O céu limpou tão depressa ontem que deve ter pego de surpresa um monte de alienígenas. Eles preferem ficar em seus discos voadores observando o movimento e os hábitos dos humanos em dias e noites de céu encoberto. Ao contrário de nós, eles enxergam através das nuvens. Mas quando o céu fica limpo muito rapidamente, como ocorreu, eles são pegos desprevenidos e têm de deixar a atmosfera terrestre rapidinho, para não serem vistos.
Algumas naves tiveram de zarpar na maior velocidade em direção ao espaço profundo, o deep space, como dizem os gringos, pois ficaram a descoberto. Observei uma delas pairando com as luzes apagadas, enquanto o piloto tentava fazer o motor pegar. Acho que o ET se afobou na partida, pisou muito fundo no acelerador, e deixou o motor afogar. E aí não tem jeito. Tem de esperar o carburador secar.
Esses discos voadores mais antigos, com motores aspirados, sempre fazem dessas. E convém apagar as luzes para poupar a bateria. Mas já há poucos desses em órbita, são raridades. Vistosos, coloridos, mas muito pouco eficientes. Só um ou outro ET mais conservador mantém sua velha nave encerada, brilhando. A manutenção dessas antiguidades custa os olhos da cara. E olha que alguns ETs têm vários pares de olhos em cada cara.
Hoje em dia os OVNIs têm propulsores de câmara osmótica diferencial, com diálise intraelementar de propulsão iônica. Não têm mais carburadores de palhetas e diafragmas. E não têm mais aquelas luzinhas piscando como antigamente. Agora é tudo sensorial, neural e dialítico. Qualquer idialien consegue ir para onde quiser.
São muito menores também. As naves, não os aliens. Estes continuam com toda a diversidade de tamanhos e formas que conhecemos e outras que não conhecemos. Algumas naves são tão pequenas que um ET precisa de várias delas para viajar. Por isso há pouca oferta de empregos para pilotos experientes de naves extraterrestres. A era de ouro dos ÓVNIS já era. Acabou o romantismo das gigantescas naves em forma de prato emborcado, de calota de fusquinha ou de pirâmide de base triangular. Era muito mais divertido naquele tempo, não acha?
As naves atuais não têm o menor glamour. São meras coisas, familiares a nós humanos. Já faz tempo que essa onda começou, mas as pessoas demoram a se dar conta do que acontece à sua volta. Quando viram os primeiros discos voadores, estavam presenciando os últimos veículos desse tipo. E o planeta já estava repleto de naves individuais das mais diversas formas, com seus ETs disfarçados de humanos circulando entre as pessoas.
Até mais ou menos a metade do século passado, havia ETs com misteriosos equipamentos andando pelos parques em São Paulo. Diziam-se vendedores de refresco, de chá gelado com limão. Circulavam entre as pessoas, cantando seus pregões, quase invisíveis. Mas registravam de perto os rostos, as formas, as roupas, as falas e os hábitos.
Tudo que viam, sentiam e ouviam ficava registrado no tambor, que chamavam de bomba. Sons, cores, expressões, movimentos, usos e costumes, tudo era gravado. A bomba era também a nave individual. Quando os parques fechavam, os ETs usavam os tambores como transporte para as naves-mães. Lá, as informações registradas eram descarregadas no sistema central de armazenamento, e as bombas ficavam prontas para receber novos dados. Eram reabastecidas com chá gelado, para serem novamente utilizadas no dia seguinte.
No Rio de Janeiro, até poucos anos atrás, esse sistema era comum nas praias. Conquanto sobreviva em algumas delas, trata-se de uma modalidade anacrônica de aquisição de informações. Atualmente é utilizada apenas por velhos ETs avessos ao uso de novas tecnologias. Ou que apreciam o visual das bundinhas na praia.
Enquanto as bombas de chá gelado estavam em pleno uso, quase um século atrás, já surgiam os pipoqueiros em frente aos cinemas, circos e parques de diversão. Todos usavam carrinhos iguais, com uma parte de vidro na qual ficavam as pipocas e uma área onde havia um fogareiro sob uma panela preta com uma manivela na tampa.
Parece que ninguém se perguntava por que todos os carrinhos de pipoca eram iguais. Não podia ter um com o fogareiro e a panela na frente? Ou separados do carrinho? Se o propósito fosse apenas o de vender pipocas, poderia. Mas não havia. Assim como não havia nenhum com a panela branca, limpa.
Todo mundo pensava que a manivela servia para mexer as pipocas, mas a finalidade era outra. Era um sistema de transmissão de dados online. Os carrinhos de pipoca não usavam mais dispositivos de armazenamento de informações; absorviam-nas e as transmitiam online, diretamente para seus planetas, pelo transmissor giratório, que para os humanos parecia uma panela suja com uma manivela em cima. Os carrinhos eram seu veículo individual de transporte.
Os “vendedores de algodão-doce” usavam praticamente o mesmo sistema. Usei aspas, porque a mim não enganam. O transmissor era parecido com o dos “pipoqueiros”, mas tinha uma sofisticação mecânica: em vez de manivela, usavam um sistema com pedais, com o que conseguiam uma velocidade muito maior, ou seja, transmitiam em frequências mais elevadas. E o transdutor não era mais preto e ensebado; era de alumínio brilhante.
Não é só na Terra que a tecnologia se desenvolve em grandes saltos. Em outros mundos tem ocorrido o mesmo. Ou você pensa que esses caras com aspecto de nordestino empurrando carrinhos de mão são realmente vendedores de mandioca? Todos usam um carrinho semelhante aos os usados na construção civil. Ninguém tem uma carriola de madeira, ou um carrinho de supermercado. Tem de ser desses de chapa de aço. Claro que se trata de outra modalidade de transporte individual, com um sistema de aquisição e transmissão de dados online.
É fácil perceber que há transmissão direta do carrinho para o planeta alienígena. Observe que o carrinho tem uma forma muito adequada para ser um concentrador de sinais voltado para o céu, como se fosse uma antena parabólica. Muito melhor do que o teto dos carrinhos de pipoca, que parecia um telhado de duas águas. Aquilo funcionava mais como dispersor do que como concentrador de sinais.
Creio que o novo sistema tem um dispositivo de redundância: os dados capturados são também armazenados nas cascas das raízes. Pode observar que os “vendedores” fazem questão de tirar a casca antes de colocar as raízes na sacolinha. Eles descascam as mandiocas com uma facilidade que nós, terráqueos, jamais teríamos. Isso porque sabem exatamente onde colocar a faca para desprender facilmente o dispositivo pelicular de armazenamento que chamamos de casca. A mim não enganam, mesmo que imitem o sotaque sertanejo do Nordeste.
Quem compra leva somente as raízes brancas. As “cascas” são armazenadas até a confirmação do sinal recebido. Se a transmissão online for satisfatória, as cascas vão para o lixo. Mas se houver alguma falha, retransmitem as informações armazenadas nos dispositivos peliculares. Essa é a redundância do sistema, muito recomendada em termos de segurança.
Os vendedores de mandioca em carrinhos-de-mão são ETs, como também o eram os pipoqueiros e os vendedores de chá gelado. Os médicos e enfermeiros aqui da instituição concordam plenamente comigo. Os poucos pacientes que discordam eu não levo a sério. São uns malucos.
O querido amigo Nivaldo requereu nossa expertise de restauranteur com a seguinte consulta:
“Estou pensando em tirar proveito comercial de meus dotes culinários, mediante a abertura de um bar/restaurante intitulado Miojerie – a Casa do Miojo. Só miojo elaborado nos mais diversos tipos de molhos. Haverá também o serviço de Miojo Delivery. Solicito sugestões.” Depois de profunda análise do mercado e da personalidade do Nivaldo, nos dispomos a responder a sua consulta.
>>>> Caro Nivaldo Uma miojerie tem tudo a ver com você, que é francamente francófilo, capaz de recitar em francês as fábulas de La Fontaine, com rima e em alta velocidade. Advirto, contudo, que não acredito no modelo delivery para essa especialidade. É que a massa continua sob cozimento no trajeto até a casa do freguês, perdendo o ponto al dente cariado. E você não vai querer comprometer o prato, oferecendo a massa fora do ponto.
O estabelecimento precisa ter mesas, nas quais as pessoas possam saborear as iguarias. Mas nada de fast food. Resista à tentação de fazer um “Miojo in the Box” ou um “MacArroni’s”. Sua proposta se encaixa com perfeição num local elegante, para o público adulto recém-chegado ao extrato consumidor da sociedade.
Seria muito adequado um ambiente parisiense antigo, um típico bistrô anterior à Segunda Guerra, antes da contaminação cultural americana. O nome pode ser Chez Miojo, La Cave du Miojo ou algo em francês que remeta à especialidade culinária da casa. Chez Nini ou La Petite Casserole, por exemplo, soam bem, mas não dizem qual é a comida. A menos que seja Chez Nini Miojerie. Pode ser.
Com a música, porém, você terá dificuldade. O ambiente sugere música ao vivo, mas a moderna música francesa soa como americana ou berbere. Tais sons são incompatíveis com a finesse do ambiente. No entanto a música francesa mais antiga não pode mais ser tocada. Não por faltarem bons músicos, mas sim porque não se fabrica mais aquela cansativa sanfoninha deles. O que há de mais parecido é a concertina, a sanfona de oito baixos que ainda se toca no Nordeste. Mas essa serve. Aliás, parece mesmo ser muito adequada à nouvelle cuisine du miojô. Em vez de la balade ou la valse, teremos baião, coco e arrasta-pé, ou le bayon, le coco, le traine-pied. Naturalmente, você fará os mais deliciosos pratos franceses adaptados ao gosto e ao poder aquisitivo do consumidor brasileiro. Assim, os cariocas poderão degustar seu excelente miojo au haricot noir, em vez do macarrão com feijão-preto que costumam comer em casa.
O restaurante terá nome e aspecto francês, mas a cozinha será internacional e inovadora, bem ao seu estilo. Outra sugestão de prato é o miojo com molho madeira. O molho é de preparo simples, bastando juntar numa casserole um pouco de água, uns cubos de caldo Kitano (mais barato que os demais) e vinho Chapinha de mesa tinto seco, que também será servido na refeição. Para dar o sabor amadeirado, colocam-se no molho algumas lascas de eucalipto, que são retiradas antes de servir. No lugar de champignons, sugiro uns toletes de macaxeira, para promover a aculturação culinária.
Pratos tradicionais de outras cozinhas européias não podem ser esquecidos. E, naturalmente, com o sabor exclusivo da cozinha brasileira. Assim o miojo al aglio e olio será feito com minúsculos dentinhos de alho chinês, muito pequenos para tirar a película. São fritos com película e tudo, no óleo de soja, cujo aroma é inigualável.
