<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987</id><updated>2012-01-04T16:37:10.430-02:00</updated><category term='palhaço'/><category term='inclusão'/><category term='jaqueta'/><category term='Fidel'/><category term='Parágua'/><category term='meia-sola'/><category term='peba'/><category term='Stanislaw Ponte Preta'/><category term='miojerie'/><category term='galvão'/><category term='renúncia'/><category term='eclipse'/><category term='valentinana'/><category term='abantesma'/><category term='Oia'/><category term='mandioca'/><category term='mula sem cabeça'/><category term='lua'/><category term='shiitake'/><category term='kamaboko'/><category term='Celso Paraguaçu'/><title type='text'>meia-sola</title><subtitle type='html'>A leitura deste blog não é recomendada para pessoas que acreditam no que leem.

Qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais é pura maledicência.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>36</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-5418458519281342296</id><published>2012-01-04T16:31:00.000-02:00</published><updated>2012-01-04T16:31:11.251-02:00</updated><title type='text'>Ilustre ilustrador</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-1bQ2z4vbDI8/TwSYig1eOsI/AAAAAAAAANg/MBhW7k0958U/s1600/alongamento.jpg" imageanchor="1" style="margin-left:1em; margin-right:1em"&gt;&lt;img border="0" height="283" width="400" src="http://3.bp.blogspot.com/-1bQ2z4vbDI8/TwSYig1eOsI/AAAAAAAAANg/MBhW7k0958U/s400/alongamento.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-rbubgIRTen8/TwSY-aM1o3I/AAAAAAAAANs/bjEkttvnmBk/s1600/enlatado.jpg" imageanchor="1" style="margin-left:1em; margin-right:1em"&gt;&lt;img border="0" height="284" width="400" src="http://1.bp.blogspot.com/-rbubgIRTen8/TwSY-aM1o3I/AAAAAAAAANs/bjEkttvnmBk/s400/enlatado.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-9HS7OIdoBGs/TwSZTcLj5zI/AAAAAAAAAN4/pkLxsH8hPhE/s1600/macbook.jpg" imageanchor="1" style="margin-left:1em; margin-right:1em"&gt;&lt;img border="0" height="272" width="400" src="http://3.bp.blogspot.com/-9HS7OIdoBGs/TwSZTcLj5zI/AAAAAAAAAN4/pkLxsH8hPhE/s400/macbook.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-_5wZp5nMbe0/TwSZlJPDEqI/AAAAAAAAAOE/cYRK3INQVbg/s1600/show.jpg" imageanchor="1" style="margin-left:1em; margin-right:1em"&gt;&lt;img border="0" height="283" width="400" src="http://2.bp.blogspot.com/-_5wZp5nMbe0/TwSZlJPDEqI/AAAAAAAAAOE/cYRK3INQVbg/s400/show.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-UPOq-GQN5Y8/TwSZ2FpNeHI/AAAAAAAAAOQ/rLlgOglvgdA/s1600/cao.jpg" imageanchor="1" style="margin-left:1em; margin-right:1em"&gt;&lt;img border="0" height="283" width="400" src="http://4.bp.blogspot.com/-UPOq-GQN5Y8/TwSZ2FpNeHI/AAAAAAAAAOQ/rLlgOglvgdA/s400/cao.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;As ilustrações aí de cima são do Douglas. O cara é craque. E não pense a freguesa que ele só faz isso na vida. Ele também faz Pum.&lt;br /&gt;• Celso Paraguaçu •&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-5418458519281342296?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/5418458519281342296/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=5418458519281342296' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/5418458519281342296'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/5418458519281342296'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2012/01/ilustre-ilustrador.html' title='Ilustre ilustrador'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-1bQ2z4vbDI8/TwSYig1eOsI/AAAAAAAAANg/MBhW7k0958U/s72-c/alongamento.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-7644893635438543495</id><published>2012-01-04T16:17:00.001-02:00</published><updated>2012-01-04T16:17:53.019-02:00</updated><title type='text'>O Pum do Douglas</title><content type='html'>Está enganado quem pensa que o Douglas só desenha, toca blues e MPB, conversa, bebe e webmastereia. Ele também escreve, como Guy de Maupassant, Edgar Alan Poe e o mais lucrativo discípulo deste, Stephen King. Aí vai um conto do Douglas, “&lt;b&gt;Pum&lt;/b&gt;”:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abriu os olhos de repente e olhou para o relógio. Ainda é cedo, pensou. Dá para dormir mais um pouco. Sentia uma enorme vontade de peidar. Olhou para o lado. Viu a esposa dormindo. Ela já vinha reclamando há algum tempo dessa desagradável flatulência. Já tinha até tirado sarro dele na frente das amigas por conta desse flato, ou melhor, fato. Estava começando a pegar pesado.&lt;br /&gt;Não deu pra aguentar. Um peidinho só não faria mal. Fechou os olhos e abriu os pensamentos. Haaa! Não foi tão peidinho assim mas foi silencioso pelo menos. Porém, a vontade não passou.&lt;br /&gt;Começou então uma estratégia para um segundo peido mas o novo flato se adiantou involuntariamente. Começou fraquinho e foi aumentando.&lt;br /&gt;Ele deu um pulo da cama e correu para o banheiro. De forma inexplicável o peido não queria parar. Não fazia o tradicional barulho de bufa e nem tinha cheiro. Só que não parava mais.&lt;br /&gt;Que coisa mais esquisita isso. O que estaria acontecendo? Só poderia estar sonhando, ou melhor, tendo um pesadelo. O peido continuava.&lt;br /&gt;O que fazer? Nem pensar em acordar a mulher ou a filha. Aquilo era desconcertante. O peido não parava mais.&lt;br /&gt;Precisava fazer alguma coisa. Ir a um pronto-socorro, hospital, igreja, sabe-se lá o que. Vestiu um roupão, pegou as chaves do carro e saiu correndo do apartamento. Resolveu descer pela escada. O "flatídico" vento não parava de sair. Somente era cortado pelo movimento de descer ou degraus.&lt;br /&gt;Abriu o carro desesperado, se jogou no banco e fechou a porta. Aonde ir? Ficou pensando com olhos arregalados. Todos os três.&lt;br /&gt;Batucava aflitamente no volante enquanto aquele peido eterno continuava. Foi quando percebeu algo mais estranho. O volante havia crescido. Estava bem maior. O roupão que vestia estava maior. Ou ele estaria menor? O que? Parece que estou diminuindo… Pensou.&lt;br /&gt;Sim, ele estava diminuindo. Já não conseguia mais ver o capô do carro. Estava mais baixo que o volante, e continuava a diminuir rapidamente. Seus pés já não tocavam o chão. Percebeu que estava minúsculo. Parecia um boneco de brinquedo sobre o banco do carro.&lt;br /&gt;Pulou do banco e se pendurou no trinco da porta, o que fez a mesma se abrir. Ficou dependurado um tempo mas suas mãos já estavam pequenas demais para conseguir segurar o trinco. Caiu.&lt;br /&gt;Caiu mas não chegou tocar o chão. Simplesmente não tocou em mais nada sólido. Dissipou-se.&lt;br /&gt;No apartamento,  Paulinha entrou na cozinha. A mãe punha o café na mesa. Cadê o pai, mãe? Perguntou. Deve ter saído bem cedinho hoje, disse a mãe, nem quis tomar café. Acho que os cereais não estão fazendo bem para ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;• Douglas •&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-7644893635438543495?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/7644893635438543495/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=7644893635438543495' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/7644893635438543495'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/7644893635438543495'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2012/01/esta-enganado-quem-pensa-que-o-douglas.html' title='O Pum do Douglas'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-5690785372808431887</id><published>2011-08-10T17:40:00.006-03:00</published><updated>2011-08-17T09:53:29.906-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='peba'/><title type='text'>Peba na pimenta</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-TOR50Bi2q1s/TkLri-LsMEI/AAAAAAAAANM/deBt7xiDDls/s1600/Peba.jpg" imageanchor="1" style="margin-left:1em; margin-right:1em"&gt;&lt;img border="0" height="400" width="299" src="http://4.bp.blogspot.com/-TOR50Bi2q1s/TkLri-LsMEI/AAAAAAAAANM/deBt7xiDDls/s400/Peba.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Olhe, pois eu nem tinha começado a cantar, só disse o nome do coco, “Peba na Pimenta”, e um desinfeliz lascou lá do fundo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Que que é peba?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabra afobado, xente! Nem esperou para ver se aprendia escutando o coco. Só falei o nome, e o abestado já estalou a preaca: “Que que é peba?”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cabra tinha esprito ruim, não nasceu no Sertão. Não estou dizendo que todo mundo que nasce no Sertão tem esprito bom. Já nasceu muita gente ruim lá, dos mais piores. Foi. Mas se o cabra tem o esprito bom, ele merece nascer no Sertão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse um, ou tinha esprito ruim ou estava procurando encrenca. Mas eu sou velhaco. Pego no rabo da pergunta, como se fosse uma coisa séria, boto ela no chão e passo a peia. Resolvi explicar para o cabra até ele ficar cansado de entender. E fui:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quem nasce no Sertão sabe muito bem sabido o que é peba. Sabe que peba é bicho sertanejo. No sertão tem gente, bicho, planta e pedra. Também tem água, às vezes, mas é pouca. Quando tem, a gente prende no açude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pedra, todo mundo conhece só de ver. Não precisa perguntar o nome. Tem das grandes, como as Rochas, as Penhas, os Penedos e outras famílias; e tem das miúdas, os seixos, que alguns chamam de cascalho. Pedra não anda por vontade própria. Às vezes são empurradas, caem, escorregam, mas andar mesmo, não andam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Planta também não anda não. Polo menos eu nunca vi. Elas estão onde estão porque Nosso Senhor Jesus Cristo, louvado seja, botou elas lá quando criou o mundo. Ou ele ou o Pai dele. Mas no Sertão, acho que Deus mandou um anjo para semear aquela plantalhada seca e espinhosa da caatinga. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu até vi na igreja a estáuta do anjo que deve ter feito o serviço. Acho que foi ele, por causa das véstias. Ele andava de alpercata, não usava gibão, mas tinha um guarda-peito. Tinha um facão na cinta, acho que para limpar o caminho no meio da galharia. Ou para se defender, se aparecesse uma onça. Porque suçuarana não respeita anjo. Para ela só existe duas categorias de coisas no mundo, as de comer e o resto. E anjo, para ela, é de comer, porque anda. Anda e tem asa, igual ema, que é comida de onça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esse anjo também usava um tipo de saia, mas era de couro, umas tiras largas de couro. Acho que era para proteger as intimidades. A galhaça da caatinga corta, fura e rasga. No tempo dos anjos ainda não tinham inventado a perneira, isso veio depois. Ele não tinha chapéu de couro. Também, naquele tempo, era só Deus e os anjos, e Deus estava por todo lado. Cada vez que um anjo encontrava Deus, tinha de tirar o chapéu, porque assim é que se faz. Como o anjo podia estar com as mãos ocupadas na plantação da caatinga, era mais fácil não usar chapéu, para não precisar tirar toda hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Entonce, pedra e planta não andam. Quem anda é gente e bicho. Animal também anda, mas animal é como bicho. A qualidade da andança varia conforme os pés. Gente e passarinho tem dois. Onça, cavalo, bode e vaca têm quatro. Cachorro também. Menos o Piaba, de meu compadre Ciço, que só tem três, porque a onça arrancou um de um tapa. Também tem bichos sem pé nenhum, que são a cascavel e as outras serpentes. Cascavel é bicho danado de ruim, que morde só para matar e nem come.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O peba é bicho da qualidade de quatro pés. Ele tem quatro pés e uma casca que até lembra a saia do anjo da estáuta que falei, porque é feita de tiras. Só que não são tiras de couro, que nem a do anjo, são de casca mesmo, que nem a do tatu. Mas peba não é tatu, é peba. Se fosse tatu, não se chamava peba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tatu tem de três qualidades. Tem o canastra, que é grande e come formiga; tem o galinha, que se chama galinha, mas é tatu. Esse é mais ou menos do tamanho do peba, e come formiga também. E tem o tatu-bola, que é mais pequeno e se enrola todo. Fica que nem um coco, quando o cachorro chega perto dele. Esse também come formiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O peba come formiga, que nem tatu, mas é menos. Ele gosta é de variar. Come macaxeira, coró, minhoca e outras comidas de peba. É por isso que a carne dele é boa. Tem gente que diz que ele come defunto, mas não é verdade. É que as minhocas vão roer a carne do extinto ou do bicho morto e o pebinha vem comer as minhocas. Defunto ele não come não, come minhoca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Para caçar o peba tem o jeito certo. Precisa ter um cachorro bom, pebeiro, para encontrar o rastro do peba. Mas tem de ser cachorro velhaco. Se for inhenho, ele vai achar o peba na toca e aí pode chorar a noite toda que o peba não sai e ninguém tira ele de lá. Cachorro velhaco acha o peba fora da toca e dá o aviso. Aí a gente corre, para não dar tempo do peba se entocar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se tiver mais de um cachorro, o peba não corre; ele começa a fazer um buraco no chão para se enterrar. Aí o vivente tem de ficar esperto. O peba finca as unhas no buraco e não tem força que arranque ele de lá. Só sai com boas maneiras. A gente segura o rabo do peba, com o dedo fura-bolo esticado na parte de baixo, e vai seguindo o rumo da cauda do bicho. Logo o dedo encontra o toba do peba. Nem precisa fazer força. Enfiou o dedo, o bicho relaxa as unhas, preocupado com o que está acontecendo lá atrás, onde ele não vê. Aí é só puxar o peba para fora, sem tirar o dedo. Tá pego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se prepara o peba de várias maneiras. Pode cozinhar ou assar na casca, ou tirar a casca antes do preparo, mas o gosto muda. Bom mesmo é soltar a carne da casca, cortar nas juntas, dar uma fritura ligeira e depois voltar para a casca para assar no braseiro ou no forno, tampada com a casca da barriga dele. A pimenta é o principal tempero, porque sem ela o gosto fica aperreado, o peba fica sem personalidade.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estando o desinfeliz já bem servido de sabedoria sertaneja, lasquei a picardia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— E pimenta, Vossa Insolência sabe o que é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E me arretirei sem cantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;• Quinca de Tiburço •&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-5690785372808431887?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/5690785372808431887/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=5690785372808431887' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/5690785372808431887'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/5690785372808431887'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2011/08/peba-na-pimenta.html' title='Peba na pimenta'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-TOR50Bi2q1s/TkLri-LsMEI/AAAAAAAAANM/deBt7xiDDls/s72-c/Peba.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-5254614428815374400</id><published>2011-06-16T14:43:00.003-03:00</published><updated>2011-06-16T14:51:05.932-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='jaqueta'/><title type='text'>A jaqueta amarela</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/-lJ9Kzd38cy8/TfpBTDiCY7I/AAAAAAAAANE/ImzrkDrZvk0/s1600/Jaqueta%2Bamarela%2Bfinal.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 295px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-lJ9Kzd38cy8/TfpBTDiCY7I/AAAAAAAAANE/ImzrkDrZvk0/s400/Jaqueta%2Bamarela%2Bfinal.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5618875280719504306" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma faca era o instrumento que usaria. A faca grande, da gaveta da pia. Bem afiada, como sempre.&lt;br /&gt;Imaginou que o gesto seria simbólico, metafórico. Sim, uma metáfora do fim do amor, daquele amor. Ou da recuperação da autoestima. Não. Era uma atitude de eliminação, de destruição. Não seria uma metáfora adequada para a recuperação da autoestima. Queria, sim, recuperar o conceito que tinha de si próprio, mas a ação não expressaria isso. &lt;br /&gt;— Foda-se — disse para si mesmo. — Vai ser assim e ponto final.&lt;br /&gt;Pegou a faca, experimentou o fio e achou que não estava muito bom. Mas nada que o fuzil não pudesse consertar. Encostado na pia da cozinha, pôs-se a rememorar os fatos, enquanto passava diligentemente a lâmina no afiador.&lt;br /&gt;Ainda ecoava em seus ouvidos o tom agressivo da voz dela ameaçando: &lt;br /&gt;— E não venha com aquela ridícula jaqueta amarela!&lt;br /&gt;Ele nem explicou que não era amarela, era terra. Ela sabia disso, ouvira muitas vezes. A cor era terra e não amarela. Ela sabia. Se disse amarela, tinha intenção de ofender, de magoar. O que ela jamais entenderia é que não se tratava de uma simples peça de couro curtido, cortado e costurado. A jaqueta amarela – terra – era como sua própria pele. Mais que sua pele, era sua marca inconfundível, sua personalidade. Sua alma, talvez. Se ela não o queria com a jaqueta, estava claro que não o aceitava como era. A jaqueta era ele. Ele era a jaqueta.&lt;br /&gt;O tinir do aço percorrendo delicadamente a extensão do fuzil o fez recobrar o dilema da metáfora da ação planejada. Se a jaqueta era ele e ele era a jaqueta, seria um suicídio metafórico; o contrário da recuperação da autoestima. Mas também podia ser a metáfora de um renascimento. “Matar o eu anterior para permitir o advento de um novo eu.” Se entenderiam isso ou não, era uma questão que não o preocupava. Ele sabia que significaria o começo de uma nova vida, um fogo de Fênix. E mergulhou novamente em recordações.&lt;br /&gt;Ainda se lembrava de quando comprara a jaqueta, havia mais de vinte anos. A viagem de emergência, uma necessidade do trabalho, fora decidida de supetão. Não pudera passar em casa para pegar algumas roupas. E no caminho o tempo mudou, começou a esfriar. Precisava comprar um agasalho, pois o trabalho atravessaria a noite, que se anunciava fria. Em busca de uma loja de roupas, entrou na primeira cidade para a qual havia um acesso na estrada. &lt;br /&gt;Cidade era exagero. Não passava de um amontoado de casas em volta de uma igreja, mas havia uma fabriqueta de roupas de couro. Era mais uma oficina, uma coisa artesanal, com um aspecto que parecia anterior à revolução industrial. Vieram-lhe à mente as guildas, as corporações medievais de artesãos, com suas normas. Deviam fabricar selas, botas, bainhas para espadas, baús, armaduras e escudos. E o jovem que se aproximava devia ser um aprendiz. Provavelmente atendia os fregueses, enquanto o mestre traçava o corte de alguma peça na oficina dos fundos.&lt;br /&gt;Não era um aprendiz, era o vendedor. Educado, sorridente, fino, com gestos estudados, parecia deslocado naquela aldeia rústica. Fora esse rapaz que lhe ensinara, sorridente, o nome da cor da jaqueta. &lt;br /&gt;— Amarela? — comentara com tom de desagrado.&lt;br /&gt;— Amarela, não; é terra. Combina com qualquer cor de calça. E veste muito bem um corpo esguio como o seu.&lt;br /&gt;Corpo esguio uma ova. Etiópia era magro mesmo. Miseravelmente magro. Daí o apelido, uma referência ao grande número de famintos daquele país que a TV mostrava na década de 1980. Alto como uma palmeira, magro como um caniço; a jaqueta amarela – terra –, com corte de paletó, era a única que lhe servia. Os outros modelos ficavam muito curtos ou largos demais. O preço era bom e o frio apertava, portanto ficou com a jaqueta amarela. — Terra! — corrigiu o vendedor.&lt;br /&gt;Rigorosamente não era uma jaqueta, o corte estava mais para um &lt;span style="font-style:italic;"&gt;blazer&lt;/span&gt;, explicara o rapaz. Mas se o freguês preferia chamar de jaqueta, tudo bem. Afinal, tinha costuras laterais no peito e nas costas, como uma jaqueta. &lt;br /&gt;— E inglês tudo é &lt;span style="font-style:italic;"&gt;jacket&lt;/span&gt;, não é mesmo?&lt;br /&gt;Aos poucos, foi-se acostumando à vestimenta. No início, usava-a no trabalho, para ver se acabava mais depressa, pois não tinha gostado da cor. Os colegas do trabalho, os vizinhos e os conhecidos foram-se habituando a ver o magro Etiópia com o casaco amarelo. &lt;br /&gt;— Terra! — corrigia prontamente Etiópia, chamando atenção com as mãos para o talhe do casaco. Não era propriamente elegante, mas combinava com a magreza extrema de Etiópia. Não fosse tão consolidado o apelido, Etiópia passaria a ser chamado de Jaqueta ou de Amarelo. Até houve uma ou duas tentativas, mas o nome Etiópia prevaleceu. &lt;br /&gt;Pouco tempo depois, a vasta experiência de Etiópia tirou-o do serviço pesado. Assumiu a coordenação das equipes de campo. Raramente precisava acompanhar algum trabalho no local. Passava a maior parte do tempo no escritório, entre plantas, mapas, planilhas e o telefone. A jaqueta repousava no espaldar da cadeira. Só a vestia na hora de ir embora. E como roupa de chefe não gasta, o casaco ia-se tornando eterno.&lt;br /&gt;A afeição pela vestimenta desenvolvera-se no decorrer dos anos. Foi o traje usado nos eventos mais significativos de sua vida. No enterro da mãe, no... É verdade. Sua vida não tinha muitos eventos significativos. Mas lembrava-se de estar vestindo a já velha jaqueta quando conheceu Rose. Conquanto não quisesse admitir agora, por muito tempo julgou significativa aquela ocasião. Chegara mesmo a pensar que Rose teria se interessado na jaqueta e não nele. &lt;br /&gt;Não estava totalmente errado. Ele se destacava na festa de fim de ano da empresa. Não só pela cabeça acima das de todos os demais presentes, mas também pela indumentária que, como afirmara o jovem e delicado vendedor, combinava com os &lt;span style="font-style:italic;"&gt;blue &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;jeans &lt;/span&gt;que costumava vestir.&lt;br /&gt;O desgaste nos cotovelos, resultado dos anos de uso, tinha sido habilmente disfarçado com retalhos de couro marrom. O velho casaco amarelo dissimulava a magreza de Etiópia, tornando-o um homem quase atraente. Sem a jaqueta era um varapau; com a vestimenta, porém, parecia quase bem-proporcionado. Pelo menos o suficiente para atrair a atenção da jovem Rose, que fazia estágio na empresa.&lt;br /&gt;Da festa até o início do namoro não passou uma semana. Daí até o casamento, porém, já rolavam mais de dez anos. No começo, Rose precisava se firmar na atividade profissional. Mudou de emprego várias vezes, algumas para melhor, outras nem tanto. Até de cidade mudou. Os dias dedicados ao namoro diminuíram, mas não terminaram. Etiópia ia vê-la num fim de semana e ela vinha vê-lo no seguinte. O relacionamento era sério, baseado na confiança que nenhum dos dois jamais traiu. E por muitos anos não falaram de casamento.&lt;br /&gt;Quando se considerou uma profissional bem-sucedida, Rose decidiu se casar. Etiópia tinha tudo para ser um bom marido. Só não convinha pressioná-lo, ela sabia. Tinha de persuadi-lo com meiguice, com doçura, sem jamais dar um ultimato ou fazer algum tipo de ameaça, por mais velada que fosse.&lt;br /&gt;Solteirão assumido, beirando os cinquenta, Etiópia não tinha nada contra o casamento. Nem a favor. Até se casaria, já que vivia sozinho desde a morte da mãe. Mas tinha costumes de homem sozinho. Nada que não fosse socialmente aceito. Não bebia muito, só jogava de brincadeira, não frequentava nenhum tipo de igreja. Nem cabarés. E nunca trouxe para casa as mulheres perdidas que eventualmente encontrava. Isso, no passado; porque depois que começou a namorar Rose, ela passou a ser a única mulher de sua vida.&lt;br /&gt;Seu problema se resumia a desfrutar de todos os espaços da casa. Homens que se casam cedo não têm lugar na casa, por isso precisam ficar mexendo no carro ou consertando coisas. Se não tiverem nada para consertar nos fins de semana, ficam perdidos, porque estorvam, onde quer que fiquem. Para não incomodar na cozinha, geralmente ficam na sala, vendo televisão, mas até isso irrita as mulheres. &lt;br /&gt;Etiópia sabia que era assim. E Rose sabia também, por isso propôs uma forma de convívio conveniente para ele. Casariam, sim, mas não viveriam na mesma casa. Pelo menos não o tempo todo. Durante a semana, cada um continuaria morando na própria casa, já que viviam em cidades diferentes. Nos fins de semana, um iria para a casa do outro, como vinham fazendo nos últimos anos do namoro. Em outras palavras, mudava-se o estado civil, mas tudo continuaria como antes.&lt;br /&gt;Tudo tão perfeito que Etiópia até concordaria com uma cerimônia religiosa, se fosse o desejo de Rose. Mas não era. Ela não fazia questão. Casariam no civil, somente. E fariam uma bela festa para os amigos. &lt;br /&gt;O cuidado de ambos era com a festa. Queriam que fosse inesquecível. Etiópia queria uma grande orquestra de baile, nos moldes das &lt;span style="font-style:italic;"&gt;big bands &lt;/span&gt;da metade do século passado, que tocasse &lt;span style="font-style:italic;"&gt;foxblues&lt;/span&gt;, suingues, baladas e valsas. Para Rose, poderia ser até uma orquestra de berimbaus, desde que o repertório incluísse “Paralelas”, sua música predileta, composta e gravada quando ela ainda nem tinha nascido. &lt;br /&gt;A preocupação maior de Rose era com o jantar. Ela não quis saber de bufês. Queria um jantar muito mais especial do que qualquer bufê conseguiria fazer. Se pudesse, ela mesma iria ao mercado escolher os alimentos e prepararia os pratos. Mas, como noiva, sua presença era essencial junto dos convidados.&lt;br /&gt;Jantaram em diferentes lugares por semanas a fio, até escolherem a comida que ela julgava adequada. Não foi fácil convencer o dono do restaurante e o &lt;span style="font-style:italic;"&gt;chef &lt;/span&gt;a fecharem a casa para a festa do casamento. A construção do palco da orquestra e a decoração do ambiente obrigariam o restaurante a permanecer fechado por uma semana. Tiveram de oferecer um bom dinheiro para consegui-lo. Mas valeria a pena.&lt;br /&gt;O espetáculo da entrada triunfal da noiva com vestido branco não exigia uma igreja. Seria apresentado no restaurante, transformado em elegante salão de festas, ao som de uma grande orquestra. Depois, um jantar excelente, com vinhos adequados, e um baile para atravessar a noite.&lt;br /&gt;Estavam ambos vivendo a euforia da preparação da festa quando Etiópia chegou à casa dela, vibrando de felicidade. Tinha conseguido encontrar e contratar a orquestra de seus sonhos. E a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;crooner &lt;/span&gt;já estava ensaiando “Paralelas”. Rose sorriu, feliz, e disse que tinha marcado a data do casamento civil. Não seria no dia da festa, mas isso não tinha importância. Afinal, só era preciso um casal de amigos como testemunhas. Depois almoçariam juntos, no mesmo restaurante que faria a grande festa, alguns dias mais tarde. &lt;br /&gt;Passaram mais um fim de semana juntos, conversando sobre a festa, e chegou a hora de Etiópia voltar para sua cidade, para enfrentar mais uma semana de trabalho. Antes de sair, ele perguntou se precisaria ir de gravata ao cartório. E foi então que tudo desabou. &lt;br /&gt;— De gravata, claro — disse ela. E completou: — E não venha com aquela ridícula jaqueta amarela!&lt;br /&gt;Etiópia entrou no carro sem o costumeiro beijinho de despedida e fez a viagem de volta ruminando a frase de Rose. Mastigou-a incontáveis vezes, mas não conseguiu engolir. Que fazer? Aparecer no cartório de jaqueta amarela? Seria um desafio, uma queda de braço com Rose. Ele venceria, claro. Rose não iria deixar de se casar só por isso, mas ficaria amuada o resto do fim de semana, e não poderiam falar da festa do casamento. Ainda havia coisas a combinar, para que tudo saísse à perfeição.&lt;br /&gt;Mas se não usasse o fatídico casaco, estaria cedendo a uma ordem de Rose. Uma ordem baseada simplesmente no gosto dela, que não levou em conta os sentimentos do futuro marido. O dilema não saía da cabeça de Etiópia, enquanto dirigia de volta para casa. Até que tomou a decisão: destruiria o casaco. Destruiria o casaco e não apareceria para o casamento. Nem no civil nem no restaurante. E sumiria por algum tempo, para fugir das explicações.&lt;br /&gt;Não devia satisfação a ninguém, em seu entender; nem mesmo a Rose. Mas sabia que haveria perguntas. Etiópia era um homem de ação, não tinha desenvoltura para explicações. Até os relatórios técnicos eram escritos por um colega, o Luciano, especialmente contratado para fazer o que Etiópia não conseguia, para expor o que foi feito, por quê, como, quando, etc. As decisões eram de Etiópia, mas quem as justificava e argumentava era Luciano, que aprendera muito com isso. A ponto de se tornar o sucessor natural de Etiópia, depois que o magro chefe se aposentasse.&lt;br /&gt;Não seria difícil fugir por uns dois meses, já que tinha férias vencidas acumuladas. Depois pediria demissão e sumiria de vez. Ia viver no mato, nalguma cidadezinha esquecida, como tantas que conhecera. Poderia viver da poupança por um bom tempo. E depois começaria a receber a aposentadoria e o plano de previdência complementar, no qual entrara muito jovem. Nunca mais saberia de Rose nem dos amigos e colegas do trabalho. E ninguém saberia dele.&lt;br /&gt;Rose teria de entender a atitude de Etiópia pelo que encontraria na casa, quando finalmente a abrissem: tudo no lugar de sempre, exceto pelos minúsculos pedacinhos da jaqueta amarela em cima da tábua, na pia, e espalhadas pela cozinha. Ela saberia que o comentário sobre a jaqueta amarela tinha sido o motivo de seu sumiço. E confirmaria o estranho senso de justiça de Etiópia: destruía o casamento e o casaco que motivou a morte do amor. Pelo menos ele imaginava que Rose fosse interpretar desse modo a ação. &lt;br /&gt;Talvez uma conversa com Luciano o fizesse entender que precisava deixar mais clara sua postura, que deveria conversar com Rose. Mas Etiópia não saberia o que falar. O que sentia por Rose transformara-se numa mágoa tão profunda, tão doída, que precisava ser descarregada por meio de um ato destrutivo. E a vítima de tal ato seria a própria jaqueta. Tão lógico quanto matar o mensageiro que traz a má notícia. Mas a questão prescindia de lógica; era puramente emocional.&lt;br /&gt;Enrolaria a jaqueta como um rocambole, bem apertada, colocaria na tábua sobre a pia e a cortaria em fatias finíssimas. Por isso a boa faca precisava estar muito bem afiada. Depois disporia as tiras paralelamente e as cortaria novamente, para impedir que o material fosse aproveitado de alguma forma. Sobraria apenas um punhado de confetes quadradinhos de couro amarelo. Ou terra. O gume estava perfeito agora, e o fuzil ficaria à mão, para acertar o fio da faca durante o metódico trabalho destrutivo.&lt;br /&gt;Etiópia começou a enrolar a jaqueta, bem apertada, mas parou, para vesti-la uma última vez. Queria se despedir da vestimenta que tanto significava para ele. Pela primeira vez, a vestia “em pelo”, sem camisa. E sem calças. Quando estava em casa, Etiópia costumava ficar só de cuecas, mesmo em dias meio friozinhos, como aquele. Era um hábito que podia manter, por morar sozinho.&lt;br /&gt;Antes mesmo de fechar o primeiro botão da jaqueta Etiópia começou a sentir um conforto que jamais imaginara. Pensava que o couro fosse duro, mesmo com o forro, sobretudo nas costuras. Mas não. Não sentia costura alguma. E à medida que a vestimenta se aquecia, tornava-se mais agradável o contato com sua pele. Veio-lhe a mente o calor do corpo de Rose, quando se achegava ternamente a ele na cama. A jaqueta tocava-o do mesmo modo macio e carinhoso. Até mais gostoso, pois Rose não aquecia todo o torso de Etiópia, como a jaqueta fazia.&lt;br /&gt;“A felicidade”, pensou ele, reinterpretando John Lennon, “é um casaco quente.” Foi para a sala e sentou-se no sofá, extasiado, para melhor desfrutar daquela sensação e acabou se deitando. Etiópia se embriagava na mornidão do agasalho, que, como se fosse feito de malha, tocava toda sua pele. Nem mesmo nas pernas nuas ele sentia frio. A jaqueta agora pressionava-lhe um pouco mais o tórax, como um abraço de corpo inteiro. Tão agradável que Etiópia dormiu. &lt;br /&gt;O legista escreveu “parada cardiorrespiratória”, mas não estava certo da causa mortis. Se houvesse algum sinal de que a vítima tivesse tido o tórax comprimido ou os braços imobilizados, ele teria escrito “asfixia mecânica”. Mas os investigadores da polícia não encontraram nada que pudesse sugerir alguma ação externa. A jaqueta tinha sido indevidamente retirada da cena pela faxineira, que encontrara o corpo no sofá, antes de chamar a polícia.&lt;br /&gt;Como Etiópia queria, não houve casamento. E ele não viveu para desfrutar do plano de previdência privada. A jaqueta, contudo, sobreviveu. Agora agasalha o namorado da diarista. Que Deus o abençoe.&lt;br /&gt;• Celso Paraguaçu •&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-5254614428815374400?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/5254614428815374400'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/5254614428815374400'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2011/06/jaqueta-amarela.html' title='A jaqueta amarela'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-lJ9Kzd38cy8/TfpBTDiCY7I/AAAAAAAAANE/ImzrkDrZvk0/s72-c/Jaqueta%2Bamarela%2Bfinal.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-6093430260369439646</id><published>2010-02-05T01:19:00.010-02:00</published><updated>2011-07-08T21:51:13.925-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='mandioca'/><title type='text'>A raiz da suspeita</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/S2uQC6EjyiI/AAAAAAAAAMo/LTATY_aqjfQ/s1600-h/DSC02422+%5Binvers%C3%A3o+polar%5D+800x600+dark+solo.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/S2uQC6EjyiI/AAAAAAAAAMo/LTATY_aqjfQ/s400/DSC02422+%5Binvers%C3%A3o+polar%5D+800x600+dark+solo.