
– Tem um molhinho de pimenta?
– Mas é claro! – respondeu alegremente o homem, colocando o vidrinho na frente de Sérgio.
Ótimo, o homem estava bem humorado. O movimento do almoço devia ter sido bom. Serginho optou pela abordagem indireta:
– É verdade que tinha um elefante aí na avenida ontem?
– Ah, é?
– O senhor não viu?
– Não...
– Mas me disseram que ele quase entrou aqui no bar.
– Entra muita gente aqui no bar, graças a Deus – disse o homem, fazendo o sinal da cruz.
– Mas elefante não, né?
– É, elefante eu nunca vi – confirmou, rindo.
Foi nesse momento que Ativo Fixo interveio:
– Eu vi o olifante.
Como o dono do bar tivesse espantado a única testemunha do acontecimento, Serginho engoliu o restante da coxinha, secou o copo de cerveja, pagou e saiu. Precisava encontrar Ativo Fixo.
Alcançou-o com facilidade e o convidou para conversar um pouco num outro bar, um pouco mais adiante. Sentaram-se numa mesinha e Serginho pediu:
– Vê uma loira gelada aí para a gente.
– E um quebra-gelo – completou Ativo Fixo.
O botequineiro colocou dois copinhos de cachaça sobre a mesa.
– O quebra-gelo era só um – disse Serginho olhando para o garçom.
– Não, não – disse Ativo – pode deixar os dois.
Antes que o sujeito voltasse com a cerveja, Ativo Fixo já havia entornado os dois martelinhos de pinga. Quando a loira gelada chegou, Serginho fez questão de servir ele mesmo. Enquanto colocava o precioso líquido no copo de Ativo, perguntou:
– Então, seu Ativo, o senhor viu o elefante ontem?
– É. O olifante. Eu vi.
– Grandão o bicho, né?
– Grande, muito grande. Um rabo muito grande.
Serginho sorriu, imaginando que o bêbado devia achar que a tromba do elefante fosse o rabo do bicho. Conhecia uma piada assim, sobre uma velhinha que telefonou para o delegado dizendo que tinha um porco enorme com dois rabos na horta dela. Era elefante que tinha fugido do circo, como o delegado pensou. E a velhinha descrevia o que o porcão estava fazendo: “ele pegou um pé de alface com o rabo e... ai que horror, seu delegado!”
Mas ele não queria ter lembrado da piada. Tinha de se concentrar no elefante da véspera. Foco, garoto, foco. “Filho da puta”, pensava Serginho. “Vou levar o bebum lá e o filho da puta vai enfiar o bilhete azul no... foco!” Foco, Serginho!
– Fala mais do elefante, seu Ativo.
– O olifante. Muito grande. Rabo grande, boca grande. Muito grande e muito forte, o olifante, rapaz. Eu vi.
– Você viu o estrago que ele fez no Passat.
– É, ha-ha-ha. Ele fez um estrago num Passat, rapaz! Tinha que ver!
– E depois ele foi embora?
– É. Depois ele foi embora.
– O senhor viu para onde ele foi?
– Para onde ele foi?
– Não sei. Mas o senhor viu mesmo, né?
– Claro, rapaz! Não te falei que eu vi? Pois então eu vi.
– Não; é que ninguém daqui de perto viu.
– Chhhh! – fez Ativo com o indicador na frente da boca. E quase cochichando:
– Claro que eles viram! Todo mundo viu. Só não podem falar. Se disserem que viram o elefante, os outros vão falar que eles estavam bêbados. Ou que são loucos! Foi a mesma coisa quando São Jorge passou voando aí na praça, montado no dragão.

• Celso Paraguaçu •