Da culinária alemã você trará as saucisses, para um delicioso molho feito à base de salsicha de metro (aquela pintada de vermelho, que em alguns mercados é vendida por quilo, como salsicha a granel) e massa de tomate Arisco. Conhecido como macarrão com “salchicha”, o prato tem grande aceitação junto ao público brasileiro. E certamente ganhará um novo relevo com seu modo de preparar e um nome francês. Talvez chamar as saucisses de sauchiches seja uma boa ideia: miojo avec des sauchiches.
O ponto, ou seja, o local onde instalar a miojerie, é de extrema importância. Os bistrôs parisienses que o cinema gravou em nossa memória ficavam às margens do Sena ou perto do Bois de Boulogne. Não temos um rio tão bonito, nem um bosque parecido, mas você pode montar um simpático bistrozinho à beira do Tamanduateí ou com vista para a Fazenda do Carmo, na Zona Leste. Seria o sonho de incontáveis consumidores recém-chegados ao mercado.
Vejo as mães que vêm buscar seus filhos na escola municipal aqui perto de casa. Enfiam um pacote de “salgadinho” nas mãos das crianças, para irem enchendo o bucho, porque a janta vai demorar para sair. Se houvesse uma miojerie na beira do corguinho da rua de baixo, certamente elas prefeririam oferecer aos petizes um nutritivo miojô avec des sauchiches em vez de entupi-los com essa coisa de isopor com cheiro de chulé.
E nos fins de semana? Esses consumidores não têm aonde ir. Não se sentem à vontade nos shopping centers. Mas lá por perto, tudo bem. Pois ao lado do Shopping SP Market existe um córrego com barrancos cobertos de capim. É o ponto ideal para instalar um trailer da Chez Nivaldo Miojerie. Existem outros trailers, mas são meros botecos; nenhum tem a elegância, a finesse, de uma miojerie.
Em termos comerciais, o ponto c’est ci bon, pois fica em frente à gare Jurubatuba, da CPTM. Em frente à gare, ao lado do shopping center, com vista para o córrego e, o que é melhor, muito próximo do local em que o padre Marcelo faz seu espetáculo religioso aos domingos. Já pensou que fome têm às dez da manhã aquela montanha de fiéis? São milhares deles, ungidos com a água benta lançada com uma brocha, cansados de ficar em pé desde as quatro da manhã e alimentados apenas com um pedacinho do corpo de Cristo. Para o espírito, o alimento pode ser suficiente, mas o corpo pede um miojo avec aile de poule en fricot. O ensopado de asa de galinha dá um molho culturalmente bem aceito no Brasil e remete aos anjos, que são bípedes alados, como os frangos. Os fregueses do padre Marcelo certamente se tornarão seus fregueses também.
Mais ainda. Depois das dez da manhã, quando os bizantinos fiéis do Padre Marcelo vão para casa, chegam os frequentadores da feira-livre montada dois quarteirões acima. Sabendo da existência da miojerie, provavelmente abrirão mão do pastel de ração canina que comem atualmente antes de ir embora. Ninguém em sã consciência trocaria a cozinha internacional com inspiração francesa pela culinária popular chinesa.
Você não pode esperar que o corguinho tenha um aroma agradável. O cheiro é forte e ruim, mas ajuda a compor o clima da miojerie. Remete ao odor da Paris de duzentos anos atrás. E você vai concordar que não há muita diferença entre o cheiro de esgoto do corguinho e o aroma do miojo.
Estou certo de que a miojerie será um sucesso, mas uma questão ainda me preocupa. É que se os chineses inventaram o macarrão, os japoneses inventaram o miojo, que é um spaghetini pixaim. O problema é que no Brasil o pixaim está em baixa. Talvez seja preciso você aplicar a famosa chapinha no miojo antes de preparar os pratos. Vai ficar com aspecto de macarrão espichado, como fica o cabelo das moças, mas elas acharão que está lindo.
Naturalmente essa preocupação estética se refere exclusivamente ao público feminino. Homem come de qualquer jeito, seja liso, pixaim ou com “escova progressiva”. Se a moça tiver uma boa culinária é o que basta.
– Eu vi o olifante.
Serginho girou tão depressa no banquinho do balcão que quase caiu. A mão firme do dono do bar segurou-o pelo ombro. O homem girou-o de volta e disse:
– Não dá bola não. Esse aí vê de tudo. – disse o botequineiro com um leve sotaque de Trás-os-Montes.
Serginho queria ouvir o que o sujeito tinha a dizer, mas o homem do balcão explicou, enquanto passava o pano úmido sobre o mármore:
– Esse aí é o Ativo Fixo. O pessoal dos escritórios que vem tomar uma no fim da tarde deu esse apelido. Eles dizem que ele faz parte do equipamento do bar. Alguns conversam com ele, brincam, pagam uma pinga e fica por isso mesmo. Ele faz qualquer coisa para começar uma conversa e pedir ao outro que lhe pague uma dose para molhar as palavras.
Como Serginho ainda parecesse disposto a ouvir o etilista, o dono do bar empunhou sua autoridade de proprietário e levantou a voz em direção ao bebum da casa:
– Vai dormir, ó Ativo, e deixa o freguês em paz. Volta mais tarde, quando o pessoal dos escritórios chegar.
O bêbado levantou-se lentamente, resmungando, e sumiu de vista.
– Onde ele dorme? – perguntou Serginho.
– Agora não sei. De noite é por aí. Costuma aparecer depois do almoço e vai ficando até a hora de fechar. Às vezes me pede para dormir aqui dentro, mas não deixo. Isto não é albergue de bêbado. Acho que ele dorme no albergue da prefeitura. Tem um perto do Largo 13, deve ser lá. Quando comprei o bar ele já fazia parte da paisagem, vinha todas as tardes. Nos primeiros dias, tentei afastá-lo, mas depois percebi que os fregueses da noitinha gostam dele, fazem piadas, brincadeiras. Se divertem, ele e o pessoal. E é bom para o negócio.
– Ninguém faz maldades com ele?
– Não! São só brincadeiras, piadas, coisas que as pessoas que trabalham em escritório precisam fazer para aliviar a tensão. Eu tenho um acordo com o Ativo, que ele nunca descumpriu: pode frequentar a casa, mas não pode falar palavrões nem fazer gracejos para as mulheres que entram no bar ou passam na calçada. Não está no acordo, mas também não gosto que ele venha conversar com fregueses novos.
– É, deu para notar.
– Tem gente que pode até se assustar.
– Ele não parece assustador.
– É, mas sabe como é... Tem gente que não gosta.
– Bem, vou andando.
– Não quer tomar mais uma cervejinha?
– Não, preciso ir mesmo.
– Volte sempre, a casa é sua. E olha, se tivesse visto o elefante, eu falava. Mas não vi mesmo.
• • • • •
Serginho não dormira bem. Sonhava com o elefante, com o chefe, com os colegas rindo dele, com o eventual bilhete azul. Na hora que a coisa aconteceu, foi até divertido. Mas quando teve de explicar na empresa o motivo do atraso, o mundo veio abaixo.
O engenheiro Ricardo, o chefe, estava esperando por ele na porta. Dizia que o cliente já tinha ligado duas vezes para saber das condições do instrumento que mandara consertar e Sérgio ainda não tinha chegado na empresa com o aparelho pifado. O tempo de demora seria suficiente para os técnicos saberem o que havia de errado com o equipamento; talvez até para consertar.
Enquanto Serginho abria o porta-malas para pegar o aparelho do cliente, o chefe continuava expondo o motivo de sua irritação:
– O cara nem pediu o orçamento, só quer saber se dá para a gente consertar ainda hoje. E nós ainda nem vimos a cara do equipamento! E esse é o único no Brasil. Não tem como emprestar outro para o cara ir trabalhando enquanto consertamos esse. É único. Vem da Rússia, leva mais de um ano para se conseguir importar um troço desses. Que aconteceu para você demorar tanto?
– É que tinha um elefante na Av. Santo Amaro e o trânsito...
– Elefante? Na Santo Amaro?
O espanto de Ricardo fez com que falasse tão alto que até os técnicos das bancadas levantaram os olhos para ver o que acontecia. Sem falar dos caras da aferição, da Dona Ondina, secretária, do cara da contabilidade, da recepcionista. Até dona Neusa, que fazia café e faxina, olhou assustada. Um elefante na Santo Amaro deixa todo mundo curioso.
• • • • •
Serginho também ficara curioso quando viu o bicho, da mesma forma que os outros motoristas. O trânsito parou, lá pelas duas da tarde, horário em que dificilmente havia congestionamento naquele tempo. Serginho tentou ver alguma coisa, mas só enxergava uma aglomeração a alguma distância.
Devia ser uma batida, o que se resolvia facilmente, a menos que houvesse agressão física. Aí viria a polícia, com poder para baixar o cacete em ambas as partes. E até de levar os motoristas para a delegacia, deixando os carros batidos atrapalhando o trânsito. Não havia nada que Serginho pudesse fazer. Era esperar e relaxar, ouvindo Led Zeppelin no toca-fitas. Naquele tempo, 1985, ouvir Led Zeppelin no toca-fitas era a melhor coisa que se podia fazer. Hoje há coisas muito melhores, como ouvir Led Zeppelin num tocador de MP3.
Serginho observou que muitos motoristas começavam a sair dos carros, olhando para os lados da aglomeração. Ele também saiu e então viu o elefante. Cinza, enorme, cheio de rugas e de barro, parado ali na Avenida Santo Amaro, na contramão, balançando a tromba como se regesse uma valsa.
As pessoas se admiravam, apontavam, conversavam baixinho com medo de atrair a atenção do bicho, mas o animal não dava a mínima. Ao seu lado, uma espécie de domador tentava fustigá-lo com um ridículo chicotinho que nem fazia cócegas no paquiderme. As chicotadas indolentes denotavam uma ação meramente formal. Esperava-se que ele tivesse o bicho sob seu comando e era isso que, sem convicção, ele tentava demonstrar.
Mas só o que ele demonstrava era o resultado do consumo excessivo de álcool. Para não cair, o domador encostava-se na perna do elefante e parecia se abanar com o chicotinho, ao açoitar impotentemente a barriga do trombudo. Vestia calças – o domador, não o elefante – que um dia foram brancas ou beges, botas surradas e sujas, um colete estampado diretamente sobre as costas sem camisa, e um lenço na cabeça. Serginho achou que era um traje cigano. Talvez fosse uma variação artística, para fugir da roupa tradicional dos domadores de circo, que imitava os uniformes safári dos caçadores brancos dos filmes da década de 1940.