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5434595754975152674" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu limpou tão depressa ontem que deve ter pego de surpresa um monte de alienígenas. Eles preferem ficar em seus discos voadores observando o movimento e os hábitos dos humanos em dias e noites de céu encoberto. Ao contrário de nós, eles enxergam através das nuvens. Mas quando o céu fica limpo muito rapidamente, como ocorreu, eles são pegos desprevenidos e têm de deixar a atmosfera terrestre rapidinho, para não serem vistos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas naves tiveram de zarpar na maior velocidade em direção ao espaço profundo, o &lt;span style="font-style:italic;"&gt;deep space&lt;/span&gt;, como dizem os gringos, pois ficaram a descoberto. Observei uma delas pairando com as luzes apagadas, enquanto o piloto tentava fazer o motor pegar. Acho que o ET se afobou na partida, pisou muito fundo no acelerador, e deixou o motor afogar. E aí não tem jeito. Tem de esperar o carburador secar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esses discos voadores mais antigos, com motores aspirados, sempre fazem dessas. E convém apagar as luzes para poupar a bateria. Mas já há poucos desses em órbita, são raridades. Vistosos, coloridos, mas muito pouco eficientes. Só um ou outro ET mais conservador mantém sua velha nave encerada, brilhando. A manutenção dessas antiguidades custa os olhos da cara. E olha que alguns ETs têm vários pares de olhos em cada cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje em dia os OVNIs têm propulsores de câmara osmótica diferencial, com diálise intraelementar de propulsão iônica. Não têm mais carburadores de palhetas e diafragmas. E não têm mais aquelas luzinhas piscando como antigamente. Agora é tudo sensorial, neural e dialítico. Qualquer idialien consegue ir para onde quiser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São muito menores também. As naves, não os aliens. Estes continuam com toda a diversidade de tamanhos e formas que conhecemos e outras que não conhecemos. Algumas naves são tão pequenas que um ET precisa de várias delas para viajar. Por isso há pouca oferta de empregos para pilotos experientes de naves extraterrestres. A era de ouro dos ÓVNIS já era. Acabou o romantismo das gigantescas naves em forma de prato emborcado, de calota de fusquinha ou de pirâmide de base triangular. Era muito mais divertido naquele tempo, não acha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As naves atuais não têm o menor &lt;span style="font-style:italic;"&gt;glamour&lt;/span&gt;. São meras coisas, familiares a nós humanos. Já faz tempo que essa onda começou, mas as pessoas demoram a se dar conta do que acontece à sua volta. Quando viram os primeiros discos voadores, estavam presenciando os últimos veículos desse tipo. E o planeta já estava repleto de naves individuais das mais diversas formas, com seus ETs disfarçados de humanos circulando entre as pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até mais ou menos a metade do século passado, havia ETs com misteriosos equipamentos andando pelos parques em São Paulo. Diziam-se vendedores de refresco, de chá gelado com limão. Circulavam entre as pessoas, cantando seus pregões, quase invisíveis. Mas registravam de perto os rostos, as formas, as roupas, as falas e os hábitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo que viam, sentiam e ouviam ficava registrado no tambor, que chamavam de bomba. Sons, cores, expressões, movimentos, usos e costumes, tudo era gravado. A bomba era também a nave individual. Quando os parques fechavam, os ETs usavam os tambores como transporte para as naves-mães. Lá, as informações registradas eram descarregadas no sistema central de armazenamento, e as bombas ficavam prontas para receber novos dados. Eram reabastecidas com chá gelado, para serem novamente utilizadas no dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Rio de Janeiro, até poucos anos atrás, esse sistema era comum nas praias. Conquanto sobreviva em algumas delas, trata-se de uma modalidade anacrônica de aquisição de informações. Atualmente é utilizada apenas por velhos ETs avessos ao uso de novas tecnologias. Ou que apreciam o visual das bundinhas na praia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto as bombas de chá gelado estavam em pleno uso, quase um século atrás, já surgiam os pipoqueiros em frente aos cinemas, circos e parques de diversão. Todos usavam carrinhos iguais, com uma parte de vidro na qual ficavam as pipocas e uma área onde havia um fogareiro sob uma panela preta com uma manivela na tampa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que ninguém se perguntava por que todos os carrinhos de pipoca eram iguais. Não podia ter um com o fogareiro e a panela na frente? Ou separados do carrinho? Se o propósito fosse apenas o de vender pipocas, poderia. Mas não havia. Assim como não havia nenhum com a panela branca, limpa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo mundo pensava que a manivela servia para mexer as pipocas, mas a finalidade era outra. Era um sistema de transmissão de dados &lt;span style="font-style:italic;"&gt;online&lt;/span&gt;. Os carrinhos de pipoca não usavam mais dispositivos de armazenamento de informações; absorviam-nas e as transmitiam &lt;span style="font-style:italic;"&gt;online&lt;/span&gt;, diretamente para seus planetas, pelo transmissor giratório, que para os humanos parecia uma panela suja com uma manivela em cima. Os carrinhos eram seu veículo individual de transporte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os “vendedores de algodão-doce” usavam praticamente o mesmo sistema. Usei aspas, porque a mim não enganam. O transmissor era parecido com o dos “pipoqueiros”, mas tinha uma sofisticação mecânica: em vez de manivela, usavam um sistema com pedais, com o que conseguiam uma velocidade muito maior, ou seja, transmitiam em frequências mais elevadas. E o transdutor não era mais preto e ensebado; era de alumínio brilhante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é só na Terra que a tecnologia se desenvolve em grandes saltos. Em outros mundos tem ocorrido o mesmo. Ou você pensa que esses caras com aspecto de nordestino empurrando carrinhos de mão são realmente vendedores de mandioca? Todos usam um carrinho semelhante aos os usados na construção civil. Ninguém tem uma carriola de madeira, ou um carrinho de supermercado. Tem de ser desses de chapa de aço. Claro que se trata de outra modalidade de transporte individual, com um sistema de aquisição e transmissão de dados &lt;span style="font-style:italic;"&gt;online&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É fácil perceber que há transmissão direta do carrinho para o planeta alienígena. Observe que o carrinho tem uma forma muito adequada para ser um concentrador de sinais voltado para o céu, como se fosse uma antena parabólica. Muito melhor do que o teto dos carrinhos de pipoca, que parecia um telhado de duas águas. Aquilo funcionava mais como dispersor do que como concentrador de sinais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creio que o novo sistema tem um dispositivo de redundância: os dados capturados são também armazenados nas cascas das raízes. Pode observar que os “vendedores” fazem questão de tirar a casca antes de colocar as raízes na sacolinha. Eles descascam as mandiocas com uma facilidade que nós, terráqueos, jamais teríamos. Isso porque sabem exatamente onde colocar a faca para desprender facilmente o dispositivo pelicular de armazenamento que chamamos de casca. A mim não enganam, mesmo que imitem o sotaque sertanejo do Nordeste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem compra leva somente as raízes brancas. As “cascas” são armazenadas até a confirmação do sinal recebido. Se a transmissão &lt;span style="font-style:italic;"&gt;online &lt;/span&gt;for satisfatória, as cascas vão para o lixo. Mas se houver alguma falha, retransmitem as informações armazenadas nos dispositivos peliculares. Essa é a redundância do sistema, muito recomendada em termos de segurança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os vendedores de mandioca em carrinhos-de-mão são ETs, como também o eram os pipoqueiros e os vendedores de chá gelado. Os médicos e enfermeiros aqui da instituição concordam plenamente comigo. Os poucos pacientes que discordam eu não levo a sério. São uns malucos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;• Celso Paraguaçu •&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-6093430260369439646?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/6093430260369439646/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=6093430260369439646' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/6093430260369439646'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/6093430260369439646'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2010/02/raizes-da-suspeita.html' title='A raiz da suspeita'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/S2uQC6EjyiI/AAAAAAAAAMo/LTATY_aqjfQ/s72-c/DSC02422+%5Binvers%C3%A3o+polar%5D+800x600+dark+solo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-8090778193989920339</id><published>2009-11-03T20:57:00.005-02:00</published><updated>2009-11-10T18:18:35.877-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='miojerie'/><title type='text'>Chez Miojô</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/SvC2JeioWKI/AAAAAAAAAL0/KUNgV_wkSUg/s1600-h/Mioj%C3%A3o.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/SvC2JeioWKI/AAAAAAAAAL0/KUNgV_wkSUg/s400/Mioj%C3%A3o.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5400016227150616738" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O querido amigo Nivaldo requereu nossa &lt;span style="font-style:italic;"&gt;expertise &lt;/span&gt;de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;restauranteur &lt;/span&gt;com a seguinte consulta: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou pensando em tirar proveito comercial de meus dotes culinários, mediante a abertura de um bar/restaurante intitulado Miojerie – a Casa do Miojo. Só miojo elaborado nos mais diversos tipos de molhos. Haverá também o serviço de Miojo Delivery. Solicito sugestões.”&lt;br /&gt;Depois de profunda análise do mercado e da personalidade do Nivaldo, nos dispomos a responder a sua consulta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&gt;&gt;&gt;&gt;&lt;br /&gt;Caro Nivaldo&lt;br /&gt;Uma &lt;span style="font-style:italic;"&gt;miojerie &lt;/span&gt;tem tudo a ver com você, que é francamente francófilo, capaz de recitar em francês as fábulas de La Fontaine, com rima e em alta velocidade. Advirto, contudo, que não acredito no modelo &lt;span style="font-style:italic;"&gt;delivery &lt;/span&gt;para essa especialidade. É que a massa continua sob cozimento no trajeto até a casa do freguês, perdendo o ponto &lt;span style="font-style:italic;"&gt;al dente cariado&lt;/span&gt;. E você não vai querer comprometer o prato, oferecendo a massa fora do ponto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estabelecimento precisa ter mesas, nas quais as pessoas possam saborear as iguarias. Mas nada de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;fast food&lt;/span&gt;. Resista à tentação de fazer um “Miojo in the Box” ou um “MacArroni’s”. Sua proposta se encaixa com perfeição num local elegante, para o público adulto recém-chegado ao extrato consumidor da sociedade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seria muito adequado um ambiente parisiense antigo, um típico bistrô anterior à Segunda Guerra, antes da contaminação cultural americana. O nome pode ser Chez Miojo, La Cave du Miojo ou algo em francês que remeta à especialidade culinária da casa. Chez Nini ou La Petite Casserole, por exemplo, soam bem, mas não dizem qual é a comida. A menos que seja Chez Nini Miojerie. Pode ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a música, porém, você terá dificuldade. O ambiente sugere música ao vivo, mas a moderna música francesa soa como americana ou berbere. Tais sons são incompatíveis com a finesse do ambiente. No entanto a música francesa mais antiga não pode mais ser tocada. Não por faltarem bons músicos, mas sim porque não se fabrica mais aquela cansativa sanfoninha deles. O que há de mais parecido é a concertina, a sanfona de oito baixos que ainda se toca no Nordeste. Mas essa serve. Aliás, parece mesmo ser muito adequada à &lt;span style="font-style:italic;"&gt;nouvelle cuisine du miojô&lt;/span&gt;. Em vez de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;la balade &lt;/span&gt;ou &lt;span style="font-style:italic;"&gt;la valse&lt;/span&gt;, teremos baião, coco e arrasta-pé, ou &lt;span style="font-style:italic;"&gt;le bayon&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;le coco&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;le traine-pied&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;Naturalmente, você fará os mais deliciosos pratos franceses adaptados ao gosto e ao poder aquisitivo do consumidor brasileiro. Assim, os cariocas poderão degustar seu excelente &lt;span style="font-style:italic;"&gt;miojo au haricot noir&lt;/span&gt;, em vez do macarrão com feijão-preto que costumam comer em casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O restaurante terá nome e aspecto francês, mas a cozinha será internacional e inovadora, bem ao seu estilo. Outra sugestão de prato é o miojo com molho madeira. O molho é de preparo simples, bastando juntar numa &lt;span style="font-style:italic;"&gt;casserole &lt;/span&gt;um pouco de água, uns cubos de caldo Kitano (mais barato que os demais) e vinho Chapinha de mesa tinto seco, que também será servido na refeição. Para dar o sabor amadeirado, colocam-se no molho algumas lascas de eucalipto, que são retiradas antes de servir. No lugar de champignons, sugiro uns toletes de macaxeira, para promover a aculturação culinária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pratos tradicionais de outras cozinhas européias não podem ser esquecidos. E, naturalmente, com o sabor exclusivo da cozinha brasileira. Assim o &lt;span style="font-style:italic;"&gt;miojo al aglio e olio &lt;/span&gt;será feito com minúsculos dentinhos de alho chinês, muito pequenos para tirar a película. São fritos com película e tudo, no óleo de soja, cujo aroma é inigualável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da culinária alemã você trará as &lt;span style="font-style:italic;"&gt;saucisses&lt;/span&gt;, para um delicioso molho feito à base de salsicha de metro (aquela pintada de vermelho, que em alguns mercados é vendida por quilo, como salsicha a granel) e massa de tomate Arisco. Conhecido como macarrão com “salchicha”, o prato tem grande aceitação junto ao público brasileiro. E certamente ganhará um novo relevo com seu modo de preparar e um nome francês. Talvez chamar as &lt;span style="font-style:italic;"&gt;saucisses &lt;/span&gt;de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;sauchiches &lt;/span&gt;seja uma boa ideia: &lt;span style="font-style:italic;"&gt;miojo avec des sauchiches&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ponto, ou seja, o local onde instalar a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;miojerie&lt;/span&gt;, é de extrema importância. Os bistrôs parisienses que o cinema gravou em nossa memória ficavam às margens do Sena ou perto do Bois de Boulogne. Não temos um rio tão bonito, nem um bosque parecido, mas você pode montar um simpático bistrozinho à beira do Tamanduateí ou com vista para a Fazenda do Carmo, na Zona Leste. Seria o sonho de incontáveis consumidores recém-chegados ao mercado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo as mães que vêm buscar seus filhos na escola municipal aqui perto de casa. Enfiam um pacote de “salgadinho” nas mãos das crianças, para irem enchendo o bucho, porque a janta vai demorar para sair. Se houvesse uma &lt;span style="font-style:italic;"&gt;miojerie &lt;/span&gt;na beira do corguinho da rua de baixo, certamente elas prefeririam oferecer aos petizes um nutritivo &lt;span style="font-style:italic;"&gt;miojô avec des sauchiches &lt;/span&gt;em vez de entupi-los com essa coisa de isopor com cheiro de chulé. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nos fins de semana? Esses consumidores não têm aonde ir. Não se sentem à vontade nos &lt;span style="font-style:italic;"&gt;shopping centers&lt;/span&gt;. Mas lá por perto, tudo bem. Pois ao lado do Shopping SP Market existe um córrego com barrancos cobertos de capim. É o ponto ideal para instalar um &lt;span style="font-style:italic;"&gt;trailer &lt;/span&gt;da Chez Nivaldo Miojerie. Existem outros &lt;span style="font-style:italic;"&gt;trailers&lt;/span&gt;, mas são meros botecos; nenhum tem a elegância, a finesse, de uma &lt;span style="font-style:italic;"&gt;miojerie&lt;/span&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em termos comerciais, o ponto &lt;span style="font-style:italic;"&gt;c’est ci bon&lt;/span&gt;, pois fica em frente à &lt;span style="font-style:italic;"&gt;gare &lt;/span&gt;Jurubatuba, da CPTM. Em frente à &lt;span style="font-style:italic;"&gt;gare&lt;/span&gt;, ao lado do &lt;span style="font-style:italic;"&gt;shopping center&lt;/span&gt;, com vista para o córrego e, o que é melhor, muito próximo do local em que o padre Marcelo faz seu espetáculo religioso aos domingos. Já pensou que fome têm às dez da manhã aquela montanha de fiéis? São milhares deles, ungidos com a água benta lançada com uma brocha, cansados de ficar em pé desde as quatro da manhã e alimentados apenas com um pedacinho do corpo de Cristo. Para o espírito, o alimento pode ser suficiente, mas o corpo pede um mi&lt;span style="font-style:italic;"&gt;ojo avec aile de poule en fricot&lt;/span&gt;. O ensopado de asa de galinha dá um molho culturalmente bem aceito no Brasil e remete aos anjos, que são bípedes alados, como os frangos. Os fregueses do padre Marcelo certamente se tornarão seus fregueses também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais ainda. Depois das dez da manhã, quando os bizantinos fiéis do Padre Marcelo vão para casa, chegam os frequentadores da feira-livre montada dois quarteirões acima. Sabendo da existência da &lt;span style="font-style:italic;"&gt;miojerie&lt;/span&gt;, provavelmente abrirão mão do pastel de ração canina que comem atualmente antes de ir embora. Ninguém em sã consciência trocaria a cozinha internacional com inspiração francesa pela culinária popular chinesa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você não pode esperar que o corguinho tenha um aroma agradável. O cheiro é forte e ruim, mas ajuda a compor o clima da &lt;span style="font-style:italic;"&gt;miojerie&lt;/span&gt;. Remete ao odor da Paris de duzentos anos atrás. E você vai concordar que não há muita diferença entre o cheiro de esgoto do corguinho e o aroma do miojo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou certo de que a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;miojerie &lt;/span&gt;será um sucesso, mas uma questão ainda me preocupa. É que se os chineses inventaram o macarrão, os japoneses inventaram o miojo, que é um &lt;span style="font-style:italic;"&gt;spaghetini &lt;/span&gt;pixaim. O problema é que no Brasil o pixaim está em baixa. Talvez seja preciso você aplicar a famosa chapinha no miojo antes de preparar os pratos. Vai ficar com aspecto de macarrão espichado, como fica o cabelo das moças, mas elas acharão que está lindo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naturalmente essa preocupação estética se refere exclusivamente ao público feminino. Homem come de qualquer jeito, seja liso, pixaim ou com “escova progressiva”. Se a moça tiver uma boa culinária é o que basta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;• PGC •&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-8090778193989920339?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/8090778193989920339/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=8090778193989920339' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/8090778193989920339'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/8090778193989920339'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2009/11/chez-miojo.html' title='Chez Miojô'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/SvC2JeioWKI/AAAAAAAAAL0/KUNgV_wkSUg/s72-c/Mioj%C3%A3o.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-7904301139710677019</id><published>2009-05-22T18:40:00.005-03:00</published><updated>2009-05-22T19:13:54.734-03:00</updated><title type='text'>Um elefante, dois bêbados e uma carreira que foi para o espaço</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/Shcdqp7Ag6I/AAAAAAAAALc/GCGzv2-lp4M/s1600-h/19009_elephant.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 400px; height: 268px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/Shcdqp7Ag6I/AAAAAAAAALc/GCGzv2-lp4M/s400/19009_elephant.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5338768501916074914" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;meta equiv="Content-Type" content="text/html; charset=utf-8"&gt;&lt;meta name="ProgId" content="Word.Document"&gt;&lt;meta name="Generator" content="Microsoft Word 10"&gt;&lt;meta name="Originator" content="Microsoft Word 10"&gt;&lt;link rel="File-List" href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CCelso%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtml1%5C01%5Cclip_filelist.xml"&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;style&gt; &lt;!--  /* Style Definitions */  p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal 	{mso-style-parent:""; 	margin:0cm; 	margin-bottom:.0001pt; 	mso-pagination:widow-orphan; 	font-size:12.0pt; 	font-family:"Times New Roman"; 	mso-fareast-font-family:"Times New Roman";} @page Section1 	{size:595.3pt 841.9pt; 	margin:3.0cm 3.0cm 85.9pt 3.0cm; 	mso-header-margin:35.45pt; 	mso-footer-margin:35.45pt; 	mso-paper-source:0;} div.Section1 	{page:Section1;} --&gt; &lt;/style&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable 	{mso-style-name:"Tabela normal"; 	mso-tstyle-rowband-size:0; 	mso-tstyle-colband-size:0; 	mso-style-noshow:yes; 	mso-style-parent:""; 	mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; 	mso-para-margin:0cm; 	mso-para-margin-bottom:.0001pt; 	mso-pagination:widow-orphan; 	font-size:10.0pt; 	font-family:"Times New Roman";} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:navy;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu vi o olifante.&lt;br /&gt;Serginho girou tão depressa no banquinho do balcão que quase caiu. A mão firme do dono do bar segurou-o pelo ombro. O homem girou-o de volta e disse:&lt;br /&gt;– Não dá bola não. Esse aí vê de tudo. – disse o botequineiro com um leve sotaque de Trás-os-Montes.&lt;br /&gt;Serginho queria ouvir o que o sujeito tinha a dizer, mas o homem do balcão explicou, enquanto passava o pano úmido sobre o mármore:&lt;br /&gt;– Esse aí é o Ativo Fixo. O pessoal dos escritórios que vem tomar uma no fim da tarde deu esse apelido. Eles dizem que ele faz parte do equipamento do bar. Alguns conversam com ele, brincam, pagam uma pinga e fica por isso mesmo. Ele faz qualquer coisa para começar uma conversa e pedir ao outro que lhe pague uma dose para molhar as palavras.&lt;br /&gt;Como Serginho ainda parecesse disposto a ouvir o etilista, o dono do bar empunhou sua autoridade de proprietário e levantou a voz em direção ao bebum da casa:&lt;br /&gt;– Vai dormir, ó Ativo, e deixa o freguês em paz. Volta mais tarde, quando o pessoal dos escritórios chegar.&lt;br /&gt;O bêbado levantou-se lentamente, resmungando, e sumiu de vista.&lt;br /&gt;– Onde ele dorme? – perguntou Serginho.&lt;br /&gt;– Agora não sei. De noite é por aí. Costuma aparecer depois do almoço e vai ficando até a hora de fechar. Às vezes me pede para dormir aqui dentro, mas não deixo. Isto não é albergue de bêbado. Acho que ele dorme no albergue da prefeitura. Tem um perto do Largo 13, deve ser lá. Quando comprei o bar ele já fazia parte da paisagem, vinha todas as tardes. Nos primeiros dias, tentei afastá-lo, mas depois percebi que os fregueses da noitinha gostam dele, fazem piadas, brincadeiras. Se divertem, ele e o pessoal. E é bom para o negócio.&lt;br /&gt;– Ninguém faz maldades com ele?&lt;br /&gt;– Não! São só brincadeiras, piadas, coisas que as pessoas que trabalham em escritório precisam fazer para aliviar a tensão. Eu tenho um acordo com o Ativo, que ele nunca descumpriu: pode frequentar a casa, mas não pode falar palavrões nem fazer gracejos para as mulheres que entram no bar ou passam na calçada. Não está no acordo, mas também não gosto que ele venha conversar com fregueses novos.&lt;br /&gt;– É, deu para notar.&lt;br /&gt;– Tem gente que pode até se assustar.&lt;br /&gt;– Ele não parece assustador.&lt;br /&gt;– É, mas sabe como é... Tem gente que não gosta.&lt;br /&gt;– Bem, vou andando.&lt;br /&gt;– Não quer tomar mais uma cervejinha?&lt;br /&gt;– Não, preciso ir mesmo.&lt;br /&gt;– Volte sempre, a casa é sua. E olha, se tivesse visto o elefante, eu falava. Mas não vi mesmo.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;• • • • •&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Serginho não dormira bem. Sonhava com o elefante, com o chefe, com os colegas rindo dele, com o eventual bilhete azul. Na hora que a coisa aconteceu, foi até divertido. Mas quando teve de explicar na empresa o motivo do atraso, o mundo veio abaixo.&lt;br /&gt;O engenheiro Ricardo, o chefe, estava esperando por ele na porta. Dizia que o cliente já tinha ligado duas vezes para saber das condições do instrumento que mandara consertar e Sérgio ainda não tinha chegado na empresa com o aparelho pifado. O tempo de demora seria suficiente para os técnicos saberem o que havia de errado com o equipamento; talvez até para consertar.&lt;br /&gt;Enquanto Serginho abria o porta-malas para pegar o aparelho do cliente, o chefe continuava expondo o motivo de sua irritação:&lt;br /&gt;– O cara nem pediu o orçamento, só quer saber se dá para a gente consertar ainda hoje. E nós ainda nem vimos a cara do equipamento! E esse é o único no Brasil. Não tem como emprestar outro para o cara ir trabalhando enquanto consertamos esse. É único. Vem da Rússia, leva mais de um ano para se conseguir importar um troço desses. Que aconteceu para você demorar tanto?&lt;br /&gt;– É que tinha um elefante na Av. Santo Amaro e o trânsito...&lt;br /&gt;– Elefante? Na Santo Amaro?&lt;br /&gt;O espanto de Ricardo fez com que falasse tão alto que até os técnicos das bancadas levantaram os olhos para ver o que acontecia. Sem falar dos caras da aferição, da Dona Ondina, secretária, do cara da contabilidade, da recepcionista. Até dona Neusa, que fazia café e faxina, olhou assustada. Um elefante na Santo Amaro deixa todo mundo curioso.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;• • • • •&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Serginho também ficara curioso quando viu o bicho, da mesma forma que os outros motoristas. O trânsito parou, lá pelas duas da tarde, horário em que dificilmente havia congestionamento naquele tempo. Serginho tentou ver alguma coisa, mas só enxergava uma aglomeração a alguma distância.&lt;br /&gt;Devia ser uma batida, o que se resolvia facilmente, a menos que houvesse agressão física. Aí viria a polícia, com poder para baixar o cacete em ambas as partes. E até de levar os motoristas para a delegacia, deixando os carros batidos atrapalhando o trânsito. Não havia nada que Serginho pudesse fazer. Era esperar e relaxar, ouvindo Led Zeppelin no toca-fitas. Naquele tempo, 1985, ouvir Led Zeppelin no toca-fitas era a melhor coisa que se podia fazer. Hoje há coisas muito melhores, como ouvir Led Zeppelin num tocador de MP3.&lt;br /&gt;Serginho observou que muitos motoristas começavam a sair dos carros, olhando para os lados da aglomeração. Ele também saiu e então viu o elefante. Cinza, enorme, cheio de rugas e de barro, parado ali na Avenida Santo Amaro, na contramão, balançando a tromba como se regesse uma valsa.&lt;br /&gt;As pessoas se admiravam, apontavam, conversavam baixinho com medo de atrair a atenção do bicho, mas o animal não dava a mínima. Ao seu lado, uma espécie de domador tentava fustigá-lo com um ridículo chicotinho que nem fazia cócegas no paquiderme. As chicotadas indolentes denotavam uma ação meramente formal. Esperava-se que ele tivesse o bicho sob seu comando e era isso que, sem convicção, ele tentava demonstrar.&lt;br /&gt;Mas só o que ele demonstrava era o resultado do consumo excessivo de álcool. Para não cair, o domador encostava-se na perna do elefante e parecia se abanar com o chicotinho, ao açoitar impotentemente a barriga do trombudo. Vestia calças – o domador, não o elefante – que um dia foram brancas ou beges, botas surradas e sujas, um colete estampado diretamente sobre as costas sem camisa, e um lenço na cabeça. Serginho achou que era um traje cigano. Talvez fosse uma variação artística, para fugir da roupa tradicional dos domadores de circo, que imitava os uniformes safári dos caçadores brancos dos filmes da década de 1940.&lt;br /&gt;Os motoristas, com os motores desligados já havia algum tempo, deleitavam-se com a inesperada presença. Um taxista exibia seu conhecimento do mundo animal com frases do tipo “os elefantes têm a melhor memória dentre os mamíferos: nunca esquecem” ou “para matar um elefante é preciso atirar em seus olhos, pois não existe bala capaz de perfurar seu couro”. A maioria discutia o peso do bicho. Na média das opiniões, passaria de duas toneladas, talvez até mesmo de três. Serginho olhava de longe, ouvia os comentários, mas não falava nada. Só pensava na força que um animal daquele tamanho devia ter.&lt;br /&gt;E o elefante, como se ouvisse os pensamentos de Serginho – capacidade até o momento não confirmada pela Ciência –, exibiu seu potencial destrutivo. Fez um quarto de volta, no sentido horário, para quem olhasse de cima, e encostou a enorme bunda num Passat estacionado. Foi praticamente um esbarrão, mas causou substancial dano à lataria do carro. Aí o espetáculo mudou de figura. Com a burguesia é assim: vai tudo bem, desde que não mexam no patrimônio. E o bicho amassou um carro, justamente o mais significativo símbolo do status burguês. Tornou-se imediatamente inimigo de todos os proprietários de carros que viam a cena.&lt;br /&gt;Um deles tomou o chicotinho da mão do domador e começou a bater na cara do elefante, como quem repreende um cachorro que mastigou um chinelo. Os demais dividiram-se em três grupos. Uns corriam para seus carros, outros corriam para longe do elefante e o terceiro grupo corria em direção do bicho, agitando os braços para afugentá-lo. A estratégia do último grupo funcionou. O elefante completou a meia volta que havia começado, alinhou-se no sentido correto do trânsito e foi-se embora. Ainda tentou entrar num bar, para se esconder da turba, mas as pessoas que tinham se abrigado no boteco perceberam que o bicho tinha medo de gente e o enxotaram sem dificuldade, apenas gesticulando e gritando. O elefante seguiu seu caminho em direção ao Largo 13 e sumiu de vista. Sem elefante, as coisas foram voltando ao normal.&lt;br /&gt;O trânsito começou a fluir. Serginho entrou no carro, virou a fita do Led Zeppelin que tinha acabado, e rumou para a empresa. Estava feliz, nem tinha percebido quanto tempo ficara entretido com o elefante. Foi a primeira vez que o trânsito atravancado não o deixou irritado. Por isso assustou-se com a irritação do chefe, que esperava por ele na portaria. “Faz mais de uma hora que estou esperando você chegar”, disse Ricardo, zangado. Serginho olhou para o relógio, constatando um atraso de quase duas horas.&lt;br /&gt;Tinha de haver uma boa explicação para a demora. A presença de um elefante na avenida Santo Amaro, porém, não se enquadrava nessa categoria. Era verdade, mas... O chefe olhou sério para Serginho e saiu empurrando o carrinho com o equipamento que tinha de ser consertado. Não tinha tempo para conversar agora. Nem perguntou a Serginho qual era o defeito reclamado pelo cliente.&lt;br /&gt;Serginho fechou o carro e foi para junto dos colegas, que queriam saber que conversa era aquela de elefante na Santo Amaro. Serginho, preocupado com a atitude do chefe, explicou por alto. E se arrependeu imediatamente. A moçada riu, fez gracinhas, e ninguém acreditou. Até que o Guinão, um sujeito sério que Serginho respeitava, falou:&lt;br /&gt;– Meu, você podia dizer que furou um pneu, que o motor morreu e precisou esperar que esfriasse para ligar de novo, ou podia inventar alguma coisa heróica, como socorrer um velhinho que caiu na calçada, levar uma mulher grávida para a maternidade... Tinha de inventar uma porra-louquice dessas? Vá ver a namorada durante o expediente, vá almoçar com ela, mas não invente desculpas malucas não, cara. Isso pode prejudicar sua carreira.&lt;br /&gt;– Mas eu não inventei, Guinão! Tinha um elefante mesmo!&lt;br /&gt;– Ah, Serginho...&lt;br /&gt;Até aquele momento Serginho temia que algo pudesse prejudicar sua carreira. Gostava do trabalho e ia gostar ainda mais quando se tornasse um técnico. Ele tinha até uma promessa de Ricardo. Ficaria alguns meses no atendimento, retirando e entregando os equipamentos dos clientes, e depois aprenderia a consertar e aferir os instrumentos de precisão. Ter a carreira prejudicada pelo elefante não era nada bom. Foi quando chegou o cara da contabilidade com a má notícia:&lt;br /&gt;– Gancho, Sérgio. O Dr. Ricardo falou para você ficar em casa nos próximos três dias, enquanto ele vai pensar no que vai fazer com você.&lt;br /&gt;A má notícia foi concluída com um gesto inusitado do cara da contabilidade, que saiu com a dobra do braço direito encostada no nariz enquanto balançava o antebraço como se fosse uma tromba. Para completar, um dos colegas imitava o bramido de um elefante.&lt;br /&gt;Serginho ficou tão emputecido com os colegas e com a decisão do chefe, que resolveu ir embora imediatamente. Foi para o vestiário para tirar o macacão de serviço e sua raiva aumentou. Alguém tinha pendurado na porta de seu armário um cabide com um guarda-pó cinza dobrado e grampeado para ficar com a forma da cara de um elefante. Uma das mangas ficava escondida e a outra bem no centro do &lt;span style="font-style: italic;"&gt;origami&lt;/span&gt;, como se fosse uma tromba. Bonito trabalho, completado com olhos desenhados a giz. Mas Serginho não gostou. Atirou longe o cabide, trocou de roupa, pegou tudo que tinha no armário e largou a porta aberta, como se nunca mais fosse voltar à empresa.&lt;br /&gt;Naquele momento, era isso mesmo que pretendia. Nunca mais queria ver a cara daquelas pessoas que não acreditavam que ele tinha visto o elefante. Ora, quem nunca viu um elefante numa avenida? ...&lt;br /&gt;Tinha de admitir que não era uma cena muito comum. Se fosse um elefante acompanhado de um palhaço, um malabarista, um sujeito num monociclo, tudo junto, ainda vai. Seria uma parada de circo, anunciando o espetáculo daquela noite. Mas um elefante sozinho... Sozinho, não. Tinha um domador cigano com ele. Bêbado. Talvez nem fosse domador. Nem cigano. Era apenas um bêbado fantasiado de cigano ao lado de um elefante. Na avenida Santo Amaro. Não era mesmo muito fácil de acreditar. Nem para quem viu.&lt;br /&gt;E Serginho, no ônibus de volta para casa, começava a duvidar de ter presenciado a inusitada cena. Pensava na feijoada que havia comido no almoço. Não era uma grande feijoada, mas feijoada é como sexo: mesmo quando é ruim é bom. Talvez não devesse ter tomado a segunda caipirinha de barriga vazia, antes do rango.&lt;br /&gt;Mas estava boa e era de graça, fazia parte da feijoada, ele tinha de aproveitar. Não, não podia ser a caipirinha. Serginho se entendia bem com as bebidas fortes. Uma caipirinha não fazia mal para ninguém. Duas também não, já que duas vezes zero é zero. Talvez fosse alguma coisa no tempero da feijoada.&lt;br /&gt;Serginho tinha ouvido falar de bolo de maconha, docinhos com sementes de papoula, chá de lírio, cogumelo com leite condensado e outras especialidades da culinária bicho-grilo. Mas sempre achou que feijoada fosse uma comida careta, que precisava da caipirinha antes para dar algum barato. Talvez estivesse enganado. Pode ser que aquela couve refogada contivesse outras ervas. Ou o feijão tenha sido cozido com raízes baratinantes. Até mesmo uns pedaços de cogumelos passariam despercebidos, em meio a tantas extremidades suínas que vinham no feijão – focinho, rabo, orelhas, pés.&lt;br /&gt;Tinha de ser isso. Foi alguma coisa que ele comeu. Podia até ser algum inseto alucinógeno que se suicidara no caldeirão. Um elefante na avenida Santo Amaro era difícil de acreditar, mesmo para quem tinha visto. Ou pensava ter visto. E a dúvida foi crescendo e tomando conta dos pensamentos de Serginho, que por fim tomou a decisão: no dia seguinte voltaria ao local onde pretensamente se dera o fato e o confirmaria ou não. Se houvesse testemunhas, podia até conseguir um depoimento favorável para depor em seu favor junto ao patrão. Poderia até evitar o bilhete azul. Não, já não queria evitar o bilhete azul. A empresa que fosse para o inferno. Ele só precisava saber para si próprio se vira ou não o elefante.&lt;br /&gt;Maldormido, levantou-se mais cedo que de costume e se apressou a caminho do ponto de ônibus. Não seria a mesma linha de costume, mas sim a Via Dolorosa que o levaria, de condução em condução, até a avenida Santo Amaro, à altura do acontecimento da véspera. O movimento era forte quando chegou. E foi direto ao jornaleiro:&lt;br /&gt;– Bom dia.&lt;br /&gt;– Bom dia.&lt;br /&gt;– O senhor viu um elefante aqui ontem à tarde?&lt;br /&gt;– Não vi não.&lt;br /&gt;– Mas não tinha um elefante ali perto da esquina, que atrapalhou todo o trânsito?&lt;br /&gt;– Olha, moço, o trânsito por aqui fica sempre atrapalhado. Tem muito ônibus, caminhão de gás, caminhão de leite, de cigarro, de cerveja, os tanques que abastecem os postos de gasolina...&lt;br /&gt;– Mas ontem à tarde tinha um elefante ali, não tinha?&lt;br /&gt;– Se você está dizendo...&lt;br /&gt;– Não; estou perguntando. Tinha ou não tinha?&lt;br /&gt;– Não sei, meu! Eu fico o dia todo enterrado nessa porra dessa banca, vejo o mundo todo pelas páginas dos jornais e das revistas, mas não vejo um elefante, se aparecer um ali na esquina, entendeu? Eu não estou aqui para tomar conta do trânsito nem das esquinas. Se você perdeu a merda do seu elefante, pode estar certo de que não está na minha banca, tá? Vá procurar em outro lugar! Dá licença, que tenho mais o que fazer.&lt;br /&gt;A irritação do jornaleiro causou espanto em Serginho. Mas ele próprio estava irritado; talvez tivesse mostrado seu estado de espírito na conversa. Era melhor pegar leve, chegar mais maneiro nas pessoas. E foi assim que se aproximou da mocinha que estava distribuindo panfletos de um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;nightclub &lt;/span&gt;recém-inaugurado nas proximidades. Serginho era bom de conversa com as garotas.&lt;br /&gt;– Oi.&lt;br /&gt;– Oi – disse ela, com um sorriso inesperado. Quem esperaria um sorriso de uma distribuidora de panfletos, sob um sol de rachar, com o barulho infernal do trânsito? Mas ela sorriu. E ele também.&lt;br /&gt;– Você estava aqui ontem? – perguntou Serginho.&lt;br /&gt;– Estava. Desde segunda-feira. Dá licença.&lt;br /&gt;Os carros pararam no sinal vermelho e ela foi distribuir os panfletos, com sorrisos para todos os motoristas. Alguns sorriam também, outros falavam alguma coisa que a fazia sorrir mais e dizer algumas palavras, mas Serginho não podia ouvir da calçada. O sinal abriu e ela voltou à conversa:&lt;br /&gt;– Então, desde segunda-feira. A casa inaugurou na sexta e a gente vem fazer a promoção aqui.&lt;br /&gt;Serginho pegou um dos folhetos, deu uma olhada rápida. Algumas fotos mal impressas de garotas de biquínis, uma de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;topless&lt;/span&gt;, e o convite para “uma noite alucinante de puro prazer, com o primeiro drinque grátis”.&lt;br /&gt;– Legal. Você trabalha lá?&lt;br /&gt;– É. Por enquanto eu sou garçonete, mas estou fazendo curso de dança, dublagem e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;striptease&lt;/span&gt;. Eu danço bem e tenho um corpinho legal, você não acha? Dá licença.&lt;br /&gt;Mais uma vez os carros param no sinal fechado e a moça vai distribuir panfletos e sorrisos. Um dos motoristas pediu que ela autografasse o panfleto ou qualquer coisa assim, porque ela escreveu alguma coisa no papel impresso. O sinal abriu, o motorista de trás buzinou, e ela correu de volta para a calçada.&lt;br /&gt;– Deve ser irritante esse serviço, não? – Perguntou Serginho.&lt;br /&gt;– De garçonete?&lt;br /&gt;– Não; a panfletagem – explicou ele, apontando para o maço de volantes na mão da garota.&lt;br /&gt;– Eu nem sabia que tinha esse nome. Mas é legal. Tem uns caras meio grossos, mas a maioria me trata bem. Dizem que eu sou bonita, que sou gostosa, aquele ali até me pediu o telefone, você não viu?&lt;br /&gt;– Vi.&lt;br /&gt;– Escrevi meu nome dentro de um coração e desenhei uma flecha apontando para o número do telefone que está impresso no volante.&lt;br /&gt;– Tem muito disso?&lt;br /&gt;– Pedir telefone, não. Está impresso, né? Tem umas passadas de mão, tem caras que me pedem um beijinho, essas coisas.&lt;br /&gt;– E você dá?&lt;br /&gt;– Beijinho? Dou, sim, mas só no rosto.&lt;br /&gt;De repente ela ficou nervosa e falou depressa, olhando para os lados:&lt;br /&gt;– Você é repórter? ’Tá gravando, ’tá filmando? Eu sou “de maior”, ’tá?&lt;br /&gt;– Não, não. Fique tranquila. Só estou conversando.&lt;br /&gt;– Ah, tá. É que é difícil conversar assim. Dá licença.&lt;br /&gt;Outra vez o sinal vermelho, os motoristas, os sorrisos, gracejos, grosserias, o de sempre. E o sinal verde.&lt;br /&gt;– Então; é difícil conversar neste abre-fecha de farol. A gente podia se encontrar mais tarde... para conversar, beber alguma coisa...&lt;br /&gt;– Não, eu só queria saber se você viu o elefante ontem.&lt;br /&gt;– Ah, meu. Essa é muito velha. Você enfia as mãos nos bolsos, tira os forros para fora e fala para eu pegar na tromba, não é isso. É uma bobeira, muito sem graça.&lt;br /&gt;– Não, é sério. Ontem à tarde tinha um elefante aqui na avenida, você não viu?&lt;br /&gt;– Ontem à tarde? Ontem foi quarta-feira, dia de ensaio de striptease. Ontem eu só fiz promoção até uma da tarde. Depois fui almoçar e fui para o ensaio. Estou ensaiando um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;strip &lt;/span&gt;com “Stairway to heaven”, conhece?&lt;br /&gt;– A música? Conheço. É do Led Zeppelin. Até toco a introdução no violão.&lt;br /&gt;– Essa eu não dublo porque é voz de homem, só danço e tiro a roupa. Mas é difícil, porque é muito comprida e eu não tenho tanta roupa assim para tirar. Acabo dançando pelada mais de metade da música. Se você quiser posso fazer um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;strip &lt;/span&gt;só para você, com você tocando no violão...&lt;br /&gt;– É. Bem, depois a gente vê isso. Agora preciso achar alguém que tenha visto o elefante. Tchau.&lt;br /&gt;Aproveitando o sinal fechado, Serginho atravessou a avenida. Deu uma olhada para a putinha, que estava no meio dos carros. Ela estava olhando para ele e girando o indicador em torno da orelha. Não entendeu se estava chamando-o de biruta ou se gesticulava para que ele ligasse para ela. No tempo dos telefones de disco, ambos os sinais se confundiam. Mas ela apontou para o panfleto, no qual havia o número do telefone do &lt;span style="font-style: italic;"&gt;nightclub&lt;/span&gt;. Ele entendeu que era para ligar e fez com a mão um sinal de positivo, apesar de nem saber o nome dela.&lt;br /&gt;Talvez apontar para o panfleto fosse apenas uma desculpa. Ela achava que ele não era muito certo das idéias, mas como ele a viu girando o dedo, ela mostrou o papel, explorando a ambiguidade do gesto. Mais uma olhadinha. Ela estava de costas agora e, mesmo à distância, via-se que tinha um corpinho atraente. Mas não sabia nada do elefante, então não tinha utilidade no momento. O engenheiro Ricardo teria gostado de ouvir isso, pois vivia dizendo para Serginho manter o foco no que tem importância. “Foco, garoto, foco”, dizia com frequência.&lt;br /&gt;O manobrista do salão de beleza foi o próximo entrevistado. O sujeito não estava muito a fim de conversa. Ficava olhando o trânsito. Cada vez que um carro diminuía a velocidade, ele se curvava para tentar ver o motorista. Se fosse uma mulher, ele assumia uma postura de alerta, pronto para correr até o carro, abrir a porta para a freguesa e assumir o volante para estacionar. Não queria se distrair com conversa mole:&lt;br /&gt;– Olha, meu, se o elefante fosse guiado por uma mulher e parasse aqui na frente, eu ia lá e estacionava o bicho. Mas se não parou aqui na frente, eu não vi.&lt;br /&gt;– Mas ele estava ali na esquina.&lt;br /&gt;– Desculpa, cara, eu não vi nada.&lt;br /&gt;– Mas os carros ficaram parados um tempão.&lt;br /&gt;– É, isso é irritante. Às vezes fica engarrafado muito tempo. Mas não adianta a gente querer descobrir o motivo. Deve ser carro demais.&lt;br /&gt;– Não. Ontem era um elefante.&lt;br /&gt;– Ou podia ser um acidente, um caminhão parado, um ônibus quebrado, um atropelamento lá no Peguepague. Podia ser qualquer coisa.&lt;br /&gt;– Mas foi um elefante.&lt;br /&gt;– Pode ser. Eu não vi.&lt;br /&gt;Serginho percebeu que não adiantava argumentar. O manobrista só olhava os carros que passavam do lado da avenida onde ficava o salão de beleza. O que ocorresse no outro lado da avenida ou na frente dos imóveis vizinhos não chamava sua atenção, nem que fosse um elefante ao lado de um bebum fantasiado de cigano.&lt;br /&gt;Desacorçoado, Serginho sentou-se num dos poucos bancos da imitação de praça que havia entre a Rua da Paz e a Américo Brasiliense e mergulhou em pensamentos. Se estivesse “bom de grana”, compraria um jornal para tentar se distrair. Quem sabe se parando de pensar no elefante não lhe viria uma boa idéia para encontrar uma testemunha. Talvez estivesse fechando demais o foco no local. De onde o elefante poderia ter vindo? Se descobrisse, iria até lá e perguntaria ao domador alcoólico.&lt;br /&gt;Serginho varreu de memória todos os terrenos em que se armavam circos nas redondezas, mas não havia circo nenhum. Só se não fosse um circo. Talvez o domador fosse um cigano de verdade, daqueles que acampavam perto da ponte do Socorro, ou da João Dias. Talvez o elefante fosse do cigano, do acampamento. Tinha de confirmar isso.&lt;br /&gt;Gastou três passagens de ônibus: uma até a ponte João Dias, outra de volta ao Largo 13 e mais uma até a ponte do Socorro. Nada. Nem sinal dos ciganos. Não havia acampamento, nem sinal de que tivesse havido algum recentemente. O mato estava alto, sem marcas de fogueiras. Serginho enfureceu-se consigo mesmo: “Para que os ciganos iam querer um elefante? Ciganos andam de carro, de caminhão. Vão arrumar um elefante para ter de ficar levando o bicho para cima e para baixo de carona? A troco de quê? Eles não são burros, eu é que sou! Gastei três passagens à toa.”&lt;br /&gt;Estava quase desistindo, pensando voltar para casa, quando se lembrou que o elefante havia tentado entrar num bar. As pessoas que estavam lá o assustaram. O dono do bar devia ter visto alguma coisa.&lt;br /&gt;Mais um ônibus para voltar à avenida Santo Amaro, eufórico com a possibilidade de finalmente encontrar uma testemunha. Desceu num ponto próximo e apressou o passo em direção ao boteco, mas não entrou. Era hora do almoço e o estabelecimento estava cheio. Temia fazer a pergunta sinistra e despertar o riso malvado da freguesia. Tinha de falar com o dono do bar, mas de um modo mais privado. Esperaria até que o movimento caísse.&lt;br /&gt;A angústia da espera é muito pior quando se tem fome. A grana curta, porém, pedia moderação. Não queria gastar seu minguado dinheirinho almoçando em outro bar, porque teria de fazer uma despesa para conquistar a boa vontade do homem do balcão. Tinha de esperar com fome.&lt;br /&gt;Depois que o movimento do almoço terminasse, provavelmente o dono do bar estaria ocupado durante algum tempo, botando ordem na bagunça, e não estaria disposto a manter uma conversa leve sobre elefantes. A melhor estratégia era chegar depois das duas ou duas e meia da tarde. Tinha de esperar a hora certa. E esperou.&lt;br /&gt;Olhava para o relógio a intervalos de menos de cinco minutos, mas não entrou no bar até as duas e meia. Quando pisou na soleira, achou que devia dar mais um tempinho. Mais uma hora, talvez. Mas já estava lá, portanto ia ser agora mesmo. Decisão. Foco e decisão. Ah, sim! O engenheiro Ricardo teria se orgulhado dele. Aquele filho da puta do engenheiro Ricardo, que ia demiti-lo por ter visto um elefante.&lt;br /&gt;Sentou-se, pediu uma coxinha e meia cerveja.&lt;br /&gt;– Tem um molhinho de pimenta?&lt;br /&gt;– Mas é claro! – respondeu alegremente o homem, colocando o vidrinho na frente de Sérgio.&lt;br /&gt;Ótimo, o homem estava bem humorado. O movimento do almoço devia ter sido bom. Serginho optou pela abordagem indireta:&lt;br /&gt;– É verdade que tinha um elefante aí na avenida ontem?&lt;br /&gt;– Ah, é?&lt;br /&gt;– O senhor não viu?&lt;br /&gt;– Não...&lt;br /&gt;– Mas me disseram que ele quase entrou aqui no bar.&lt;br /&gt;– Entra muita gente aqui no bar, graças a Deus – disse o homem, fazendo o sinal da cruz.&lt;br /&gt;– Mas elefante não, né?&lt;br /&gt;– É, elefante eu nunca vi – confirmou, rindo.&lt;br /&gt;Foi nesse momento que Ativo Fixo interveio:&lt;br /&gt;– Eu vi o olifante.&lt;br /&gt;Como o dono do bar tivesse espantado a única testemunha do acontecimento, Serginho engoliu o restante da coxinha, secou o copo de cerveja, pagou e saiu. Precisava encontrar Ativo Fixo.&lt;br /&gt;Alcançou-o com facilidade e o convidou para conversar um pouco num outro bar, um pouco mais adiante. Sentaram-se numa mesinha e Serginho pediu:&lt;br /&gt;– Vê uma loira gelada aí para a gente.&lt;br /&gt;– E um quebra-gelo – completou Ativo Fixo.&lt;br /&gt;O botequineiro colocou dois copinhos de cachaça sobre a mesa.&lt;br /&gt;– O quebra-gelo era só um – disse Serginho olhando para o garçom.&lt;br /&gt;– Não, não – disse Ativo – pode deixar os dois.&lt;br /&gt;Antes que o sujeito voltasse com a cerveja, Ativo Fixo já havia entornado os dois martelinhos de pinga. Quando a loira gelada chegou, Serginho fez questão de servir ele mesmo. Enquanto colocava o precioso líquido no copo de Ativo, perguntou:&lt;br /&gt;– Então, seu Ativo, o senhor viu o elefante ontem?&lt;br /&gt;– É. O olifante. Eu vi.&lt;br /&gt;– Grandão o bicho, né?&lt;br /&gt;– Grande, muito grande. Um rabo muito grande.&lt;br /&gt;Serginho sorriu, imaginando que o bêbado devia achar que a tromba do elefante fosse o rabo do bicho. Conhecia uma piada assim, sobre uma velhinha que telefonou para o delegado dizendo que tinha um porco enorme com dois rabos na horta dela. Era elefante que tinha fugido do circo, como o delegado pensou. E a velhinha descrevia o que o porcão estava fazendo: “ele pegou um pé de alface com o rabo e... ai que horror, seu delegado!”&lt;br /&gt;Mas ele não queria ter lembrado da piada. Tinha de se concentrar no elefante da véspera. Foco, garoto, foco. “Filho da puta”, pensava Serginho. “Vou levar o bebum lá e o filho da puta vai enfiar bilhete azul no foco!” Foco, Serginho!&lt;br /&gt;– Fala mais do elefante, seu Ativo.&lt;br /&gt;– O olifante. Muito grande. Rabo grande, boca grande. Muito grande e muito forte, o olifante, rapaz. Eu vi.&lt;br /&gt;– Você viu o estrago que ele fez no Passat.&lt;br /&gt;– É, ha-ha-ha. Ele fez um estrago num Passat, rapaz! Tinha que ver!&lt;br /&gt;– E depois ele foi embora?&lt;br /&gt;– É. Depois ele foi embora.&lt;br /&gt;– O senhor viu para onde ele foi?&lt;br /&gt;– Para onde ele foi?&lt;br /&gt;– Não sei. Mas o senhor viu mesmo, né?&lt;br /&gt;– Claro, rapaz! Não te falei que eu vi? Pois então eu vi.&lt;br /&gt;– Não; é que ninguém daqui de perto viu.&lt;br /&gt;– Chhhh! – fez Ativo com o indicador na frente da boca. E quase cochichando:&lt;br /&gt;– Claro que eles viram! Todo mundo viu. Só não podem falar. Se disserem que viram o elefante, os outros vão falar que eles estavam bêbados. Ou que são loucos! Foi a mesma coisa quando São Jorge passou voando aí na praça, montado no dragão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;• Celso Paraguaçu •&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-7904301139710677019?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/7904301139710677019/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=7904301139710677019' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/7904301139710677019'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/7904301139710677019'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2009/05/um-elefante-dois-bebados-e-uma-carreira.html' title='Um elefante, dois bêbados e uma carreira que foi para o espaço'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/Shcdqp7Ag6I/AAAAAAAAALc/GCGzv2-lp4M/s72-c/19009_elephant.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-6120120195632267018</id><published>2008-07-27T10:35:00.003-03:00</published><updated>2008-08-03T15:17:12.299-03:00</updated><title type='text'>Reservados</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;i style=""&gt;&lt;br /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;Quando a umidade começou a incomodar, Otávio percebeu que já não estava tão assombrado. A decepção fora gigantesca, a ponto de lhe turvar a vista e quase fazê-lo desmaiar. Mas já se estava acostumando com a dor, já sentia o desconforto do muro frio em que se encostara. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;Levantou-se e caminhou pelas sombras até o portão, abriu-o silenciosamente e tomou o caminho que, minutos antes, havia percorrido com alegria e preocupação. Era melhor voltar. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;Por entre as sombras da noite, ia pensando na intensidade das emoções que explodiram naquele dia. O assalto, a morte, o necrotério, a vida, a alegria, a perturbação do espírito. Não entendia como ainda estava vivo, como o coração agüentara, como as veias não estouraram. Estava vivo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;Melhor que não estivesse. A tristeza de ter ouvido a mulher dizer aquilo só não foi maior do que o efeito causado pela declaração da filha. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;— Eu tinha me resignado, mãe — ouviu Dirce dizer. — Se tivesse forças, teria me separado de Otávio há anos. Não foi por causa das crianças não, mãe. É que eu já não tinha mais forças mesmo. Não ia conseguir refazer minha vida... Sim, Otávio era um bom homem. Só isso, um bom homem. Era honesto, trabalhador... Calmo, eu não sei se era. Nunca se alterou em casa, nunca levantou a voz. No máximo, ia dormir sem palavra. Mas ele era triste, mãe. Não tinha alegria. Quase vinte anos de casamento e nunca vi o Otávio rir. Sorriso, só uma vez, na fotografia do casamento, depois nunca mais. Nem antes. Não era brabo, não era sisudo, era triste. Uma tristeza contagiosa. Não, nunca reclamou de nada. Nem de comida ruim. Deus me perdoe, mãe, mas cheguei a fazer sopa sem sal para ver se ele esbravejava, se fazia algum comentário. Nada! Nem mesmo pediu sal para pôr no prato. Tomou a sopa sem sal e não disse palavra. Parecia que nem sentia o gosto. Não sei se tinha alguma dor, nunca falou nada. Talvez tivesse alguma coisa, mas nunca disse um ai. Nunca, nada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;Otávio tinha vindo cuidadosamente observar como estava a situação em casa quando ouviu a voz lamentosa da mulher. Ela não chorava; lamentava-se da vida miserável, não da morte do marido. Ele sabia agora que sua morte tinha sido um alívio para ela. Nunca imaginara que seu jeito reservado causasse tanto desagrado à mulher. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;Esperava encontrar a casa cheia de amigos e parentes. Viriam dar os pêsames a Dirce, saber se precisava de alguma coisa, dizer que se precisasse era só falar. Mas não. A mãe dela na cozinha, a mãe dele no quarto, com a menina, e só. Nem o sogro viera. Nem o cunhado. Amigos, não tinha. Talvez alguma vizinha tenha vindo mais cedo, durante o dia. Mas à noite, quando ele chegou, só a mãe dele e a mãe dela.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;Ele não sabia que significava tão pouco para Dirce, só tristeza. Julgava-se um bom marido, raramente deixava faltar alguma coisa em casa, e se nunca atendeu um capricho da mulher foi porque ela nunca expressou desejo algum. Sempre foi reservada, como ele. Era o que ele pensava. Mas não era reservada, era triste. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;E a menina... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;— Sabe, vó — ele ouviu, do lado de fora, a triste voz da filha, enquanto digeria as duras palavras de Dirce, que ainda ecoavam em sua cabeça agora vazia. — Pelo menos agora vou poder usar roupas escuras na escola — dizia a menina. — Acho que quando a gente está de luto pode ir de roupa preta, cinza, não precisa usar uniforme, né? Não posso dizer para a senhora que não gostava dele. Mas também não digo que gostava. Não, eu não vou sentir falta. Tanto faz. Quase nem percebia quando ele estava aqui. Às vezes me fazia um afago na cabeça, mas eu não gostava. Não me lembro de um dia alegre na minha vida, vó, nenhum dia. Tinha natal, aniversário, mas não tinha alegria. Só nós três. Depois veio o Nenê. Acho que é por isso que o Nenê não fala. O pai também não falava, nem a mãe. Na escola eu falo. Se alguém me pergunta alguma coisa eu respondo. Mas não puxo conversa com ninguém não. Agora acho que vão conversar menos comigo, porque estou de luto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;Otávio sentiu as pernas afrouxarem e encostou-se no muro úmido para não cair. E lá ficou, pensando, pensando, até que a umidade começou a incomodar. Agora Otávio iniciava a autocrítica. Não devia mesmo ter sido um bom pai, porque nem mesmo sabe o que significa ser pai. As crianças nasceram, com bom intervalo entre as duas, e só. Ele passou a ser pai delas. Realmente não era dado a carinhos. E nunca precisou repreender a menina, sempre tão reservada. O menino ainda era muito pequeno, só quatro anos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;O que ele sentiu quando ouviu as duas conversas é que tinha se preocupado à toa no caminho entre o necrotério e a casa. Acordara de repente, em cima de uma mesa gelada, e não reconhecera o lugar em que estava. Depois, aos poucos, foi se dando conta da situação. Estava no necrotério. Deviam ter pensado que ele estava morto. Era melhor sair dali antes que chegasse o patologista e lhe cortasse o corpo em busca da &lt;i style=""&gt;causa mortis&lt;/i&gt;. Sim, a &lt;i style=""&gt;causa mortis&lt;/i&gt;. Morrera de quê? Quer dizer, não estava morto, mas que teria acontecido com ele?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;Aos poucos veio-lhe a lembrança de ter encontrado um assaltante dentro da loja, quando abriu a porta pela manhã. O susto foi enorme e ele não se lembrava de mais nada. Teria sido baleado? Apalpou-se, mas não sentiu nada, nenhuma dor nem sinais de sangue na roupa. Só nesse momento percebeu que estava vestido. Será que foi um ataque do coração? Mas estava vivo, e não sentia dor. Será que não haveria autópsia? Iam mandá-lo diretamente para a funerária? Ou será que a funerária preparava os cadáveres no necrotério mesmo? Otávio não sabia. Nunca teve interesse nesse assunto. Aliás, nem nesse nem em nenhum outro. Só sabia que estava vivo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;Saiu do necrotério esgueirando-se, aproveitando a escuridão da noite sem lua, e foi para casa a pé. Andava rente às paredes, temendo encontrar algum conhecido. Precisava dizer a Dirce que estava vivo. Quando ouvia vozes, escondia-se atrás do tronco de uma árvore, de uma banca de jornais, de um carro, até que as pessoas passassem. Temia que o vissem, como se estivesse sendo procurado por assassinos. Enquanto estava escondido, pensava em como avisar a mulher sem lhe causar um susto fatal. Ela não acreditava em espíritos, fantasmas, ele achava. Mas podia morrer com o sobressalto de vê-lo em pé na porta. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;Imaginava encontrá-la aos prantos, abraçada com a filha também desfeita em lágrimas, rodeadas ambas  pelos parentes, amigos e vizinhos. Deveria haver alguém com quem pudesse falar, em vez de aparecer na porta de repente. O sogro, talvez. Ou o cunhado. Não pareciam ter medo de assombração. Ele poderia explicar que estava vivo, e o parente entraria na casa, irradiando alegria e dizendo: “Gente, o Otávio não morreu! Ele está vivo e vem vindo para casa!”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;Seria uma alegria imensa, ele imaginava. Uma alegria como nunca houvera naquela casa. Mas agora, pelas palavras da mulher e da filha, ele se dava conta de que naquela casa jamais houve alegria mesmo.  É.  A decisão estava certa.  Faltava pouco, agora. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;Otávio atravessou a rua e entrou às escondidas novamente no necrotério. Ouviu vozes, talvez um pouco alteradas, uma discussão, e achou que o assunto podia ser o seu sumiço. Mas na sala em que estivera, tudo estava calmo e na penumbra. Deitou-se outra vez na mesma mesa fria de antes, cruzou as mãos, fechou os olhos e morreu.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 0, 204);"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:navy;"&gt;&lt;span style="color: rgb(102, 0, 204);"&gt;• Celso Paraguaçu •&lt;/span&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-6120120195632267018?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/6120120195632267018/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=6120120195632267018' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/6120120195632267018'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/6120120195632267018'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/07/revertere-ad-locum-tuum.html' title='Reservados'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-233363557191706254</id><published>2008-07-08T16:40:00.003-03:00</published><updated>2008-12-11T17:00:41.214-02:00</updated><title type='text'>A sucinta e odiosa história da sereiazinha que não sabia nadar</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/SHPDH0DilhI/AAAAAAAAAHo/slZni8ZdwfY/s1600-h/Sereia+com+autor.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/SHPDH0DilhI/AAAAAAAAAHo/slZni8ZdwfY/s400/Sereia+com+autor.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5220730932052530706" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;span style="" lang="EN-US"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Ela morreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;• Celso Paraguaçu •&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-233363557191706254?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/233363557191706254/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=233363557191706254' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/233363557191706254'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/233363557191706254'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/07/sucinta-e-odiosa-histria-da-sereia-que.html' title='A sucinta e odiosa história da sereiazinha que não sabia nadar'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/SHPDH0DilhI/AAAAAAAAAHo/slZni8ZdwfY/s72-c/Sereia+com+autor.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-8224677911649785407</id><published>2008-05-30T20:20:00.001-03:00</published><updated>2008-12-11T17:00:41.681-02:00</updated><title type='text'>The show must go on</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/SECNG0_0OOI/AAAAAAAAAHY/thWqAUfAgI0/s1600-h/1-SaoJorge.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/SECNG0_0OOI/AAAAAAAAAHY/thWqAUfAgI0/s400/1-SaoJorge.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5206316317685332194" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;— E aí Jorge! Como é que vai essa força?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Oi.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Ih, tá de lua outra vez, cara? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— É, não tou legal. Me deixa sozinho, faz favor.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Ah, não, meu. Vamos pôr para cima esse espírito guerreiro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Não enche, tá?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Qual é, Jorjão? Ainda estamos no comecinho do quarto minguante, praticamente lua cheia. Não tem razão para você ficar assim. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Tem, sim, Drão. Eu perdi tudo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Perdeu o quê? Olha toda esta lua, só para nós e aquele seu pangaré. Tem um pouco de lixo que os astronautas deixaram, as bandeirinhas, uns pedaços de lata, aquele jipinho ridículo, mas tem espaço à vontade para nós. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Não é isso, Drão, é que sou um fracasso, não percebe?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Você? Quem fracassou fui eu. Quem levou aquela espetada de lança fui eu. Você foi o cara que matou o dragão, virou herói e depois santo, lembra? Eu perdi, você ganhou. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Você não entende, Drão. Eu perdi a devoção das pessoas. Para um santo, a devoção é tudo; quando perde isso, não tem mais nada. Eu era popular, talvez o mais popular de todos, todo mundo gostava de mim. Até no candomblé eu tinha lugar de honra. Mas as pessoas agora desconfiam de mim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Isso é frescura de prima-dona, Jorjão. Nunca ninguém gostou de mim e nunca senti falta disso.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Então, cara! Você não perdeu porque que nunca teve. Na verdade, até que você é querido atualmente. Tá cheio de filmes, desenhos animados japoneses e jogos eletrônicos em que o herói é um dragão. Ou pelo menos o dragão ajuda o herói.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Pois agora quem está ficando pra baixo sou eu. Sempre em segundo plano, sempre coadjuvante, nunca o ator principal.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Mas são histórias humanas, Drão. O herói tem de ser humano, não pode ser o dragão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— É. Mas você também não tem do que reclamar. Está aí chorando de barriga cheia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Como barriga cheia? Eu fui cassado, esqueceu? O papa disse que eu era uma lenda e não podia ser santo. Cassou minha carteirinha! A minha, a do Cristóvão e de mais uns três ou quatro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;—A sua carteirinha já lhe foi restituída. Você recuperou o &lt;i&gt;status&lt;/i&gt; de santo. Foi cassado, mas o Vaticano voltou atrás. Desde quando o papa manda mais que um santo?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Ah, Drão, santo não manda nada. O papa sim. Ele faz leis, éditos, manda e desmanda. Nós, no máximo, fazemos um ou outro milagrezinho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Milagrezinho? Você chama de milagrezinho? Você não se lembra do Viola, do Vampeta, do Biro-Biro? E mesmo assim o Timão ganhava um jogo ou outro! Isso não era milagrezinho, não! Era um milagre mesmo! E dos grandes!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— É por isso que estou triste, Drão. Deixaram cair minha imagem em plena procissão do meu dia, lá no Parque. Voou caco para todo lado. Eles não me respeitam mais, perderam a devoção. Acho que foi porque no ano passado não consegui evitar o rebaixamento.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Também, com aquele time, acho que nem o Nazareno ia conseguir.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Não brinca, Drão, que Ele pode não gostar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— É, foi mal. — e, olhando para cima, — Desculpa aí, Chefia! Mas Jorjão, no candomblé a moçada ainda faz muita festa para você.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Isso é verdade.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— A torcida do Timão ainda te curte muito.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Bem, eles ainda acendem muita vela...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— E você continua sendo o santo oficial de Portugal e da Inglaterra.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Portugal, tudo bem, mas na Inglaterra eu já não sei. Os súditos até gostam de mim, mas acho que já não sou mais o santo oficial. Antes a rapaziada gritava “Por São Jorge e pelo Rei” e fincava a espada nos inimigos. Isso até deve ter pesado contra mim, sabia? Como é que um santo podia ajudar o invasor, que vinha roubar riquezas e matar pessoas? Eu não favorecia, você lembra. A gente ficava só vendo a briga, sem beneficiar ninguém. Teve até aquela vez na Zululândia, lembra? Foi triste, fizeram até filme. Os zulus dizimaram o exército britânico. Um massacre!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;—Aquela vez foi demais! Não ficou um casaca vermelha vivo, uau! Os zulus deram o maior pau no Império Britânico! Foi da hora, mó legal!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Você vê que a gente nem torcia pelo mesmo lado. Como é que eu podia ajudar alguém, se você era contra?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Ah, espera aí, meu! Ninguém pedia minha proteção não. Mesmo porque, eu perdi a luta. Não se pede ajuda de um vencido. Os guligans chamavam o seu nome.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;—Evocavam meu nome e passavam os inimigos a fio de espada. Isso pode ter pegado mal, pode ter influenciado o papa, quando ele resolveu me cassar. Eu fiquei arrasado, reduzido a subnitrato de pó de traque. Sabia que mudaram os santos das igrejas antes dedicadas a São Jorge? Tinha uma pequenininha de que eu gostava, bem pobrezinha, que passou a ser de Santa Isabel. Só porque o bairro se chamava Vila Isabel. Já imaginou? Trocaram um bravo guerreiro, como eu...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Vai devagar, Jorjão. Nem tão bravo assim, hein? Eu tava lá tomando um solzinho, de barriga para cima, você chegou de repente, montado no pangaré, e nem tive tempo de me virar. Você me fincou a lança na goela. Doeu, viu? Ainda dói um pouquinho, quando o tempo esfria.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Desculpe, Drão, mas eu tinha de fazer isso. Estavam dizendo que você ia comer a princesa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— E você acreditou? O que esse povo faz de fofoca não está escrito! Cê acha que eu ia comer aquela coisinha magricela, descarnada? Só servia para palitar os dentes. Você não me conhece mesmo. Eu gosto de mulheres mais substanciosas, Jorjão. Com mais carne. Essas magricelinhas, para mim, são verdadeiros dragões.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;—Eram outros tempos, aqueles, Drão. Eu era muito jovem, entusiasmado, ia no embalo da torcida. Nem precisava ter princesa na parada. Se a moçada gritava “Mata!”, eu matava mesmo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Ahã, desde que o dragãozinho estivesse de barriguinha para cima, tirando um cochilo ao sol...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Eu já te pedi desculpas mil vezes, né? Não te conhecia, não sabia que você era gente boa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— É, foi chegando e enfiando a lança... matar primeiro e perguntar depois, tipo tropa de elite.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Ah, Drão, naquele tempo era assim. Não tinha essa coisa de direitos humanos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Draconianos, Jorjão. Direitos draconianos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Olha, acho bobagem a gente ficar discutindo isso outra vez. Aquele papa disse que nossa luta nunca aconteceu, que era uma lenda. É isso que somos, Drão, apenas lenda.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Nós, quem, cara pálida? Eu sempre fui lenda. Pode ser novidade para você, mas eu nunca existi de fato. No passado uns chineses encontraram uns fósseis de dinossauros alados e chamaram aquilo de esqueletos de dragões. Nunca viram um dragão, mas se o esqueleto existia, os animais deviam existir também. Tem lógica, só que não existiam os dragões cujas feições eles criavam. Inventaram uma infinidade de dragões que podiam ter usado aqueles esqueletos. Só que os esqueletos eram de répteis alados extintos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— É duro, né? Eu também fui rebaixado a lenda, ainda menos real do que você, porque nem tenho um esqueleto que faça supor minha existência. Foi o que o papa disse, uma lenda.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Mas é o que eu estou te dizendo, Jorjão. Isso já foi consertado, você recuperou seu &lt;i&gt;status&lt;/i&gt; de santo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— É que fiquei magoado... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Sei...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— E o povo perdeu a fé em mim... Não é mais como antes...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;— Deixa disso, boneca. Seus admiradores continuam rezando em seu nome, fazendo promessas e oferendas. Você continua com a bola toda, Jorjão. Chama lá o pangaré e vai buscar sua lança que eu já vou me deitar aqui de barriguinha para cima. Está quase na hora da Lua surgir lá na Terra. &lt;i&gt;The show must go on&lt;/i&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;&lt;b&gt;• Celso Paraguaçu •&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(0, 0, 102);"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:navy;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-8224677911649785407?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/8224677911649785407/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=8224677911649785407' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/8224677911649785407'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/8224677911649785407'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/05/show-must-go-on.html' title='The show must go on'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/SECNG0_0OOI/AAAAAAAAAHY/thWqAUfAgI0/s72-c/1-SaoJorge.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-6092398534635506080</id><published>2008-05-20T12:44:00.003-03:00</published><updated>2008-12-11T17:00:41.786-02:00</updated><title type='text'>O grande buraco debaixo da Europa</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/SDLyRiyo4JI/AAAAAAAAAHI/ghe1FVeC99Q/s1600-h/Image1.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/SDLyRiyo4JI/AAAAAAAAAHI/ghe1FVeC99Q/s400/Image1.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5202486902777241746" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color:navy;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:navy;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 51, 0);"&gt;Em julho ou agosto deste ano entrará em operação o Large Hadron Collider, ou simplesmente LHC, como é conhecido entre os físicos. O LHC, que faz parte do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern, na sigla em francês), está instalado em um túnel circular de 27 km de extensão escavado a 100 metros da superfície, em média.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 51, 0);"&gt;Escavar o túnel deve ter dado uma dor de cabeça danada. A freguesa já imaginou o tamanho do compasso necessário para desenhar um círculo de 27 km de extensão? O raio do tal túnel tem, segundo meus cálculos, quase 4.300 metros. Quem seria capaz de fazer girar esse compassão? E como é que os caras fizeram para traçar o risquinho do compasso 100 m abaixo da superfície? Os engenheiros tiveram de relembrar todas aqueles contas que aprenderam a fazer no cursinho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 51, 0);"&gt;Dá para imaginar a cena. Ao lado do operador do tatuzão, a máquina inventada para fazer túneis, vai o engenheiro, usando um daqueles ridículos capacetes de plástico colorido. Tem nas mãos uma pranchetinha de plástico que já vem com calculadora, fabricada na China e comprada no camelô da esquina. De vez em quando, ele faz umas contas, manda parar a máquina, se afasta um pouco, verifica a bússola e diz:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 51, 0);"&gt;— Mais para a direita um pouquinho, Severino.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 51, 0);"&gt;Passa um tempinho, ele manda parar a máquina de novo, refaz os cálculos e diz: “Para a esquerda agora, mas não muito.” Severino, como bom trabalhador de obra, obedece sem discutir, mas já percebeu que não vai dar; o fim do túnel não vai coincidir com o começo. Dois dias depois, o engenheiro chega meio sem jeito: &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 51, 0);"&gt;— Severino, vamos ter de voltar uns três quilômetros. Naquele ponto em que você virou um pouquinho para a direita era para ir em frente. E fique de olho no nível, senão a gente sai acima ou abaixo do ponto inicial. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 51, 0);"&gt;Na cerimônia de visitação do túnel, em 6 de abril passado, ninguém falou quantos inícios errados de espirais foram feitos, caracóis para fora e para dentro do círculo, para cima e para baixo. Foram muitos, certamente. Mas finalmente conseguiram fazer as duas pontas se encontrarem. E aí encheram o túnel de tubos de vidro, de peças de metais variados e muitos quilômetros de fios. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 51, 0);"&gt;Todo esse trabalho tem uma justificativa. Os físicos querem compreender melhor a Natureza. Farão com que alguns prótons se choquem, cada um vindo de um lado do túnel quase à velocidade da luz e sem freio, para que se dividam em seus componentes fundamentais, os quarks e bósons, partículas responsáveis por três das quatro forças da natureza: eletromagnetismo, atração nuclear forte e atração nuclear fraca. São estas que mantêm os quarks reunidos em porções maiores de matéria, como os prótons. Também permitem que os prótons fiquem grudadinhos, mesmo tendo todos carga positiva. A quarta força é a gravitacional. Os cientistas acham que a força gravitacional fica de fora nesses experimentos. Não fica, mas eles pensam que fica, os tolinhos. O tal do bóson, que explicaria muita coisa, nem se sabe se existe mesmo. Mas os maluc... os físicos esperam detectá-lo no LHC. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 51, 0);"&gt;A freguesa não precisa se preocupar com as trombadas dos prótons. Nem mesmo se tiver algum parente na Suíça que ganhe a vida prosaicamente, criando meia dúzia de vaquinhas leiteiras nalgum vale 100 metros acima do grande túnel. Não haverá cogumelos atômicos jogando as vacas para o ar. Os choques de partículas não produzirão energia suficiente nem para acender um cigarro. O que, aliás, é proibido no LHC.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 51, 0);"&gt;Ao compreender melhor os fenômenos físicos da Natureza, os cientistas darão consistência a certas teorias, como o Modelo Padrão. Teoria é uma explicação para um determinado fenômeno. Não passa de uma hipótese, que precisa ser comprovada para ser universalmente aceita e virar Lei da Física. Quando Einstein disse que a luz era desviada por corpos de grande massa (os de pequena massa também a desviam, mas seria mais difícil constatar nestes), foi preciso esperar por um eclipse total do Sol para comprovar se a teoria estava certa ou não. Estava, antes que a freguesa me pergunte.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 51, 0);"&gt;Conhecer as forças atuantes na Natureza tem muita utilidade. Quando a freguesa deixou cair acidentalmente aquele horrível vaso de porcelana que ganhou da sogra, o que fez, fisicamente, foi expor a pavorosa peça à ação da força da gravidade. O vaso não caiu; foi atraído pela grande massa do Planeta Terra. Ao chegar ao chão houve um choque de forças, a da gravidade contra a da superfície, exercida em igual intensidade, porém em sentido contrário, como explicou Newton. O resultado do choque interferiu nas forças que mantinham coesas as partículas que constituíam o vaso, causando a fragmentação do objeto. Em outras palavras, aquela coisa horrorosa espatifou-se.