Os motoristas, com os motores desligados já havia algum tempo, deleitavam-se com a inesperada presença. Um taxista exibia seu conhecimento do mundo animal com frases do tipo “os elefantes têm a melhor memória dentre os mamíferos: nunca esquecem” ou “para matar um elefante é preciso atirar em seus olhos, pois não existe bala capaz de perfurar seu couro”. A maioria discutia o peso do bicho. Na média das opiniões, passaria de duas toneladas, talvez até mesmo de três. Serginho olhava de longe, ouvia os comentários, mas não falava nada. Só pensava na força que um animal daquele tamanho devia ter.
E o elefante, como se ouvisse os pensamentos de Serginho – capacidade até o momento não confirmada pela Ciência –, exibiu seu potencial destrutivo. Fez um quarto de volta, no sentido horário, para quem olhasse de cima, e encostou a enorme bunda num Passat estacionado. Foi praticamente um esbarrão, mas causou substancial dano à lataria do carro. Aí o espetáculo mudou de figura. Com a burguesia é assim: vai tudo bem, desde que não mexam no patrimônio. E o bicho amassou um carro, justamente o mais significativo símbolo do status burguês. Tornou-se imediatamente inimigo de todos os proprietários de carros que viam a cena.
Um deles tomou o chicotinho da mão do domador e começou a bater na cara do elefante, como quem repreende um cachorro que mastigou um chinelo. Os demais dividiram-se em três grupos. Uns corriam para seus carros, outros corriam para longe do elefante e o terceiro grupo corria em direção do bicho, agitando os braços para afugentá-lo. A estratégia do último grupo funcionou. O elefante completou a meia volta que havia começado, alinhou-se no sentido correto do trânsito e foi-se embora. Ainda tentou entrar num bar, para se esconder da turba, mas as pessoas que tinham se abrigado no boteco perceberam que o bicho tinha medo de gente e o enxotaram sem dificuldade, apenas gesticulando e gritando. O elefante seguiu seu caminho em direção ao Largo 13 e sumiu de vista. Sem elefante, as coisas foram voltando ao normal.
O trânsito começou a fluir. Serginho entrou no carro, virou a fita do Led Zeppelin que tinha acabado, e rumou para a empresa. Estava feliz, nem tinha percebido quanto tempo ficara entretido com o elefante. Foi a primeira vez que o trânsito atravancado não o deixou irritado. Por isso assustou-se com a irritação do chefe, que esperava por ele na portaria. “Faz mais de uma hora que estou esperando você chegar”, disse Ricardo, zangado. Serginho olhou para o relógio, constatando um atraso de quase duas horas.
Tinha de haver uma boa explicação para a demora. A presença de um elefante na avenida Santo Amaro, porém, não se enquadrava nessa categoria. Era verdade, mas... O chefe olhou sério para Serginho e saiu empurrando o carrinho com o equipamento que tinha de ser consertado. Não tinha tempo para conversar agora. Nem perguntou a Serginho qual era o defeito reclamado pelo cliente.
Serginho fechou o carro e foi para junto dos colegas, que queriam saber que conversa era aquela de elefante na Santo Amaro. Serginho, preocupado com a atitude do chefe, explicou por alto. E se arrependeu imediatamente. A moçada riu, fez gracinhas, e ninguém acreditou. Até que o Guinão, um sujeito sério que Serginho respeitava, falou:
– Meu, você podia dizer que furou um pneu, que o motor morreu e precisou esperar que esfriasse para ligar de novo, ou podia inventar alguma coisa heróica, como socorrer um velhinho que caiu na calçada, levar uma mulher grávida para a maternidade... Tinha de inventar uma porra-louquice dessas? Vá ver a namorada durante o expediente, vá almoçar com ela, mas não invente desculpas malucas não, cara. Isso pode prejudicar sua carreira.
– Mas eu não inventei, Guinão! Tinha um elefante mesmo!
– Ah, Serginho...
Até aquele momento Serginho temia que algo pudesse prejudicar sua carreira. Gostava do trabalho e ia gostar ainda mais quando se tornasse um técnico. Ele tinha até uma promessa de Ricardo. Ficaria alguns meses no atendimento, retirando e entregando os equipamentos dos clientes, e depois aprenderia a consertar e aferir os instrumentos de precisão. Ter a carreira prejudicada pelo elefante não era nada bom. Foi quando chegou o cara da contabilidade com a má notícia:
– Gancho, Sérgio. O Dr. Ricardo falou para você ficar em casa nos próximos três dias, enquanto ele vai pensar no que vai fazer com você.
A má notícia foi concluída com um gesto inusitado do cara da contabilidade, que saiu com a dobra do braço direito encostada no nariz enquanto balançava o antebraço como se fosse uma tromba. Para completar, um dos colegas imitava o bramido de um elefante.
Serginho ficou tão emputecido com os colegas e com a decisão do chefe, que resolveu ir embora imediatamente. Foi para o vestiário para tirar o macacão de serviço e sua raiva aumentou. Alguém tinha pendurado na porta de seu armário um cabide com um guarda-pó cinza dobrado e grampeado para ficar com a forma da cara de um elefante. Uma das mangas ficava escondida e a outra bem no centro do origami, como se fosse uma tromba. Bonito trabalho, completado com olhos desenhados a giz. Mas Serginho não gostou. Atirou longe o cabide, trocou de roupa, pegou tudo que tinha no armário e largou a porta aberta, como se nunca mais fosse voltar à empresa.
Naquele momento, era isso mesmo que pretendia. Nunca mais queria ver a cara daquelas pessoas que não acreditavam que ele tinha visto o elefante. Ora, quem nunca viu um elefante numa avenida? ...
Tinha de admitir que não era uma cena muito comum. Se fosse um elefante acompanhado de um palhaço, um malabarista, um sujeito num monociclo, tudo junto, ainda vai. Seria uma parada de circo, anunciando o espetáculo daquela noite. Mas um elefante sozinho... Sozinho, não. Tinha um domador cigano com ele. Bêbado. Talvez nem fosse domador. Nem cigano. Era apenas um bêbado fantasiado de cigano ao lado de um elefante. Na avenida Santo Amaro. Não era mesmo muito fácil de acreditar. Nem para quem viu.
E Serginho, no ônibus de volta para casa, começava a duvidar de ter presenciado a inusitada cena. Pensava na feijoada que havia comido no almoço. Não era uma grande feijoada, mas feijoada é como sexo: mesmo quando é ruim é bom. Talvez não devesse ter tomado a segunda caipirinha de barriga vazia, antes do rango.
Mas estava boa e era de graça, fazia parte da feijoada, ele tinha de aproveitar. Não, não podia ser a caipirinha. Serginho se entendia bem com as bebidas fortes. Uma caipirinha não fazia mal para ninguém. Duas também não, já que duas vezes zero é zero. Talvez fosse alguma coisa no tempero da feijoada.
Serginho tinha ouvido falar de bolo de maconha, docinhos com sementes de papoula, chá de lírio, cogumelo com leite condensado e outras especialidades da culinária bicho-grilo. Mas sempre achou que feijoada fosse uma comida careta, que precisava da caipirinha antes para dar algum barato. Talvez estivesse enganado. Pode ser que aquela couve refogada contivesse outras ervas. Ou o feijão tenha sido cozido com raízes baratinantes. Até mesmo uns pedaços de cogumelos passariam despercebidos, em meio a tantas extremidades suínas que vinham no feijão – focinho, rabo, orelhas, pés.
Tinha de ser isso. Foi alguma coisa que ele comeu. Podia até ser algum inseto alucinógeno que se suicidara no caldeirão. Um elefante na avenida Santo Amaro era difícil de acreditar, mesmo para quem tinha visto. Ou pensava ter visto. E a dúvida foi crescendo e tomando conta dos pensamentos de Serginho, que por fim tomou a decisão: no dia seguinte voltaria ao local onde pretensamente se dera o fato e o confirmaria ou não. Se houvesse testemunhas, poderia obter um depoimento favorável. Talvez até evitar o bilhete azul. Não, já não queria evitar o bilhete azul. A empresa que fosse para o inferno. Ele só precisava saber para si próprio se vira ou não o elefante.
Maldormido, levantou-se mais cedo que de costume e se apressou a caminho do ponto de ônibus. Não seria a mesma linha de costume, mas sim a Via Dolorosa que o levaria, de condução em condução, até a avenida Santo Amaro, à altura do acontecimento da véspera. O movimento era forte quando chegou. E foi direto ao jornaleiro:
– Bom dia.
– Bom dia.
– O senhor viu um elefante aqui ontem à tarde?
– Não vi não.
– Mas não tinha um elefante ali perto da esquina, que atrapalhou todo o trânsito?
– Olha, moço, o trânsito por aqui fica sempre atrapalhado. Tem muito ônibus, caminhão de gás, caminhão de leite, de cigarro, de cerveja, os tanques que abastecem os postos de gasolina...
– Mas ontem à tarde tinha um elefante ali, não tinha?
– Se você está dizendo...
– Não; estou perguntando. Tinha ou não tinha?
– Não sei, meu! Eu fico o dia todo enterrado nessa porra dessa banca, vejo o mundo todo pelas páginas dos jornais e das revistas, mas não vejo um elefante, se aparecer um ali na esquina, entendeu? Eu não estou aqui para tomar conta do trânsito nem das esquinas. Se você perdeu a merda do seu elefante, pode estar certo de que não está na minha banca, tá? Vá procurar em outro lugar! Dá licença, que tenho mais o que fazer.
A irritação do jornaleiro causou espanto em Serginho. Mas ele próprio estava irritado; talvez tivesse mostrado seu estado de espírito na conversa. Era melhor pegar leve, chegar mais maneiro nas pessoas. E foi assim que se aproximou da mocinha que estava distribuindo panfletos de um nightclub recém-inaugurado nas proximidades. Serginho era bom de conversa com as garotas.
– Oi.
– Oi – disse ela, com um sorriso inesperado. Quem esperaria um sorriso de uma distribuidora de panfletos, sob um sol de rachar, com o barulho infernal do trânsito? Mas ela sorriu. E ele também.
– Você estava aqui ontem? – perguntou Serginho.
– Estava. Desde segunda-feira. Dá licença.
Os carros pararam no sinal vermelho e ela foi distribuir os panfletos, com sorrisos para todos os motoristas. Alguns sorriam também, outros falavam alguma coisa que a fazia sorrir mais e dizer algumas palavras, mas Serginho não podia ouvir da calçada. O sinal abriu e ela voltou à conversa:
– Então, desde segunda-feira. A casa inaugurou na sexta e a gente vem fazer a promoção aqui.
Serginho pegou um dos folhetos, deu uma olhada rápida. Algumas fotos mal impressas de garotas de biquínis, uma de topless, e o convite para “uma noite alucinante de puro prazer, com o primeiro drinque grátis”.
– Legal. Você trabalha lá?
– É. Por enquanto eu sou garçonete, mas estou fazendo curso de dança, dublagem e striptease. Eu danço bem e tenho um corpinho legal, você não acha? Dá licença.
Mais uma vez os carros param no sinal fechado e a moça vai distribuir panfletos e sorrisos. Um dos motoristas pediu que ela autografasse o panfleto ou qualquer coisa assim, porque ela escreveu alguma coisa no papel impresso. O sinal abriu, o motorista de trás buzinou, e ela correu de volta para a calçada.
– Deve ser irritante esse serviço, não? – Perguntou Serginho.
– De garçonete?
– Não; a panfletagem – explicou ele, apontando para o maço de volantes na mão da garota.
– Eu nem sabia que tinha esse nome. Mas é legal. Tem uns caras meio grossos, mas a maioria me trata bem. Dizem que eu sou bonita, que sou gostosa, aquele ali até me pediu o telefone, você não viu?
– Vi.
– Escrevi meu nome dentro de um coração e desenhei uma flecha apontando para o número do telefone que está impresso no volante.
– Tem muito disso?
– Pedir telefone, não. Está impresso, né? Tem umas passadas de mão, tem caras que me pedem um beijinho, essas coisas.
– E você dá?
– Beijinho? Dou, sim, mas só no rosto.
De repente ela ficou nervosa e falou depressa, olhando para os lados:
– Você é repórter? ’Tá gravando, ’tá filmando? Eu sou “de maior”, ’tá?
– Não, não. Fique tranquila. Só estou conversando.
– Ah, tá. É que é difícil conversar assim. Dá licença.
Outra vez o sinal vermelho, os motoristas, os sorrisos, gracejos, grosserias, o de sempre. E o sinal verde.
– Então; é difícil conversar neste abre-fecha de farol. A gente podia se encontrar mais tarde... para conversar, beber alguma coisa...
– Não, eu só queria saber se você viu o elefante ontem.
– Ah, meu. Essa é muito velha. Você enfia as mãos nos bolsos, tira os forros para fora e fala para eu pegar na tromba, não é isso. É uma bobeira, muito sem graça.
– Não, é sério. Ontem à tarde tinha um elefante aqui na avenida, você não viu?
– Ontem à tarde? Ontem foi quarta-feira, dia de ensaio de striptease. Ontem eu só fiz promoção até uma da tarde. Depois fui almoçar e fui para o ensaio. Estou ensaiando um strip com “Stairway to heaven”, conhece?
– A música? Conheço. É do Led Zeppelin. Até toco a introdução no violão.
– Essa eu não dublo porque é voz de homem, só danço e tiro a roupa. Mas é difícil, porque é muito comprida e eu não tenho tanta roupa assim para tirar. Acabo dançando pelada mais de metade da música. Se você quiser posso fazer um strip só para você, com você tocando no violão...
– É. Bem, depois a gente vê isso. Agora preciso achar alguém que tenha visto o elefante. Tchau.
Aproveitando o sinal fechado, Serginho atravessou a avenida. Deu uma olhada para a putinha, que estava no meio dos carros. Ela estava olhando para ele e girando o indicador em torno da orelha. Não entendeu se estava chamando-o de biruta ou se gesticulava para que ele ligasse para ela. No tempo dos telefones de disco, ambos os sinais se confundiam. Mas ela apontou para o panfleto, no qual havia o número do telefone do nightclub. Ele entendeu que era para ligar e fez com a mão um sinal de positivo, apesar de nem saber o nome dela.
Talvez apontar para o panfleto fosse apenas uma desculpa. Ela achava que ele não era muito certo das idéias, mas como ele a viu girando o dedo, ela mostrou o papel, explorando a ambiguidade do gesto. Mais uma olhadinha. Ela estava de costas agora e, mesmo à distância, via-se que tinha um corpinho atraente. Mas não sabia nada do elefante, então não tinha utilidade no momento. O engenheiro Ricardo teria gostado de ouvir isso, pois vivia dizendo para Serginho manter o foco no que tem importância. “Foco, garoto, foco”, dizia com frequência.
O manobrista do salão de beleza foi o próximo entrevistado. O sujeito não estava muito a fim de conversa. Ficava olhando o trânsito. Cada vez que um carro diminuía a velocidade, ele se curvava para tentar ver o motorista. Se fosse uma mulher, ele assumia uma postura de alerta, pronto para correr até o carro, abrir a porta para a freguesa e assumir o volante para estacionar. Não queria se distrair com conversa mole:
– Olha, meu, se o elefante fosse guiado por uma mulher e parasse aqui na frente, eu ia lá e estacionava o bicho. Mas se não parou aqui na frente, eu não vi.
– Mas ele estava ali na esquina.
– Desculpa, cara, eu não vi nada.
– Mas os carros ficaram parados um tempão.
– É, isso é irritante. Às vezes fica engarrafado muito tempo. Mas não adianta a gente querer descobrir o motivo. Deve ser carro demais.
– Não. Ontem era um elefante.
– Ou podia ser um acidente, um caminhão parado, um ônibus quebrado, um atropelamento lá no Pegue-pague. Podia ser qualquer coisa.
– Mas foi um elefante.
– Pode ser. Eu não vi.
Serginho percebeu que não adiantava argumentar. O manobrista só olhava os carros que passavam do lado da avenida onde ficava o salão de beleza. O que ocorresse no outro lado da avenida ou na frente dos imóveis vizinhos não chamava sua atenção, nem que fosse um elefante ao lado de um bebum fantasiado de cigano.
Desacorçoado, Serginho sentou-se num dos poucos bancos da imitação de praça que havia entre a Rua da Paz e a Américo Brasiliense e mergulhou em pensamentos. Se estivesse “bom de grana”, compraria um jornal para tentar se distrair. Quem sabe se parando de pensar no elefante não lhe viria uma boa idéia para encontrar uma testemunha. Talvez estivesse fechando demais o foco no local. De onde o elefante poderia ter vindo? Se descobrisse, iria até lá e perguntaria ao domador alcoólico.
Serginho varreu de memória todos os terrenos em que se armavam circos nas redondezas, mas não havia circo nenhum. Só se não fosse um circo. Talvez o domador fosse um cigano de verdade, daqueles que acampavam perto da ponte do Socorro, ou da João Dias. Talvez o elefante fosse do cigano, do acampamento. Tinha de confirmar isso.
Gastou três passagens de ônibus: uma até a ponte João Dias, outra de volta ao Largo 13 e mais uma até a ponte do Socorro. Nada. Nem sinal dos ciganos. Não havia acampamento, nem sinal de que tivesse havido algum recentemente. O mato estava alto, sem marcas de fogueiras. Serginho enfureceu-se consigo mesmo: “Para que os ciganos iam querer um elefante? Ciganos andam de carro, de caminhão. Vão arrumar um elefante para ter de ficar levando o bicho para cima e para baixo de carona? A troco de quê? Eles não são burros, eu é que sou! Gastei três passagens à toa.”
Estava quase desistindo, pensando voltar para casa, quando se lembrou que o elefante havia tentado entrar num bar. As pessoas que estavam lá o assustaram. O dono do bar devia ter visto alguma coisa.
Mais um ônibus para voltar à avenida Santo Amaro, eufórico com a possibilidade de finalmente encontrar uma testemunha. Desceu num ponto próximo e apressou o passo em direção ao boteco, mas não entrou. Era hora do almoço e o estabelecimento estava cheio. Temia fazer a pergunta sinistra e despertar o riso malvado da freguesia. Tinha de falar com o dono do bar, mas de um modo mais privado. Esperaria até que o movimento caísse.
A angústia da espera é muito pior quando se tem fome. A grana curta, porém, pedia moderação. Não queria gastar seu minguado dinheirinho almoçando em outro bar, porque teria de fazer uma despesa para conquistar a boa vontade do homem do balcão. Tinha de esperar com fome.
Depois que o movimento do almoço terminasse, provavelmente o dono do bar estaria ocupado durante algum tempo, botando ordem na bagunça, e não estaria disposto a manter uma conversa leve sobre elefantes. A melhor estratégia era chegar depois das duas ou duas e meia da tarde. Tinha de esperar a hora certa. E esperou.
Olhava para o relógio a intervalos de menos de cinco minutos, mas não entrou no bar até as duas e meia. Quando pisou na soleira, achou que devia dar mais um tempinho. Mais uma hora, talvez. Mas já estava lá, portanto ia ser agora mesmo. Decisão. Foco e decisão. Ah, sim! O engenheiro Ricardo teria se orgulhado dele. Aquele filho da puta do engenheiro Ricardo, que ia demiti-lo por ter visto um elefante.
Sentou-se, pediu uma coxinha e meia cerveja.
– Tem um molhinho de pimenta?
– Mas é claro! – respondeu alegremente o homem, colocando o vidrinho na frente de Sérgio.
Ótimo, o homem estava bem humorado. O movimento do almoço devia ter sido bom. Serginho optou pela abordagem indireta:
– É verdade que tinha um elefante aí na avenida ontem?
– Ah, é?
– O senhor não viu?
– Não...
– Mas me disseram que ele quase entrou aqui no bar.
– Entra muita gente aqui no bar, graças a Deus – disse o homem, fazendo o sinal da cruz.
– Mas elefante não, né?
– É, elefante eu nunca vi – confirmou, rindo.
Foi nesse momento que Ativo Fixo interveio:
– Eu vi o olifante.
Como o dono do bar tivesse espantado a única testemunha do acontecimento, Serginho engoliu o restante da coxinha, secou o copo de cerveja, pagou e saiu. Precisava encontrar Ativo Fixo.
Alcançou-o com facilidade e o convidou para conversar um pouco num outro bar, um pouco mais adiante. Sentaram-se numa mesinha e Serginho pediu:
– Vê uma loira gelada aí para a gente.
– E um quebra-gelo – completou Ativo Fixo.
O botequineiro colocou dois copinhos de cachaça sobre a mesa.
– O quebra-gelo era só um – disse Serginho olhando para o garçom.
– Não, não – disse Ativo – pode deixar os dois.
Antes que o sujeito voltasse com a cerveja, Ativo Fixo já havia entornado os dois martelinhos de pinga. Quando a loira gelada chegou, Serginho fez questão de servir ele mesmo. Enquanto colocava o precioso líquido no copo de Ativo, perguntou:
– Então, seu Ativo, o senhor viu o elefante ontem?
– É. O olifante. Eu vi.
– Grandão o bicho, né?
– Grande, muito grande. Um rabo muito grande.