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 51, 0);"&gt;Mas o ímã de geladeira com o telefone da distribuidora clandestina de gás de cozinha não cai. Fica grudado como se tivesse algum tipo de adesivo. É a força eletromagnética que o mantém lá, superando a ação da gravidade. A freguesa poderia perguntar de onde vem o “eletro”, se o cartãozinho não tem pilha. A resposta é simples: eletricidade e magnetismo são forças complementares, uma gera a outra. Um ímã é puramente magnético apenas quando está parado. Ao se movimentar, induz uma corrente elétrica em qualquer condutor que esteja por perto. Como no Universo nada está parado, salvo as obras públicas que não dão voto, o ímã de geladeira também é eletromagnético.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 51, 0);"&gt;Está, pois, explicado o envolvimento de quase 10 mil físicos, dentre os quais 68 brasileiros, e o investimento de quase 9 bilhões de dólares desde 1993 na construção do LHC. Em poucos anos a Ciência permitirá o desenvolvimento de novas tecnologias que propiciarão o aperfeiçoamento dos ímãs de geladeira.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 51, 0);"&gt;&lt;b&gt;• PGC •&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; color: rgb(102, 51, 0);"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-6092398534635506080?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/6092398534635506080/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=6092398534635506080' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/6092398534635506080'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/6092398534635506080'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/05/o-grande-buraco-debaixo-da-europa.html' title='O grande buraco debaixo da Europa'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/SDLyRiyo4JI/AAAAAAAAAHI/ghe1FVeC99Q/s72-c/Image1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-6036539347860428907</id><published>2008-04-30T02:23:00.005-03:00</published><updated>2008-12-11T17:00:42.791-02:00</updated><title type='text'>Evangelizador fracassado</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/SBgEErHifgI/AAAAAAAAAGw/9VK27xyucsw/s1600-h/Caneca.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/SBgEErHifgI/AAAAAAAAAGw/9VK27xyucsw/s200/Caneca.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5194906648512200194" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— O próximo! — gritou o centurião.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;O soldado se aproxima, trazendo pelo braço um velho malvestido, como costumavam se vestir os judeus pobres daquele tempo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Então, judeu, você estava na catacumba?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Não. E também não sou judeu, sou da Samaria.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Não? Então não devia estar aqui. Isto é o interrogatório das pessoas que foram capturadas nas catacumbas na noite passada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Eu já estou preso há muito tempo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;O centurião nem quis saber por que o velho estava preso. Os romanos costumavam encarcerar pessoas sem dizer a razão. Provavelmente o velho também ignorava seu delito, mas sabia que se apanhava menos ficando preso sem chiar. Ademais, depois de um duro dia de interrogatórios, o centurião estava irritado. Vários de seus companheiros de farda se haviam convertido à nova religião depois de perseguir e interrogar subversivos que se reuniam em catacumbas. Estava virando moda a nova religião. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;O monoteísmo era mais prático, bem ao gosto dos pragmáticos romanos. Foram eles, por exemplo, que transformaram os enrolados pergaminhos em livros. Em vez de desenrolar seis ou sete metros de pergaminho, bastava folhear até a página vinte. Eles também institucionalizaram o sistema decimal, a começar por seus exércitos, que eram divididos em centúrias – cem soldados – e estas em decúrias. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;Mas na hora de fazer sacrifícios religiosos, precisavam saber qual era o deus adequado a suas intenções. Se fizessem um sacrifício para o deus errado, podiam acabar apaixonados pelo inimigo. O monoteísmo era muito mais prático. Endereçava-se o sacrifício a um único deus e este se incumbia de providenciar a ajuda mais conveniente. E vinha se disseminando a idéia de pequenos sacrifíciozinhos semanais em vez de grandes e eventuais hecatombes. Era o conceito de prestação semanal que os judeus introduziam em Roma.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;Mas o centurião não queria abraçar o monoteísmo só pela moda. Precisava de uma razão mais forte. Estava disposto a ser convertido, mas não dava sorte com os interrogados. Não era a primeira vez que passava o dia fazendo perguntas aos catacumbeiros. Argumentos convincentes, porém, jamais lhe foram apresentados. Todos contavam histórias que tinham ouvido. Ninguém presenciara milagre algum, ninguém jamais tinha ouvido pessoalmente o tal Cristo, ninguém o havia conhecido. Não havia nada de sólido para alicerçar sua possível conversão ao monoteísmo. Além disso, estava cansado e queria ir embora logo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Soldado! Leve este homem daqui. E traga o próximo que estava nas catacumbas!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Ele é o último. O decurião mandou que eu o trouxesse. Disse que deveria lhe interessar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Leve-o de volta. Estou aqui para interrogar os subversivos das catacumbas. Este velho não estava entre eles.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Mas centurião, não posso levá-lo antes que o senhor fale com ele. Foi o que disse o decurião.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Ninguém pode servir a dois senhores. — comentou o velho em voz baixa. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Hein? — perguntou o centurião.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Ele disse que ninguém pode...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Calado, soldado!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— ... &lt;/span&gt;&lt;span style=";font-size:100%;color:maroon;"  &gt;servir&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-size:85%;color:maroon;"  &gt; a dois &lt;/span&gt;&lt;span style=";font-size:78%;color:maroon;"  &gt;senhores&lt;/span&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Foi isso, velho?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Sim. O moço disse isso uma vez. O respeito à hierarquia é um bom princípio de administração. E o respeito tem de se dar de cima para baixo também. Nem mesmo o chefe da guarda do palácio pode dar uma ordem a um escravo de César. O escravo de César só deve obediência a César.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Esse moço de que você fala era romano? Um soldado?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Ah, não, era um civil, nascido em Belém, na Judéia. Boa pessoa. Fazia cada uma!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— E se chamava Jesus?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Esse mesmo, filho de José, o carpinteiro. Conhece?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Então você é um desses que se reúnem nas catacumbas!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Não, eu sou só um prisioneiro. Aqueles caras que freqüentam as catacumbas se dizem seguidores das idéias de Jesus, que eles chamam o Nazareno, mas nem o conheceram. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— E você o conheceu, suponho... — ironizou o centurião.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Sim, nos bons tempos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Bons tempos?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— É, eu era jovem. Foi em Caná, ele ainda não era um líder das massas. Estava com a mãe, Dona Maria, os irmãos e alguns amigos. Era um sujeito divertido. Estávamos num casamento, bela festa, mas com mais convidados do que vinho. Quando o vinho acabou, a mãe do moço foi falar com ele. Pois acredita que ele transformou água em vinho? Água em vinho! Fiquei pasmo! E era vinho bom, muito bom. Posso dizer porque conheço um pouco de vinhos e bebi daquele. Muito bom mesmo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Você diria que presenciou um milagre?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Não, era vinho mesmo! Muito bom. Quando a festa acabou, o moço foi para Cafarnaum, com a mãe, os irmãos e os amigos. Eu fui atrás. Os judeus não gostam que os samaritas andem com eles, então eu ia a uma certa distância. E comecei a seguir a turma dele. Queria estar por perto quando ele fizesse aquilo de novo, transformar água em vinho. Eu não era apóstolo, como ele chamava os mais chegados, nem era discípulo. Só andava por perto. Sempre tinha muita gente em volta dele, buscando cura para cegueira, aleijões, lepra, possessões demoníacas. Ele curava tudo isso sem receitar um chazinho, uma erva, nada. Simplesmente dizia: “Está curado”, assim como quem acaba de consertar uma sandália ou costurar uma roupa rasgada. Ou então: “Tua fé te curou”. E os aleijados saíam andando, os cegos começavam a ver, os leprosos saravam, até mortos ressuscitavam. Ia juntando cada vez mais gente, mas ele foi perdendo a alegria, foi ficando muito sério, só falava de fé, de reino de Deus, essas coisas. Ainda continuei andando atrás da turma durante um bom tempo. Mas o moço perdeu a alegria e eu parei de acompanhá-los.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— E você viu tantos milagres, ouviu as palavras de Jesus e não se converteu a essa nova religião?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Olha, para falar a verdade não dava para ouvir direito não. Geralmente quando ele começava a falar para a multidão tinha muito barulho. Havia muitas crianças, rindo e gritando, cabras e ovelhas berrando, cachorros latindo, mães e pastores ralhando, gente chorando, outros clamando para que o moço os ajudasse. A gente não conseguia ouvir praticamente nada do que ele falava. E eu achava essas grandes reuniões muito chatas, então me afastava e ficava olhando de longe. Só voltava para perto da turma quando a massa tinha ido embora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Mas viu muitos milagres, não viu?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Se você quer chamar de milagres, vi sim, inúmeros.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— E não ficou impressionado?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— É, o moço era bom mesmo. O que ele curava de gente estragada não era mole. Mas o que eu gostava mais era quando ele fazia o vento parar de soprar, o céu ficar claro em plena tempestade, ou quando alimentava multidões com uma cesta de pães e uns poucos peixes. Mas ele foi ficando triste... Dever ter sido excesso de trabalho. E eu acabei me afastando.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Só porque ele ficou triste?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— É. Durante mais de dois anos eu andei atrás da turma. Ele esteve com os amigos no mar da Galiléia, no rio Jordão, e eu por perto, com minha canequinha presa no cinto. Estava preparado para o dia em que ele transformasse água em vinho outra vez. Não faltou oportunidade. Quando comecei a desconfiar que ele nunca mais faria isso, caí fora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Soldado! Leve este pau-d’água de volta para a prisão!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;• &lt;b&gt;Celso Paraguaçu&lt;/b&gt; •&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-6036539347860428907?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/6036539347860428907/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=6036539347860428907' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/6036539347860428907'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/6036539347860428907'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/04/evangelizador-fracassado.html' title='Evangelizador fracassado'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/SBgEErHifgI/AAAAAAAAAGw/9VK27xyucsw/s72-c/Caneca.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-831672888196880522</id><published>2008-03-21T19:05:00.006-03:00</published><updated>2011-08-17T10:07:54.924-03:00</updated><title type='text'>A falta da cabrita</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R-QxaSZtkiI/AAAAAAAAAGY/lmX8pYYIQK0/s1600-h/Cabrita-HowTo.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://1.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R-QxaSZtkiI/AAAAAAAAAGY/lmX8pYYIQK0/s400/Cabrita-HowTo.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5180319799068955170" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Eu não gosto de médico.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Eu sei, mas é só um checape.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Fiz um no ano passado e ’tava tudo bem. Isso é igual carteira de motorista, só tem de renovar de cinco em cinco anos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Mas não é para ver o coração, é outra coisa... Sua cabeça. Não está muito bem e pode ser o mal de Alzheimer.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Você está delirando! Eu nunca escapei marcha!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— É, mas ontem, quando eu falava com a Ana Cláudia, você veio com uma conversa totalmente sem propósito. Pode ser um sinal do mal de Alzheimer e é bom ver isso logo, pois se pegar no começo o tratamento funciona.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Conversa sem propósito? Vocês duas nem me deixam abrir a boca quando estão de prosa!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— É conversa de mulher, você não entende.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— O que vocês conversam de nível tão alto que eu não consigo entender?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Muitas coisas. Ontem, por exemplo, estávamos falando de sinais; dos sinais que aparecem na vida da gente e nem sempre se sabe interpretar. Ela acredita nos sinais, mas acha que são as forças do universo que os põem à nossa vista. Eu acho que é Deus. A Lúcia tem certeza de que são os astros.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— A Lúcia não vale. Ela é pirada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Não é não. Ela é astróloga. E muito boa. Você devia respeitar mais sua filha.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Eu respeito. Mas acho que ela é piradinha. Veja a Ana Cláudia: ainda é quase uma menina, mas tem a cabeça no lugar, sabe o que quer da vida...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— E vai se casar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Então... Quem? Quem vai se casar, a Aninha? Você está louca?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Vai para a Alemanha e vai se casar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Mas como? É uma menina!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Tem a idade que eu tinha quando nos casamos. E já é mais velha do que a Lúcia era quando se casou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Mas a Lúcia é uma pirada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Não é pirada não. É socióloga, competente, famosa, doutora. E também é astróloga, porque nós, mulheres, somos múltiplas. Você mesmo não diz que a lasanha da Lúcia é imbatível? E você acha que ela aprendeu a fazer lasanha na Sociologia ou na Astrologia? Não; é porque ela é mulher, é múltipla. É profissional, é mãe, é artista, é astróloga, é motorista, é dona-de-casa, é professora, é pesquisadora, é múltipla.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Mas a Aninha vai se casar mesmo? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— É, ela conheceu um rapaz na universidade, um bolsista da Alemanha, e acha que identificou alguns sinas de que ele é o homem da vida dela.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— E por causa dos sinais, vai se casar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— É. Vai terminar a universidade, vai se casar, fazer mestrado na Alemanha. Como você disse, ela sabe o que quer da vida.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Ah! Eu pensei que ela ia se casar logo. Mas se vai esperar o fim do curso, vai ter de concorrer a uma bolsa de mestrado... ainda demora. E acaba nem se casando com o alemão. As moças são assim, se apaixonam, se desapaixonam... Coisas da juventude.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Pode ser. Mas acho que desta vez é pra valer. Ela está muito impressionada com os sinais que diz serem uma expressão das forças do universo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Isso é influência da pirada da Lúcia! Aposto que ela fez o mapa astral do rapaz e disse que ele combina com a Aninha.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Não é não. Eu não sei que sinais são esses que ela diz ter identificado, mas ela ainda nem falou com a mãe. Veio conversar comigo ontem porque sabe da nossa história, que a Lúcia contou para ela.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Que história?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Eu nunca lhe falei, mas quando vi você pela primeira vez, sabia que viveria com você até o fim de meus dias. Eu tinha recebido um sinal.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— De Deus?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Eu acho que foi. E quero pensar que foi. A Lúcia acha que foram os astros e a Ana Cláudia diz que são as forças do universo. Mas eu prefiro pensar que foi Deus.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— E Deus disse que você ia casar comigo?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Não é assim que a coisa funciona, Aurélio. Vocês, homens, são tão simplistas, tão infantis que chegam a irritar. Você acha que Deus chegou para Moisés e falou: “Anota aí, meu filho, os dez mandamentos da minha lei.” Não é assim. A gente tem de sentir que uma coisa é um sinal, tem de interpretar a manifestação divina. Não é tudo claro e simples. Bem, no caso do Moisés acho que foi, sim, porque ele era homem. Se os sinais fossem mais complexos talvez ele não entendesse.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Vocês mulheres têm uma implicância com o raciocínio masculino...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— ’Tá, ’tá, deixa o Moisés para lá. Mas foi por isso que eu nunca lhe falei do sinal. Porque achava que você não entenderia. Com as meninas é diferente. Eu contei para a Lúcia quando ela era mocinha e ela contou para a Aninha. Elas entendem isso. Por isso é que gostam tanto de você. Elas sabem que estamos destinados a viver juntos até a morte.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Mas que sinal foi esse?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Eu não vou contar, porque você não ia entender e podia até ficar fazendo piada com algo que eu acho que é sagrado. É só para mim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— E para a Lúcia, e para a Aninha...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Para elas, sim; porque a felicidade delas pode depender disso, de interpretar corretamente um sinal, como eu fiz.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Mas quando foi que você viu esse sinal?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Ah, foi um instante antes de a gente se ver pela primeira vez. Eu levei um tremendo susto, mas depois senti que aquilo era um sinal.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Você está falando daquela vez que a gente se encontrou naquele bar em que todo mundo ia, como chamava mesmo?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— O “Amarelo”. Mas foi antes. Quando a gente se cruzou no Amarelo eu já sabia que você era o homem da minha vida. O sinal foi antes, da primeira vez que a gente se viu, naquela estrada, quando meu carro saiu da curva e você veio me socorrer. Não se lembra?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Lembro, você estava muito assustada, e como era bonita! Dizia que a curva da estrada estava cercada de caixões de defuntos, quase não conseguia respirar. Aí eu lhe dei um pouco de água, você se acalmou e foi embora. E na noite seguinte nos encontramos no Amarelo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— É, e eu fiquei falando de mim o tempo todo. Duas semanas mais tarde, quando você disse que estava trabalhando temporariamente numa funerária, eu tive certeza absoluta de que minha interpretação do sinal estava correta. Era isso mesmo, você era o homem da minha vida.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Mas e o sinal?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— 'Tá vendo? Eu falei dele e você nem percebeu. O sinal foi a curva cercada de caixões. Onde se poderia ver uma curva de estrada toda murada com caixões de defunto? Claro que eu me assustei. Era noite alta, eu sozinha numa estrada sem movimento algum, com medo de ficar com sono, e quando entro na curva vejo uma muralha de caixões de defunto, como não me assustaria? Mas depois que me acalmei e voltei para a estrada, compreendi que não havia caixão nenhum, que aquilo tinha sido um sinal de que estava próximo o instante de encontrar o homem com quem eu viveria até a morte. E encontrei você, que foi me socorrer. Não acha que foi um sinal?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— ...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Não acha que foi um sinal?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— É, acho que sim, não sei. Pode ter sido. Eu não entendo dessas coisas. Bem, se você achou que era, então devia ser mesmo, né? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Mas você não vai fazer piada com isso, vai?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Não, claro que não. Eu respeito suas maluq... suas idéias. Se você acha que foi um sinal, então foi, pronto. Um sinal divino. E não se fala mais nisso.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Eu estava contando essa história ontem para a Ana Cláudia. Ela já a tinha ouvido da mãe, mas quis ouvir de mim, para conferir cada ponto. Foi quando você interrompeu para falar alguma coisa sobre uma cabrita, por isso acho que você precisa ir ao médico, para ver se não precisa de tratamento.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;— Ah, não! — disse Aurélio sorrindo. — É que tinha me lembrado de uma história e ia começar a contar a ela, nem tinha percebido que você estavam conversando sério. E a história era uma bobeira, acho que ela nem ia gostar. Coisa muito infantil. Não preciso de médico não.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;E não precisava mesmo. Aurélio se lembrava perfeitamente de tudo que acontecera na véspera. Sua intervenção pouco clara fora: “Faltou uma cabrita”. As mulheres não entenderam e ninguém entenderia mesmo. Mas Aurélio estava seguro de que tinha faltado uma cabrita.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;A cena toda jamais saiu de sua cabeça. Só não contara para a mulher porque não queria ser acusado de quase tê-la matado de susto. E quem sabe se não foi mesmo o destino quem armou tudo? O destino, as forças do universo, os astros, Deus, sabe-se lá. Mas, quem quer que tenha sido, contou com a pequena ajuda do Samuel, que não sabia fazer uma cabrita.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;Samuel trabalhava na marcenaria que fabricava urnas funerárias. Aurélio viera buscar uma carga para a funerária na qual trabalhava, mas não queria carregar o caminhão. Ele era motorista, carregador não. Deixou o caminhão parado na fábrica e foi jantar no Garrote de Ouro, enquanto Samuel e os companheiros faziam a carga caprichosamente. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;A noite clara de lua dava uma boa garantia de que não vinha chuva. Não precisariam cobrir a carga com a lona. Caixões empilhados, encaixados, seguros, restava apenas amarrar a carga. E aí estava o busílis. Samuel era bom carregador, mas não sabia amarrar a carga. Passava a corda nas posições mais recomendadas, mas na hora de apertar a amarração, Samuel era um fracasso. Por nada deste mundo era capaz de fazer uma cabrita. E morria de vergonha disso.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;A cabrita é um recurso usado pelos caminhoneiros para apertar a amarração das cargas. Se descerem com a corda e simplesmente a amarrarem num gancho da carroceria, a carga se movimenta no primeiro buraco e a corda se afrouxa. Por isso é preciso apertar a amarração com a cabrita. Faz-se um olho – ou uma orelha, depende de quem faz – a meia altura entre o alto da carga e o gancho, passa-se a corda pelo gancho e sobe-se novamente para o olho. Ou orelha. Ao ser passada pelo olho, a corda forma um laço e pode ser esticada ao extremo. O amarrador pode usar o peso do corpo para esticá-la. Aí sim a corda pode ser amarrada no gancho. Mas Samuel não sabia fazer a cabrita.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;Por isso se afastou discretamente quando viu Aurélio chegando, com um palito na boca e acariciando a barriga satisfeito. O motorista pegou a nota fiscal, entrou no caminhão e partiu sem conferir a amarração da carga. As lombadas e valetas da cidade foram suficientes para afrouxar a corda . Aí foi só entrar na rodovia e, na primeira curva, ver os caixões deslizarem pela tangente e se espalharem no acostamento.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;Felizmente havia um barranco, no qual os caixões que rolavam pararam. Ao ver a confusão, Aurélio entendeu que, mesmo depois de um lauto jantar, teria de assumir a função de carregador de caminhão. Ia suar um bocado, só porque o Samuel não tinha feito a cabrita. A corda era testemunha de que não fora feita uma cabrita.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;Parou o caminhão mais à frente, bem depois da curva, e voltou para recolher os caixões. A melhor estratégia era juntá-los e depois aproximar-se com o caminhão. E só havia uma forma de reunir todas as urnas: apoiá-las no barranco, já que o acostamento era estreito. Assim Aurélio foi revestindo a parede do barranco com as urnas colocadas em pé, lado a lado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;Ao se afastar para pegar o caixão mais distante, percebeu, pelos faróis, que algum motorista se perdera na curva. A luzes iam para cá, para lá, até que o carro saiu da pista e entrou no pasto. Passou pertinho dele. Quando o fusquinha parou – sim, era um fusquinha, o que vocês queriam? – ele foi ver se o motorista precisava de ajuda e encontrou aquele lindo par de olhos, muito arregalados.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;A moça, pálida de susto, gaguejando, arfando, dizia que tinha visto uma muralha de caixões de defunto ao lado da curva. Ele pediu que ela esperasse um pouquinho, enquanto ia buscar água no caminhão. Quando chegou com a água, a moça já estava bem mais calma. Ela bebeu um pouquinho, agradeceu, sorriu – e que sorriso! – e disse ter tido a impressão de que havia uma muralha de caixões de defunto cercando a curva.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;Aurélio baixou a cabeça, com o peso da culpa, mas nem precisou se desculpar, porque a moça repetiu que devia ter sido impressão. Melhor assim. Não precisava explicar nada. Ele sabia que não era impressão, era realidade. E sabia que tudo aconteceu por falta de uma cabrita. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;Pode ter sido um sinal. Se ela preferia pensar assim, tudo bem. Mas ele sabia, sabe, e levará o segredo para a tumba: sinal ou não, faltou uma cabrita.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;[Não avisei antes, como faz o cinema americano de televisão, porque funciona como um alerta para mudar de canal. Mas a verdade é que este "causo" é baseado numa história real.]&lt;br /&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;• &lt;b&gt;Celso Paraguaçu&lt;/b&gt; •&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span style="color:maroon;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-831672888196880522?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/831672888196880522/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=831672888196880522' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/831672888196880522'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/831672888196880522'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/03/falta-da-cabrita.html' title='A falta da cabrita'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R-QxaSZtkiI/AAAAAAAAAGY/lmX8pYYIQK0/s72-c/Cabrita-HowTo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-1874457855506050712</id><published>2008-03-06T23:49:00.004-03:00</published><updated>2008-12-11T17:00:43.723-02:00</updated><title type='text'>A lista de Schindler</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R9CthiFoLyI/AAAAAAAAAGA/-26aLoEBn-M/s1600-h/SemMolho.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://1.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R9CthiFoLyI/AAAAAAAAAGA/-26aLoEBn-M/s400/SemMolho.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5174826763446398754" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p  class="western" style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Não fui ver o filme, quando passou anos atrás. Também não li o livro. Suspeito muito de coisas de que todo mundo está falando. Em geral, se cai no gosto da massa não tem qualidade. Massa não pensa, apenas vai na onda, vai para onde os demais estão indo, sem perguntar nada. Se a freguesa já viu algum filme que mostrava as movimentações dos rebanhos de animais nas savanas africanas, sabe como é a massa. Basta que um comece a andar, para que todos andem. E o movimento se torna uma gigantesca migração.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  class="western" style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;É difícil distinguir no meio da massa qual é o indivíduo que decide movimentar a manada. Parece ser aleatório. Não há um líder, com características especiais. Qualquer gnu que tenha resolvido procurar um capinzinho mais fresco, mais verde, sai andando à toa, olhando para o chão. Instantes depois, todos os buzilhões de gnus estão andando na mesma direção do primeiro. Ninguém quer saber por que ele resolveu andar naquela direção nem por que se afasta. Todos vão atrás. Alguns até o ultrapassam, porque massa não tem líder. Um minuto depois do início da movimentação da boiada não se consegue mais identificar quem puxou o samba.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  class="western" style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;O próprio iniciador da caminhada já mudou de objetivo. De início, ele só queria um capinzinho fresco, mas quando viu todo mundo andando naquela direção, segue a tropa sem se dar conta de que foi ele que iniciou o movimento.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  class="western" style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Assim são as modas, coisas tidas como espetaculares, que todavia não resistem ao tempo. Nas roupas – sobretudo, mas não unicamente, femininas –, nos ritmos populares, nos cortes e cores de cabelo, nos filmes e livros. A freguesa deve se lembrar de quando se tornou moda um tipo de sambinha brega cantado por grupos que tinham um vocalista chorão, não? A cada esquina formava-se um novo grupo, que escolhia nomes “criativos” como Sambobagem, Agonia do Samba, Samboiola, Sambiscate, etc. Algum desses grupos sobreviveu? Alguém ainda ouve essas músicas? É possível que em algum canto da remota periferia sobrevivam alguns pagodeiros, como se chamavam. Mas deixaram de atrair a massa.  &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  class="western" style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;A menção à periferia deve-se à observação de que nos limites da cidade as modas sobrevivem por mais tempo. Em geral há fortes manifestações culturais trazidas de outras partes, sobretudo a sólida cultura nordestina, que abrange desde o norte de Minas Gerais até a das profundezas do Maranhão ou do Pará. As modas sobrepõem-se à cultura importada como um protesto dos adolescentes, que desejam firmar-se como pertencentes à cultura urbana de massa e não à de seus pais e avós. “Vocês são sertanejos deslocados”, dizem eles ao mostrar seu anacrônico gosto pelo pagode, por exemplo, “enquanto nós somos parte da massa urbana, que não tem cultura, é apenas massa.” Só abandonam a moda antiga quando chega alguma moda nova que sirva aos seus propósitos de protesto.  &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  class="western" style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Em geral, adolescentes são massa. Vestem-se de determinado modo ou agem como se gostassem de certo tipo de canção para serem reconhecidos como parte integrante de um grupo. Quando se tornam adultos, porém, podem desenvolver sua individualidade e personalidade. Podem escolher se vão continuar como massa ou se vão desenvolver o espírito crítico. A maioria, ao que parece, prefere continuar sendo massa. Dá menos trabalho. Não é preciso pensar se é bom, se é agradável, se é correto. Basta acompanhar a manada, fazer o que todo mundo faz, sem pensar.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  class="western" style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;É por isso que fico ressabiado quando ouço muita gente elogiando alguma coisa. Pode ser um cantor, um livro, um filme ou um esportista. Se muita gente está falando bem, provavelmente estão indo na onda e a coisa elogiada não tem qualidade. Por isso não fui ver “A lista de Schidler” nem tive interesse em ler o livro. Tinha muita gente dizendo que era ótimo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  class="western" style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Outro dia, contudo, dei de cara com a lista de Schindler. Estava na minha frente, exposta e clara, para quem quisesse ver. Observei cuidadosamente e concluí que meus conceitos sobre cultura de massa continuam válidos. A lista de Schindler não tem nada de mais. É meramente uma sucessão de letras e números. Começava em 8, depois 7,6,5,4,3,2,1, SL, T e SS. Igualzinha à lista de Otis e de Thyssenkrupp ou de qualquer outro fabricante de elevadores.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  class="western" style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;• PGC •&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-1874457855506050712?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/1874457855506050712/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=1874457855506050712' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/1874457855506050712'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/1874457855506050712'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/03/lista-de-schindler.html' title='A lista de Schindler'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R9CthiFoLyI/AAAAAAAAAGA/-26aLoEBn-M/s72-c/SemMolho.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-4486922968401211824</id><published>2008-03-06T00:57:00.005-03:00</published><updated>2008-12-11T17:00:44.071-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='lua'/><title type='text'>Que aconteceu com a lua?</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R89r2iFoLxI/AAAAAAAAAF4/Vx98qCQlhr0/s1600-h/Lua-sem-lua.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R89r2iFoLxI/AAAAAAAAAF4/Vx98qCQlhr0/s200/Lua-sem-lua.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5174473081479507730" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="western"&gt; &lt;/p&gt;&lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Depois do eclipse de que foi vítima em fevereiro, a lua não apareceu mais. O fenômeno não me teria (ôpa!) chamado a atenção, pois não fico olhando a lua. Tenho mais o que fazer. Contudo, um de nossos fotógrafos, autor das misteriosas fotos do eclipse publicadas nestas páginas (veja "À sombra da Terra", nas postagens mais antigas), insistiu em vasculhar o espaço em busca do “selênico corpo celeste”, nas palavras dele, que havia sumido.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Aqui no Meia-sola temos um princípio: “o autor que autoreie”. Em outras palavras: quem sugere a pauta que faça a reportagem. É incrível como diminuiu o número de pautas furadas depois da implantação desse princípio. Também diminuíram as pautas firmes, é verdade, sobretudo depois que o pauteiro se demitiu aos brados de “eu não vou fazer todas as reportagens, não vou mesmo! Vão para a pauta que os pautou!” Que se há de fazer? Ele não entende nada de pensamento empresarial em comunicações, de engenharia de recursos humanos, de eficiência administrativa, essas coisas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;O fotógrafo protestou, dizendo que não é redator, mas cedeu ao meu argumento de que depois que inventaram a internet, todo mundo virou repórter e fotógrafo. Para que meu argumento não ficasse com cara de ameaça, lembrei a ele o princípio da pauta (“o autor que autoreie”). Um tanto amuado, com o tripé numa mão e a sacola de equipamentos no ombro, lá foi ele buscar as imagens.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Eu poderia pedir para um repórter ligar para algum astrônomo das Sebosas, as sujas folhas de telefones de fontes que percorrem a redação, de mesa em mesa. O astrônomo poderia explicar por que a lua não estava mais no céu. Preferi não fazê-lo, porém, pois não estava certo do sumiço da lua nem saberia dizer o que muda aqui na Terra sem uma lua no céu. Como eu poderia orientar o repórter?