Serginho sorriu, imaginando que o bêbado devia achar que a tromba do elefante fosse o rabo do bicho. Conhecia uma piada assim, sobre uma velhinha que telefonou para o delegado dizendo que tinha um porco enorme com dois rabos na horta dela. Era elefante que tinha fugido do circo, como o delegado pensou. E a velhinha descrevia o que o porcão estava fazendo: “ele pegou um pé de alface com o rabo e... ai que horror, seu delegado!”
Mas ele não queria ter lembrado da piada. Tinha de se concentrar no elefante da véspera. Foco, garoto, foco. “Filho da puta”, pensava Serginho. “Vou levar o bebum lá e o filho da puta vai enfiar o bilhete azul no... foco!” Foco, Serginho!
– Fala mais do elefante, seu Ativo.
– O olifante. Muito grande. Rabo grande, boca grande. Muito grande e muito forte, o olifante, rapaz. Eu vi.
– Você viu o estrago que ele fez no Passat.
– É, ha-ha-ha. Ele fez um estrago num Passat, rapaz! Tinha que ver!
– E depois ele foi embora?
– É. Depois ele foi embora.
– O senhor viu para onde ele foi?
– Para onde ele foi?
– Não sei. Mas o senhor viu mesmo, né?
– Claro, rapaz! Não te falei que eu vi? Pois então eu vi.
– Não; é que ninguém daqui de perto viu.
– Chhhh! – fez Ativo com o indicador na frente da boca. E quase cochichando:
– Claro que eles viram! Todo mundo viu. Só não podem falar. Se disserem que viram o elefante, os outros vão falar que eles estavam bêbados. Ou que são loucos! Foi a mesma coisa quando São Jorge passou voando aí na praça, montado no dragão.
Quando a umidade começou a incomodar, Otávio percebeu que já não estava tão assombrado. A decepção fora gigantesca, a ponto de lhe turvar a vista e quase fazê-lo desmaiar. Mas já se estava acostumando com a dor, já sentia o desconforto do muro frio em que se encostara.
Levantou-se e caminhou pelas sombras até o portão, abriu-o silenciosamente e tomou o caminho que, minutos antes, havia percorrido com alegria e preocupação. Era melhor voltar.
Por entre as sombras da noite, ia pensando na intensidade das emoções que explodiram naquele dia. O assalto, a morte, o necrotério, a vida, a alegria, a perturbação do espírito. Não entendia como ainda estava vivo, como o coração agüentara, como as veias não estouraram. Estava vivo.
Melhor que não estivesse. A tristeza de ter ouvido a mulher dizer aquilo só não foi maior do que o efeito causado pela declaração da filha.
— Eu tinha me resignado, mãe — ouviu Dirce dizer. — Se tivesse forças, teria me separado de Otávio há anos. Não foi por causa das crianças não, mãe. É que eu já não tinha mais forças mesmo. Não ia conseguir refazer minha vida... Sim, Otávio era um bom homem. Só isso, um bom homem. Era honesto, trabalhador... Calmo, eu não sei se era. Nunca se alterou em casa, nunca levantou a voz. No máximo, ia dormir sem palavra. Mas ele era triste, mãe. Não tinha alegria. Quase vinte anos de casamento e nunca vi o Otávio rir. Sorriso, só uma vez, na fotografia do casamento, depois nunca mais. Nem antes. Não era brabo, não era sisudo, era triste. Uma tristeza contagiosa. Não, nunca reclamou de nada. Nem de comida ruim. Deus me perdoe, mãe, mas cheguei a fazer sopa sem sal para ver se ele esbravejava, se fazia algum comentário. Nada! Nem mesmo pediu sal para pôr no prato. Tomou a sopa sem sal e não disse palavra. Parecia que nem sentia o gosto. Não sei se tinha alguma dor, nunca falou nada. Talvez tivesse alguma coisa, mas nunca disse um ai. Nunca, nada.
Otávio tinha vindo cuidadosamente observar como estava a situação em casa quando ouviu a voz lamentosa da mulher. Ela não chorava; lamentava-se da vida miserável, não da morte do marido. Ele sabia agora que sua morte tinha sido um alívio para ela. Nunca imaginara que seu jeito reservado causasse tanto desagrado à mulher.
Esperava encontrar a casa cheia de amigos e parentes. Viriam dar os pêsames a Dirce, saber se precisava de alguma coisa, dizer que se precisasse era só falar. Mas não. A mãe dela na cozinha, a mãe dele no quarto, com a menina, e só. Nem o sogro viera. Nem o cunhado. Amigos, não tinha. Talvez alguma vizinha tenha vindo mais cedo, durante o dia. Mas à noite, quando ele chegou, só a mãe dele e a mãe dela.
Ele não sabia que significava tão pouco para Dirce, só tristeza. Julgava-se um bom marido, raramente deixava faltar alguma coisa em casa, e se nunca atendeu um capricho da mulher foi porque ela nunca expressou desejo algum. Sempre foi reservada, como ele. Era o que ele pensava. Mas não era reservada, era triste.
E a menina...
— Sabe, vó — ele ouviu, do lado de fora, a triste voz da filha, enquanto digeria as duras palavras de Dirce, que ainda ecoavam em sua cabeça agora vazia. — Pelo menos agora vou poder usar roupas escuras na escola — dizia a menina. — Acho que quando a gente está de luto pode ir de roupa preta, cinza, não precisa usar uniforme, né? Não posso dizer para a senhora que não gostava dele. Mas também não digo que gostava. Não, eu não vou sentir falta. Tanto faz. Quase nem percebia quando ele estava aqui. Às vezes me fazia um afago na cabeça, mas eu não gostava. Não me lembro de um dia alegre na minha vida, vó, nenhum dia. Tinha natal, aniversário, mas não tinha alegria. Só nós três. Depois veio o Nenê. Acho que é por isso que o Nenê não fala. O pai também não falava, nem a mãe. Na escola eu falo. Se alguém me pergunta alguma coisa eu respondo. Mas não puxo conversa com ninguém não. Agora acho que vão conversar menos comigo, porque estou de luto.
Otávio sentiu as pernas afrouxarem e encostou-se no muro úmido para não cair. E lá ficou, pensando, pensando, até que a umidade começou a incomodar. Agora Otávio iniciava a autocrítica. Não devia mesmo ter sido um bom pai, porque nem mesmo sabe o que significa ser pai. As crianças nasceram, com bom intervalo entre as duas, e só. Ele passou a ser pai delas. Realmente não era dado a carinhos. E nunca precisou repreender a menina, sempre tão reservada. O menino ainda era muito pequeno, só quatro anos.
O que ele sentiu quando ouviu as duas conversas é que tinha se preocupado à toa no caminho entre o necrotério e a casa. Acordara de repente, em cima de uma mesa gelada, e não reconhecera o lugar em que estava. Depois, aos poucos, foi se dando conta da situação. Estava no necrotério. Deviam ter pensado que ele estava morto. Era melhor sair dali antes que chegasse o patologista e lhe cortasse o corpo em busca da causa mortis. Sim, a causa mortis. Morrera de quê? Quer dizer, não estava morto, mas que teria acontecido com ele?
Aos poucos veio-lhe a lembrança de ter encontrado um assaltante dentro da loja, quando abriu a porta pela manhã. O susto foi enorme e ele não se lembrava de mais nada. Teria sido baleado? Apalpou-se, mas não sentiu nada, nenhuma dor nem sinais de sangue na roupa. Só nesse momento percebeu que estava vestido. Será que foi um ataque do coração? Mas estava vivo, e não sentia dor. Será que não haveria autópsia? Iam mandá-lo diretamente para a funerária? Ou será que a funerária preparava os cadáveres no necrotério mesmo? Otávio não sabia. Nunca teve interesse nesse assunto. Aliás, nem nesse nem em nenhum outro. Só sabia que estava vivo.
Saiu do necrotério esgueirando-se, aproveitando a escuridão da noite sem lua, e foi para casa a pé. Andava rente às paredes, temendo encontrar algum conhecido. Precisava dizer a Dirce que estava vivo. Quando ouvia vozes, escondia-se atrás do tronco de uma árvore, de uma banca de jornais, de um carro, até que as pessoas passassem. Temia que o vissem, como se estivesse sendo procurado por assassinos. Enquanto estava escondido, pensava em como avisar a mulher sem lhe causar um susto fatal. Ela não acreditava em espíritos, fantasmas, ele achava. Mas podia morrer com o sobressalto de vê-lo em pé na porta.
Imaginava encontrá-la aos prantos, abraçada com a filha também desfeita em lágrimas, rodeadas ambas pelos parentes, amigos e vizinhos. Deveria haver alguém com quem pudesse falar, em vez de aparecer na porta de repente. O sogro, talvez. Ou o cunhado. Não pareciam ter medo de assombração. Ele poderia explicar que estava vivo, e o parente entraria na casa, irradiando alegria e dizendo: “Gente, o Otávio não morreu! Ele está vivo e vem vindo para casa!”
Seria uma alegria imensa, ele imaginava. Uma alegria como nunca houvera naquela casa. Mas agora, pelas palavras da mulher e da filha, ele se dava conta de que naquela casa jamais houve alegria mesmo. É. A decisão estava certa. Faltava pouco, agora.
Otávio atravessou a rua e entrou às escondidas novamente no necrotério. Ouviu vozes, talvez um pouco alteradas, uma discussão, e achou que o assunto podia ser o seu sumiço. Mas na sala em que estivera, tudo estava calmo e na penumbra. Deitou-se outra vez na mesma mesa fria de antes, cruzou as mãos, fechou os olhos e morreu.
— Ah, não, meu. Vamos pôr para cima esse espírito guerreiro.
— Não enche, tá?
— Qual é, Jorjão? Ainda estamos no comecinho do quarto minguante, praticamente lua cheia. Não tem razão para você ficar assim.
— Tem, sim, Drão. Eu perdi tudo.
— Perdeu o quê? Olha toda esta lua, só para nós e aquele seu pangaré. Tem um pouco de lixo que os astronautas deixaram, as bandeirinhas, uns pedaços de lata, aquele jipinho ridículo, mas tem espaço à vontade para nós.
— Não é isso, Drão, é que sou um fracasso, não percebe?
— Você? Quem fracassou fui eu. Quem levou aquela espetada de lança fui eu. Você foi o cara que matou o dragão, virou herói e depois santo, lembra? Eu perdi, você ganhou.
— Você não entende, Drão. Eu perdi a devoção das pessoas. Para um santo, a devoção é tudo; quando perde isso, não tem mais nada. Eu era popular, talvez o mais popular de todos, todo mundo gostava de mim. Até no candomblé eu tinha lugar de honra. Mas as pessoas agora desconfiam de mim.
— Isso é frescura de prima-dona, Jorjão. Nunca ninguém gostou de mim e nunca senti falta disso.