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Honestamente, a mim pouco se me dá se a lua está lá ou não. A lua já não interessa mais nem aos poetas. E aos namorados muito menos, pois hoje em dia eles têm coisas mais curiosas para olhar. As moças usam tantas tatuagens que parecem historias em quadrinhos. Outro dia vi uma gordinha com o corpo tão cheio de desenhos que me pus a pensar: se ela emagrecer, será que vai melhorar a definição, vai borrar ou vai dar &lt;i&gt;moiré&lt;/i&gt;? Quando essas moças tatuadas envelhecerem, as histórias em quadrinhos vão ficar amarrotadas...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Lua é coisa do passado, de quando demagógicos governantes do Leste e do Oeste queriam conquistá-la. Pois conquistaram. E mudou alguma coisa? Acabou a fome do mundo? Acabaram as tragédias naturais? Curaram as hemorróidas? Ou pelo menos inventaram alguma coisa menos ridícula do que essas almofadinhas com um buraco no meio que parecem um &lt;i&gt;donut&lt;/i&gt; gigante? Nada. Os caras foram lá, constataram que a lua estava coberta de pó, voltaram algumas vezes, pegaram umas pedrinhas, mas nem sequer levaram espanador para tirar o pó. Porcalhões, todos eles, comunistas e capitalistas. Porcalhões.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Pois bem. Algumas horas depois o profissional chega da rua, senta-se ao computador e começa a escrever laudas e mais laudas. Ou telas e mais telas. Estou omitindo o nome do fotógrafo por motivos que ficarão claros. E afinal, ele já não pertence mais aos quadros desta empresa. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Como ele ainda não tinha passado as fotos para o computador, eu não quis atrapalhar. Parecia muito concentrado no texto. Da minha mesa, ouvi quando o teclado parou e julguei que ele estivesse transferindo as fotos, para editá-las. Era hora de eu ir dar uma olhada. Ocupando toda tela do editor de imagens, havia uma mulher quase nua, com um belo corpo, em pose considerada sensual.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;— Gostou, chefe? — perguntou ele.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;— Gostei. Quem é a ruiva? — era ruiva natural a moça. Ou era muito detalhista na coloração.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;— Ué, a Celeste!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;— E quem é a Celeste?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;— A mulher que tinha desaparecido. Ela tinha ido para a Argentina fazer um “trabalho fotográfico”. Olha só que trabalho — e me mostrou outras fotos da moça, que só não estava nua porque vestia uma gargantilha. Bem fininha.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;— Mas que negócio é esse de moça desaparecida? — perguntei. — Você me falou que ia vasculhar o espaço em busca da lua, que havia sumido. — e comecei a ler o texto que ele havia terminado. Estava cheio de termos como cachorra, preparada, safada, &lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;popozuda, &lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;e outros ainda mais cabeludos. De cabelos ruivos. Desculpe, freguesa. Enquanto eu lia, ele se desculpava:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;— Eu não tenho nada com o sumiço da lua, chefe. Eu passei o dia todo aqui, não pus a cara para fora da porta até a hora que fui procurar a Celeste, porque eu tinha uma dica de onde ela poderia estar. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;— Quer dizer que aquela conversa de “selênico corpo celeste”...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;— Ô chefe, olha que corpão! Não é selênico?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;— Selênico? Em relação à lua ou ao selênio?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;— Qual é, chefe! Selênico em relação a esse material todo! Olha só! Isso é uma sereia! — aí caiu a ficha.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;— Você quer dizer sirênico, relativo a sereia?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;— É silênico?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;— Não, é sirênico. De sirene, sereia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;— Ahn...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Com toda a fúria de editor traído, mandei que ele voltasse à rua para fotografar a maldita lua.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;— Mas chefe... a lua não sumiu?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;— Calado! — exclamei. — Vá fazer a foto! — disse-lhe apontando a janela grande. Eu não queria sugerir que ele saltasse pela janela; apenas não me acostumei ainda com a nova disposição das mesas, que a mulher do &lt;i&gt;feng shui&lt;/i&gt; disse ser mais harmônica. Ainda bem que ele entendeu e entrou no banheiro. Ou melhor, saiu pela atual porta que dá para o corredor que conduz ao elevador. Não pela que tem a coisinha pendurada, o espelhinho, porque aquela é só para entrar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Pouco depois ele voltou com a foto e, talvez por suspeitar de minha irritação, cometeu de próprio punho o texto-legenda da foto que ilustra este texto. Como havia trabalhado na Folha, ele tinha prática em fazer legendas. Era um bom fotógrafo, sem dúvida, por isso conseguia registrar com suas lentes os momentos mais curiosos das celebridades. Lembro-me de uma foto famosa dele, na qual um ministro de estado cutucava o nariz com o indicador direito. A legenda era: “Ministro cutuca o nariz com o indicador direito.” Veja, freguesa, o texto-legenda que o maldito perpetrou para a foto acima: “A lua esteve ausente de nosso céu nesta quarta-feira, como comprova a imagem".&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;• PGC •&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-4486922968401211824?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/4486922968401211824/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=4486922968401211824' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/4486922968401211824'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/4486922968401211824'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/03/que-aconteceu-com-lua.html' title='Que aconteceu com a lua?'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R89r2iFoLxI/AAAAAAAAAF4/Vx98qCQlhr0/s72-c/Lua-sem-lua.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-6230383742460302472</id><published>2008-03-05T20:36:00.001-03:00</published><updated>2008-03-05T20:36:53.151-03:00</updated><title type='text'>No tubo</title><content type='html'>&lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Só agora descobri que o grupo Alcatéia Blues tem um filme postado no YouTube. O som não está lá essas coisas, porque foi uma gravação direta, sem equipamento próprio para som. Mas dá para ter uma idéia de como a moçada brinca. Também tem uma diferença na formação, pois o baixista do filme ainda não é o Dênis, o lobinho. O link é este:&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=0SvfQjDYHrA"&gt;http://www.youtube.com/watch?v=0SvfQjDYHrA&lt;/a&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Convido a freguesa a ver o vídeo e confirmar o que digo: os caras estão prontos. Agora vamos aguardar a gravação do primeiro CD, para a gente ouvir o bando na hora que quiser.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;• Celso Paraguaçu •&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-6230383742460302472?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/6230383742460302472/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=6230383742460302472' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/6230383742460302472'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/6230383742460302472'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/03/no-tubo.html' title='No tubo'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-819191578675943059</id><published>2008-03-04T23:48:00.001-03:00</published><updated>2008-12-11T17:00:44.409-02:00</updated><title type='text'>Alcatéia bate um bolão</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R84KOiFoLvI/AAAAAAAAAFo/fQjXSA9Me-8/s1600-h/Lob%C3%A3o.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R84KOiFoLvI/AAAAAAAAAFo/fQjXSA9Me-8/s200/Lob%C3%A3o.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5174084266680135410" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="western"&gt;Em vez de ver o futebol, que é uma caixinha de surpresas, domingo eu fui ver o Alcatéia Blues, para não ter surpresas. O nome já diz de que se trata, blues. Os caras tocam blues mesmo. Melhor seria dizer os caras tocam blues e tocam mesmo. Felizmente são amadores, não fazem música por dinheiro. Tocam por esporte. O negócio deles é o prazer. E dá para se ver que gostam de fazer música de boa qualidade. A banda ainda é desconhecida, mas escreva aí o nome, freguesa: Alcatéia Blues.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Mas a freguesa não deve esperar ver o grupo na TV. Blues não é música para o chamado grande público. A televisão não mostra qualidade, mostra empreendimentos. Os pseudo-artistas que aparecem no eletrodoméstico estão lá a negócios. Estão se lixando para a qualidade do que cantam e tocam. A rapaziada da Alcatéia está mais a fim de tocar música de qualidade, e isso é para poucos. Se a freguesa quiser acompanhar a trajetória da Alcatéia, vai ter de ver as apresentações da banda. Felizmente eles têm um site (&lt;a href="http://www.alcateiablues.com.br/"&gt;http://www.alcateiablues.com.br/)&lt;/a&gt;, e colocam lá a agenda.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Se o bando – Alcatéia não é banda, é bando – surpreende pela qualidade musical, o local onde rolou o show não é menos surpreendente. Era um palco montado num autêntico campo de futebol de várzea, com buracos e murundus, à beira da rodovia Castello Branco. E foi um jogão. Mesmo se apresentando num campo de várzea, a equipe é de primeira divisão.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;• Celso Paraguaçu •&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-819191578675943059?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/819191578675943059/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=819191578675943059' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/819191578675943059'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/819191578675943059'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/03/alcatia-bate-um-bolo.html' title='Alcatéia bate um bolão'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R84KOiFoLvI/AAAAAAAAAFo/fQjXSA9Me-8/s72-c/Lob%C3%A3o.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-5044342858044121319</id><published>2008-03-04T23:43:00.004-03:00</published><updated>2008-12-11T17:00:44.823-02:00</updated><title type='text'>De carona num trem de carga</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R84K5SFoLwI/AAAAAAAAAFw/SZQymGJtlMQ/s1600-h/Vagoes2.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R84K5SFoLwI/AAAAAAAAAFw/SZQymGJtlMQ/s200/Vagoes2.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5174085001119543042" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="color: rgb(102, 51, 51);" class="western"&gt;Duas guitarras, gaita, baixo e bateria. Não precisa tanto para fazer um bom blues, diriam alguns. Um sujeito cantando e tocando violão dá conta do recado. Mas ouvindo a Alcatéia percebe-se que a arte dos meninos consiste exatamente em não desfigurar o blues, mesmo com uma formação mais ampla. Eles têm as manhas de explorar os recursos que excedem. Quando o trem entra no túnel... Bem, é melhor contar o filme do começo.&lt;/p&gt; &lt;p style="color: rgb(102, 51, 51);" class="western"&gt;Dá para se imaginar uma cena de cinema: no sul dos Estados Unidos, por volta de 1930, num vagão de carga, um sujeito canta suas mágoas ao violão. Outro viajante clandestino tira do bolso uma gaita e começar a soprar, dialogando com o cantor. Um terceiro marca o ritmo no caixote em que está sentado e bate o pé no assoalho de tábuas do vagão. E se aproximam mais dois com violões. Um deles traz no dedo um gargalo de garrafa, o &lt;i&gt;bottle neck&lt;/i&gt;. O outro faz o baixo. Pronto. Está projetada a formação da Alcatéia.&lt;/p&gt; &lt;p style="color: rgb(102, 51, 51);" class="western"&gt;O bando toca algumas músicas desse tempo, mas não se limita ao blues tradicional. O trem em que viajam vai do delta do Mississipi para Chicago, mas tem um itinerário inusitado. Passa por São Paulo, Porto Alegre e Cabinda, em Angola. Os meninos têm algumas peças deles mesmos e de outros bons &lt;i&gt;blues men&lt;/i&gt; nacionais, como Nei Lisboa e André Cristóvão, além do angolano Nuno Mindelis.  &lt;/p&gt; &lt;p style="color: rgb(102, 51, 51);" class="western"&gt;Meninos é força de expressão. Acho que o grupo se chama Alcatéia porque os integrantes estão na idade do lobo, ou perto disso. A idade do lobo, se a freguesa não sabe, é aquela em que o infeliz  corre atrás da Chapeuzinho Vermelho, mas só come a vovozinha. Pedrinho da bateria, Rafael da gaita, o Douglas, guitarra e vocal, e o Peter, guitarra, já passaram dos 40. Talvez o Peter não tenha passado, mas está na boca da caçapa. Ele jura que só tem 33, mas parece que se não viu o dilúvio pelo menos pisou no barro. Só quem não está na idade do lobo é o Dênis, baixista. Com vinte e poucos anos, ainda é lobinho. Mas tem a pinta da fera.&lt;/p&gt; &lt;p style="color: rgb(102, 51, 51);" class="western"&gt;O blues não é o tipo mais adequado de música para espetáculos ao ar livre. Blues em campo aberto só existiu no seu nascimento, quando era só um lamento cantado nas plantações de algodão. Os instrumentos ingressaram no blues dentro dos vagões de carga dos trens. E talvez seja a expressão musical que se mantém mais ligada a suas raízes. O blues evolui, se enriquece, se sofistica, mas ainda se identifica o balanço do trem nos &lt;i&gt;boogies&lt;/i&gt;. Ou o ronco do outro sujeito que dorme no vagão, em cima de um monte de palha, na lenta batida do &lt;i&gt;slow blues&lt;/i&gt;. O blues continua sendo feito assim: o ambiente propõe um ritmo, seja o andar do trem ou o ressonar compassado do companheiro, e o &lt;i&gt;blues man&lt;/i&gt; sobrepõe a letra e a melodia.  &lt;/p&gt; &lt;p style="color: rgb(102, 51, 51);" class="western"&gt;Isso pode sugerir que a bateria e o baixo representem a base rítmica para a música que se desenha em cima. Essa é a essência, mas o bando não se limita à essência. Em algumas peças, a guitarra-base está sincronizada com a bateria e o baixo na pulsação da melodia. De repente os meninos invertem a base. O Peter, que solava dedilhando sem palheta, passa segurar forte a marcação enquanto o Douglas viaja no solo. No momento seguinte, tudo se altera outra vez: guitarras, baixo e bateria se concentram na cadência, para se ouvir ao fundo o choro lamentoso da gaita. Fechando os olhos, quase se consegue ver o trem no túnel, quando todo o ambiente se torna ritmo, enquanto o distante apito da locomotiva soa nas palhetas da gaita do Rafa.&lt;/p&gt; &lt;p style="color: rgb(102, 51, 51);" class="western"&gt;Às vezes a gente fecha os olhos para viajar no som do blues. Quando a Alcatéia toca “Five and a half”, por exemplo, quem está de olhos fechados tem a impressão de estar vendo a garota de Ipanema de 50 anos atrás passando à sua frente. “São as dissonâncias” explica Douglas mais tarde, “na bossa nova tinha muito disso.”  &lt;/p&gt; &lt;p style="color: rgb(102, 51, 51);" class="western"&gt;Curioso imaginar o vai-e-vem da arte. O blues, pai do jazz, usando um recurso da bossa nova, filha dileta deste último. Talvez isso explique o estranho mas enriquecedor itinerário do trem da Alcatéia. Afinal, a origem do blues e do samba é a mesma, do outro lado do Atlântico.  &lt;/p&gt; &lt;p style="color: rgb(102, 51, 51);" class="western"&gt;• Celso Paraguaçu •&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-5044342858044121319?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/5044342858044121319/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=5044342858044121319' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/5044342858044121319'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/5044342858044121319'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/03/de-carona-num-trem-de-carga.html' title='De carona num trem de carga'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R84K5SFoLwI/AAAAAAAAAFw/SZQymGJtlMQ/s72-c/Vagoes2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-2915927407910789012</id><published>2008-03-01T03:43:00.002-03:00</published><updated>2008-03-01T03:47:21.522-03:00</updated><title type='text'>Imprensa divertida 3</title><content type='html'>&lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Para nossa alegria, a BBC Brasil continua cometendo ótimos títulos. Veja estes, freguesa:&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;BBC Brasil, 29 de fevereiro, 2008 - 12h09 GMT  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;Tribunal italiano considera ilegal tocar partes íntimas em público&lt;/b&gt;  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;- Os italianos vão sair dos mictórios públicos de calças molhadas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;BBC Brasil, 4 de julho, 2007 - 08h55 GMT&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;Brasileiros estão entre os que perdem a virgindade mais cedo&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;- Povinho distraído! Essa moçada perde tudo!&lt;/p&gt;  &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;BBC Brasil, 29 de fevereiro, 2008 - 10h57 GMT  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;Dente implantado em olho ajuda cego a voltar a enxergar&lt;/b&gt;  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;- Dente por olho, olho por dente. Chato é escovar o olho três vezes por dia.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;BBC Brasil, 28 de fevereiro, 2008 - 09h59 GMT  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;Perfume reúne odores de sangue, suor, saliva e sêmen&lt;/b&gt;  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;- Parece a oferta de Churchill, mas, em vez de lágrimas, tem uma cuspida e uma gozada.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;BBC Brasil, 16 de julho de 2007&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;Estudo americano lista '237 razões para fazer sexo'&lt;/b&gt;  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;- E ainda tem gente dizendo que é um ato irracional!&lt;/p&gt;  &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;BBC Brasil, 5 de junho, 2007 - 10h34 GMT  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;Britânicas preferem comer chocolate a fazer sexo, diz pesquisa&lt;/b&gt;  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;- Provavelmente esse resultado reflete a prática citada no título abaixo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;BBC Brasil, 18 de maio, 2007 - 09h06 GMT  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;Uma em cada três britânicas 'já fez sexo no escritório'&lt;/b&gt;  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;- As outras duas trabalham em fábricas. E dizem que preferem comer chocolate.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;BBC Brasil, 29 de fevereiro, 2008 - 23h52 GMT  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;Loja londrina ensina mulheres a fazer pedido de casamento&lt;/b&gt;  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;- Ou a escolher chocolates, conforme o local de trabalho.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;BBC Brasil, 17 de abril, 2007 - 11h37 GMT  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;Brasileiros só ficam atrás de gregos em &lt;/b&gt;&lt;i&gt;&lt;b&gt;ranking&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;&lt;b&gt; de sexo&lt;/b&gt;  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;- Deve ser um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;ranking &lt;/span&gt;de homossexualismo. Mas causa espanto essa preferência por gregos.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-2915927407910789012?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/2915927407910789012/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=2915927407910789012' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/2915927407910789012'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/2915927407910789012'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/03/imprensa-divertida-3.html' title='Imprensa divertida 3'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-4034848268101371210</id><published>2008-02-28T18:28:00.002-03:00</published><updated>2008-12-11T17:00:45.030-02:00</updated><title type='text'>Chamem a faxineira</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R8cwSdpT0KI/AAAAAAAAAFY/7m9yHZ0MSv8/s1600-h/Faxina2.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R8cwSdpT0KI/AAAAAAAAAFY/7m9yHZ0MSv8/s200/Faxina2.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5172155790811975842" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="western"&gt;O fabricante do absorvente Care Free lançou um sabonete especial para lavar xoxotas. Na campanha publicitária, o locutor diz: “O sabonete Care Free limpa delicadamente sua área íntima.”&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;O verbo limpar já parece impróprio. Estão dizendo que a freguesa está com as partes baixas sujas? A propaganda tem usado outros termos, com os quais os ouvidos já estão acostumados, como fazer a higiene. Até lavar seria melhor. Limpar é mais adequado para as mãos dos mecânicos do que para as xoxotas das madames e patricinhas, provável público-alvo do novo produto. A menos que tenham acabado de sair da oficina.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Mas limpar a xoxota não é nada. Pior é chamá-la de “área íntima”. Área íntima? Parece que o autor do texto está saturado de fazer anúncio de apartamentos. Área social, área de festas, área de lazer.  Talvez o anúncio ficasse mais atraente se a xoxota fosse tratada por área de lazer.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Se a moda pega, vai ser uma encrenca danada. Uma parte significativa do público-alvo do tal sabonete gosta de usar palavras modernas que vê na televisão. E isso pode tornar os diálogos muito pouco claros, já que se trata de um termo mais apropriado para lançamentos imobiliários. Será que o cabeleireiro vai entender quando a madame disser: “Desconfio que meu marido está trocando minha área íntima pelas dependências da empregada”? Pode ser apenas um projeto de reforma do apartamento. (GC)&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-4034848268101371210?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/4034848268101371210/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=4034848268101371210' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/4034848268101371210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/4034848268101371210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/02/chamem-faxineira.html' title='Chamem a faxineira'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R8cwSdpT0KI/AAAAAAAAAFY/7m9yHZ0MSv8/s72-c/Faxina2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-6221529433494194840</id><published>2008-02-26T23:12:00.005-03:00</published><updated>2008-12-11T17:00:45.180-02:00</updated><title type='text'>Agrotóxico com olho de vidro e perna-de-pau</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R8TH5NpT0HI/AAAAAAAAAFA/Sj_CHRjJFYU/s1600-h/veneno2a.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R8TH5NpT0HI/AAAAAAAAAFA/Sj_CHRjJFYU/s200/veneno2a.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5171478057857568882" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="western"&gt;A Basf está divulgando um alerta contra falsificação dos venenos de uso agrícola fabricados pela empresa. Segundo o comunicado, “os defensivos &lt;b&gt;falsificados&lt;/b&gt; oferecem sérios riscos ambientais e de saúde”. Já os legais apenas oferecem riscos ambientais e de saúde sérios.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;O comunicado também diz que os custos baixos dos insumos oferecidos pelos falsificadores seduzem os produtores em momentos vulneráveis da atividade. Nem poderia ser de outra forma.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;E a gente se põe a pensar: se os falsificados são mais baratos, devem ter uma proporção menor do princípio tóxico. Isso os torna menos agressivos à saúde do aplicador e do consumidor e ao ambiente.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Não se defende aqui o uso de agrotóxico falsificado. Nem o uso do produto legal. O prejuízo que as falsificações causam aos cofres da Basf é decerto muito menor que os danos causados pelos agrotóxicos da Basf ao consumidor, ao aplicador e ao ambiente.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Fica o alerta aos agricultores: veneno pirata também faz mal à saúde. (GC)&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-6221529433494194840?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/6221529433494194840/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=6221529433494194840' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/6221529433494194840'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/6221529433494194840'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/02/agrotxico-com-olho-de-vidro-e-perna-de.html' title='Agrotóxico com olho de vidro e perna-de-pau'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R8TH5NpT0HI/AAAAAAAAAFA/Sj_CHRjJFYU/s72-c/veneno2a.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-6165792014102644107</id><published>2008-02-23T03:15:00.011-03:00</published><updated>2008-12-11T17:00:46.065-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='galvão'/><title type='text'>Birca do mato</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R8H1CNpT0BI/AAAAAAAAAEQ/k2WHRu9iCPo/s1600-h/tirinha-1-32k.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R8H1CNpT0BI/AAAAAAAAAEQ/k2WHRu9iCPo/s400/tirinha-1-32k.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5170683265569509394" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="western"&gt;Estranha a canonização do Frei Galvão. Pareceu um tanto apressada. Outros santos do Brasil estavam na fila havia muito mais tempo, como José de Anchieta, mas foram preteridos. Anchieta não nasceu no Brasil, ao contrário do franciscano, mas havia um punhado de beatos que brotaram desta terra e já tinham passado pela etapa da beatificação. E ainda outros com alto potencial milagreiro, como Padre Cícero Romão Batista, o Padim Ciço. Mas o papa, do alto de sua infalibilidade, escolheu Frei Galvão.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Não se descarta a hipótese de uma motivação política. É possível que o novo papa pretendesse aumentar o plantel de santos franciscanos. Há quem diga que poder no Vaticano se divide entre quatro grandes ordens religiosas: dominicanos, jesuítas, franciscanos e beneditinos. Os quadros do primeiro escalão do estado-Igreja são divididos entre as “coligações partidárias” que essas quatro ordens formam com as menores, que apóiam uma ou outra. No caso do Vaticano, o equilíbrio de poder também exige ações de cunho “espiritual” ou popular: santos com mais devotos "contam mais pontos" para as ordens às quais pertenceram.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;a name="DDE_LINK"&gt;&lt;/a&gt;O Cardeal Joseph Ratzinger, como era conhecido antes de ascender ao papado, era jesuíta, mas escolheu o nome de Bento 16 em homenagem ao fundador da ordem dos beneditinos. Não quis o nome de Ignacio, o de Loyola, que criou sua própria ordem. Deu o recado, com essa ação, de que em seu papado os jesuítas não teriam mais poder que as demais grandes ordens. Isso reforça seu próprio poder. Quer mostrar que não é o papa dos jesuítas, e sim de toda a Igreja. Canonizar um frei franciscano como o primeiro santo genuinamente brasileiro pode dar a entender aos líderes das ordens que o papa pretende distribuir o poder do Vaticano com certa eqüidade. Um santo nascido no Brasil pode contar muitos pontos. Trata-se, afinal, do país com a maior população &lt;i&gt;soi-disant&lt;/i&gt; católica do mundo. Parece um bom motivo para o pedido de canonização de Frei Galvão ter passado à frente dos demais santos aqui do Brasil.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Normalmente um processo de canonização é lento, envolve muita investigação. Não pode pairar dúvida sobre a santidade do candidato a santo. Por isso a Igreja instituiu a figura do advogado do diabo. Cabe a este apresentar provas que dificultem a canonização do indivíduo em questão. No caso do Frei Galvão, porém, parece que o Vaticano, em vez de um advogado do diabo, contratou os serviços de um rábula-de-porta-de-cadeia.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;O “milagre” que deu fama a Frei Galvão pode ter sido apenas uma conseqüência da ignorância de um caboclo apavorado, que buscava ajuda para sua mulher em trabalho de parto. Mas o rábula do capeta parece ter passado por cima das circunstâncias históricas e culturais que determinavam o contexto social em que o dito milagre teria ocorrido. Nos próximos parágrafos, este blogueiro, no mais nobre intuito de colaborar com a excelência do papado de Sua Santidade, veste sua capa preta até os pés para demonstrar que o milagre do santo não passou de um mal-entendido.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Dá para imaginar o que era a ignorância de um morador de São Paulo no século 18? Não havia internet, nem jornais, nem rádio, nem televisão, nada. Hoje os paulistanos são todos cultos e bem informados, lêem Caras, vêem Adriana Galisteu, Datena, Hebe Camargo, Otávio Mesquita e Big Brother, sem falar nos pastores milagreiros que invadem a televisão madrugada afora. Os paulistanos de hoje – e os brasileiros em geral – estão cobertos pelo manto da sabedoria. Mas naquele tempo não era assim. Grassava nos campos de Piratininga uma sólida ignorância e um profundo analfabetismo semilíngüe. Sim, nem se falava uma língua inteira nessa época, em São Paulo.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Era-se analfabeto, mas não em português e sim na língua geral, uma língua franca que misturava elementos do tupi e do português, com pitadas  de guarani e castelhano. Daí a existência de nomes como Tietê, Tatuapé, Cangaíba, Jaraguá, Jaguaré, Anhangabaú e tantos outros topônimos. E não só topônimos. Os caipiras – e eram todos caipiras – comiam pipoca, paçoca de jabá e cambuquira, por exemplo. No português da época essas palavras não existiam. Mas na São Paulo do século 18, a língua portuguesa só existia na frustrada tentativa de comunicação dos padres com os fiéis. A língua oficial da igreja, para uso canônico e ritual, era o latim. O português entrava nas homilias e sermões que ninguém entendia. A comunicação nas casas, nas ruas e nos negócios era feita na língua geral.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Os índios entendiam a língua franca e a utilizavam para conversar com os caipiras portugueses e com os curibocas (mestiços) de São Paulo. Os caipiras e curibocas entendiam a língua franca e a usavam tanto na comunicação com os índios quanto ao conversar com seus pares. Só que os índios também falavam suas próprias línguas. Os portugueses de São Paulo, já não mais.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Geralmente casados com índias, comunicavam-se em seus lares na língua geral. As crianças só conheciam a língua geral e esta disseminou-se rapidamente. A tal ponto que o Marquês de Pombal, a mais colorida eminência parda de Portugal, proibiu o uso da língua geral em São Paulo em 1757, quando Frei Galvão tinha 18 anos.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;A proibição demorou muito a pegar. Ainda hoje, se um brasileiro cutucar alguém pode levar um tapa ou um soco. Em Portugal, não se cutuca ninguém. Se houvesse a ação, a palavra seria outra, pois cutucar vem do tupi. A reação poderia ser uma bofetada ou um murro; tapa e soco também são palavras indígenas.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Analfabetos e obrigados a se aproximar da Igreja, detentora de todo o saber e representante do poder, os caipiras paulistas logo perceberam que os ministros religiosos não eram ignorantes. E não eram mesmo. Estudavam nas grandes cidades, como Rio de Janeiro e Salvador, e traziam com eles todo o conhecimento. O próprio Frei Galvão, caipira de Guaratinguetá (nome indígena), estudou nessas grandes cidades. Em latim e português. E esqueceu a longínqua e proibida língua geral dos índios, caipiras e mamelucos.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Os padres liam e escreviam. Na velha vila paulistana, raríssimos eram os que sabiam ler e escrever. Praticamente só os padres. Mais um motivo para serem considerados homens sábios. Tinham até uma língua própria para conversar com deus! Falavam com o todo-poderoso em latim e com os homens em português. Deus eu não sei, mas os paulistanos não entendiam bulhufas do que os padres falavam, acostumados que estavam com a língua geral. Deus talvez tivesse preferido o hebraico, mas não se incomodava com o latim, pois era todo-poderoso.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Pode-se imaginar o desespero que levou um sujeito absolutamente ignorante a vencer o temor e pedir a ajuda do padre, o ser mais sábio que ele conhecia:&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;– Frei Govão, Frei Govão! A &lt;i&gt;cunhã&lt;/i&gt; 'tá de barriga e 'tá gritano! Vai tê um &lt;i&gt;piá&lt;/i&gt;, Frei Govão, um &lt;i&gt;curumi&lt;/i&gt;, mas 'tá cum dô, Frei Govão!  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Curumi? Piá? Cunhã? É provável que o religioso não se tenha dado conta de que a mulher do suplicante, a cunhã, estava parindo. Sim, ela ia ter uma criança, um piá, um curumi. Informação afobada, mal pronunciada, com palavras desconhecidas. Se tivesse entendido tratar-se de um parto, o santo homem não se assustaria, porque já tinha lido isso na Bíblia. Talvez fosse difícil explicar ao roceiro, mas está lá, no primeiro livro, o Gênesis, a praga lançada a Eva na ira divina: “E tu, mulher, parirás com dor!”&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Os mais observadores poderão engasgar com a expressão “ira divina”. Afinal, ira é um pecado capital, o que aparentemente compromete a harmonia da expressão. No tempo do Gênesis, contudo, ainda não existiam pecados capitais. Isso é mais moderno, invenção do catolicismo. Mas deixemos isso de lado, por ora. Não faltará oportunidade de se descer o malho nos sete grandes vícios. Voltemos ao pobre sacerdote, que está no sufoco.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Frei Galvão tem de mostrar conhecimento e segurança, dois atributos essenciais para manter a liderança sobre o povinho ignorante da vila. E tem de ajudar um tabaréu assustado, que fala uma estranha língua, mas que nada pede para si e sim para alguém que sofre. Isso comove o franciscano, naturalmente. Ele quer ajudar, mas mal entende qual é o motivo de tanta atribulação do suplicante.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Mesmo não percebendo que se tratava de um parto, compreendeu que tinha algo a ver com barriga e com dor. E então disse ao sujeito o nome do remédio, procurando tranqüilizá-lo:  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;– Dê-lhe um pouco de bicarbonato de sódio.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Se o problema fosse uma azia ou má digestão, a substância faria bem. Se fosse qualquer outra coisa, mal não faria. Esse negócio de medicamentos não recomendados em caso de suspeita de dengue também é novidade. Mas o caipira não estava familiarizado com a língua portuguesa. Assustado que dava dó, ficou mudo, olhando, com cara de bobo, para o sacerdote.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;– Repete comigo – disse Frei Galvão com uma paciência franciscana – Bi-car-bo-na-to. Bi-car-bo-na-to de só-dio.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;E o caipira:  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;– Birca do mato... birca do mato tifódio.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;“Melhor escrever”, decidiu Frei Galvão. Procurou um pedaço de papel, mas... Papel? Numa terra de analfabetos? E longe dos centros urbanos de importância? Papel, em São Paulo, não tinha serventia. Para isso que a freguesa pensou usavam-se folhas de plantas, sabugos de milho e outros produtos naturais, descartáveis e biodegradáveis. Não há razão para se assustar com a idéia de usar um sabugo de milho para essa finalidade. O uso era apenas externo, em movimento tangencial.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;O que interessa é que papel não havia. Mas Frei Galvão era homem de expediente. Como franciscano, estava acostumado a viver na mais extrema pobreza e a se arranjar com o que tivesse em mãos. Não fosse assim, como teria conseguido construir um convento no pântano que havia onde hoje é o bairro da Luz?&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Frei Galvão, inteligente e cuidadosamente, rasga uma fina tira de papel da margem de uma página da bíblia que estava na mesa. Molha sua pena no tinteiro e escreve: bicarbonato de sódio. Abana a tirinha de papel até a tinta secar, dobra-a delicadamente, porque o papel era muito fino, e a entrega ao tabaréu dizendo: “Faz tua mulher tomar isso”.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;O religioso imaginava que o sujeito levaria a “receita” à botica para aviar, mas o tipo era mais ignorante do que podia supor o bom frei. Saindo da igreja ainda trêmulo – não só por ter tido a coragem para pedir ajuda ao religioso, que era a expressão do poder, mas também porque levava consigo algo sagrado, rabiscado em um pedaço da bíblia – o coitado correu direto para casa, com o papelzinho firmemente seguro na mão fechada e encostada no peito.