— Então, cara! Você não perdeu porque que nunca teve. Na verdade, até que você é querido atualmente. Tá cheio de filmes, desenhos animados japoneses e jogos eletrônicos em que o herói é um dragão. Ou pelo menos o dragão ajuda o herói.
— Pois agora quem está ficando pra baixo sou eu. Sempre em segundo plano, sempre coadjuvante, nunca o ator principal.
— Mas são histórias humanas, Drão. O herói tem de ser humano, não pode ser o dragão.
— É. Mas você também não tem do que reclamar. Está aí chorando de barriga cheia.
— Como barriga cheia? Eu fui cassado, esqueceu? O papa disse que eu era uma lenda e não podia ser santo. Cassou minha carteirinha! A minha, a do Cristóvão e de mais uns três ou quatro.
—A sua carteirinha já lhe foi restituída. Você recuperou o status de santo. Foi cassado, mas o Vaticano voltou atrás. Desde quando o papa manda mais que um santo?
— Ah, Drão, santo não manda nada. O papa sim. Ele faz leis, éditos, manda e desmanda. Nós, no máximo, fazemos um ou outro milagrezinho.
— Milagrezinho? Você chama de milagrezinho? Você não se lembra do Viola, do Vampeta, do Biro-Biro? E mesmo assim o Timão ganhava um jogo ou outro! Isso não era milagrezinho, não! Era um milagre mesmo! E dos grandes!
— É por isso que estou triste, Drão. Deixaram cair minha imagem em plena procissão do meu dia, lá no Parque. Voou caco para todo lado. Eles não me respeitam mais, perderam a devoção. Acho que foi porque no ano passado não consegui evitar o rebaixamento.
— Também, com aquele time, acho que nem o Nazareno ia conseguir.
— Não brinca, Drão, que Ele pode não gostar.
— É, foi mal. — e, olhando para cima, — Desculpa aí, Chefia! Mas Jorjão, no candomblé a moçada ainda faz muita festa para você.
— Isso é verdade.
— A torcida do Timão ainda te curte muito.
— Bem, eles ainda acendem muita vela...
— E você continua sendo o santo oficial de Portugal e da Inglaterra.
— Portugal, tudo bem, mas na Inglaterra eu já não sei. Os súditos até gostam de mim, mas acho que já não sou mais o santo oficial. Antes a rapaziada gritava “Por São Jorge e pelo Rei” e fincava a espada nos inimigos. Isso até deve ter pesado contra mim, sabia? Como é que um santo podia ajudar o invasor, que vinha roubar riquezas e matar pessoas? Eu não favorecia, você lembra. A gente ficava só vendo a briga, sem beneficiar ninguém. Teve até aquela vez na Zululândia, lembra? Foi triste, fizeram até filme. Os zulus dizimaram o exército britânico. Um massacre!
—Aquela vez foi demais! Não ficou um casaca vermelha vivo, uau! Os zulus deram o maior pau no Império Britânico! Foi da hora, mó legal!
— Você vê que a gente nem torcia pelo mesmo lado. Como é que eu podia ajudar alguém, se você era contra?
— Ah, espera aí, meu! Ninguém pedia minha proteção não. Mesmo porque, eu perdi a luta. Não se pede ajuda de um vencido. Os guligans chamavam o seu nome.
—Evocavam meu nome e passavam os inimigos a fio de espada. Isso pode ter pegado mal, pode ter influenciado o papa, quando ele resolveu me cassar. Eu fiquei arrasado, reduzido a subnitrato de pó de traque. Sabia que mudaram os santos das igrejas antes dedicadas a São Jorge? Tinha uma pequenininha de que eu gostava, bem pobrezinha, que passou a ser de Santa Isabel. Só porque o bairro se chamava Vila Isabel. Já imaginou? Trocaram um bravo guerreiro, como eu...
— Vai devagar, Jorjão. Nem tão bravo assim, hein? Eu tava lá tomando um solzinho, de barriga para cima, você chegou de repente, montado no pangaré, e nem tive tempo de me virar. Você me fincou a lança na goela. Doeu, viu? Ainda dói um pouquinho, quando o tempo esfria.
— Desculpe, Drão, mas eu tinha de fazer isso. Estavam dizendo que você ia comer a princesa.
— E você acreditou? O que esse povo faz de fofoca não está escrito! Cê acha que eu ia comer aquela coisinha magricela, descarnada? Só servia para palitar os dentes. Você não me conhece mesmo. Eu gosto de mulheres mais substanciosas, Jorjão. Com mais carne. Essas magricelinhas, para mim, são verdadeiros dragões.
—Eram outros tempos, aqueles, Drão. Eu era muito jovem, entusiasmado, ia no embalo da torcida. Nem precisava ter princesa na parada. Se a moçada gritava “Mata!”, eu matava mesmo.
— Ahã, desde que o dragãozinho estivesse de barriguinha para cima, tirando um cochilo ao sol...
— Eu já te pedi desculpas mil vezes, né? Não te conhecia, não sabia que você era gente boa.
— É, foi chegando e enfiando a lança... matar primeiro e perguntar depois, tipo tropa de elite.
— Ah, Drão, naquele tempo era assim. Não tinha essa coisa de direitos humanos.
— Draconianos, Jorjão. Direitos draconianos.
— Olha, acho bobagem a gente ficar discutindo isso outra vez. Aquele papa disse que nossa luta nunca aconteceu, que era uma lenda. É isso que somos, Drão, apenas lenda.
— Nós, quem, cara pálida? Eu sempre fui lenda. Pode ser novidade para você, mas eu nunca existi de fato. No passado uns chineses encontraram uns fósseis de dinossauros alados e chamaram aquilo de esqueletos de dragões. Nunca viram um dragão, mas se o esqueleto existia, os animais deviam existir também. Tem lógica, só que não existiam os dragões cujas feições eles criavam. Inventaram uma infinidade de dragões que podiam ter usado aqueles esqueletos. Só que os esqueletos eram de répteis alados extintos.
— É duro, né? Eu também fui rebaixado a lenda, ainda menos real do que você, porque nem tenho um esqueleto que faça supor minha existência. Foi o que o papa disse, uma lenda.
— Mas é o que eu estou te dizendo, Jorjão. Isso já foi consertado, você recuperou seu status de santo.
— É que fiquei magoado...
— Sei...
— E o povo perdeu a fé em mim... Não é mais como antes...
— Deixa disso, boneca. Seus admiradores continuam rezando em seu nome, fazendo promessas e oferendas. Você continua com a bola toda, Jorjão. Chama lá o pangaré e vai buscar sua lança que eu já vou me deitar aqui de barriguinha para cima. Está quase na hora da Lua surgir lá na Terra. The show must go on.
Em julho ou agosto deste ano entrará em operação o Large Hadron Collider, ou simplesmente LHC, como é conhecido entre os físicos. O LHC, que faz parte do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern, na sigla em francês), está instalado em um túnel circular de 27 km de extensão escavado a 100 metros da superfície, em média.
Escavar o túnel deve ter dado uma dor de cabeça danada. A freguesa já imaginou o tamanho do compasso necessário para desenhar um círculo de 27 km de extensão? O raio do tal túnel tem, segundo meus cálculos, quase 4.300 metros. Quem seria capaz de fazer girar esse compassão? E como é que os caras fizeram para traçar o risquinho do compasso 100 m abaixo da superfície? Os engenheiros tiveram de relembrar todas aqueles contas que aprenderam a fazer no cursinho.
Dá para imaginar a cena. Ao lado do operador do tatuzão, a máquina inventada para fazer túneis, vai o engenheiro, usando um daqueles ridículos capacetes de plástico colorido. Tem nas mãos uma pranchetinha de plástico que já vem com calculadora, fabricada na China e comprada no camelô da esquina. De vez em quando, ele faz umas contas, manda parar a máquina, se afasta um pouco, verifica a bússola e diz:
— Mais para a direita um pouquinho, Severino.
Passa um tempinho, ele manda parar a máquina de novo, refaz os cálculos e diz: “Para a esquerda agora, mas não muito.” Severino, como bom trabalhador de obra, obedece sem discutir, mas já percebeu que não vai dar; o fim do túnel não vai coincidir com o começo. Dois dias depois, o engenheiro chega meio sem jeito:
— Severino, vamos ter de voltar uns três quilômetros. Naquele ponto em que você virou um pouquinho para a direita era para ir em frente. E fique de olho no nível, senão a gente sai acima ou abaixo do ponto inicial.
Na cerimônia de visitação do túnel, em 6 de abril passado, ninguém falou quantos inícios errados de espirais foram feitos, caracóis para fora e para dentro do círculo, para cima e para baixo. Foram muitos, certamente. Mas finalmente conseguiram fazer as duas pontas se encontrarem. E aí encheram o túnel de tubos de vidro, de peças de metais variados e muitos quilômetros de fios.
Todo esse trabalho tem uma justificativa. Os físicos querem compreender melhor a Natureza. Farão com que alguns prótons se choquem, cada um vindo de um lado do túnel quase à velocidade da luz e sem freio, para que se dividam em seus componentes fundamentais, os quarks e bósons, partículas responsáveis por três das quatro forças da natureza: eletromagnetismo, atração nuclear forte e atração nuclear fraca. São estas que mantêm os quarks reunidos em porções maiores de matéria, como os prótons. Também permitem que os prótons fiquem grudadinhos, mesmo tendo todos carga positiva. A quarta força é a gravitacional. Os cientistas acham que a força gravitacional fica de fora nesses experimentos. Não fica, mas eles pensam que fica, os tolinhos. O tal do bóson, que explicaria muita coisa, nem se sabe se existe mesmo. Mas os maluc... os físicos esperam detectá-lo no LHC.
A freguesa não precisa se preocupar com as trombadas dos prótons. Nem mesmo se tiver algum parente na Suíça que ganhe a vida prosaicamente, criando meia dúzia de vaquinhas leiteiras nalgum vale 100 metros acima do grande túnel. Não haverá cogumelos atômicos jogando as vacas para o ar. Os choques de partículas não produzirão energia suficiente nem para acender um cigarro. O que, aliás, é proibido no LHC.
Ao compreender melhor os fenômenos físicos da Natureza, os cientistas darão consistência a certas teorias, como o Modelo Padrão. Teoria é uma explicação para um determinado fenômeno. Não passa de uma hipótese, que precisa ser comprovada para ser universalmente aceita e virar Lei da Física. Quando Einstein disse que a luz era desviada por corpos de grande massa (os de pequena massa também a desviam, mas seria mais difícil constatar nestes), foi preciso esperar por um eclipse total do Sol para comprovar se a teoria estava certa ou não. Estava, antes que a freguesa me pergunte.
Conhecer as forças atuantes na Natureza tem muita utilidade. Quando a freguesa deixou cair acidentalmente aquele horrível vaso de porcelana que ganhou da sogra, o que fez, fisicamente, foi expor a pavorosa peça à ação da força da gravidade. O vaso não caiu; foi atraído pela grande massa do Planeta Terra. Ao chegar ao chão houve um choque de forças, a da gravidade contra a da superfície, exercida em igual intensidade, porém em sentido contrário, como explicou Newton. O resultado do choque interferiu nas forças que mantinham coesas as partículas que constituíam o vaso, causando a fragmentação do objeto. Em outras palavras, aquela coisa horrorosa espatifou-se.
Mas o ímã de geladeira com o telefone da distribuidora clandestina de gás de cozinha não cai. Fica grudado como se tivesse algum tipo de adesivo. É a força eletromagnética que o mantém lá, superando a ação da gravidade. A freguesa poderia perguntar de onde vem o “eletro”, se o cartãozinho não tem pilha. A resposta é simples: eletricidade e magnetismo são forças complementares, uma gera a outra. Um ímã é puramente magnético apenas quando está parado. Ao se movimentar, induz uma corrente elétrica em qualquer condutor que esteja por perto. Como no Universo nada está parado, salvo as obras públicas que não dão voto, o ímã de geladeira também é eletromagnético.
Está, pois, explicado o envolvimento de quase 10 mil físicos, dentre os quais 68 brasileiros, e o investimento de quase 9 bilhões de dólares desde 1993 na construção do LHC. Em poucos anos a Ciência permitirá o desenvolvimento de novas tecnologias que propiciarão o aperfeiçoamento dos ímãs de geladeira.
— O próximo! — gritou o centurião. O soldado se aproxima, trazendo pelo braço um velho malvestido, como costumavam se vestir os judeus pobres daquele tempo.
— Então, judeu, você estava na catacumba?
— Não. E também não sou judeu, sou da Samaria.
— Não? Então não devia estar aqui. Isto é o interrogatório das pessoas que foram capturadas nas catacumbas na noite passada.
— Eu já estou preso há muito tempo.
O centurião nem quis saber por que o velho estava preso. Os romanos costumavam encarcerar pessoas sem dizer a razão. Provavelmente o velho também ignorava seu delito, mas sabia que se apanhava menos ficando preso sem chiar. Ademais, depois de um duro dia de interrogatórios, o centurião estava irritado. Vários de seus companheiros de farda se haviam convertido à nova religião depois de perseguir e interrogar subversivos que se reuniam em catacumbas. Estava virando moda a nova religião.
O monoteísmo era mais prático, bem ao gosto dos pragmáticos romanos. Foram eles, por exemplo, que transformaram os enrolados pergaminhos em livros. Em vez de desenrolar seis ou sete metros de pergaminho, bastava folhear até a página vinte. Eles também institucionalizaram o sistema decimal, a começar por seus exércitos, que eram divididos em centúrias – cem soldados – e estas em decúrias.
Mas na hora de fazer sacrifícios religiosos, precisavam saber qual era o deus adequado a suas intenções. Se fizessem um sacrifício para o deus errado, podiam acabar apaixonados pelo inimigo. O monoteísmo era muito mais prático. Endereçava-se o sacrifício a um único deus e este se incumbia de providenciar a ajuda mais conveniente. E vinha se disseminando a idéia de pequenos sacrifíciozinhos semanais em vez de grandes e eventuais hecatombes. Era o conceito de prestação semanal que os judeus introduziam em Roma.
Mas o centurião não queria abraçar o monoteísmo só pela moda. Precisava de uma razão mais forte. Estava disposto a ser convertido, mas não dava sorte com os interrogados. Não era a primeira vez que passava o dia fazendo perguntas aos catacumbeiros. Argumentos convincentes, porém, jamais lhe foram apresentados. Todos contavam histórias que tinham ouvido. Ninguém presenciara milagre algum, ninguém jamais tinha ouvido pessoalmente o tal Cristo, ninguém o havia conhecido. Não havia nada de sólido para alicerçar sua possível conversão ao monoteísmo. Além disso, estava cansado e queria ir embora logo.
— Soldado! Leve este homem daqui. E traga o próximo que estava nas catacumbas!
— Ele é o último. O decurião mandou que eu o trouxesse. Disse que deveria lhe interessar.
— Leve-o de volta. Estou aqui para interrogar os subversivos das catacumbas. Este velho não estava entre eles.
— Mas centurião, não posso levá-lo antes que o senhor fale com ele. Foi o que disse o decurião.
— Ninguém pode servir a dois senhores. — comentou o velho em voz baixa.
— Hein? — perguntou o centurião.
— Ele disse que ninguém pode...
— Calado, soldado!
— ... servir a dois senhores.
— Foi isso, velho?
— Sim. O moço disse isso uma vez. O respeito à hierarquia é um bom princípio de administração. E o respeito tem de se dar de cima para baixo também. Nem mesmo o chefe da guarda do palácio pode dar uma ordem a um escravo de César. O escravo de César só deve obediência a César.
— Esse moço de que você fala era romano? Um soldado?
— Ah, não, era um civil, nascido em Belém, na Judéia. Boa pessoa. Fazia cada uma!
— E se chamava Jesus?
— Esse mesmo, filho de José, o carpinteiro. Conhece?
— Então você é um desses que se reúnem nas catacumbas!
— Não, eu sou só um prisioneiro. Aqueles caras que freqüentam as catacumbas se dizem seguidores das idéias de Jesus, que eles chamam o Nazareno, mas nem o conheceram.
— E você o conheceu, suponho... — ironizou o centurião.
— Sim, nos bons tempos.
— Bons tempos?
— É, eu era jovem. Foi em Caná, ele ainda não era um líder das massas. Estava com a mãe, Dona Maria, os irmãos e alguns amigos. Era um sujeito divertido. Estávamos num casamento, bela festa, mas com mais convidados do que vinho. Quando o vinho acabou, a mãe do moço foi falar com ele. Pois acredita que ele transformou água em vinho? Água em vinho! Fiquei pasmo! E era vinho bom, muito bom. Posso dizer porque conheço um pouco de vinhos e bebi daquele. Muito bom mesmo.
— Você diria que presenciou um milagre?
— Não, era vinho mesmo! Muito bom. Quando a festa acabou, o moço foi para Cafarnaum, com a mãe, os irmãos e os amigos. Eu fui atrás. Os judeus não gostam que os samaritas andem com eles, então eu ia a uma certa distância. E comecei a seguir a turma dele. Queria estar por perto quando ele fizesse aquilo de novo, transformar água em vinho. Eu não era apóstolo, como ele chamava os mais chegados, nem era discípulo. Só andava por perto. Sempre tinha muita gente em volta dele, buscando cura para cegueira, aleijões, lepra, possessões demoníacas. Ele curava tudo isso sem receitar um chazinho, uma erva, nada. Simplesmente dizia: “Está curado”, assim como quem acaba de consertar uma sandália ou costurar uma roupa rasgada. Ou então: “Tua fé te curou”. E os aleijados saíam andando, os cegos começavam a ver, os leprosos saravam, até mortos ressuscitavam. Ia juntando cada vez mais gente, mas ele foi perdendo a alegria, foi ficando muito sério, só falava de fé, de reino de Deus, essas coisas. Ainda continuei andando atrás da turma durante um bom tempo. Mas o moço perdeu a alegria e eu parei de acompanhá-los.
— E você viu tantos milagres, ouviu as palavras de Jesus e não se converteu a essa nova religião?
— Olha, para falar a verdade não dava para ouvir direito não. Geralmente quando ele começava a falar para a multidão tinha muito barulho. Havia muitas crianças, rindo e gritando, cabras e ovelhas berrando, cachorros latindo, mães e pastores ralhando, gente chorando, outros clamando para que o moço os ajudasse. A gente não conseguia ouvir praticamente nada do que ele falava. E eu achava essas grandes reuniões muito chatas, então me afastava e ficava olhando de longe. Só voltava para perto da turma quando a massa tinha ido embora.
— Mas viu muitos milagres, não viu?
— Se você quer chamar de milagres, vi sim, inúmeros.
— E não ficou impressionado?
— É, o moço era bom mesmo. O que ele curava de gente estragada não era mole. Mas o que eu gostava mais era quando ele fazia o vento parar de soprar, o céu ficar claro em plena tempestade, ou quando alimentava multidões com uma cesta de pães e uns poucos peixes. Mas ele foi ficando triste... Dever ter sido excesso de trabalho. E eu acabei me afastando.
— Só porque ele ficou triste?
— É. Durante mais de dois anos eu andei atrás da turma. Ele esteve com os amigos no mar da Galiléia, no rio Jordão, e eu por perto, com minha canequinha presa no cinto. Estava preparado para o dia em que ele transformasse água em vinho outra vez. Não faltou oportunidade. Quando comecei a desconfiar que ele nunca mais faria isso, caí fora.
— Soldado! Leve este pau-d’água de volta para a prisão!
— Fiz um no ano passado e ’tava tudo bem. Isso é igual carteira de motorista, só tem de renovar de cinco em cinco anos.
— Mas não é para ver o coração, é outra coisa... Sua cabeça. Não está muito bem e pode ser o mal de Alzheimer.
— Você está delirando! Eu nunca escapei marcha!
— É, mas ontem, quando eu falava com a Ana Cláudia, você veio com uma conversa totalmente sem propósito. Pode ser um sinal do mal de Alzheimer e é bom ver isso logo, pois se pegar no começo o tratamento funciona.
— Conversa sem propósito? Vocês duas nem me deixam abrir a boca quando estão de prosa!
— É conversa de mulher, você não entende.
— O que vocês conversam de nível tão alto que eu não consigo entender?
— Muitas coisas. Ontem, por exemplo, estávamos falando de sinais; dos sinais que aparecem na vida da gente e nem sempre se sabe interpretar. Ela acredita nos sinais, mas acha que são as forças do universo que os põem à nossa vista. Eu acho que é Deus. A Lúcia tem certeza de que são os astros.
— A Lúcia não vale. Ela é pirada.
— Não é não. Ela é astróloga. E muito boa. Você devia respeitar mais sua filha.
— Eu respeito. Mas acho que ela é piradinha. Veja a Ana Cláudia: ainda é quase uma menina, mas tem a cabeça no lugar, sabe o que quer da vida...
— E vai se casar.
— Então... Quem? Quem vai se casar, a Aninha? Você está louca?
— Vai para a Alemanha e vai se casar.
— Mas como? É uma menina!
— Tem a idade que eu tinha quando nos casamos. E já é mais velha do que a Lúcia era quando se casou.
— Mas a Lúcia é uma pirada.