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;E lá chegando, fez exatamente o que o frei lhe disse: pegou uma cuia com água e fez a mulher tomar aquilo. Teve o cuidado de dobrar mais um pouquinho a tirinha de papel, para que ficasse ainda menorzinha, mais fácil para a cunhã engolir. E ela, no desespero das dores do parto – por desconhecer a bíblia, não esperava que parir doesse tanto –, engoliu o papelzinho, enquanto o caipira recitava, cheio de fé: "Birca do mato, birca do mato tifódio". E a mulher pariu.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Pariu, porque pariria mesmo. Com papelzinho ou sem. Naquele tempo não havia obstetras; quem decidia a hora do parto era o nascituro. Não a mãe nem o papelzinho. Mas o tabaréu ficou encantado com o milagre:&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;– Frei Govão falô preu repeti uma reza curtinha, “birca do mato, birca do mato, tifódio”, dispois rabiscô uns &lt;i&gt;vobisco tuórum&lt;/i&gt; num papezinho de blíbia, dei pra cunhã tomá e ela pariu! O home é um santo!&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Daí até as freiras do convento passarem a fazer papeizinhos com orações e os darem para que os fiéis os ingerissem foi um passo. E São Paulo, que não tinha papel nem para remédio, passou a ter papel para remédio. Para outros fins, continuava-se usando folhas secas e sabugos de milho.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Creio que os fiéis não desembrulham os papeizinhos que hoje devem vir encapsulados em material que se degrada no estômago. Mas é pouco provável que esteja escrito, com letras redondinhas e minúsculas de freiras igualmente redondinhas e minúsculas, “Birca do mato, birca do mato, tifódio”, como no milagre original. Provavelmente hoje em dia traz alguma oração curtinha ou um verso em latim tirado de uma ladainha.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;O trabalho das freiras – ou terapia ocupacional, se preferem – valeu a canonização do pobre Frei Galvão, cuja alma já não pode descansar em paz. Fosse ainda vivo, certamente estaria dizendo, com sua humildade franciscana:  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;– Não, não, gente, não é para engolir o papel! É para levar para o boticário aviar! &lt;i&gt;Ite, missa est&lt;/i&gt;. &lt;i&gt;Dominus vobiscum&lt;/i&gt;, mas não chupem a receita!&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Mas talvez tivesse de dizê-lo na língua geral, porque em português ninguém iria entender. Continuam não entendendo e engolindo os papeizinhos.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Atualmente, no Brasil, quase não se fala mais a língua geral. O que se desenvolveu foi uma espécie de religião geral. A mistura de cristianismo, candomblé, astrologia e livros de auto-ajuda é o que impera. O costume de saudar o santo, por exemplo, vem do candomblé. Quando se pronuncia o nome de Obaluaiê, faz-se também a saudação ao orixá: Atotô, Obaluaiê! Com Iansã é a mesma coisa: Epa-rei, Iansã! E com os outros orixás, da mesma forma.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Pois não é que na religião geral dos brasileiros esse costume do candomblé já está pegando entre os devotos de Frei Galvão? Saúdam-no pedindo que olhe por eles, mas usando um termo da gíria do banditismo, “filmar”, que significa observar atentamente, velar, zelar. É, ao mesmo tempo, uma saudação, como no candomblé, e uma súplica, como no catolicismo. Basta ligar a televisão num dia de jogo e observar os cartazes que os fiéis de São Galvão levam para as arquibancadas, com a saudação ao novo santo, o santo brasileiro: “Filma eu, Galvão!”. Êh-êh!&lt;/p&gt;  &lt;p class="western"&gt;• Celso Paraguaçu •&lt;/p&gt;&lt;p style="font-style: italic;" class="western"&gt;&lt;a href="http://creativecommons.org/licenses/by/2.5/br/deed.pt" class="external text" title="http://creativecommons.org/licenses/by/2.5/br/deed.pt" rel="nofollow"&gt;Foto: Celso Paraguaçu&lt;br /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-6165792014102644107?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/6165792014102644107/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=6165792014102644107' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/6165792014102644107'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/6165792014102644107'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/02/birca-do-mato.html' title='Birca do mato'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R8H1CNpT0BI/AAAAAAAAAEQ/k2WHRu9iCPo/s72-c/tirinha-1-32k.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-3030855869410278229</id><published>2008-02-21T02:36:00.012-03:00</published><updated>2008-12-11T17:00:46.447-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='eclipse'/><title type='text'>À sombra da Terra</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R70UktpTz9I/AAAAAAAAADs/y7n1Ub713P0/s1600-h/eclipse-inicio-ed.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://1.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R70UktpTz9I/AAAAAAAAADs/y7n1Ub713P0/s320/eclipse-inicio-ed.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5169310568251903954" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R70QN9pTz7I/AAAAAAAAADc/5ayflFKf2kA/s1600-h/eclipse-final-ed.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R70QN9pTz7I/AAAAAAAAADc/5ayflFKf2kA/s320/eclipse-final-ed.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5169305779363368882" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R70R1tpTz8I/AAAAAAAAADk/g_EqUdLs7As/s1600-h/eclipse-inicio.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;A equipe de fotógrafos do Meia-sola acompanhou o eclipse lunar ocorrido na última madrugada. Não temos a foto do eclipse em si, é claro. Tratando-se de um eclipse total da Lua, os rapazes fotografariam o quê?   &lt;p class="western"&gt;Por isso fizeram algumas tomadas do início do eclipse – a melhor das quais selecionamos e mostramos acima –, e foram beber cerveja no bar do Fiapo, aqui do lado, onde a Jucilene sambava ao som do tocador de CDs piratas. Quando a ocorrência astronômica estivesse se aproximando de seu final, voltariam às lentes para registrar mais alguns instantâneos.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;A primeira foto mostra o momento em que nosso planeta começou a imprimir sua sombra na superfície do prateado satélite natural. Nota-se que a Terra parece ter sido pega de supetão pelo fenômeno, ou teria preferido uma posição fotograficamente menos desvantajosa.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Depois de várias cervejas, com as portas do boteco já meio cerradas e a Jucilene, ligeiramente alcoolizada, sambando em cima da mesa dos rapazes, os profissionais fizeram novas tomadas do fenômeno astronômico já em seu declínio. Referimo-nos ao eclipse, naturalmente. A Jucilene também é um fenômeno, mas de outra espécie.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Talvez em razão da persistência óptica, as fotos do final do eclipse – uma das quais é a de baixo – ficaram um tanto estranhas. Isso acontece. (GC)&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-3030855869410278229?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/3030855869410278229/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=3030855869410278229' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/3030855869410278229'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/3030855869410278229'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/02/sombra-da-terra.html' title='À sombra da Terra'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R70UktpTz9I/AAAAAAAAADs/y7n1Ub713P0/s72-c/eclipse-inicio-ed.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-1119874192503769627</id><published>2008-02-20T21:15:00.005-03:00</published><updated>2008-12-11T17:00:46.470-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Fidel'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='renúncia'/><title type='text'>O que é que Cuba tem a ver com as calças (I)</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7zEHtpTz4I/AAAAAAAAADE/6lUFZ3v3WCI/s1600-h/Ops2%21-edited.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer; width: 154px; height: 185px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7zEHtpTz4I/AAAAAAAAADE/6lUFZ3v3WCI/s200/Ops2%21-edited.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5169222109105475458" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Na semana em que Fidel Castro anunciou sua renúncia, o Meia-sola não se poderia furtar à discussão de tão relevante tema. Vista puramente como um ato político, a renúncia tem um determinado significado. Mas tal visão isolaria a decisão castrense do contexto mais amplo em que se insere. A análise demanda igualmente a abordagem histórica, sociológica e cultural da população da Ilha. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;O brilhante artigo que reproduzimos abaixo, de autoria de Paula Sibilia e enviado pelo querido Nivaldo Manzano, serve como metáfora para as considerações sobre Cuba, sobre o comunismo, sobre contradições, etc. Ademais, propicia inúmeras reflexões no âmbito estrito do metafórico texto. Está fotograficamente comprovado que intelectuais feministas também têm bunda. Mas o verdadeiro papel da bunda no pensamento existencialista não é evidente. E poderá ser determinante para o futuro da civilização como a conhecemos. Ou não?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Por fim, informamos à distinta freguesia que, dada a inexistência em nosso banco de dados da foto comentada pela autora do artigo, ilustramos este texto com uma imagem do Palhaço Guarda-Chuva. Não são os glúteos beauvoirianos, mas trata-se, inegavelmente, de uma cada de bunda. (GC) &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;_____________________&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;&lt;b&gt;A bunda de Simone de Beauvoir&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Por Paula Sibilia &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Uma foto da escritora feminista nua, com alguns traços retocados digitalmente, causa polêmica em Paris&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;A despeito de sua esmagadora insistência em tecnicolor, o romance entre o presidente Nicolas Sarkozy e a cantora Carla Bruni não é o tema exclusivo das conversas e das agendas midiáticas neste inverno francês. Outro pequeno escândalo ameaça lhe fazer alguma sombra: nas comemorações pelos cem anos do nascimento de Simone de Beauvoir, verdadeiro totem da intelectualidade local, a bunda dessa escritora também acende calorosas discussões.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;O furacão se desatou com a primeira edição de 2008 da revista "Le Nouvel Observateur". O tradicional semanário da “esquerda bem-pensante” estampou em sua capa uma imagem que alguns celebraram pela ousadia e muitos condenaram por sua canalhice. Sob uma manchete que gritava seu nome em vermelho e já errava um pouco no tom ao qualificá-la como "A escandalosa", aparecia uma foto da autora que em 1949 fundou um novo gênero com seu ensaio "O Segundo Sexo". Aqui, porém, a filósofa que morreu há mais de duas décadas (em 1986) mostra um de seus ângulos menos conhecidos: de costas, nua, arrumando o cabelo no espelho após sair da banheira.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;O autor desse instantâneo atípico é o norte-americano Art Shay, amigo do escritor Nelson Algren, um dos amantes mais famosos da eterna companheira de Jean-Paul Sartre. Sua história remonta à longínqua Chicago dos anos 50. “Em sentido estrito, sim, esta fotografia foi ‘roubada’”, confessa agora o autor do clique, convocado para somar sua voz aos debates despertados pela súbita fama de sua velha obra, cujos negativos só foram resgatados após uma inundação em sua casa no Illinois quando a retratada já tinha morrido. Mas Shay esclarece que a imagem teria sido obtida de maneira ilícita apenas “no sentido em que as feministas o entendem”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Era 1952, e Simone tinha 44 anos de idade. Como o apartamento alugado pelo boêmio Algren não possuía nem sequer um chuveiro, o jovem fotógrafo foi o encarregado de emprestar um lugar onde a convidada pudesse tomar um banho. Na época, ele trabalhava como estagiário na revista "Life" e não desgrudava de sua fiel câmera Leica; ainda mais naquela ocasião, pois o romancista tinha lhe advertido que sua amante francesa raramente fechava a porta do banheiro. Parece que ela ouviu os cliques, virou-se e chegou a exclamar, com ar despreocupado e até mesmo achando graça: “Garoto levado!”. Mas não fechou a porta, de acordo com o relato do aludido rapaz, e nem pediu para parar ou coisa parecida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;È claro que nenhum dos dois poderia ter imaginado, nem de longe, o bafafá que 66 anos mais tarde envolveria essas imagens furtadas desse modo quase inocente. Na época, elas não tinham “valor de mercado”, esclarece seu perpetrador, que portanto logo as esquecera e até chegou a acreditá-las perdidas durante cinco décadas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Agora, o velho fotógrafo só se arrepende de uma coisa: seu amigo continuou a convidá-lo para passar os finais de semana em sua casa da praia, onde Madame costumava visitá-lo ao longo dos 20 anos de seu relacionamento. “Talvez teria podido fotografar os dois juntos, nus”, imagina com certa nostalgia o único sobrevivente dos três. Por isso, considerando o insólito valor que seus modestos cliques de folga atingiram neste novo século, e parafraseando uma cantora amiga de sua modelo involuntária, o artista americano debocha em francês: “&lt;i&gt;Oui, je regrette&lt;/i&gt;” (sim, eu lamento).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Em seu favor, porém, avisa que não é nenhum improvisado. Adverte, inclusive, que seu nome cintila no âmbito do fotojornalismo por ter sido “o primeiro paparazzo a fotografar a máfia”. E mais: diz que sua filha advogada é “uma ardente feminista”, co-autora de um livro intitulado " Guia dos Direitos Legais para as Mulheres". Mesmo com esse digno currículo em seu haver, a primogênita de Art Shay não pensa que seu pai deva se desculpar por nada – e ele tampouco, é claro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;A verdade é que este fotógrafo de 86 anos comemora um sucesso considerável: sua obra reluz em dezenas de livros e museus. Entre esse vasto acervo, orgulha-se da imagem escolhida pelo semanário parisiense, que seria “uma das favoritas dos colecionadores”. Shay termina seu depoimento à imprensa francesa convidando para a sua retrospectiva, que será inaugurada daqui a três meses em uma galeria de Paris – e incluirá, &lt;i&gt;bien sûr&lt;/i&gt;, o mais célebre de seus retratos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Mas qual é o problema, então? Por que tanto alvoroço? A foto já era conhecida, vêm sendo exposta em diversos meios desde o ano 2000. Além disso, a imagem é bonita pelo enquadramento, pela luminosidade de seus tons cinza, pelo clima de época que sugere e pela espontaneidade na captura do instante. E mostra uma Simone de Beauvoir inusitadamente bela, corpórea, viva, sensual. Contudo, há algo neste episódio que gera um mal-estar difícil de silenciar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Tanto em vida como após a morte de ambos, o casal que encarna o existencialismo já freqüentou as páginas desta revista: não apenas com seus próprios artigos, entrevistas e manifestos, mas também nas profusas citações motivadas pelas contendas das últimas décadas. Entretanto, pelo menos até hoje, sempre o fizeram pudicamente vestidos, e a bunda de Sartre jamais foi estampada na capa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Mesmo neste confuso século XXI, no qual os costumes e os moralismos enrijecessem sem evitar (e nem contradizer) uma expansão dos códigos pornográficos, ainda é inconcebível que isso venha a acontecer algum dia. Por mais bonitas que fossem a foto e a bunda do filósofo em questão, dificilmente iriam ilustrar a capa desta publicação – ou mesmo de qualquer outra. Isso é válido para Jean-Paul Sartre, mas também para qualquer outro escritor ou pensador que conjugue seu nome em masculino.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Essa constatação evidencia, aos gritos, uma verdade que teima em ser ignorada: as lutas feministas pela igualdade não ficaram tão obsoletas como pode parecer, e a obra de Simone de Beauvoir talvez não deveria estar tão fora de moda como insinua o vulgar recurso à sua bunda nas comemorações do seu centenário. No canto superior direito da famigerada capa de janeiro, inclusive, o rosto de uma Benazir Bhutto muito bem vestida ilustra outra manchete de máxima atualidade: "Paquistão: o país de todos os perigos".&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;“Eu posso entender a utilização do PhotoShop para corrigir a forma das pernas”, escreveu Art Shay no site da revista francesa. O fotógrafo reconhecia, assim, “a necessidade de retocar as imagens para publicá-las em uma capa”, embora não deixasse de frisar que “isso nada acrescenta à graça do original, muito pelo contrário”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Muitos concordam: a foto era mais bonita antes dos retoques. Porém, a intervenção digital não teria nada de extraordinário; hoje é muito habitual, faz parte das regras básicas da mídia e decorre, provavelmente, da influência publicitária que permeia todas as imagens e todos os discursos. Além, é claro, do tácito dever de adaptar os corpos femininos aos estritos padrões de beleza que vigoram na atualidade: afinando as silhuetas, suavizando os contornos, alisando as rugosidades e polindo todas as “impurezas”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;O bisturi digital é colocado ao serviço de um pudor "clean" e "cool", que parece temer o realismo da matéria sem negar suas filiações com as estéticas edulcoradas (lisas e hipócritas) da publicidade e da pornografia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Eis alguns dos procedimentos aos quais a foto foi submetida, de acordo com um especialista: aclaramento da parte superior do corpo, sobretudo dos braços, para torná-los “mais fluidos”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Além disso, foram eliminadas “as rugas nas costas e umas manchas que parecem ser sardas”. Já o alisamento da textura e a iluminação da parte inferior do corpo não teriam permitido apenas torná-lo mais visível, mas também “mitigar um pouco a abundância dos quadris, das coxas e das pernas”. Ademais, a borracha digital ajudou a aprimorar o visual do banheiro carente de luxos, acrescentando brilho às paredes e eliminando detalhes pouco nobres como o vaso sanitário e o rolo de papel higiênico.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;“Se a mesma fotografia não tivesse sido retocada, dir-se-ia que é degradante para Simone de Beauvoir”, desafia uma das vozes do debate. “Mais do que o retoque, é a impudicícia da foto o que choca”, diz outro, remetendo ao fato de o clique não ter sido consentido, e muito menos a sua publicação. O que mais se questionou, porém, foi a tática miserável de mostrar o traseiro de uma filósofa feminista para avivar as discussões a respeito da sua obra – nem que seja de forma marcadamente tangencial, como está sendo o caso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Cada época tem suas próprias misérias, e provavelmente também tenha os debates que merece. Alguns lembram, por exemplo, que três anos atrás, nas comemorações do centenário do nascimento de Jean-Paul Sartre, foi ele quem sofreu as censuras do PhotoShop. É claro que, neste caso, os imperativos do apagamento não visaram os eventuais relevos pouco harmoniosos do corpo nu do filósofo, porém outro atributo igualmente perturbador para a moral contemporânea: seu cigarro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;A fim de promover uma exposição dedicada ao escritor, a Biblioteca Nacional de Paris ornou seu prédio e o catálogo da mostra com uma bela foto de 1946, na qual Sartre aparecia fumando – como sempre, aliás. Mas os programadores visuais não resistiram, e resolveram aplicar as boas lições do “sanitariamente correto” e da atmosfera higienista dos tempos pós-modernos, eliminando o cigarro e deslanchando as polêmicas de rigor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Ainda sobre o clima de época e a sutil tarefa de revisionismo histórico que tecem as mídias, um leitor dizia a respeito do artigo do "Nouvel Observateur" que “não ensina nada a quem já conhece Simone de Beauvoir; e para aqueles que não a conhecem, ela fica reduzida a uma sorte de Paris Hilton dos anos 50”. Em definitiva, tanto o nu da capa como a opção de focalizar “revelações escandalosas” sobre a vida da escritora na hora de homenageá-la, em vez de sublinhar sua obra e suas ações políticas, foi visto como uma estratégia de marketing à qual não faltaram os típicos ingredientes patriarcais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Pois é impossível não fazer a referência: esta senhora cuja nudez conseguiu se destacar nas bancas de jornais saturadas de corpos femininos em exposição e à venda, é tida como uma relíquia do século XX, uma espécie de fóssil do feminismo em sua época de glória. Ainda hoje, tanto sua extensa obra escrita como a agitada militância que marcaram sua vida, fazem parte de qualquer história dos combates pela “liberação da mulher”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Se na década de 1940 ela bramava contra o mandato da maternidade como uma forma sinistra de “subordinação à espécie”, o que teria pensado da exibição de sua própria bunda retocada nos palcos midiáticos do terceiro milênio?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Na contramão das críticas, uma jornalista canadense celebrava a eleição da imagem como “uma mistura das vaporosas ninfas pré-púberes de David Hamilton e as recentes publicidades da Dove”, aliando um efeito esfumaçado ao “realismo sem PhotoShop”. Mesmo se logo se soube que essa falta de truques digitais era apenas ilusória, é possível retomar o fio da questão: porque não mostrar o corpo (belo e real) de uma mulher que consagrou boa parte de sua obra e sua vida a libertar a feminilidade de todas suas amarras?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;A inesperada voluptuosidade da foto teria colaborado nessa pugna histórica, soprando uma brisa cálida na imagem que consagrou Madame de Beauvoir como uma intelectual fria e áspera, pura inteligência incorpórea e severidade ideológica encasquetada em um turbante. O argumento parece válido, especialmente no meio do circo-Sarko que concentra as atenções da irradiação midiática e não deixa muito espaço para outros rebuliços.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;A comparação pode ser frutífera, pois a ex-modelo com a qual o presidente francês não cessa de se mostrar também é bela e quase quarentona, e a imprensa tem publicado várias imagens de seu corpo desprovido de roupas. Contudo, há pelo menos uma diferença importante: todas essas fotos foram consentidas, claramente posadas e orquestradas, e muito, muito bem pagas por empresas como Guess, Armani e Vogue.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Eis uma das arestas mais instigantes do caso, pois é claro que todas essas fotografias também foram convenientemente retocadas pelos melhores especialistas do ramo, antes de serem divulgadas em capas de revistas e vitrines afins.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;A bunda de Carla Bruni é uma de suas principais e mais reconhecidas virtudes, e como tal já foi fartamente clicada de diversos ângulos e nas mais variadas posições. Ela própria se ocupou de explorá-la de modo profissional, e tais empreendimentos lhe renderam bons lucros, além da celebridade nas passarelas da moda, nas páginas mais brilhosas dos jornais e nas telas da televisão. Pelo menos, antes de correr o riso de “ter que precisar do PhotoShop” e se dedicar, com idêntico sucesso, ao mercado musical – e, logo depois, aos &lt;i&gt;affaires&lt;/i&gt; presidenciais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Simone de Beauvoir também recebeu elogios por “conservar-se bem” após os 40 anos de idade, mas a bunda da escritora era completamente alheia à sua fama... Pelo menos até agora, quando ameaça se tornar um de seus atributos mais célebres. “Para quando as fotos de Marguerite Duras, Nathalie Sarraute e Marguerite Yourcenar em biquíni?”, perguntou um leitor revoltado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;As brigas feministas obtiveram grandes conquistas nas últimas décadas do século XX. As normas sociais se flexibilizaram, ampliando as liberdades de ação e escolha, e as mulheres ganharam o direito à autonomia individual. Pelo visto, porém, houve que pagar um preço por tudo isso: junto com o afrouxamento das represas, aumentaram incrivelmente as exigências na padronização do aspecto físico.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;As reviravoltas socioculturais e as vitórias políticas não desenham apenas progressos lineares. Se, por um lado, tornaram-se permeáveis certos limites que antes eram intransponíveis; por outro lado, os requisitos da “boa aparência” se estenderam para abarcar um segmento crescente da população. E se tornaram rigorosos até a asfixia. Não por acaso, uma das principais representantes do feminismo contemporâneo, Naomi Wolf, denunciou o “mito da beleza” como o grande inimigo atual da emancipação das mulheres.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;“O que se escondia realmente sob o austero turbante?”, pergunta com certa insídia o "Nouvel Observateur", sugerindo uma resposta no perfil arrebatado pela porta entreaberta do banheiro. Por isso alçaram suas vozes as ex-colegas da associação que ela fundou várias décadas atrás, declarando que “essa foto roubada à sua intimidade não ilustra em nada os escritos, a filosofia, o feminismo e a personalidade de Simone de Beauvoir”. Para elas, o gesto só demonstra “a vontade de instrumentalizar o corpo das mulheres para fins puramente comerciais”. Outro grupo feminista apelidou a revista de "Neo Voyeur", e exigiu que o diretor se desculpasse, ou então que ele próprio mostrasse as nádegas na próxima capa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;“Não se deve acreditar que bastará modificar sua condição econômica para que a mulher se transforme”, escrevia Simone de Beauvoir naquele ensaio seminal de 1949. Embora isso fosse fundamental, a “nova mulher” só conseguiria surgir quando fossem assimiladas “as conseqüências morais, sociais e culturais” que tamanho movimento anunciava e exigia. Por isso, as mulheres daqueles tempos estavam “dilaceradas entre o passado e o porvir”. Quando sua imagem foi clicada naquele banheiro de Chicago, a filósofa pensava que a mulher devia “fazer-se uma pele nova e criar suas próprias roupas”, mas essa nova protagonista da história só seria capaz de florescer “graças a uma evolução coletiva”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Deveria ser no mínimo inquietante, portanto, já bem adentrado um século XXI não mais preocupado pelas injustiças sexistas e outras batalhas aparentemente vetustas, que o grande debate suscitado nas efemérides desta autora não remeta às suas reflexões. Longe daquela sisudez, agora o centro de todas as atenções é sua bunda, e o grande dilema já não parece ser se os ovários condenaram ou não suas portadoras a “viver eternamente de joelhos”, mas este outro: será mesmo que ela tinha celulite?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Publicado em &lt;a href="http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2951,1.shl"&gt;http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2951,1.shl&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Paula Sibilia&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;É professora do Departamento de Estudos Culturais e Mídia, do Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (IACS-UFF). Doutora em Comunicação e Cultura pela ECO-UFRJ e em Saúde Coletiva pelo IMS-UERJ, é autora do livro "O Homem Pós-Orgânico: Corpo, Subjetividade e Tecnologias Digitais". &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-1119874192503769627?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/1119874192503769627/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=1119874192503769627' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/1119874192503769627'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/1119874192503769627'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/02/o-que-que-tem-cuba-ver-com-as-calas-i.html' title='O que é que Cuba tem a ver com as calças (I)'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7zEHtpTz4I/AAAAAAAAADE/6lUFZ3v3WCI/s72-c/Ops2%21-edited.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-6392170644142977797</id><published>2008-02-20T19:36:00.004-03:00</published><updated>2008-12-11T17:00:46.601-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='palhaço'/><title type='text'>Amarelinhas: MS entrevista o Palhaço Guarda-Chuva</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7zBLdpTz2I/AAAAAAAAAC0/a87COL49d_k/s1600-h/muitobom-ed.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7zBLdpTz2I/AAAAAAAAAC0/a87COL49d_k/s320/muitobom-ed.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5169218874995101538" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;MS&lt;/b&gt;: Hoje tem marmelada?&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;GC&lt;/b&gt;: Tem sim senhor.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;MS&lt;/b&gt;: Hoje tem goiabada?&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;GC&lt;/b&gt;: Tem sim senhor.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;MS&lt;/b&gt;: E o palhaço, o que é?&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;GC&lt;/b&gt;: O palhaço é um símbolo da nossa civilização. E não só dos oprimidos. É o elemento que substitui o espectador, que encarna sua vontade e diz o que ele não pode dizer. O palhaço veste-se, pinta-se e comporta-se com objetivo de não ser levado a sério. Isso lhe permite escapar das convenções e limitações que a sociedade impõe aos indivíduos normais. O palhaço é o louco inconseqüente, que na Idade Média fazia críticas aos poderosos, travestido em bobo da corte. Corria o risco de ser enforcado a cada apresentação, mas se o rei o enforcasse, dificilmente conseguiria um substituto. Dessa forma o bobo funcionava como a consciência externa do poderoso monarca. Se este fizesse uma besteira, poderia ser ridicularizado pelo bobo na presença de toda a corte.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Hoje o palhaço fala e faz o que os reprimidos membros da sociedade gostariam de fazer. É um papel catártico. O palhaço disse tudo e o espectador sai com a alma lavada.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Esse negócio de dizer que o palhaço é ladrão de mulher é pura falácia. Ladrão de mulher é trombadinha. Nos circos de antigamente, o palhaço era o elemento que dispunha de alguns recursos para atrair as moçoilas fugidiças, é verdade. Era alegre, inteligente – mesmo quando fazia papel de bobo – e andava disfarçado. Ninguém sabia como era o palhaço quando não estava vestido de palhaço, então era freqüentemente acusado de ter roubado a moça. Podia fugir com facilidade, pois bastava que se vestisse à paisana para não ser reconhecido. E poderia ir para outro circo, ou mudar a pintura da cara, o nome e as roupas artísticas.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Mas a verdade é que o palhaço não seduzia ninguém. As mulheres é que queriam fugir da vida que tinham. O circo representava a possibilidade de realização do sonho da mudança. Muitas mulheres jovens são assim: atiram-se nos braços do presente, sem dirigir os olhos para o futuro. E é assim que a sociedade as quer, por isso inventa sempre um responsável pelas irresponsabilidades das moças. &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Em geral, o palhaço era o acusado, ainda que nem sempre fosse o escolhido pelas moçoilas. Os acrobatas eram saradões; os equilibristas, ágeis; os domadores, valentes; os mágicos, misteriosos. Todos tinham atrativos para as mulheres. O palhaço era somente um palhaço.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Nós, palhaços, assumimos nossa função de bodes expiatórios da sociedade. Por isso dirigíamos à platéia as perguntas que você me fez. Sempre foi isso que a sociedade esperou do palhaço, e é o que espera ainda hoje: que se mostre ridículo, para encobrir o quão ridícula a própria sociedade é.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;MS&lt;/b&gt;: Desculpe, GC, mas a conversa está ficando muito séria.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;GC&lt;/b&gt;: Tá vendo? O que você quer do palhaço é palhaçada! Ninguém fala a sério com o palhaço!&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;MS&lt;/b&gt;: Bem, a proposta do Meia-sola é de não falar a sério, mesmo quando o assunto é sério. Hoje, por exemplo, temos a votação da CPMI dos cartões de crédito corporativos.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;GC&lt;/b&gt;: Ah, não! Isso é palhaçada!&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-6392170644142977797?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/6392170644142977797/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=6392170644142977797' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/6392170644142977797'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/6392170644142977797'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/02/amarelinhas-ms-entrevista-o-palhao.html' title='Amarelinhas: MS entrevista o Palhaço Guarda-Chuva'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7zBLdpTz2I/AAAAAAAAAC0/a87COL49d_k/s72-c/muitobom-ed.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-4736417857346057</id><published>2008-02-20T19:32:00.004-03:00</published><updated>2008-02-28T02:11:29.142-03:00</updated><title type='text'>O que é que Cuba tem a ver com as calças (II)</title><content type='html'>&lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;A renúncia de Fidel Castro requer profunda reflexão. Sobretudo para os povos latino-americanos. Por isso convocamos nosso articulista político especializado em assuntos afro-cubanos para redigir algumas linhas. A idéia era projetar um pouco de luz sobre o tema, com isenção política, mostrando o que pode ocorrer em Cuba e com o comunismo nos próximos meses, anos e décadas. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Contudo Travanca, o articulista em questão, informou estar temporariamente incapacitado, em razão de dificuldade de articulação resultante da renúncia castrense. Ao saber da notícia, Travanca deu um murro na mesa e machucou o dedinho da mão direita, justamente o que utiliza para pressionar a tecla de interrogação. “E tal artigo”, diz ele, “exigiria uma profusão de interrogações.”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;O Palhaço Guarda-Chuva, com sua ampla experiência em driblar circunstâncias adversas, sugeriu então que se publicasse o artigo abaixo, de autoria de Carlos Alberto Dória e enviado pelo querido Nivaldo Manzano. “Se não temos Castro”, explicou GC, “ponhamos gastro, que é parecido. Gastronomia. Pelo menos é materialista. E pode ter alguma relação com o merengue.” &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Nem todas as explicações estão claras, mas esperamos que a freguesa não gema por isso. Ui! Na falta de uma análise político-econômica-&lt;br /&gt;sócio-ambiental das conseqüências da renúncia de Castro, publicamos um texto sobre a gastronomia molecular, para seu deleite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;– De leite? Hmmm...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;– Agora já foi.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;___________________&lt;br /&gt;&lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;b&gt;O advento da gastronomia materialista&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Por Carlos Alberto Dória&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Visita do físico-químico Hervé This mostra atraso brasileiro na compreensão dos fenômenos culinários&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Diante de uma platéia apinhada de chefes de cozinha, estudantes de gastronomia, jornalistas e curiosos, o físico-químico Hervé This lançou o seu repto: “O que acontece se colocarmos a maionese no forno de microondas?”. E, diante do silêncio: “Vocês estudam numa das mais importantes faculdades de gastronomia do país e nunca experimentaram para ver o que acontece?”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Parecia mais uma piada desse hiperativo &lt;i&gt;showman&lt;/i&gt; que viaja o mundo proferindo cerca de 150 conferências por ano e possui mais de 1.500 artigos publicados, tudo para divulgar a sua “gastronomia molecular”. Por isso ele sabe exatamente como a platéia reage a cada uma das suas provocações e pode utilizar o método do “estranhamento” para sensibilizar os seus ouvintes. No palco, ele faz o experimento e, quando abre o microondas, vemos o resultado que, então, parece uma obviedade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Claro, a maionese não precisa ser salgada; pode ser doce. Nem precisa ter gema de ovo; pode ser feita com a clara, ou simplesmente com gelatina. Tampouco é preciso que o óleo seja de oliva; o elemento gorduroso pode ser um chocolate derretido, e assim por diante, para espanto de todos. O princípio é simples: são todos casos de emulsões de proteína, água e gordura.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Comemos apenas sistemas dispersos&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Hervé This conta com exatidão que em 16 de março de 1980 pretendeu fazer um prosaico suflê de queijo e se socorreu de uma receita culinária da revista “Elle”. A receita dizia para adicionar as gemas duas a duas. Depois de experimentos, viu que essa orientação não tinha sentido, e decidiu então estudar os ditos culinários, que ele chama de “precisões culinárias”, ou seja, tudo aquilo que corresponde aos métodos, dicas e mitos, que assumem a forma de determinações categóricas das receitas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Elas, de fato, estão por toda parte. Se observarmos uma edição do nosso “Dona Benta”, de 1950, verificaremos as seguintes jóias: “Se quiser que os ovos rendam mais, bata primeiro as claras e depois junte as gemas”. Ou, ainda: “Os bules de prata ou de qualquer outro metal polido e brilhante tornam melhor o chá, porque conservam por mais tempo uma temperatura elevada”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Hervé This se associou ao físico húngaro Nicholas Kurti, que tinha como &lt;i&gt;hobby&lt;/i&gt; a culinária, e, juntos, constituíram a nova disciplina: a gastronomia molecular. O seu objeto de estudo se compõe das precisões culinárias, sendo que, ao longo do tempo, Hervé colecionou 25 mil delas, criando um banco de dados que, em breve, aparecerá no site da instituição à qual está vinculado, o Inra (Instituto Nacional de Pesquisas Agronômicas, órgão público francês equivalente à nossa Embrapa).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;A metodologia de estudo que a dupla de cientistas desenvolveu é simples: tudo o que comemos são apenas sistemas dispersos, chamados colóides. Suas propriedades foram estudadas por vários físicos, inclusive Einstein. Tais sistemas entremeiam e estabilizam, por mecanismos físico-químicos, vários estados da matéria. Assim, do ponto de vista físico, temos líquidos associados a gases, sólidos em gases, gases em líquidos, líquidos em líquidos, sólidos em líquidos, gases em sólidos e sólidos em sólidos. As emulsões são um exemplo claro disso. O leite, por exemplo, é uma emulsão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Ora, se a matéria se organiza dessa maneira, as produções culinárias nada mais são do que fases num continuum de transformações físico-químicas, bastando estabelecer onde começa e onde termina essa seqüência de interações moleculares, conforme as receitas indicam, para estarmos diante da “cozinha” e seus mistérios.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;O que Hervé This faz é “modelizar” as receitas, isto é, transformar o seu enunciado em algo que possa ser executado sob controle, como um experimento qualquer, separando a sua parte útil daquelas afirmações que carecem de sentido prático ou são verdadeiros equívocos a respeito de como se comportam os fenômenos de transformação da matéria. Confrontando o ponto de partida de uma receita com o seu resultado, explicitam-se as indicações pertinentes e as impertinentes de uma receita.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Um exemplo muito simples. Hervé teve oportunidade de comer a indefectível feijoada que sempre se apresenta aos estrangeiros. Especulou sobre o modo de fazer e formulou a seguinte questão: “Por que vocês, brasileiros, colocam cachaça na feijoada se é um álcool volátil, que evapora totalmente?”. Ele fez o experimento de evaporar um copo de cachaça e demonstrou que, no final, restavam apenas vestígios de caramelo. “Então por que não colocam apenas uma colherinha de caramelo na feijoada? Ou, se acham que a madeira dá gosto, um pedaço de madeira diretamente dentro da feijoada, retirando-a ao final?”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Sua tese subjacente também é inquietante: 80% da energia gasta nos processos culinários tradicionais se perde totalmente. As formas das panelas, a evaporação inútil, o trabalho de produção da cachaça, nosso próprio trabalho, encerram um desperdício enorme e, além disso, contribuímos involuntariamente para o aquecimento do planeta. Um simples ovo, por exemplo, fica muito melhor se cozido a 64 ºC – coisa que os principais &lt;i&gt;chefs&lt;/i&gt; de cozinha já assimilaram e propagam em todos os cardápios como o “ovo perfeito”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Ora, se formos levar a sério os ensinamentos da gastronomia molecular todas as receitas precisarão ser testadas de uma ótica científica, os livros de culinária deverão ser reescritos, as faculdades de gastronomia necessitariam ser refundadas e os críticos de gastronomia precisariam recalibrar seu olhar cético, reciclando-se nos livros de química e física para poder julgar se os &lt;i&gt;chefs&lt;/i&gt; extraem da matéria, de fato, o melhor que ela pode dar para a satisfação e o prazer humanos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;É claro que nada disso acontecerá, ao menos de imediato, pois assim como os íons se ligam uns aos outros, também a tradição está solidarizada por interesses econômicos, preconceitos, desconfianças e, claro, uma crença remanescente na magia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Nós não comemos símbolos&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Talvez o impacto mais profundo da gastronomia molecular sobre a cultura culinária seja mesmo a discussão sobre o que fazer com aquela parte “inútil” das receitas – as “precisões”, os truques, os ditos tradicionais. Damos risada quando ouvimos que mulheres menstruadas não conseguem fazer bolos (“embatumam”) ou “desandam” maioneses, mas ainda acreditamos que, ao fazer uma emulsão, os ingredientes devem estar na mesma temperatura.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Ora, o que fazer com os conhecimentos tradicionais de nossas avós, que nos ensinaram seus “segredos” numa cadeia de transmissão da tradição que, em grande parte, nada mais são do que uma coleção de equívocos sobre como chegar a um bom resultado? O que farão os antropólogos que acreditam que só se consegue preservar o bom acarajé se preservarmos sobretudo as “baianas do acarajé”, inclusive com seus trajes, tabuleiros e técnicas do século 19?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Claro, tudo isso é muito poético, mas é preciso reconhecer que não comemos símbolos. Os símbolos se erigem sobre uma materialidade qualquer, visto que as idéias não se apóiam no ar. Portanto o tratamento culturalista da culinária precisa se realinhar com o novo conhecimento aportado pelo desvendamento dos processos físico-químicos subjacentes a qualquer ato simbólico. É claro que a alimentação constitui símbolos identitários, como toda sorte de linguagem, mas o mundo não acabou quando se descobriu que a terra girava em torno do sol.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Os relativistas dirão: a química é equivalente ao pensamento mágico dos Ianomami enquanto explicação do mundo, inclusive do que se passa na cozinha. Não será a primeira nem a última vez em que a universalidade das ciências físicas e químicas é contestada. Mesmo assim, conhecendo exatamente como se dá a coagulação da clara e da gema do ovo, insistiremos nos velhos métodos? Ao descobrir que a carne ficará tenra numa cocção prolongada a baixa temperatura, insistiremos nos assados que destroem as suas melhores características?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;É preciso perceber também que uma concepção materialista do cozinhar é oposto ao glamour sob o qual se apresenta a gastronomia atual. Ou, em outras palavras, uma nova glamorização precisará se desenvolver a partir de bases técnicas e tecnológicas renovadas se quisermos manter a sedução do comer na sua forma moderna, pois é evidente que as relações sociais sobre as quais se apóia a alimentação são mais importantes do que o conhecimento físico-químico sobre os processos empíricos do fazer culinário. Mas a velha “arte” culinária precisará se renovar, sob pena de parecer um estilo rococó à luz de um estilo Bauhaus.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;A renovação esperada&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Hervé This veio ao Brasil para lançar uma edição especial da revista “Scientific American Brasil” sobre “A ciência na cozinha”. Suas palestras, assistidas por mais de 1.200 pessoas, ajudaram muito a desfazer confusões.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Por exemplo, aquela que normalmente se estabelece em torno da aproximação dos resultados das suas pesquisas com a “culinária molecular”, que é o termo que ele mesmo cunhou para designar as aplicações feitas por &lt;i&gt;chefs&lt;/i&gt; de vanguarda, como Ferran Adrià, em suas famosas “espumas”, “esferificações” etc.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Adrià, cujo senso de oportunidade é notável, logo percebeu que no centro da nova culinária está a pesquisa e a experimentação. O seu famoso &lt;i&gt;taller&lt;/i&gt; nada mais era do que uma unidade de investigação de processos físico-químicos e suas aplicações na construção de alimentos modernos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Pouco se sabe sobre a química dos nossos produtos autóctones, como as frutas da Amazônia, as variedades da mandioca etc. Sequer sabemos se o modo de fazer o pão de queijo é o melhor possível. O que dizer sobre a construção da própria qualidade do leite, hoje em crise, ou do prosaico queijo minas? A tradição não garante a qualidade, é apenas o ponto de partida da sua investigação e desenvolvimento num processo que, é claro, poderá reafirmar a “sabedoria” de muitos procedimentos datados de longo tempo. Sem a investigação jamais se chegará a estas certezas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Hervé This é de opinião que a culinária tradicional européia é ainda, em boa medida, comandada pela Idade Média. Nós, que tanto discutimos sobre as origens ibéricas em vários domínios da cultura, precisamos agora passar a considerar essa vertente da formação nacional também na cozinha.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Um livro recente de Cristiana Couto (“Arte de Cozinha”, Senac, 2007) bem mostra como, dentro dos nossos primeiros livros de cozinha, viajavam os velhos livros de cozinha da tradição portuguesa e, dentro desses, os livros franceses. A formação culinária é apenas mais um caso de difusão cultural, embora os historiadores, sociólogos e antropólogos brasileiros só agora comecem a se dar conta disso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Do ponto de vista da gastronomia molecular, a novidade será o curso regular que a Esalq-USP passará a oferecer, a partir de 2008, sob essa denominação. Ainda que com uma defasagem de mais de 15 anos, é de se esperar que cientistas e &lt;i&gt;chefs&lt;/i&gt; brasileiros, debruçados sobre produtos autóctones, possam lançar a luz da ciência sobre o que comemos há séculos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Carlos Alberto Dória&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;É sociólogo, doutor em sociologia no IFCH-Unicamp e autor de "Ensaios Enveredados", "Bordado da Fama" e "Os Federais da Cultura", entre outros livros. Acaba de publicar "Estrelas no Céu da Boca – Escritos Sobre Culinária e Gastronomia" (ed. Senac).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-4736417857346057?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/4736417857346057/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=4736417857346057' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/4736417857346057'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/4736417857346057'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/02/o-que-que-tem-cuba-ver-com-as-calas-ii.html' title='O que é que Cuba tem a ver com as calças (II)'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-8288243427051195777</id><published>2008-02-19T04:12:00.003-03:00</published><updated>2008-12-11T17:00:46.798-02:00</updated><title type='text'>Eso es feo, niños!</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7qFodpTz1I/AAAAAAAAACs/hMV8R0wzFdg/s1600-h/brabo-editado.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://1.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7qFodpTz1I/AAAAAAAAACs/hMV8R0wzFdg/s200/brabo-editado.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5168590452560219986" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;O empório do seu Manuel anuncia um pacote de 20 kg de arroz agulhinha por 10 reais. A freguesa, atenta ao orçamento doméstico, deixa de comprar no supermercado, onde 5 kg custam 8 reais, e corre para a vendinha do seu Manuel. Mas quando vê o produto, constata tratar-se do mesmo pacote de 5 kg que podia ter comprado por 8 reais. Seu Manuel explica: “Tem que cozinhaire com bastante água. Depois de bem cozido é que vai pesaire 20 kg.”&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;– Isso é desonesto, seu Manuel. Tem de anunciar o peso do arroz cru!&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;– Ó dona Maria... Ninguém come arroz cru...&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Se a freguesa achou graça na anedota, tente rir desta outra versão: o serviço de internet banda larga Espide é vendido exatamente assim. A vítima paga pelo acesso de 1 mega, mas a Telefonica, com ou sem circunflexo, só garante o funcionamento em 10% da velocidade. Isso está no contrato! A velocidade “chega” até a 1 mega. Neste momento, minha conexão de 1 mega está com 31% disso, apenas. Talvez, cozinhando com bastante água...&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Para o Espide, a explicação do seu Manuel não serve. Espide, a gente engole cru; não tem cozimento que faça subir a velocidade quando fica baixa. Pior é que fica baixa com freqüência. E não raro se paga banda-larga e recebe-se um serviço de pisca-pisca, que cai o tempo. Mas os mal-intencionados fornecedores do (mau) serviço continuam oferecendo 1 mega, com a garantia de fornecer apenas 10%. Não é uma atitude honesta, para dizer o mínimo. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Eso es feo, niños. Sus madres no les hablaran&lt;/span&gt;?&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Esses &lt;span style="font-style: italic;"&gt;muchachos &lt;/span&gt;estão pensando que eu sou palhaco, é?&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;• &lt;b&gt;GC&lt;/b&gt; •&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-8288243427051195777?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/8288243427051195777/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=8288243427051195777' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/8288243427051195777'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/8288243427051195777'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/02/eso-es-feo-nios.html' title='Eso es feo, niños!'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7qFodpTz1I/AAAAAAAAACs/hMV8R0wzFdg/s72-c/brabo-editado.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-3807782485496281012</id><published>2008-02-19T03:11:00.004-03:00</published><updated>2008-05-14T19:00:20.904-03:00</updated><title type='text'>Hoje tem marmelada?</title><content type='html'>&lt;p class="western"&gt;Temos a satisfação de informar a nossa distinta freguesia que conseguimos convencer o Palhaço Guarda-Chuva a cerrar fileiras conosco neste Meia-sola.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Homem ocupadíssimo, GC, como é chamado nas altas rodas – "e também na rodinha de baixo", diz ele –, somente aceitou o convite depois de muita instância de nossa parte e da ameaça de apresentar um certo cheque sem fundos. A hilariante figura desempenhará as funções de repórter, redator, editor, ilustrador, fotógrafo, segurança, recepcionista e moça-do-cafezinho. Ou o cheque vai para o banco.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;Conquanto se trate de um artista por demais conhecido, estamos providenciando uma pequena biografia de GC, que oportunamente publicaremos nestas páginas. Por enquanto, freguesa, basta saber que, a partir de hoje, tem marmelada sim senhora.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;• &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;O Editor&lt;/span&gt; •&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-3807782485496281012?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/3807782485496281012/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=3807782485496281012' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/3807782485496281012'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/3807782485496281012'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/02/hoje-tem-marmelada.html' title='Hoje tem marmelada?'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-6695649356397459813</id><published>2008-02-19T02:23:00.007-03:00</published><updated>2008-02-28T01:37:56.845-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Oia'/><title type='text'>Conselho para homens públicos</title><content type='html'>&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;Uma explicação começada por “Oia” parece muito mais honesta do que as que começam por “Veja bem”. Pelo menos parece.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;• &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;GC&lt;/span&gt; •&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-6695649356397459813?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/6695649356397459813/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=6695649356397459813' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/6695649356397459813'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/6695649356397459813'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/02/conselho-para-homens-pblicos.html' title='Conselho para homens públicos'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-5481325368133418409</id><published>2008-02-14T04:52:00.001-02:00</published><updated>2008-02-14T05:06:23.310-02:00</updated><title type='text'>Valentinianas (2)</title><content type='html'>&lt;p class="western"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;No dia 11 dona Ambrozina completou 80 anos. E está inteiraça, a Velhinha. O telefone tocou o dia todo, com gente ligando para dar-lhe os parabéns. Afinal não é todo dia que se completa 80 anos. Ainda bem. Muitos amigos preferiram dar uma passadinha rápida para dar um beijo na Velhinha, e isso chamou a atenção de uma vizinha, dessas que fiscaliza o que se passa na rua. No dia seguinte, ela abordou os velhos:&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;– Tá tudo bem, dona Ambrozina? Eu vi bastante movimento ontem aí...&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;– Tudo bem, sim, obrigada. É que eu fiz aniversário ontem.&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;– Ah, então meus parabéns! – e entendendo que fosse aniversário de casamento, estendeu os cumprimentos a seu Valentim que, como sempre, foi rápido no gatilho:&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;– O aniversário é dela, mas acho que você tem razão. Nós somos casados com comunhão de bens, então o que é dela é meu também.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;• Celso Paraguaçu •&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-5481325368133418409?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/5481325368133418409/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=5481325368133418409' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/5481325368133418409'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/5481325368133418409'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/02/valentinianas-2.html' title='Valentinianas (2)'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-4129324557036875360</id><published>2008-02-14T03:19:00.003-02:00</published><updated>2008-12-11T17:00:47.432-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='valentinana'/><title type='text'>Valentinianas (1)</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7VGE9pTztI/AAAAAAAAABk/KJTm4eTMDd4/s1600-h/ValentPeq.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7VGE9pTztI/AAAAAAAAABk/KJTm4eTMDd4/s320/ValentPeq.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5167113198558760658" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(153, 40, 76);"&gt;Seu Valentim, ao ver um filme que mostrava o vôo do 14 BIS:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(153, 40, 76);"&gt;– A grande glória do Santos Dumont não foi ter inventado o avião. Foi ter inventado um avião que voava para trás.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(153, 40, 76);"&gt;• Celso Paraguaçu •&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-4129324557036875360?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/4129324557036875360/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=4129324557036875360' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/4129324557036875360'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/4129324557036875360'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/02/valentinianas-1.html' title='Valentinianas (1)'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7VGE9pTztI/AAAAAAAAABk/KJTm4eTMDd4/s72-c/ValentPeq.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-4629792830096885972</id><published>2008-02-14T01:50:00.009-02:00</published><updated>2008-12-11T17:00:47.756-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Stanislaw Ponte Preta'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='inclusão'/><title type='text'>Abaixo a inclusão digital</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7U6CdpTzrI/AAAAAAAAABU/jmNmCqwtZ6I/s1600-h/dedo-paris.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7U6CdpTzrI/AAAAAAAAABU/jmNmCqwtZ6I/s320/dedo-paris.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5167099961469554354" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(153, 40, 76);"&gt;De vez em quando surge uma expressão que toma conta do falar das pessoas. A freguesa deve se lembrar do “a nível de”, não? Todo mundo falava “a nível de”. E isso não queria dizer nada, só dificultava a construção das frases. “Tá com fome, cara?” e o outro: “É, a nível de comida, estou sim.” Nos últimos anos surgiu a moda de dizer “com certeza”. Usa-se como uma vírgula colocada após o ponto final. Também substitui as reticências. É muito útil para quem não tem o que dizer, mas tá doido de vontade de falar. Felizmente já está perdendo força. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(153, 40, 76);"&gt;É difícil saber como começam essas modas, mas é preciso estar atento para evitar as besteiras. A inclusão digital é um bom exemplo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(153, 40, 76);"&gt;Essa dá até para desconfiar de onde veio. Todo mundo andava falando em inclusão social e alguém teve a brilhante percepção de que se o carinha não tivesse acesso à internet não conseguiria se inserir na sociedade. Mas alguém teve a infeliz idéia de batizar isso de inclusão digital, para ficar parecido com inclusão social. E pegou. Os governos, nas três esferas, adotaram o discurso da necessidade da inclusão digital. &lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(153, 40, 76);"&gt;E na maioria dos casos, limitaram-se ao discurso. &lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(153, 40, 76);"&gt;A Igreja reconheceu a importância da inclusão digital. Criaram-se até ONGs para promover a inclusão digital. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(153, 40, 76);"&gt;E alguém pensou no que é exatamente a inclusão digital? Não. Ficam repetindo uma besteira que alguém inventou, papagaiando. É só pensar um pouco. Inclusão todo mundo sabe o que é: pega-se alguma coisa que está do lado de fora e coloca-se dentro. Inclusão é pôr alguma coisa no meio de outras. E digital é relativo a dedo. O carimbo do polegar chama-se impressão digital, ou seja, a marca que o dedo imprime. Portanto, inclusão digital significa colocar o dedo dentro, ou no meio. Ui!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(153, 40, 76);"&gt;Tem quem goste. Mas não é todo mundo. Confesso que eu ficava meio assustado quando via pessoas do governo, da igreja e das ONGs falando em colocar o dedo dentro. E tinha uns caras com cada dedão! Tou fora! Comigo não! Não se pode sair por aí enfiando o dedo indiscriminadamente! Essas coisas não se fazem por lei, nem no atacado. Tem de conhecer o público-alvo, saber quem gosta e quem não gosta. E não basta gostar, tem de querer. É uma coisa pessoal, muito particular, e varia conforme o momento. Tem de pintar um clima. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(153, 40, 76);"&gt;Desconfio que as entidades que defendiam a inclusão digital assumiam-se como incluidoras. Se alguém chegasse com o dedinho querendo enfiá-lo no governo, ou na ONG ou na igreja, será que os donos das instituições deixariam? Inclusão digital nos outros é refresco. Eu nunca vi numa favela uma faixa com os dizeres “inclua seu dígito aqui”. Nem naqueles classificados de desclassificadas dos jornais tinha disso. Ou alguém leu algo como: “AAA Sheyylla loira espetacular universitária completa. At. motel/resid. Aceita inclusão digital”? &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(153, 40, 76);"&gt;A coisa não funcionou, ninguém mais fala nisso. Felizmente. Era só discurso, como quase tudo que é bom. Mas penso que inclusão digital não era muito bom. Todo mundo queria enfiar o dedo, mas não tinha em quê. Ou em quem. O sábio Stanislaw Ponte Preta, também conhecido como Sérgio Porto, dizia, ainda na década de 1960: “Rabo e conselho só se deve dar a quem pede”. Esse é um conselho que ninguém pediu, mas é bom. A inclusão digital também devia ser tratada assim. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(153, 40, 76);"&gt;• Celso Paraguaçu •&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-4629792830096885972?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/4629792830096885972'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/4629792830096885972'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/02/abaixo-incluso-digital.html' title='Abaixo a inclusão digital'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7U6CdpTzrI/AAAAAAAAABU/jmNmCqwtZ6I/s72-c/dedo-paris.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-1429587571770937580</id><published>2008-02-13T07:21:00.016-02:00</published><updated>2008-12-11T17:00:47.857-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='kamaboko'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='shiitake'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Celso Paraguaçu'/><title type='text'>Um homem comum. Mijão, porém comum</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7aF8tpTzyI/AAAAAAAAACU/KuoDF3a28B0/s1600-h/bintch-tores.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7aF8tpTzyI/AAAAAAAAACU/KuoDF3a28B0/s320/bintch-tores.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5167464900545728290" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Kazumi era um homem comum. Nascido no Japão, mas morando no Brasil havia vários anos. Em São Paulo, no bairro da Liberdade. Os pais, velhinhos, moravam com ele, na casa que ficava no fundo do modesto botequim, seu meio de vida. Como filho mais velho, coube a ele cuidar dos pais, quando envelheceram. Dos pais e do botequim. Assim era a tradição. Os dois irmãos mais novos, que puderam estudar, permaneceram no Japão, casaram-se, formaram famílias. Ele não. Tinha só os pais, velhinhos, e o botequim. De resto, era um homem comum.&lt;/span&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Kazumi falava um português nipônico com sotaque muito carregado. Afinal, só precisava do português para conversar com os fornecedores de bebidas e cigarros. Com a freguesia podia falar em japonês mesmo. Podia, não; era obrigado, pois falavam em japonês com ele. Tinha dificuldade para pronunciar o som da letra L – dizia “ére” – e tinha grande dificuldade com as consoantes frouxas, que não eram seguidas por vogais. Por isso a cerveja Antártica, no bar do Kazumi, chamava-se Tátchica. Ele também tinha Borama e Kaisa, e a mais vendida, a Sikoru. A cerveja gelada era a companheira ideal do camarãozinho na bosta, frito inteiro, com patas, casca e cabeça, apenas passado no creme de fazer tempurá. Os fregueses, praticamente todos descendentes de japoneses, gostavam do camarão frito de Kazumi. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Afora o sotaque, Kazumi era um homem comum, de seus quarenta e tantos anos, dono de um modesto botequim comum. Por isso estranhou quando aquele trio de brasileiros – pelo menos pareciam brasileiros – sentou-se na única mesa do bar. A maioria dos fregueses, conhecidos de muitos anos, preferia ficar no balcão para trocar um dedo de prosa. Em japonês.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Os caras chegaram mais ou menos à uma hora da tarde, e queriam saber o que tinha para o almoço. Ora, o que tinha para o almoço! Era claro que não eram fregueses, pois estes nunca perguntavam o que havia, já que a comida era feita na hora. Tinham de dizer o que queriam.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Tá vendo a diferença, Rodrigues? – Disse o de barba. – Eles fazem a comida na hora que você pede, não é nada requentado, não é “self service ao perdigoto”. É comida feita na hora.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Também! Não precisam cozinhar! Eles comem o peixe cru!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Mas você não precisa pedir peixe cru, que eu também não gosto muito. Tem o sushi...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Sushi non faz – atalhou rapidamente o Kazumi. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Ah, mas tem yakisoba, que parece macarronada com vegetais, tem o tempurá, que é uma delícia, tem peixe frito, aquele arroz grudadinho, os mais diversos vegetais com tempero adocicado, gergelim e vinagre de arroz, uma delícia. Não tem nada a ver com esses restaurantes japoneses modernos. Aqui é comida japonesa do dia-a-dia. Os restaurantes japoneses modernos têm como maior atrativo o sushiman, que faz o sushi na hora, na sua frente, mas...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Sushi non faz – repetiu Kazumi preocupado.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Se os fregueses insistissem no sushi, ele teria de ir buscar nalgum vizinho as algas pretas que servem para enrolar a massa de arroz. E Kazumi não se considerava um bom sushiman. Bons nessa tarefa são os cearenses, como se pode observar em muitos restaurantes japoneses de São Paulo. – Sushi non faz – insistiu ele mais uma vez, com aspecto sério.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Tudo bem, nós não queremos sushi. Acho que vou querer um yakisoba com shiitake e uma boa porção de tempurá. Tem camarão?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Craro! Camarô bom! Camarô tempurá! Bom! – Disse feliz o Kazumi, que finalmente poderia oferecer ao freguês sua especialidade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– E peixe frito, tem? – Perguntou o Rodrigues.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Peixe furito tem. Non tempurá. Só assim furito.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Rodrigues não entendeu direito, mas pediu assim mesmo, com uma porção de arroz. Aí o César, o terceiro elemento, abriu pela primeira vez a boca para exibir toda sua sabedoria:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Ô Carlinhos, você que conhece o homem, pede logo para ele trazer um pouquinho de cada comida e a gente vai experimentando.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Eu não conheço não. Só vim aqui uma vez. Mas a comida é decente. E a cerveja é bem gelada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;A sabedoria cesária prevaleceu e Carlinhos tratou de explicar ao Kazumi o que a moçada queria. Kazumi pareceu feliz com o pedido. Muitos pratos que ele sabia preparar nunca eram pedidos. Agora teria oportunidade de exibir seus dotes culinários, apresentando a cozinha japonesa para uns brasileiros meio estranhos, mas que pareciam ser gente boa. Já na cozinha, que consistia em um balcãozinho e um grande tacho em formato de calota de Fusca antigo na outra ponta do balcão, Kazumi estica o pescoço e fala para os fregueses: – Sushi non faz. – Só para ter certeza.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Tá bem, sushi non faz. Traz uns saquês para a gente de aperitivo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– O meu, quente, faz favor – pediu Rodrigues.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Ué! Você conhece saquê?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Ah, meu caro, você não conhece meu passado. Já nadei de braçadas nessa cultura oriental. Tive até uma namoradinha japonesa!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– E ela bebia muito saquê?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Não, não bebia nada. Mas era quente...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Kazumi ficou feliz ao ouvir as risadas. A piada ele não ouviu, mas freguês que ri na mesa é bom sinal, bebe bastante cerveja. A tarde prometia. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Tirando a Galvão Bueno e umas outras poucas ruas com mais comércio, a Liberdade era um bairro calmo. Nas tardes de calor Kazumi freqüentemente cochilava no balcão, esperando algum freguês que viesse comprar cigarros. Pouca gente passava na rua. Carros, sim, mas pessoas a pé, que pudessem pelo menos cumprimentá-lo, abaixando a cabeça e dando um sorriso, mesmo sem entrar no botequim, eram raras. Aquela tarde decerto seria mais animada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Kazumi escolheu os copinhos mais bonitos para os saquês. Dois redondinhos de porcelana para os gelados e um quadrado, laqueado, para o morno. Gostou de ver quando Rodrigues insistiu para que os companheiros experimentassem o saquê morno no seu próprio copo. E todos riram da dificuldade que César teve para abordar um copo quadrado com uma bebida desconhecida que ele imaginava estar muito quente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Vai no cantinho – disse Carlinhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Ah-ah-ah, no cantchinho – riu Kazumi. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Não é assim? – perguntou Carlinhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Hai! No cantchinho! Hai!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;É, a tarde prometia. Os brasileiros eram simpáticos, alegres. Iam beber muita cerveja, rir muito e Kazumi ia se divertir. Ou talvez não. Talvez ficassem no saquê como aperitivo, almoçassem e depois tomassem um chá na hora de ir embora. Ah, não! Kazumi ia usar de toda sua ciência para segurar os fregueses um bom pedaço da tarde. Precisavam beber cerveja. Afinal, a cerveja era o  que dava mais lucro no botequim. A comida era barata e o ganho era pequeno. E desde que a Abadia foi-se embora, o movimento andava fraco. Era bom ter uma companhia alegre para a tarde, mesmo que fosse a de desconhecidos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Rapidamente pegou um fogareirinho de mesa, que não usava desde muito tempo atrás, botou uma panelinha com água já quente sobre o fogo e levou aceso, com a garrafa de saquê morno em banho-maria. E pegou mais dois copinhos laqueados quadrados, daqueles que fizeram sucesso. Os caras gostaram. Voltou para a cozinha e rapidamente fritou um punhado de cogumelos shiitake na manteiga. Eram um ótimo tira-gosto. Deu certo. Antes mesmo que começasse a levar mais comida para a mesa a garrafinha de saquê esvaziou. Mais uma garrafinha, agora acompanhada de pedacinhos de peixe frito. Costumam chamar isso de isca de peixe, mas Kazumi sabia muito bem que isca de peixe era minhoca, porque aos domingos ele ia se divertir num pesque-pague da periferia. E ele jamais serviria minhocas para os fregueses. A menos que insistissem. Tempurá de minhoca. Kazumi riu de suas idéias atrapalhadas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;A segunda garrafa de saquê morno reforçou o calor que fazia naquela tarde, por isso não esvaziou. Mas os pedaços de peixe frito sumiram rapidamente. Assim que levou o primeiro prato –  gamelinhas de missoshiru, a gostosa sopinha de massa de soja com pedacinhos de tofu, mais uns mariscos que Kazumi achava essenciais, e cebolinha verde picada por cima – Kazumi percebeu que o consumo de saquê havia caído. “É a hora!”, pensou, e ofereceu:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Tátchica, Borama, Kaisa, Sikoru?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Silêncio. Os três fregueses ficaram paralisados, com os palitinhos no ar. Mas durou pouco o susto. Carlinhos rapidamente compreendeu:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– E aí, vamos tomar uma cerveja? Qual está mais gelada?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Tudo djerado. Bom djerado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Que marcas você tem? – perguntou maliciosamente César, só para ouvir novamente a frase misteriosa. Rapidamente Kazumi recitou seu mantra:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Tátchica, Borama, Kaisa, Sikoru – desta vez sem interrogação.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;As três primeiras, tudo bem, mas a Sikoru pareceu a César ser uma marca estranha, provavelmente japonesa. E ele achava que precisava conhecê-la.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Essa última aí. Eu quero dessa última.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Sikoru, hai.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– É. – confirmou César. – Sikoru Hai.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Ué, você bebe Skol? – estranhou Rodrigues, que achava que se podia conhecer o caráter de uma pessoa pelo que ela bebia. E César tinha todo o jeito de quem bebia Brahma.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Não, eu pedi essa Sikoru Hai.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– É Skol!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Não, deve ser alguma marca japonesa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– É Skol, cara. Sikoru, em japonês!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Sikoru, hai. – assegurou Kazumi, que aguardava a decisão dos fregueses.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;César, ainda em dúvida, perguntou diretamente a Kazumi:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Essa Sikoru Hai é a Skol?