— Não é pirada não. É socióloga, competente, famosa, doutora. E também é astróloga, porque nós, mulheres, somos múltiplas. Você mesmo não diz que a lasanha da Lúcia é imbatível? E você acha que ela aprendeu a fazer lasanha na Sociologia ou na Astrologia? Não; é porque ela é mulher, é múltipla. É profissional, é mãe, é artista, é astróloga, é motorista, é dona-de-casa, é professora, é pesquisadora, é múltipla.
— Mas a Aninha vai se casar mesmo?
— É, ela conheceu um rapaz na universidade, um bolsista da Alemanha, e acha que identificou alguns sinas de que ele é o homem da vida dela.
— E por causa dos sinais, vai se casar.
— É. Vai terminar a universidade, vai se casar, fazer mestrado na Alemanha. Como você disse, ela sabe o que quer da vida.
— Ah! Eu pensei que ela ia se casar logo. Mas se vai esperar o fim do curso, vai ter de concorrer a uma bolsa de mestrado... ainda demora. E acaba nem se casando com o alemão. As moças são assim, se apaixonam, se desapaixonam... Coisas da juventude.
— Pode ser. Mas acho que desta vez é pra valer. Ela está muito impressionada com os sinais que diz serem uma expressão das forças do universo.
— Isso é influência da pirada da Lúcia! Aposto que ela fez o mapa astral do rapaz e disse que ele combina com a Aninha.
— Não é não. Eu não sei que sinais são esses que ela diz ter identificado, mas ela ainda nem falou com a mãe. Veio conversar comigo ontem porque sabe da nossa história, que a Lúcia contou para ela.
— Que história?
— Eu nunca lhe falei, mas quando vi você pela primeira vez, sabia que viveria com você até o fim de meus dias. Eu tinha recebido um sinal.
— De Deus?
— Eu acho que foi. E quero pensar que foi. A Lúcia acha que foram os astros e a Ana Cláudia diz que são as forças do universo. Mas eu prefiro pensar que foi Deus.
— E Deus disse que você ia casar comigo?
— Não é assim que a coisa funciona, Aurélio. Vocês, homens, são tão simplistas, tão infantis que chegam a irritar. Você acha que Deus chegou para Moisés e falou: “Anota aí, meu filho, os dez mandamentos da minha lei.” Não é assim. A gente tem de sentir que uma coisa é um sinal, tem de interpretar a manifestação divina. Não é tudo claro e simples. Bem, no caso do Moisés acho que foi, sim, porque ele era homem. Se os sinais fossem mais complexos talvez ele não entendesse.
— Vocês mulheres têm uma implicância com o raciocínio masculino...
— ’Tá, ’tá, deixa o Moisés para lá. Mas foi por isso que eu nunca lhe falei do sinal. Porque achava que você não entenderia. Com as meninas é diferente. Eu contei para a Lúcia quando ela era mocinha e ela contou para a Aninha. Elas entendem isso. Por isso é que gostam tanto de você. Elas sabem que estamos destinados a viver juntos até a morte.
— Mas que sinal foi esse?
— Eu não vou contar, porque você não ia entender e podia até ficar fazendo piada com algo que eu acho que é sagrado. É só para mim.
— E para a Lúcia, e para a Aninha...
— Para elas, sim; porque a felicidade delas pode depender disso, de interpretar corretamente um sinal, como eu fiz.
— Mas quando foi que você viu esse sinal?
— Ah, foi um instante antes de a gente se ver pela primeira vez. Eu levei um tremendo susto, mas depois senti que aquilo era um sinal.
— Você está falando daquela vez que a gente se encontrou naquele bar em que todo mundo ia, como chamava mesmo?
— O “Amarelo”. Mas foi antes. Quando a gente se cruzou no Amarelo eu já sabia que você era o homem da minha vida. O sinal foi antes, da primeira vez que a gente se viu, naquela estrada, quando meu carro saiu da curva e você veio me socorrer. Não se lembra?
— Lembro, você estava muito assustada, e como era bonita! Dizia que a curva da estrada estava cercada de caixões de defuntos, quase não conseguia respirar. Aí eu lhe dei um pouco de água, você se acalmou e foi embora. E na noite seguinte nos encontramos no Amarelo.
— É, e eu fiquei falando de mim o tempo todo. Duas semanas mais tarde, quando você disse que estava trabalhando temporariamente numa funerária, eu tive certeza absoluta de que minha interpretação do sinal estava correta. Era isso mesmo, você era o homem da minha vida.
— Mas e o sinal?
— 'Tá vendo? Eu falei dele e você nem percebeu. O sinal foi a curva cercada de caixões. Onde se poderia ver uma curva de estrada toda murada com caixões de defunto? Claro que eu me assustei. Era noite alta, eu sozinha numa estrada sem movimento algum, com medo de ficar com sono, e quando entro na curva vejo uma muralha de caixões de defunto, como não me assustaria? Mas depois que me acalmei e voltei para a estrada, compreendi que não havia caixão nenhum, que aquilo tinha sido um sinal de que estava próximo o instante de encontrar o homem com quem eu viveria até a morte. E encontrei você, que foi me socorrer. Não acha que foi um sinal?
— ...
— Não acha que foi um sinal?
— É, acho que sim, não sei. Pode ter sido. Eu não entendo dessas coisas. Bem, se você achou que era, então devia ser mesmo, né?
— Mas você não vai fazer piada com isso, vai?
— Não, claro que não. Eu respeito suas maluq... suas idéias. Se você acha que foi um sinal, então foi, pronto. Um sinal divino. E não se fala mais nisso.
— Eu estava contando essa história ontem para a Ana Cláudia. Ela já a tinha ouvido da mãe, mas quis ouvir de mim, para conferir cada ponto. Foi quando você interrompeu para falar alguma coisa sobre uma cabrita, por isso acho que você precisa ir ao médico, para ver se não precisa de tratamento.
— Ah, não! — disse Aurélio sorrindo. — É que tinha me lembrado de uma história e ia começar a contar a ela, nem tinha percebido que você estavam conversando sério. E a história era uma bobeira, acho que ela nem ia gostar. Coisa muito infantil. Não preciso de médico não.
E não precisava mesmo. Aurélio se lembrava perfeitamente de tudo que acontecera na véspera. Sua intervenção pouco clara fora: “Faltou uma cabrita”. As mulheres não entenderam e ninguém entenderia mesmo. Mas Aurélio estava seguro de que tinha faltado uma cabrita.
A cena toda jamais saiu de sua cabeça. Só não contara para a mulher porque não queria ser acusado de quase tê-la matado de susto. E quem sabe se não foi mesmo o destino quem armou tudo? O destino, as forças do universo, os astros, Deus, sabe-se lá. Mas, quem quer que tenha sido, contou com a pequena ajuda do Samuel, que não sabia fazer uma cabrita.
Samuel trabalhava na marcenaria que fabricava urnas funerárias. Aurélio viera buscar uma carga para a funerária na qual trabalhava, mas não queria carregar o caminhão. Ele era motorista, carregador não. Deixou o caminhão parado na fábrica e foi jantar no Garrote de Ouro, enquanto Samuel e os companheiros faziam a carga caprichosamente.
A noite clara de lua dava uma boa garantia de que não vinha chuva. Não precisariam cobrir a carga com a lona. Caixões empilhados, encaixados, seguros, restava apenas amarrar a carga. E aí estava o busílis. Samuel era bom carregador, mas não sabia amarrar a carga. Passava a corda nas posições mais recomendadas, mas na hora de apertar a amarração, Samuel era um fracasso. Por nada deste mundo era capaz de fazer uma cabrita. E morria de vergonha disso.
A cabrita é um recurso usado pelos caminhoneiros para apertar a amarração das cargas. Se descerem com a corda e simplesmente a amarrarem num gancho da carroceria, a carga se movimenta no primeiro buraco e a corda se afrouxa. Por isso é preciso apertar a amarração com a cabrita. Faz-se um olho – ou uma orelha, depende de quem faz – a meia altura entre o alto da carga e o gancho, passa-se a corda pelo gancho e sobe-se novamente para o olho. Ou orelha. Ao ser passada pelo olho, a corda forma um laço e pode ser esticada ao extremo. O amarrador pode usar o peso do corpo para esticá-la. Aí sim a corda pode ser amarrada no gancho. Mas Samuel não sabia fazer a cabrita.
Por isso se afastou discretamente quando viu Aurélio chegando, com um palito na boca e acariciando a barriga satisfeito. O motorista pegou a nota fiscal, entrou no caminhão e partiu sem conferir a amarração da carga. As lombadas e valetas da cidade foram suficientes para afrouxar a corda . Aí foi só entrar na rodovia e, na primeira curva, ver os caixões deslizarem pela tangente e se espalharem no acostamento.
Felizmente havia um barranco, no qual os caixões que rolavam pararam. Ao ver a confusão, Aurélio entendeu que, mesmo depois de um lauto jantar, teria de assumir a função de carregador de caminhão. Ia suar um bocado, só porque o Samuel não tinha feito a cabrita. A corda era testemunha de que não fora feita uma cabrita.
Parou o caminhão mais à frente, bem depois da curva, e voltou para recolher os caixões. A melhor estratégia era juntá-los e depois aproximar-se com o caminhão. E só havia uma forma de reunir todas as urnas: apoiá-las no barranco, já que o acostamento era estreito. Assim Aurélio foi revestindo a parede do barranco com as urnas colocadas em pé, lado a lado.
Ao se afastar para pegar o caixão mais distante, percebeu, pelos faróis, que algum motorista se perdera na curva. A luzes iam para cá, para lá, até que o carro saiu da pista e entrou no pasto. Passou pertinho dele. Quando o fusquinha parou – sim, era um fusquinha, o que vocês queriam? – ele foi ver se o motorista precisava de ajuda e encontrou aquele lindo par de olhos, muito arregalados.
A moça, pálida de susto, gaguejando, arfando, dizia que tinha visto uma muralha de caixões de defunto ao lado da curva. Ele pediu que ela esperasse um pouquinho, enquanto ia buscar água no caminhão. Quando chegou com a água, a moça já estava bem mais calma. Ela bebeu um pouquinho, agradeceu, sorriu – e que sorriso! – e disse ter tido a impressão de que havia uma muralha de caixões de defunto cercando a curva.
Aurélio baixou a cabeça, com o peso da culpa, mas nem precisou se desculpar, porque a moça repetiu que devia ter sido impressão. Melhor assim. Não precisava explicar nada. Ele sabia que não era impressão, era realidade. E sabia que tudo aconteceu por falta de uma cabrita.
Pode ter sido um sinal. Se ela preferia pensar assim, tudo bem. Mas ele sabia, sabe, e levará o segredo para a tumba: sinal ou não, faltou uma cabrita.
[Não avisei antes, como faz o cinema americano de televisão, porque funciona como um alerta para mudar de canal. Mas a verdade é que este "causo" é baseado numa história real.]