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Hai! Sikoru, hai! Redôôôôônido! – respondeu Kazumi sorridente, enquanto fazia um giro com o indicador.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Novas gargalhadas, vai Skol mesmo, quem sabe agora está boa, se estiver gelada é boa, gelada em cima da mesa até minha sogra é boa, mais risadas... Agora a coisa estava indo bem. Hora de levar a cerveja e o yakisoba, que todo mundo gostou. A manteiga da fritura do shiitake estava ainda no fundo da enorme calota de fusquinha antigo, de modo que deu um saborzinho todo especial aos legumes coloridos que cobriam fartamente o macarrão. Kazumi estava feliz. Os fregueses estavam gostando da comida e da bebida. Do serviço, ele nem se lembrava, porque isso era obrigação. Mas gostava de ouvir um elogio à comida, o que era muito raro, desde o tempo da Abadia. Ela gostava muito da comida que Kazumi fazia. Comia bastante.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Maria da Abadia era uma goiana de seus vinte e poucos anos que Kazumi contratara como garçonete alguns anos antes. Não era nenhum espetáculo de mulher, embora não fosse feia, mas tinha certos atributos que faziam muito sucesso entre os moradores da Liberdade, sobretudo os mais velhos. Sorridente, educada e calada, vestia-se com simplicidade e discrição. Seu uniforme era um vestido cinza claro, reto, abotoado na frente, e comprido até a altura dos joelhos. Parecia um guarda-pó. Por cima do vestido, um avental branco. E era aí que morava o perigo. As tiras do avental, quando amarradas, faziam com que o vestido modelasse o corpo de Abadia e revelasse a diferença de potencial entre a fina cintura da moça e seus portentosos quadris. Quem conhece eletricidade sabe que diferença de potencial é o mesmo que voltagem, tensão. Alta voltagem, no caso. Alta tensão. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Os velhinhos, que eram maior parte da freguesia, ficavam no balcão tagarelando em japonês e calavam assim que a moça se dirigia para a “cozinha” para buscar uma cerveja no balcão refrigerado que ficava no fundo do botequim. Eram uns dez passos, se tanto, mas muito bem pisados, modulados pelas nádegas da moça, que deslizavam por debaixo do vestido. Os velhinhos paravam de beber, paravam de falar, paravam de rir e alguns até de respirar, com medo que a mais tênue brisa pudesse romper o encanto da cena.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Badjia! Sikoru!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;E lá ia ela buscar a cerveja, para o deleite de todos os olhos apaixonados pelos encantos de Abadia. O movimento das cadeiras de Abadia fazia crescer o movimento do botequim. Os velhinhos não tinham nada para fazer e vinham todos ver Abadia andar. Só andar, nada mais. Ficavam todos sorridentes quando ela andava; não diziam palavra, e davam mais uma bicadinha na cerveja. Blim-blim na caixa registradora, tum-tum-tum afobado no peito de Kazumi. É Kazumi também era apaixonado pela Abadia. Paixão, amor, tesão, sabe-se lá. Ele nunca soube ao certo. Nem ela. Mas que se casaria com ela, se pudesse, casaria. Ele era solteiro, aliás, muito solteiro, solteiríssimo, no mesmo estado que nasceu. E olha que já tinha nascido havia mais de quarenta anos. Casaria com ela, sim, se tivesse tido tempo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Ela morava na casa, com ele e os pais, mas tinha seu próprio quartinho com banheiro. Kazumi jamais teve qualquer intimidade com Abadia. Nunca a espiou pelo buraco da fechadura. Nem lhe dirigiu qualquer palavra mais atrevida. Nem conversou com ela sobre coisas que não dissessem respeito ao botequim. Apenas ria vaidoso quando ela dizia que ele cozinhava bem. Ele cozinharia para ela o resto da vida, se tivesse tido tempo. Mas não teve. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Um dia apareceu por lá um sujeito vindo de Minas Gerais, Abadia ficou toda agitada, saiu detrás do balcão e abraçou o sujeito como se fossem velhos conhecidos. E eram. Conversaram por quase uma hora na calçada – e a venda de cerveja caiu tremendamente naquela tarde, pois todos os fregueses estavam olhando para a calçada. Se não tinha Abadia andando atrás do balcão, ninguém pedia cerveja. O andar de Kazumi não era a mesma coisa. No dia seguinte, logo cedo, Abadia arrumou a malinha e foi-se embora com o sujeito.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Não era hora de ficar triste lembrando da Abadia. Os fregueses já estavam terminando o yakisoba e estava na hora de levar o arroz. Uma panelona elétrica, que foi plugada numa tomada da parede, e três tigelinhas. E em seguida os peixes, estalando em cima das chapas quentes, cobertos de legumes. E tome Sikoru djerado. Bom djerado!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Enquanto os caras comiam, bebiam e riam, Kazumi continuava na cozinha preparando outras comidinhas. Trouxe uns rolinhos de acelga semi-cozida recheada com pedacinhos de kamaboko frito. O kamaboko, uma espécie de salsicha de peixe, fez grande sucesso, então kazumi os serviu em fatias, salpicados com sementes de gergelim torradas e shoyu. Mais Sikoru.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;A certa altura da festa, um dos brasileiros chama o Kazumi, pergunta seu nome e começa a conversar. Poucos minutos mais tarde já havia quatro companheiros na mesa bebendo cerveja. Kazumi nunca tinha feito uma farra daquelas. E tome cerveja. Sikoru. Aí o Rodrigues começou a contar de sua experiência no seio da colônia japonesa. No seio, nas coxas, na cinturinha, uma delícia de experiência. Kazumi ouvia comovido, porque o Rodrigues, já tocado pelo álcool, falava como se a ex-namoradinha fosse a jóia mais preciosa que ele já tivera nas mãos e deixara escorregar por entre os dedos. Coisa de bêbado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Como costuma acontecer entre amigos tocados pelo álcool, as emoções de um suscitam as lembranças dos demais. E tome cerveja. Enquanto César contava uma de suas desventuras amorosas, Kazumi levantou-se para fritar camarõezinhos passados no creme de tempurá. E os trouxe para a mesa, com mais Sikoru, exatamente quando César cai no choro. Era a vez de Carlinhos, que também tinha perdido um grande amor. Todos perderam um desses. E quem não perdeu, com umas tantas cervejas na cabeça, inventa na hora um grande amor perdido. Alguns até fazem músicas sertanejas. Sobretudo porque os interlocutores também estão mamados, não estão atentos a detalhes. E tome Sikoru. Kazumi também já estava ficando alto e então contou a história de Abadia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;O chorão César, debruçado sobre a mesa, levantou a cabeça assim que Kazumi começou a falar. Foi ele o que mais se envolveu com a história. Mas foi Rodrigues quem arriscou uma pergunta tendendo para a sacanagem: “mas não rolavam nem uns beijinhos?” Kazumi nem respondeu. Continuou a história deixando claro que sempre teve o máximo respeito pela moça. Quando chegou no fim, a malinha pronta logo de manhã e o cara de Minas vindo buscá-la, foi um choro só. A cena doeu. Choravam os quatro. E tome Sikoru.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Anoiteceu, Kazumi baixou a porta do botequim, e voltou para a mesa onde estavam seus agora amigos. E tome Sikoru. Quando começava a sentir um pouco de tontura, Kazumi se levantava, fritava mais uns camarõezinhos e voltava para a mesa, com mais duas garrafas. A conversa tinha voltado a ser alegre, contaram-se piadas, explicaram todas a Kazumi, riram muito e tomaram mais cervejas. Foi Rodrigues, e não Kazumi, quem se levantou para colocar mais garrafas na geladeira. E mais tarde Kazumi deu sua receita secreta do creme para tempurá enquanto ensinava Carlinhos a fritar camarões. César estava no banheiro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Altas horas, ninguém sabe quantas, um dos quatro resolve que precisam ir embora. Pedem a conta, mas Kazumi não faz a menor idéia de quanto seria. Carlinhos resolve contar as garrafas de cerveja. Enquanto estiveram lá, desde a hora do almoço, Kazumi não chegou a vender uma dúzia de cervejas para outros fregueses, então a turma resolveu assumir que todas as garrafas vazias foram bebidas por eles. Pagaram inclusive o que Kazumi bebeu. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Comida non! – Exclamou Kazumi. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;A comida era por conta dele. Valeu o prazer de eles terem gostado. Saíram os quatro, Kazumi fechou por fora a porta do botequim e foram procurar um táxi, Kazumi com eles. Pegaram o caminho errado e, quando perceberam já estavam no viaduto, em cima da 23 de Maio. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Vou dar uma mijada – disse Carlinhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Aqui? – perguntou assustado o Rodrigues.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– A esta hora, que é que tem?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– É, acho que tudo bem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Quatro marmanjos bêbados, em plena madrugada, mijando do alto do viaduto Jaceguai nas pistas da 23 de Maio. Kazumi, que nunca fez coisas erradas na vida, ria a ponto de estourar enquanto urinava nos carros que passavam na avenida lá em baixo. Mijava-se de rir e ria de se mijar. Nunca, em seus mais de quarenta anos de idade, tivera uma alegria tão intensa. Nem uma festa tão intensa. Nem sentimentos tão intensos. Nem uma bebedeira tão intensa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;No outro dia havia quatro cabeças estourando de dor. E muita sede. Foi Rodrigues quem, no fim da tarde, ligou para o Carlinhos. Eles achavam que deviam dar uma passadinha no botequim do Kazumi para ver se o amigo estava bem. Parecia claro para eles que o sujeito não estava muito acostumado com a bebida. Além disso, logo depois da mijada homérica, pegaram um táxi e deixaram Kazumi lá, tendo de voltar para casa sozinho. Convocaram César e foram os três até o botequim na Liberdade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Encontraram a porta fechada e alguns velhos moradores do bairro na calçada conversando – em japonês. Céus! O pensamento que passou pela cabeça dos três foi o mesmo: “Matamos o Kazumi.” A primeira idéia de Carlinhos foi de irem embora e voltarem num outro dia, depois de passada a comoção, para se inteirarem de como foi o ocorrido. Mas Rodrigues disse que isso seria uma covardia. Se eles foram os responsáveis, tinham de assumir sua culpa. Desceram do carro e chegaram, devagar, perto de dois velhinhos que conversavam baixinho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Boa tarde – iniciou Rodrigues. – O Kazumi... ?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Hodje non ábore baru. – respondeu um tanto secamente um dos anciãos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Mas o que aconteceu com o Kazumi? – foi mais direto o Carlinhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Kazumi non tá. Baru non ábore hodje.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Não tá? Então onde ele está?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Kazumi pureso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Preso? Na delegacia?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– É. Deregacia. Pureso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Os semblantes dos três amigos se iluminaram. Kazumi não estava morto, estava apenas preso! Iriam agora mesmo à delegacia saber o que houve. Ele não estava morto! Iam conversar com o delegado. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Peraí, e se for algum lance de contrabando ou de drogas? A gente aparece lá perguntando pelo Kazumi e vira suspeito. Podemos até ficar presos!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Pô, Carlinhos, – interveio César – você acha que o Kazumi pode estar metido em algum rolo desse tipo? O Kazumi? Se ele nem olhou pelo buraco da fechadura para ver a Abadia trocando de roupa, ia se meter com o crime organizado?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Mas ele é bem organizado; você viu que mesmo bêbado ele fritava os camarões direitinho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Você também fritou quando estava borrachão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– É, mas sob a supervisão dele.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Pára, gente! – interrompeu Rodrigues. – O cara frita camarão desde que nasceu, isso não tem nada a ver. Precisamos ver o que aconteceu com ele, saber por que ele está preso. Claro que não é tráfico. Mesmo contrabando, se for é coisa pequena. A polícia só quer saber quem são os grandões, peixe miúdo não interessa. – E os três se lembraram do peixinho frito, logo no começo da farra.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Mais uma vez, foi César quem trouxe a idéia. Um deles iria conversar com o delegado para saber o que houve. Se não ligasse para os demais até duas horas mais tarde, os outros iriam atrás do primo do César, que era advogado, para preparar um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;habeas corpus&lt;/span&gt; ou qualquer coisa que servisse para tirar alguém da cadeia. Só faltava decidir quem ia ser o herói. O próprio César se ofereceu. Ele iria, de bom gosto. Afinal, o advogado era primo dele. Sua única dificuldade é que se o delegado também fosse japonês ele poderia não entender qual era o problema. Carlinhos e Rodrigues assumiram a tarefa ao mesmo tempo. E combinação mudou. Iriam os dois e se nenhum deles telefonasse para César, este deveria ir à delegacia já munido de advogado e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;habeas&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;corpus &lt;/span&gt;para todo mundo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;O esquema armado era bom, mas não foi necessário. Quando chegaram à saleta do delegado, os dois já viram Kazumi sentado no banco, de cabeça baixa, como quem havia levado uma bela carraspana. O delegado explicou que os policiais da patrulha o prenderam por atentado ao pudor, urinando na 23 de maio de cima do viaduto Jaceguay. Segundo o boletim de ocorrência, ele urinava “em leque” e fazia “tatatatatatá”, como se fosse uma metralhadora.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Já a caminho do botequim, Rodrigues dirigia, Kazumi ia calado – envergonhado, talvez – e Carlinhos explicava a César, pelo celular, que o japonês fora preso por terrorismo, pois estava metralhando carros na 23 de maio, de cima do viaduto. Enquanto Kazumi não chegava, César tentava explicar aos vizinhos que o cara estava bem e já estava chegando, mas parece que ninguém entendeu, ou não deu muita atenção. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Logo, porém, o carro parou na calçada e descem os dois amigos e Kazumi. Palmas, vivas, banzais, Rodrigues e Carlinhos viraram heróis. Parece que Kazumi era muito querido na vizinhança. Fizeram-no abrir o botequim para oferecer cerveja aos heróis. Mas eles já tinham bebido tudo que podiam para os próximos três meses. E o bar estava uma lástima, com comidas, pratinhos, pauzinhos, tigelinhas, panela, fogareiro e garrafas em cima da única mesa desde a véspera. O arroz, na panela elétrica, estava azedo, mas conservava-se aquecido. Boa panela. Um cheiro de fritura e cerveja azeda tornava difícil &lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;a &lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;respiração. Era melhor ir embora logo. Despediram-se de Kazumi, certificando-se de que ele estava bem, que não tinha apanhado nem sofrido algum tipo de violência física. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Vem outro djia! – convidou Kazumi – Comida non paga, só Sikoru.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Tá bem, a gente volta sim. Tudo de bom.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;Já no carro, César, no banco de trás, começa a rir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– Tava pensando no Kazumi na cadeia, 'tadinho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– E acha engraçado? – repreendeu Rodrigues.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 128);"&gt;– É, imagina a cena. Ele ali, no chiqueirinho, com uns tantos meliantes e facínoras. Aí um sujeito do lado dele, sem camisa, todo cheio de tatuagens de caveiras com punhais cravados, pergunta, estranhando a figurinha do Kazumi: “qual é tua bronca, ô japonês?” E o Kazumi: “Buronca? Que buronca?” “É, meu, que tu fez pra estar aqui?” “Ahhhh! Midjón! Deu midjón na Bintch-torês.”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"&gt;&lt;br /&gt;• Celso Paraguaçu •&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-1429587571770937580?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://meia-sola.blogspot.com/feeds/1429587571770937580/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=529957312244945987&amp;postID=1429587571770937580' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/1429587571770937580'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/1429587571770937580'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/02/um-homem-comum.html' title='Um homem comum. Mijão, porém comum'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7aF8tpTzyI/AAAAAAAAACU/KuoDF3a28B0/s72-c/bintch-tores.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-1883131475277818042</id><published>2008-02-11T05:46:00.005-02:00</published><updated>2008-12-11T17:00:48.098-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='mula sem cabeça'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='abantesma'/><title type='text'>Pela preservação do muar acéfalo</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7VA2dpTzsI/AAAAAAAAABc/T0rfo6mQcgs/s1600-h/Mulinha.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7VA2dpTzsI/AAAAAAAAABc/T0rfo6mQcgs/s320/Mulinha.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5167107451892518594" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Todo mundo sabe que os vampiros podem morrer de ataque do coração. Basta atacar o coração do bicho com uma estaca de madeira e ele fica lá esticadinho, murchando até virar pó. Câncer de pele também tem um efeito fulminante sobre a dentuça criatura das trevas. Exponha-o à luz do dia – sobretudo nestes tempos de buraco arregaçado na camada de ozônio – e o sanguessuga falece na hora, deixando só a capa no chão. Água corrente também serve. E nem precisa ser a água contaminada que ainda serve a grande parte da população brasileira. Nem essa do garrafão azulado que as pessoas chamam de mineral. Os pálidos seres da noite morrem até com um banho de água tratada. Devem ter aversão ao cloro. &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;Já os lobisomens morrem quando recebem um tiro com uma bala de prata. Há controvérsias sobre o efeito de uma bala de chumbo banhada a prata, mas a de prata 90, sólida, funciona bem. Não se recomenda comprar balas no camelô para matar lobisomens, pois a maioria delas é falsificada. As balas de prata feitas na China, onde não há lobisomens, não são de prata mesmo. São feitas de uma liga metálica, parece que se chama Zamac, que imita a prata, mas prata não é. É mais ou menos como aquela coisa que tem orelhas de porco, pés de porco, rabo de porco, costelas de porco, mas não é porco, é feijoada.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;Como eu sei que na China não tem lobisomens? Ora, no tempo em que era um país comunista, foi proibido ter cachorros. Quer dizer, quase tudo foi proibido, mas a lei anti-cachorro tinha uma boa justificativa. A comida era pouca para se dividir com a cachorrada. Tanto que os cachorros viraram comida. Os lobisomens, no passado, se transformavam em lobos. Mais recentemente, porém, têm virado cachorros mesmo, pois os lobos estão cada vez mais raros. Cachorros grandes, como pastor alemão, akita, etc., mas são cachorros. Se havia algum lobisomem na China, na hora que virou cachorro foi parar numa tigelinha, em pedacinhos fritos no óleo de palma. E foi comido com palitinhos. Assim não há assombração que agüente.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;Mas voltemos ao tema deste texto, o muar acéfalo. Quem é que sabe como se mata uma mula-sem-cabeça? Ninguém. A mula-sem-cabeça não tem mais espaço no imaginário brasileiro. Os vampiros não são daqui, nem os lobisomens. Mas deles sabe-se tanto, que até a forma de destruí-los é conhecida. A colonização cultural é a culpada disso. Desde que inventaram o cinema comercial se fazem filmes sobre o Drácula. A mula-sem-cabeça, coitadinha, nem nome tem. E francamente não me parece que alguém iria ao cinema para ver um filme de mula-sem-cabeça. A menos que fosse estrelado pela Juliana Paes. Com a bunda que ela tem, a existência ou não da cabeça seria indiferente. Mas era bem possível que o filme se tornasse conhecido como “A bunda sem cabeça”.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;Pois é, freguesa. Ninguém sabe como se mata uma mula-sem-cabeça nem o que ela faz, além de soltar fogo pelas ventas. No caso do muar acéfalo, as ventas não são exatamente as narinas. O bicho não tem a cabeça, mas o pescoço está lá. Ela solta fogo pelo ôco do pescoço, como se fosse o cano de um canhão. As ventas, no caso, são a garganta. E possivelmente as chamas não passam de uma  azia das brabas. Ninguém jamais foi queimado pelas chamas muares. De resto, ela fica por ali, perto dos cemitérios construídos atrás das igrejas, pronta para assustar os passantes em noites escuras, com suas labaredas.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;Se a freguesa não se incomoda, penso que seria conveniente cavoucar as origens da crendice. Comecemos pela mula. Trata-se do resultado do cruzamento do jumento (&lt;i&gt;Equus asinus &lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;macho&lt;/span&gt;) com a égua (&lt;i&gt;Equus caballus &lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;fêmea&lt;/span&gt;). Como os pais são de espécies diferentes, o bicho é híbrido, não procria. Mas gosta de uma boa trepada. Quem conhece a vida na roça sabe que uma mula “viciada” é uma tremenda dor de cabeça para o roceiro. As éguas só aceitam as atenções dos cavalos quando estão no cio. Aliás, quando estão no cio até os jumentos são bem-vindos. E olha que além da inteligência limitada o bicho é baixinho, feio e tem orelhas e outras extremidades enormes. Já as mulas, se virem uma égua se reproduzindo, se encantam com a brincadeira e começam a se oferecer para os cavalos, sem necessidade de cio. E aí se tornam muito chatas. Ficam o tempo todo atrás da cavalada, se oferecendo, mexendo com eles, não os deixam trabalhar em paz.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;Os padres de antigamente conheciam bem esses hábitos muares. Quem tinha uma mula viciada precisava se livrar dela, para poder trabalhar com os cavalos. Se a vendesse, o comprador  devolveria. Matá-la, porém, era uma maldade. E a munição custava caro. Saía mais barato doar as mulas viciadas para os padres, que poderiam usá-las como meio de transporte. O roceiro se livrava da bicha e ainda fazia uma média com o padre.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;Conquanto não tenham sido encontrados registros dessa prática, supõe-se que alguns padrecos fossem bastante afeiçoados a suas mulas. Se hoje há muitos sujeitos apaixonados por seus carros, meras máquinas, duras e sem sentimentos, pode-se imaginar que a afeição fosse muito maior naquele tempo. Ao contrário dos carros de hoje, os animais retribuíam o afeto. A expressão “barranquear a mula” vem dessa época. O sentido era o de encostar a bicha num barranco, no qual o usuário subia para acertar a diferença de altura entre ele e o muar. Entre os leigos, o costume era comum. Ao que parece, as mulas até apreciavam a demonstração de carinho, ainda que fosse incomparavelmente menor que a dos cavalos e jumentos.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;Então já temos o padre e a mula viciada. Faltam ainda o bispo e a mulher que desafia a fidelidade do padre ao voto de castidade. O bispo sabia que mulheres assim existiam. Sua eminência era confessor de muitos padres que se diziam atormentados por beatas que os tentavam, seduziam, insistiam, tiravam-lhes a paz, como as mulas viciadas faziam com os cavalos. Sim, o bispo também sabia da existência de mulas viciadas e até de alguns deslizes, por assim dizer, de padrecos com mulinhas mais jeitosas. Bastava um generoso cálice do vinho da missa para ligar uma coisa com outra. O segundo cálice propiciou a invenção da crendice. O terceiro deu sono e Sua Eminência foi dormir. Mas acordou com a idéia pronta. E com dor de cabeça.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;Já que a Bíblia não falava em padres, era preciso criar uma história para desencorajar as mulheres que desafiavam a castidade da padralhada. A mulher que estivesse a fim de um padre não tinha cabeça, quer dizer, não tinha inteligência. O reverendo até podia levantar a batina, mas abandoná-la jamais.  Não se casaria com a dita-cuja para não perder o emprego. Ela não teria direito algum. Todos os bens que porventura o religioso abocanhasse pertenceriam à Igreja. Só uma mula viciada, sem cabeça, agiria assim. Taí! Mula-sem-cabeça!&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;Foi só espalhar que as mulheres que davam para os padres se transformariam, depois de mortas, em mulas-sem-cabeça para a história pegar. A coisa do fogo pelas ventas era só um recurso para deixar o bicho um pouco mais terrível. E a crendice parou aí. Não se inventou mais nada sobre a mula-sem-cabeça.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;O advento da luz elétrica e a pressão cultural estrangeira fizeram o resto. O mito quase desapareceu. Aliás, a iluminação elétrica deu cabo da maioria das assombrações. No passado, qualquer sombra que se mexesse e qualquer ruído cuja fonte não podia ser identificada cresciam de forma terrível no imaginário popular. Era literalmente o mundo das sombras. Mas a Light fincou postes, esticou fios, acendeu lâmpadas e assustou os abantesmas.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;A introdução ficou mais longa do que devia, mas se a freguesa leu até aqui é porque lhe agradou. Agora é que vem a exortação pelo resgate da mula-sem-cabeça. Não se pode deixar desaparecer mais essa manifestação cultural genuinamente brasileira. E não é preciso grande esforço para revivê-la. Se você tem uma irmã, uma tia ou uma sobrinha ainda aproveitável, apresente-a a um padre. Qualquer padre serve, não precisa ser estrela de TV. Basta procurar alguma igreja nas manhãs de domingo que sempre se acha um padre lá. Alguns deles já são bem velhinhos, mas ainda podem servir para esse propósito.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;É claro que muitos padres, talvez a maioria, não vão encarar a produção muar, mas é preciso arriscar. Se o padre ao qual se apresentou a dama não demonstrou interesse, apresente-se-lha a outro e mais outro, até que se alcance o propósito. Não há necessidade de ficar dando para o padre indefinidamente, basta uma vez. E a mulificação só ocorre depois da morte, portanto não há prejuízo algum.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;Se a freguesa se interessou pela proposta e está avaliando a possibilidade de levar a cabo a empreitada, convém que se apresse. Tem crescido, pelo menos nos Estados Unidos, o interesse dos padres por garotinhos. O Vaticano até separou uma verba para indenizações por ações desse tipo. Na América é assim: comeu tem que pagar. Se a moda pega, como bem lembrou o Rogério Furtado, só haverá burrinhos-sem-cabeça.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;• Celso Paraguaçu •&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-1883131475277818042?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/1883131475277818042'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/1883131475277818042'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/02/pela-preservao-do-muar-acfalo.html' title='Pela preservação do muar acéfalo'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_Pg7PY74UesE/R7VA2dpTzsI/AAAAAAAAABc/T0rfo6mQcgs/s72-c/Mulinha.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-3275955753095368591</id><published>2008-02-10T03:10:00.001-02:00</published><updated>2008-02-14T02:04:12.025-02:00</updated><title type='text'>Imprensa divertida</title><content type='html'>A leitura dos títulos das notícias nos sites da internet pode garantir boas risadas. A coleção abaixo foi extraída da BBC Brasil, porque o site tem um formato prático para a pesquisa, mas em qualquer outro noticiário “online” pode-se encontrar coisas parecidas. Seguem alguns comentários baseados puramente nos títulos. Olha aí, freguesa: &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;“&lt;b&gt;Cientista cria peixe transparente para ser 'laboratório vivo' ”&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;[BBC Brasil, 8 de fevereiro, 2008 - 20h33 GMT]&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Difícil é encontrar o animal no aquário.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;“&lt;b&gt;Trabalhar mais de 40 horas semanais faz mal à saúde, diz estudo”&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;[BBC Brasil, 6 de fevereiro, 2008 - 18h40 GMT ]&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Tão vendo? Eu falava que trabalhar faz mal!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;“&lt;b&gt;Salto alto pode melhorar vida sexual de mulheres, diz estudo”&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;[BBC Brasil, 5 de fevereiro, 2008 - 08h43 GMT ]&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mas pode causar ferimentos no parceiro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;“&lt;b&gt;Maioria dos brasileiros está satisfeita com chefe, diz pesquisa”&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;[BBC Brasil, 13 de novembro, 2007 - 10h50 GMT ]&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A pesquisa não diz, contudo, quem é o chefe dessa maioria.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;“&lt;b&gt;Brasil cai em ranking mundial de igualdade entre sexos”&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;[BBC Brasil, 8 de novembro, 2007 - 16h36 GMT ]&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ainda bem. Quanto mais diferente, melhor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;“&lt;b&gt;Países arrecadam 500 vezes mais do que gastam com fumo, diz OMS”&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;[BBC Brasil, 7 de fevereiro, 2008 - 16h26 GMT ]&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Os países devem estar fumando marcas mais baratas, por isso gastam menos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;“&lt;b&gt;Cientistas criam embrião com DNA de um pai e duas mães”&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;[BBC Brasil, 5 de fevereiro, 2008 - 21h30 GMT]&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Já a modalidade com dois pais e uma mãe é bastante popular.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;“&lt;b&gt;Pessoas saudáveis 'custam mais que obesas a serviços de saúde'&lt;/b&gt; ”&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;[BBC Brasil, 5 de fevereiro, 2008 - 11h05 GMT ]&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Por quilo de paciente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;“&lt;b&gt;Classe trabalhadora envelhece mais rápido, diz estudo”&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;[BBC Brasil, 20 de julho, 2006 - 15h28 GMT ]&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Claro, quem não trabalha não tem pressa para nada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;“&lt;b&gt;Holandeses lançam robô frentista”&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;[BBC Brasil, 7 de fevereiro, 2008 - 16h58 GMT ]&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A máquina tem um chip com a gravação: “Vamo pô um aditivo, chefia?”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;“&lt;b&gt;Técnica de tatuagem aumenta eficácia de vacinas, dizem cientistas”&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;[BBC Brasil, 7 de fevereiro, 2008 - 07h41 GMT ]&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Basta tatuar “sou vacinado”, que o vírus lê e vai procurar outra vítima.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;“&lt;b&gt;Celular não oferece risco de câncer no cérebro, diz estudo”&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;[BBC Brasil, 6 de fevereiro, 2008 - 11h45 GMT ]&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Em geral quem usa mais o celular tem menos cérebro para expor a risco.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;“&lt;b&gt;Mãe congela óvulo para que filha dê à luz irmão ou irmã”&lt;/b&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;[BBC Brasil, 3 de julho, 2007 - 12h57 GMT]&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Genro diz que só encara a sogra se estiver bêbado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;“&lt;b&gt;Proteínas reduzem nível de hormônio da fome, diz estudo”&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;[BBC Brasil, 21 de janeiro, 2008 - 08h34 GMT]&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Parece que há menos famintos nos países do Primeiro Mundo, nos quais se consome muita proteína.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;“&lt;b&gt;Escolas britânicas ensinarão culinária contra obesidade”&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;[ 22 de janeiro, 2008 - 09h10 GMT]&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Em vez de comer, os gordos vão só cozinhar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;“&lt;b&gt;Usar celular por mais de 10 anos 'eleva risco de câncer', diz estudo”&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;[BBC Brasil, 8 de outubro, 2007 - 11h41 GMT ]&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Então é por isso que os mocorongos trocam de celular todos os anos!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;• Celso Paraguaçu •&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-3275955753095368591?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/3275955753095368591'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/3275955753095368591'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/02/imprensa-divertida.html' title='Imprensa divertida'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-529957312244945987.post-4331969589288123187</id><published>2008-02-09T04:01:00.003-02:00</published><updated>2008-02-28T02:20:20.306-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='meia-sola'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Parágua'/><title type='text'>Lugar de meia-sola, antigamente, era no chão</title><content type='html'>&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;No passado as pessoas usavam sapatos. Sapatos eram peças parecidas com tênis, que serviam para proteger os pés. Em geral eram feitos de couro – os sapatos;  os pés eram feitos de calos, joanetes e unhas encravadas. Os sapatos tinham solas, também de couro, que se desgastavam e acabavam por furar. Justamente quando o calçado lasseava, ficava macio, maneirinho, a sola ganhava um furo. O recurso era levar a peça a um sapateiro ou remendão – outra hora eu explico o que era um sapateiro, senão a coisa não anda – para colocar meia-sola.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;O conceito de meia-sola estendeu-se para o aproveitamento de qualquer coisa que ainda tem boas condições de uso, mesmo que não esteja nova. E mais do que coisas, passou a aplicar-se a pessoas. O sujeito via uma mulher bonita, apesar de já entrada em anos – cada expressão! – e dizia: “a coroa ainda agüenta uma meia-sola”. Queria dizer que a referida senhora estava em boas condições de uso, que não precisava ser deixada às traças. O uso da locução ultrapassou a existência do fato que lhe deu origem. Quando a geração tênis ouviu tal comentário passou a imaginar que meia-sola fosse um eufemismo para trepada. O sentido era o mesmo de “a coroa ainda agüenta uma trepada”. Talvez a rapaziada não tenha refletido a respeito, mas o fato é que as coroas sempre agüentam uma trepada. Os coroas é que abrem o bico fácil, fácil.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;O nome deste blog não tem, porém, nenhuma conotação sexual. E ainda menos qualquer relação com o aproveitamento de algo que não seja novo. A única coisa que não é nova aqui é o autor, embora esteja em perfeitas condições de uso. O fato é que o sapato com meia-sola havia sido remendado – e o oficial era o remendão, tá entendendo a etimologia, freguesa? – mas continuava macio e quebrava um galho. Essa história de dizer que a coisa “quebra um galho” é mais antiga. Deve ser do tempo em que os antepassados do Darwin viviam em árvores, trocando goiabas e umbus com chimpanzés e gorilas. Mas isso não importa muito agora. O que importa é que sapato com meia-sola era muito mais gostoso. Talvez mais feio, um tanto desbeiçado, meio disforme, mas gostoso, confortável, aconchegante. Do jeito que imagino estas páginas. Talvez meio feias, um tanto desbeiçadas, meio disformes, mas gostosas, confortáveis e aconchegantes. Pretendo mantê-las engraxadas, mas não esperem muito brilho. É por aí.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;• Celso Paraguaçu •&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/529957312244945987-4331969589288123187?l=meia-sola.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/4331969589288123187'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/529957312244945987/posts/default/4331969589288123187'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://meia-sola.blogspot.com/2008/02/meia-sola-antigamente-era-no-cho.html' title='Lugar de meia-sola, antigamente, era no chão'/><author><name>Celso Paraguaçu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12746341020941825615</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry></feed>
